JOAQUIM FRANCISCO DE ASSIS BRASIL
JOAQUIM FRANCISCO DE ASSIS BRASIL nasceu em 29 de julho de 1857 na estância de São Gonçalo, Município de São Gabriel, Rio Grande do Sul. Filho do estancieiro FRANCISCO DE ASSIS BRASIL, de quem herdou extensas propriedades no interior gaucho, e de Dª JOAQUINA THEODORA DE BEM SALINAS, ambos de tronco açoreano. Foi uma criança dócil, sadia de corpo e alma, mostrando interesse por tudo o que o cercava e amando a natureza. Aos oito anos matriculou-se na escola de primeiras letras do Mestre CUSTÓDIO JOSÉ DE MIRANDA, no Saican. Em um só dia aprendeu o "ABC" e mais a primeira página do livro de leitura. Poucos meses depois escrevia uma carta aos pais.
Em 1870 transferiu-se para o Colégio São Gabriel, na cidade de mesmo nome. Distinguiu-se entre seus condiscípulos. No primeiro ano ganhou a Medalha de Prata e no ano seguinte a de Ouro. Essas medalhas ainda existem, guardadas em
Pedras Altas. Em 1872, já órfão de pai, partiu montado em um petiço, para Pelotas, onde ficou internado no Colégio TAVEIRA JUNIOR.
Em 1874 frequentou, em Porto Alegre, o Colégio GOMES, onde estudou os preparatórios.
Em 1876 matriculou-se na Faculdade de Direito de São Paulo, passando a integrar o grupo de estudantes rio-grandenses que ali se formara. Fundaram o Clube 20 de Setembro, com o compromisso de pregar e propagar o sistema republicano de governo e de apressar a mudança de regime político do país.
Em 1877, Assis Brasil publicou seu primeiro livro, "CHISPAS", com versos da adolescência que reunia poemas revolucionários e anticlericais. A seguir publica " HISTORIA DA REPUBLICA RIO-GRANDENSE", onde faz uma defesa ardorosa da Revolução Farroupilha de 1835. Neste livro já estão presentes os principios básicos de seu pensamento. Seguiram-se outros trabalhos inspirados no puro ideal de suas convicções. Sua obra é vasta. Destacam-se nela tanto trabalhos de propaganda, como obras de profunda relevancia do ponto de vista da teoria política. A defesa ardorosa do sistema presidencial de governo e da representação proporcional são a marca principal de seu pensamento. Suas obras estão listados ao final desta biografia.
Em 1879, com uma plêiade de talentosos rapazes que marcaram época na Academia de São Paulo, fundava o "CLUBE REPUBLICANO ACADÊMICO" e o jornal "EVOLUÇÃO".
Em 1882 formou-se em Direito e voltou para o Rio Grande do Sul. Destacado pelos correligionários, percorreu durante meses a Província a cavalo, pregando a liberdade e a República com quem tanto sonhava. Foi eleito Deputado Provincial (hoje seria Estadual) em dois biênios: 1884/86 e 1886/88. Na tribuna enfrentou o grande GASPAR SILVEIRA MARTINS, merecendo desse seu digno adversário as maiores considerações.
Em 1889, proclamada a República, foi eleito deputado à Assembléia Nacional Constituinte para o biênio 18890/91. Promulgada a Constituição, renunciou ao seu mandato. Convidado pelo Marechal DEODORO DA FONSECA para fazer parte do primeiro Ministério Constitucional, recusou o convite por motivo de divergência de ideais
Em consequência do golpe de estado de DEODORO, a situação no Rio Grande do Sul tornara-se anormal, tendo o Presidente do Estado, JÚLIO DE CASTILHOS, abandonado o poder. Foi constituida uma Junta Governativa, da qual ASSIS BRASIL fez parte. Como único membro presente da Junta, assumiu o Governo do Estado, tendo como objetivos, segundo manifesto que publicou:
a) Fazer a Sociedade recuperar o sossego perdido;
b) Combater a ditadura;
c) Presidir, com a maior imparcialidade, a eleição que se deveria realizar. Os rio-grandenses uniram-se para defender a causa comum. O mais completo êxito veio coroar seu gesto de patriota. Atingidos seus objetivos, renunciou ao poder.
Nomeado Ministro Plenipotenciário do Brasil na Argentina, prestou relevantes serviços à Pátria por ocasião de acontecimentos desenrolados de 1880 a 1894. Transferido nesse ano para a China, não chegou a assumir o posto, porque o Presidente PRUDENTE DE MORAES lhe deu a incumbência de reatar as estremecidas relações com Portugal.
Em 1896 publicou o livro "GOVERNO PRESIDENCIAL NA REPÚBLICA BRASILEIRA" e, em 1898, "A CULTURA DOS CAMPOS". É dessa época um soneto que dedicou à sua noiva de segundas núpcias, Dª Lydia:
De novo, sinto um hálito sagrado
Vibrar-me na harpa, em luto adormecida
E ressurjo, cantando à plena vida,
Da minha própria cinza inanimada.
Esta radiante, límpida alvorada
Branda, serena luz indefinida
Que o ser me invade e a gozar convida
- Tudo isso devo a ti, alma adorada.
Ai! Sobre mim se arquia um céu aberto
A teu amor, que me faz novo e forte
E sangue envia ao coração desrto
Bendita a hora (negra) em que, sem sorte,
Perdido o rumo do meu porto incerto,
Brilhante te vi, farol da minha sorte!
Lisboa, 1897 Transferido para os Estados Unidos em 1898 (ano em que se casou com sua segunda esposa Dª LYDIA), lá se conservou até 1902 quando foi para a Embaixada do Brasil no México.
Em 1903 o Presidente RODRIGUES ALVES o chamou para trabalhar ao lado do Barão de RIO BRANCO na quastão de limites com a Bolívia. Em 1906, assinado em Petrópolis o tratado que terminou com o litígio de fronteiras no Estado do Acre, voltou para Washington.
Em 1905 RIO BRANCO removeu-o para a Argentina, onde se tornava necessária a presença de uma personalidade de prestígio para desfazer intrigas surgidas contra o nosso Ministro das Relações Exteriores.
Em 1906, ao lado de JOAQUIM NABUCO, Presidente do Congresso Pan-Americano realizado no Rio de Janeiro, dirigiu os trabalhos como Secretário-Geral.
Em 1907 pediu aposentadoria. Retirando-se do serviço diplomático, fundou sua granja de Pedras Altas. Ele liderou, no final do século 19, a fundação da associação Pastoril de Pelotas, a associação agropecuária mais antiga do Rio Grande do Sul. Depois vieram as associações de São Gabriel, de Bagé e, finalmente, em 1919, a de Alegrete, que recebeu o nome de Associação Rural de Alegrete.
Em 1908 fundou, com seu amigo FERNANDO ABBOTT, o Partido Republicano Democrático. Depois viveu retirado da atividade política até que, em 1922, o seu nome foi lançado como candidato de oposição a BORGES DE MEDEIROS. A rudeza da luta eleitoral tornou inevitável um movimento armado, que acabou resultando na reforma da Constituição Estadual de 1891. Em 1923, no mês de dezembro, foi assinado o Tratado de Pedras Altas, em seu castelo na cidade de mesmo nome.
Em 1924, tendo surgido um movimento revolucionário, exilou-se emigrando para o Uruguai. Em 1927 os sufrágios de seus correligionários o elegeram Deputado Federal. Nesse ano teve participação destacada na fundação do Partido Democrático Nacional (1927).
Em 1928 fundou o Partido Libertador. Em 1929, pretendendo o Presidente WASHINGTON LUÍS impor à Nação uma candidatura impopular, ASSIS BRASIL aconselha o Partido Libertador a cerrar fileiras em torno da Pessoa de GETÚLIO VARGAS, então o Presidente do Estado, que se opunha ao candidato oficial e prometera aceitar o voto secreto. Em 1930 WASHINGTON LUÍS é deposto e GETÚLIO VARGAS assume o poder supremo como Chefe do Governo Provisório, do qual ASSIS BRASIL fez parte como Ministro da Agricultura. Em 1934 foi mandado em missão especial a Buenos Aires para ocupar a Embaixada do Brasil, acéfala desde o movimento revolucionário argentino de 1930, por não haver o Presidente WASHINGTON LUÍS reconhecido o governo do General URIBURÚ.
Suas últimas participações em conferências internacionais foram a chefia da Delegação Brasileira à Conferência Econômica preliminar, em Washington, e à Conferência Monetária e Econômica Mundial de 1933, em Londres.
Em 1933, eleito Deputado à Assembléia Constituinte, foi enviado em missão extraordinária à Inglaterra, onde tomou parte na Conferência Econômica Mundial e ainda retribuiu a visita que o Prínciope de Gales fizera ao Brasil. Ao retornar, resignou todos os cargos oficiais e voltou à vida do campo, que sempre preferiu a tudo o mais.
Em agosto de 1938 adoeceu em conseqüência de uma gripe. O seu coração, de 80 anos, não resistiu. Na noite de 24 de dezembro, no seu castelo de Pedras Altas, fechou para sempre os olhos, com a consciência tranqüila de haver cumprido o seu dever e trabalhado pela glória da pátria, realizando na vida o que afirmou em um dos seus mais brilhantes manifestos:
A VIDA DOS BONS E JUSTOS É FEITA MAIS DE RENÚNCIAS DO QUE DE CONQUISTAS.
BIBLIOGRAFIA BÁSICA
DE ASSIS BRASIL
A Aliança Libertadora no Rio Grande do Sul. Manifesto Político. Editora Globo, Porto Alegre, 1925.
A Atitude do Partido Democrático Nacional na Crise da Renovação Presidencial para 1930-34, Editora Globo, Porto Alegre 1929.
A Cultura dos Campos, 1898.
A Guerra dos Farrapos, Andersen, Rio de Janeiro.
A idéia de pátria, Tipografia Piratininga, São Paulo, 1918.
A República Federal, Rio de Janeiro, Leuzinger, 1881.
Atitude do Partido Democrático Nacional, Livraria do Globo, Porto Alegre, 1929
Bento Gonçalves e a idéia Federativa. Revista da A.U.B., Setembro de 1939.
Brasil escreve-se com s, Livraria do Globo, Porto Alegre, 1918.
Democracia Representativa. Do Voto e do Modo de Votar, Imprensa Nacional, 1931.
Ditadura, Parlamentarismo, Democracia. Livraria do Globo, Porto Alegre, 1928.
Do Governo Presidencial na Republica Brasileira, Companhia Nacional Editora, Lisboa, 1836.
Dois Discursos pronunciados na Assembléia Legislativa da Província do Rio Grande do Sul, Oficina Tipográfica A Federação, Porto Alegre, 1886.
Governo Presidencial na Republica Brasileira, 1896.
Historia da República Rio-Grandense, Cia. Uniao de Seguros Gerais, Porto Alegre, 1882.
Os Militares e a Política, Urban, São Paulo, 1929.
Partido Democrático Nacional, Programas e Comentários. Imprensa Nacional, Rio de Janeiro, 1927.
Revolução do Brasil,Imprensa Del Siglo Ilustrado, Montevidéu, 1929.
Um Discurso na Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul, Anais da Assembléia Constituinte, (Novembro e Dezembro de 1933).
Uma Publicação Clandestina, Revista do Instituto Histórico Geográfico do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, n. 455, 1934.