O GENERAL ASSIS BRASIL DEPÕE


General Assis Brasil, Segundo-Tenente, em foto de 1936

No ano de 1980, CRANGER CAVALHEIRO DE OLIVEIRA, amigo e admirador das posturas militares e políticas do general Assis Brasil, solicitou-lhe que apresentasse a sua visão de fatos históricos da vida política do Brasil, ocorridos a partir do início do século XX. Iniciava-se a abertura política comandada pelo último general presidente, JOÃO BAPTISTA DE OLIVEIRA FIGUEIREDO. Assis Brasil era profundo conhecedor das histórias universal e militar, tendo sido professor dessas matérias na Escola de Estado-Maior do Exército e no Colégio Militar do Paraguai. Os primeiros depoimentos programados foram tomados no ano de 1981, tendo Cranger a intenção de publicar um livro com as idéias expostas pelo general, que teria por título "O general Assis Brasil depõe".

Abaixo, transcreve-se a correspondência que Cranger enviou ao general Assis Brasil, constituída por uma carta pessoal acompanhada de transcrições dos depoimentos já dados. Mesmo estando o trabalho inacabado, devido ao falecimento do general em 1982, é interessante conhecer o relato e opinião de Assis Brasil sobre alguns fatos de nossa história.


A CARTA DE CRANGER AO GENERAL ASSIS BRASIL

Rio de Janeiro, 23 de julho de 1981.

Ao Excelentíssimo senhor
General Argemiro de Assis Brasil
Rua Guilherme Shell, 1073 - aptº 802
92000 Canoas-RS

Meu general,

Ainda mui penhorado a Vossa Excelência e à Dona Iná pelo carinho que tiveram em vir ao meu modesto lar, e possuído pelo resto da minha existência do orgulho de havê-los recebido, é que lhe escrevo.

O roteiro do depoimento obedece a uma ordem cronológica com relação aos fatos históricos da nacionalidade do conhecimento de Vossa Excelência.

Após seu término, aí Vossa Excelência manifestar-se-á a respeito de quantos assuntos queira abordar. Eu vou sugerir muitos. Isto, evidentemente, se assim lhe aprouver.

O trabalho está em fase de elaboração. As páginas, pois, que estou enviando, são para serem revistas, podendo ser suprimidas, encurtadas ou estendidas.

Não se impressione com os erros datilográficos ou de linguagem, bem assim com as rasuras. Até a elaboração definitiva de seu depoimento, haveremos de reproduzi-lo, tantas vezes quantas necessário, para que ele se apresente à altura da sua cultura e da sua inteligência.

Mais uma vez, ficamos muito agradecidos com a sua vinda com Dona Iná à nossa casa. Adoramos! Foram momentos felizes.

Repitam logo que possam.

Afetuosamente,

Notas: Anexadas à carta acima, vieram os seguintes textos, publicados a seguir:

"Indispensáveis palavras", onde Cranger faz uma apresentação da vida, caráter e personalidade do entrevistado.

"O primeiro depoimento", apresenta a opinião do general Assis Brasil sobre fatos da história do Brasil do fim do Império até a Carta do Estado Novo de 1937. O texto, elaborado por Cranger algum tempo após ter colhido o depoimento, é uma minuta enviada ao general para apreciação e correções.

"O segundo depoimento" é uma outra carta que fazia parte do mesmo envelope. Nele, Cranger apresenta um roteiro de datas de eventos políticos brasileiros, entre 1938 e 1981, com perguntas específicas para serem respondidas futuramente por Assis Brasil. Além disso, Cranger envia a minuta do depoimento do general, para correções, sobre o movimento da Legalidade, iniciado no Rio Grande do Sul, que garantiu a posse do presidente João Goulart em 1961, e fatos ocorridos quando Assis Brasil, no posto de Coronel, foi designado Adido Miltar do Brasil na Argentina.


1 - INDISPENSÁVEIS PALAVRAS

Por CRANGER CAVALHEIRO DE OLIVEIRA

O Exmº Sr. General ARGEMIRO DE ASSIS BRASIL constitui-se, hoje, no Brasil, figura histórica de relevante presença.

Nascido no Rio Grande do Sul, ele forjou seu íntegro caráter nos edificantes exemplos que lhe legaram os nunca jamais louvados caudilhos, que escreveram nos pampas fulgurantes paginas da historia da nacionalidade, a sangue.

Não se fez admirável e admirado depois de granjear respeitável postura como oficial do Exército. Antes mesmo, sua personalidade, forte e serena, já se fazia notar, quando menino, aluno do Colégio Militar de Porto Alegre.

Daí por diante, a cada dia, firmava-se como cidadão leal e probo, merecedor da mais elevada consideração e do maior respeito de todos quantos com ele tiveram a oportunidade de relacionarem-se, mesmo daqueles que se situavam em campos de oposição de pensamento.

Podendo trair, não traiu; podendo furtar, não furtou; podendo mentir, jamais o fez.

Assim procedeu durante toda a existência, até hoje, quando orça por setenta e cinco anos da sua idade.

O depoimento que apresentamos é a expressão dessa inigualável firmeza de vontade e incorruptibilidade de caráter.

Nele, não encontraremos a adjetivação graciosa e ridícula. Sua linguagem é concisa e seca, compatível com a sobriedade dos gestos e solidez das atitudes que o individualizam.

Suas honestas palavras, estamos persuadidos, convirão àqueles que as lerem, principalmente aos jovens, para que tenham roteiro de digno procedimento a fim de servir, conscientemente, ao Brasil e ao seu desvalido povo.

E porque não queremos que sua austera linguagem se choque com o nosso justo entusiasmo, ao traçar-lhe a personalidade, é que recolhemos as velas, reconfortados pelo dever cumprido, da presente apresentação.

Não sem antes de lembrar dois grandes vultos históricos: Sheakespeare e Napoleão.

Enquanto o primeiro escreveu: "Oh, eu perdi minha reputação. Perdi a parte mortal de mim mesmo, e o que resta é bestial", o grande corso tinha mais em conta a reputação dos indivíduos do que suas posições, medalhas e poder.

E o General Assis Brasil é a altiloqüente reputação personificada.


2 - O PRIMEIRO DEPOIMENTO

P. - Em quais fatos Vossa Excelência se estribou para possuir tão arraigadas convicções democráticas?

R. - Em 1914, eu, um piá, fui cometido da incumbência de ir, a cavalo, à Parada Retiro, estação ferroviária da Viação Férrea do Rio Grande do Sul, meia légua distante da estância de meu pai, onde deveria recolher correspondência. Contava eu sete anos de idade. Entre a documentação a ser recebida, estava o jornal Correio do Povo. O agente da estação, o velho DOMINGOS, disse-me: "Transmita ao senhor Leônidas, seu querido pai, que a República está salva, pois que PINHEIRO MACHADO foi morto."

Regressando à fazenda, e ao dar o recado, meu pai retrucou: "Agora, é que a República está perdida, pois que não se faz a felicidade de um povo com um punhal de sicário no lombo de um grade homem, à traição."

Longos anos após, hospedei-me em um hotel da Praça JOSÉ DE ALENCAR, frente às escadarias que conduziam ao Hotel dos Estrangeiros, aquelas mesmas onde MÂNCIO DE PAIVA COIMBRA, gaúcho alucinado e fanático, brandiu, pelas costas, seu punhal assassino em o grande senador SALVADOR PINHEIRO MACHADO.

Corria, à época, crença de que, morto PINHEIRO MACHADO, "Velho gaúcho insaciável de fazer aos mandões guerra", estaria salva a República.

Aceitava-se esta crença, na certeza de que o presidente da República, Marechal HERMES DA FONSECA, era dominado por aquele senador gaúcho, da mais invulgar estirpe dos caudilhos riograndenses, a quem coube consolidar, nos pampas meridionais, a República, ao lado do eminente estadista JÚLIO DE CASTILHOS.

Entretanto, morto o insigne senador, a República é que cambaleou, já que foi assumida pelos fazendeiros do café de São Paulo e os latifundiários de Minas Gerais.

A campanha civilista, que bombardeava o velho marechal HERMES DA FONSECA, nada mais era do que uma disgressão ideológica, sem nenhum fundamento histórico que a pudesse perpetuar dentro do panorama geopolítico e dialético.

Todavia, é certo, que o grande RUI BARBOSA lançou os fundamentos do verdadeiro apreço que devem merecer os governos de uma república que se preze, isto é, governada por suas classes dominantes, mas sem interferência de poderes espúrios e alienígenas.

Cessada a primeira hecatombe mundial que se iniciou, em verdade, no Brasil, com as palavras do velho DOMINGOS e, na Europa, com os canhonaços de SERAJEVO, a história continuou inexorável.

Evidentemente, eu não poderia considerar louçã de tempo apagada a grande luta interimperialista que empolgou céus, mares e terras, desde aquele 1914 até a grande rajada de 1917, e ríspida, em que os irmãos de todos os povos disseram ao mundo, montados geopoliticamente no coração de nosso universo presente. Surgiu o sistema que matou o feudalismo, isto é, o capitalismo predatório e desumano, mais predatório e inumano do que o pior sistema que existiu sobre a Terra, que foi i sistema romano. Este não pôde ser derrubado pela força das armas, tendo que ser aniquilado, reduzido a pó de mico, pela incomparável figura do Nazareno que, da Galiléia, apenas com um nome, JESUS CRISTO, conseguiu, com o seu espírito e com as bênçãos das mulheres do seu tempo, dizer por dois mil anos: "Paz na Terra aos homens de boa vontade."

Quais as causas que motivaram a eclosão dos movimentos de 1922 em diante, até a revolução de 1930, e o seu posicionamento durante elas?

Em 1921, eu, como outros meninos, fomos matriculados, mediante concurso, no Colégio Militar de Porto Alegre. Ali, éramos empolgados pelas lutas intestinas do Rio Grande do Sul, a saber: a aguerrida luta entre o Dr. JOAQUIM FRANCISCO DE ASSIS BRASIL, meu tio-bisavô, e o Dr. AUGUSTO BORGES DE MEDEIROS, este, herdeiro do trono do feudalismo pampiano, na figura de JÚLIO DE CASTILHOS, o verdadeiro consolidador da República nas plagas sulinas, de vez que, JÚLIO DE CASTILHOS, dentro da doutrina positivista de AUGUSTO COMTE, foi o braço armado de FLORIANO PEIXOTO e do abafamento da revolução de 1893 feita pela Marinha, reacionária e monarquista, sob o comando do almirante SALDANHA DA GAMA e pelos seus aliados civis do Rio Grande, chefiados pelo senador SILVEIRA MARTINS, todos destroçados pelo governo de JÚLIO DE CASTILHOS, que era cunhado do Dr. JOAQUIM FRANCISCO DE ASSIS BRASIL.

Quando iniciamos nosso curso no Colégio Militar de Porto Alegre, como eu disse, em 1921, ali havia partidários das facções em lutas internas, que se empolgavam, ao mesmo passo, com as notícias que havia ocorrido na Eurásia uma transformação política, social e econômica semelhante àquela que destruiu o feudalismo realista na Europa coroada, pela fulgurante espada de NAPOLEÃO BONAPARTE.

Conhecíamos, por ensinamentos de nossos mestres, naquele areópago de ciências humanísticas, conhecíamos, repito e, embora jovens sabíamos que a história é dinâmica, como a própria natureza. Devido a isso, ficávamos muito faceiros quando líamos no CORREIO DO POVO que os soldados, operários e marinheiro russos tinham destruído o bárbaro sistema feudal do czarismo, sistema que oprimiu a França e a América do Norte, até os anos de 1789 e 1776, respectivamente.

Até certo ponto, na nossa ingenuidade de meninos, fazíamo-nos líderes vanguardeiros daquelas evoluções, que ocorreram após a catástrofe bélica e de divisão do mundo de 1914 a 1918.

O perfeito entendimento das conseqüências daquela catástrofe marcou profundamente o nosso espírito de jovens brasileiros, herdeiros de um continente pacífico e humano. Sem embargo, perscrutávamos que, se não fossem realizadas profundas reformulações sociais, políticas e econômicas, estaríamos, mais cedo ou mais tarde, submetidos àqueles desgastes que conduziram a velha Europa a uma segunda varredura política, social e econômica, a qual marcaria época no patamar inicial do século XX, como a augurar que, se os homens deste século não reflexionassem em base do que havia ocorrido, dialeticamente, com as gerações anteriores, estaríamos, forçosamente, submetidos à nova hecatombe, como veio a ocorrer em 1939.

Volto agora, após essa pequena disgressão, à pergunta formulada, dizendo que as causas que motivaram os movimentos de 1922 a 1930 tiveram, de um lado, seu background nos fatos já apontados sobre a 1ª Guerra Mundial, e, de outro lado, na Colônia, no Primeiro Império, Na Regência, no Segundo Império e na República Velha, que nada fizeram para demolir as estruturas fazendárias e escravizantes que mantinham um status-quo altamente antiprogressista, de vez que continuavam a política econômica de um reino vassalo da "Rainha dos Mares", a tal ponto que, na pseudo-independência, foram os canhões de dois almirantes ingleses os baluartes de governos despóticos para, num arroubo de patriotismo, dizer que haviam salvado o Brasil.

Não se pode negar que o movimento de 1930 tenha se caracterizado pelo grande apoio popular que recebeu. Não se pode negar, também, que os grandes propulsores desse movimento foram jovens oficiais das forças armadas brasileiras que já vinham marcados ideologicamente e, não poderia ser de outra maneira, pelos movimentos libertários de após 1918.

Esse oficiais eram como uma alvorada dentro de uma força armada que, depois da cruenta guerra de 1865 a 1870, haviam se atirado na falsa filosofia positivista, pseudo-salvadora dos supremos conflitos sociais do século XIX e arrebóis do século XX.

As forças armadas, que foram heróicas em Riachuelo, Lomas Valentinas, Curuzu, Curupaiti, Tuiuti e em tantos mais palcos de sanguinolentas batalhas, quando regressaram aos pagos, não encontrando que fazer, pensaram que seu destino patriótico apenas seria o de derrubar uma monarquia guardiã de uma estrutura feudal, monopolista e que somente servia aos interesses estrangeiros.

Era normal, como se observa na história dos povos, que uma tal força armada descambasse para as intrigas da corte e, sem usar a espada, apenas acenando um quepe vermelho no Largo de Santana, derrubasse o Império que já não tinha mais nenhum respaldo popular.

Particularmente, com relação a 1930, qual a atitude de Vossa Excelência?

Terminado em 1927 o curso do Colégio Militar de Porto Alegre, fui matriculado na Escola Militar do Realengo, onde me formei em 1929. A revolução me alcançou já oficial, servindo no 2º Regimento de Infantaria, na Vila Militar do Rio de Janeiro.

Pertencia a um Exército renovado pelos ensinamentos da Missão Militar Francesa e de muitos chefes militares brasileiros que não admitiam que o Exército continuasse no seu aniquilamento profissional.

Nos bancos escolares aprendi, ao lado de jovens militares, meus companheiros, o que nos transmitiam os insignes mestres franceses e os não menos insignes mestres militares brasileiros. Aprendi que a força armada é, fundamentalmente, o povo em armas e não deve ser empregada a não ser com a sua atribuição constitucional. Destarte, fiquei convicto de que manipular um instrumento de defesa da nação como arma para servir de escada à política de interesses regionais, de classe ou particulares, seria cometer uma heresia em desacordo com o que me haviam ensinado. Por esse motivo, ao eclodir o movimento insurrecional de 1930 não o acompanhei, ficando ao lado dos poucos que defenderam o governo constituído. Eu pensava que, dentro de processos legais e democráticos, se pudesse reformular todas as questões que se apresentavam como desafio à nação.

Qual o seu envolvimento na Revolução Constitucionalista de 1932?

Coloquei-me ao lado dos que se levantaram em armas para derrubar um governo que, segundo nosso juízo, não se assentava em nenhum princípio de legitimidade. Esse governo, desde o seu estabelecimento pela força, prometera legitimar-se através de uma Assembléia Constituinte que, paulatinamente, transferia e negava ao seu povo. Daí por que, nossa bandeira, foi a constitucionalização imediata do país.

Como decorrência dessa atitude, coerente com meus princípios, tive minha carreira militar interrompida ao ser segregado do convívio com meus patrícios, exilado que fui para Portugal.

O exílio serviu-me para refletir sobre a posição que havia tomado e, em particular, sobre as conotações que o movimento constitucionalista teria no contexto da política mundial.

Desde logo, verifiquei que a nascente praga do fascismo poderia vir a influenciar nosso destino político. Por outro lado, fui alertado para o fato de que atrás da nossa sagrada revolução constitucionalista havia, também, interesses alienígenas, dado que o domínio de nossa economia pelo imperialismo britânico transferia-se a passos lentos e seguros para os novos senhores dos mercados conquistados dos antigos donos. Vi, então, ainda jovem, que os problemas decorrentes de nossa estrutura social, imobilizada pelos interesses das classes dominantes, se agravavam com a eficácia e a eficiência da exploração permanente daqueles novos senhores.

Em que posicionamento a eclosão do movimento de 1935 encontrou Vossa Excelência?

Quando eclodiu o referido movimento, servia eu na Amazônia, em Belém, como 1º Tenente. Não tomei parte no mesmo, ainda em coerência com os princípios de não me rebelar, como soldado, contra um governo revestido, já então, de legitimidade.

Sem embargo, considerei um grande absurdo a posição tomada , na oportunidade, pela liderança da intentona. Vi, desde logo, que através de uma quartelada, jamais seria possível transformar de fond en comple a estrutura social e econômica de uma nação.

Os chefes e participantes do fracassado golpe não se deram conta dos reiterados ensinamentos do grande demiurgo da maior convulsão social do século XX, a saber: não se faz uma revolução no sentido sociológico sem que haja condições objetivas e subjetivas para tal empreendimento e, também, se não se contar com o apoio de grandes massas.

Em 1937, diante da Carta do Estado Novo, como se situou Vossa Excelência?

Para mim, o golpe de 1937 trouxe no seu bojo aquele cheiro do nazi-fascismo que eu tanto temia, já nos idos de 1932, como me referi.

Nem eu nem os militares e civis que possuíamos pontos de vista comuns e contrários ao famigerado golpe, tivemos condições de nos opor a ele.

Essa falta de condições decorreu da habilidade do governo em preparar a passagem histórica, mascarando-a com larga série de invencionices e falsificações documentárias manipuladas nos escaninhos dos órgãos da alta cúpula militar que apoiava o governo e, de mesmo passo, baixava seus ukases para o conjunto aturdido de uma força armada tomada de surpresa e de pânico, tudo agravado pela recente recordação das estripulias cometidas pelos maus discípulos de LÊNIN, em 1935.

Poderia Vossa Excelência manifestar-se sobre o fracassado golpe de 1938?

(Esta pergunta nunca chegou a ser respondida).


3 - O SEGUNDO DEPOIMENTO

Meu general.

Na correspondência anterior, fiz referência ao roteiro a ser estabelecido para o depoimento. Ficamos na pergunta relativa a 1938, ainda sem resposta.

Depois, seguir-se-ão as referentes a 1945, 1950, 1954, 1955, 1961, 1964 e 1981.

Terminada essa fase de respostas, entraremos nas indagações de outros assuntos. Elas, contudo, não vão esgotar o manancial inesgotável de fatos vividos por Vossa Excelência. Então, caberá a Vossa Excelência explorar todo o veio. A seguir, uma relação de perguntas.

P. - Quais as considerações que Vossa Excelência pode tecer sobre a derrubada do governo em 1945?

P. - Quais as razões que Vossa Excelência admite para a eleição do presidente eleito em 1950?

P. - Quais os motivos que a seu ver motivaram o suicídio do presidente em 1954?

P. - Qual a análise de Vossa Excelência com respeito aos fatos ocorridos em 1955 em que participou o ministro da Guerra para garantir a posse do novo presidente eleito?

P. - Vossa Excelência é a pessoa mais abalizada para explicar o movimento militar que, irrompido no Rio Grande do Sul, assegurou a posse do vice-presidente eleito como prersidente da República. Vossa Excelência se manifestaria a respeito?

P. - A propaganda imperialista trombeteia que po golpe de 1964 foi revolucionário. Enteretanto, ninguém tem dúvidas, hoje, de que ele se constituiu numa contr-revolução. Poderia Vossa Excelência examinar as duas versões?

P. - Quais as perspectivas que Vossa Excelência vislumbra para o futuro do Brasil diante da grave crise econômica que ele atravessa, sem o respaldo democrático institucional indispensável e com eleições manipuladas à vista?

Agora, vamos às outras perguntas.

P. - Como encarou Vossa Excelência a mais impressionante marcha que se tem conhecimento, que irrompeu em 1926 no Rio Grande do Sul?

P. - Como Vossa Excelência encara a posição da oficialidade do Clube Militar ao tempo do general NEWTON ESTILAC LEAL?

P. - Qual seu parecer sobre a posição das Forças Armadas, mormente o Ex;ercito, no contexto político-social da nação brasileira?

General, por aí afora, Vossa Excelência considerará outras perguntas. Com relação a 1961, aí vão alguns dados que Vossa Excelência me confidenciou. O episódio, contudo, impõe maior desenvolvimento.

P. - Como militar, qual a posição assumida em 1961?

R. - Servia eu como Chefe do Estado Maior da 3ª Região Militar, em Porto Alegre. Pressentindo o golpe, reuni a oficialidade sob a minha chefia e declarei:

"Há um golpe em marcha contra a posse do vice-presidente na vacância do presidente da República. Sou frontalmente contrário e vou combatê-lo".

Em resposta à minha pergunta, se havia algum oficial contra a minha posição, ninguém se manifestou. Pela aclamação recebida na forma de palmas, entendi ter sido unânime o desejo da oficialidade de respeitar a Constituição. Em seguida, procurei o general Comandante da 3º RM e lhe disse do meu procedimento. Sem nenhum comentário, mantendo-se calado o tempo todo, fez-me acompanhá-lo à presença do Comandante do III Exército, a quem expus o que já decidira.

Embora eu lhe dissesse que ele ficaria com plena liberdade de me transferir, e lhe reitarasse meu propósito de resistir ao golpe, ele me manteve na Chefia do Estado-Maior da 3ªRM.

Que tem a dizer Vossa Excelência sobre a sua ida para Buenos Aires, como Adido Militar?

Certa feita fui procurado, em minha casa, pelo governador do Rio Grande do Sul. Disse-me ele, na ocasião, que eu seria nomeado Adido Militar na Argentina. Ponderou, no entanto, dentro do seu caráter reservado, que eu meditasse e pusesse muita reflexão a respeito do convite.

Dias após, recebi determinação de me apresentar em Brasília, onde me vi sendo recebido pelo presidente da República.

Ele foi incisivo: "Coronel Assis, apelo para seus sentimentos patrióticos a fim de servir ao meu governo. Confio no seu caráter e na elevação de propósitos do senhor. Por isso, vou nomeá-lo Adido Militar em Buenos Aires. Sei que lá se acha um dispositivo, com ramificações na América Latina, principalmente no Cone Sul do continente, montado pelos militares argentinos com estímulo e apoio de Washington. Os generais LANUSSE e ONGANÍA são líderes desse movimento que tende a instalar ditaduras, incluido o Brasil. Osenhor há de se constituir em conduto direto com a presidência. Qualquer informação vinda de Buenos Aires, que não for por seu intermédio, eu não levarei em consideração."

Feita a nomeação e depois de inauditos esforços, já que eu vinha do Rio Grande do Sul, sem possuir recursos, marquei a viagem.

Embora entre o Brasil e a Argentina não se fizesse necessário o agreement, por força de tratados, tendo eu como certa a minha indicação, procurei o adido militar argentino, oficial de cavalaria, como é norma diplomática proceder-se.

Recebeu-me friamente, não tendo siquer a delicadeza de me mandar sentar. Retrubuí a "cortezia", não me preocupando se ele havia gostado ou não de mim. Sou guasca!

Às vésperas, porém, da viagem para cujos preparativos me empenhei com imensos sacrifícios, precisamente um dia antes, fui mandado me apresentar ao Estado-Maior do Exército.

Lá, seu chefe, sem muitos preâmbulos, disse-me que o Adido Militar argentino o havia procurado manifestando sua oposição pessoal e da oficialidade argentina, em nome da qual falava, à minha ida a Buenos Aires.

Dizendo-me que estava difícil solucionar o qui-pro-quó surgido, declarou-me que eu não mais assumiria o cargo de Adido Militar na Argentina. Entretanto, para me ressarcir de qualquer prejuízo ou mágua, eu seria indicado para Adido Militar em Paris.

Fiz-lhe ver que não havia pleiteado a minha indicação para Buenos Aires, tanto quanto não aceitava a nova missão.

Determinou-me, em conseqüência da recusa, que procurasse o Ministro da Guerra para receber nova classificação.

Procurei o ministro e, ao ser indagado onde gostaria de servir, respondi-lhe que preferia continuar na chefia do Estado-Maior da 3ª RM.

O Ministro da Guerra manifestou-me sua revolta ante a provocação extemporânea dos militares argentinos, confidenciando-me que o Presidente da República não a iria engolir. Realmente, regressando ao Rio Grande, pouco depois recebi ordem para assumir o cargo de Adido Militar na Argentina, o que fiz.

Aqui cabe uma pequena disgressão. Por quê a animosidade dos militares argentinos contra a minha pessoa?

Eu havia servido por quase três anos, pouco tempo antes, na Missão Militar Brasileira de Instrução no Paraguai, onde sempre mantive não apenas convívio social, mas privança de estima com todos os argentinos ali servindo ou residindo. Minhas manifestações públicas, no Paraguai, mantiveram-se permanentemente sob o maior escrúpulo no sentido de respeitar e louvar tanto a nação argentina, como seu govrno, seu povo e suas forças armadas. Não demorei muito, no entanto, em obter a resposta.

A causa de tudo era que o Adido Miltar em Buenos Aires, que seria substituído por mim, estava integrado naquele conjunto de forças retrógradas e reacionárias que promoviam a subversão continental. Interessava-lhe, pois, criar ambiente de hostilidade contra a minha pessoa.

Fosse ele vivo hoje eu transcreveria tudo o que possuo para comprovar a assertiva.

Não demorou muito, entretanto, a minha saída de Buenos Aires por pressão daquelas forças, em que pese a compreensível circunstância de ter sido promovido a General e alçado à Casa Militar da Presidência como seu chefe.

Nota: As outras perguntas formuladas por Cranger Cavalheiro de Oliveira nunca chegaram a ser respondidas. O general Assis Brasil faleceu em 1982, aos 75 anos, em Canoas-RS, onde residia modestamente com sua segunda mulher, Iná Marques, vítima de parada cardíaca causada por lesões oriundas de reumatismo articular contraído na infância.