O castelo de Pedras Altas se impõe nas desoladas planícies do sul do estado do Rio Grande do Sul como testemunha da história e patrimônio dos gaúchos. Nascido em São Gabriel, Joaquim Francisco de Assis Brasil - diplomata, político, revolucionário, agropecuarista e escritor - escolheu a sede do castelo em 1904. Situada a 30 quilômetros de Pinheiro Machado, Pedras Altas tem clima seco (altitude de 370 metros), pastagens abundantes e fontes de água. A pedra angular da fortaleza, de 44 cômodos, foi lançada em maio de 1909. Depois de ter atuado nas embaixadas de Washington e Portugal e discursado em parlamentos, Assis Brasil queria morar no campo. Também desejava oferecer conforto à segunda mulher, Lídia Pereira Felício de São Mamede, filha de José Pereira Felício, o segundo conde de São Mamede. Os dois se casaram em Lisboa, em 1898.
Pedras Altas impulsionou a atrasada pecuária gaúcha. Assis Brasil importou vacas jersey da Inglaterra, robustos touros devon, cavalos árabes e ovelhas karakul e ideal. Só criava animais de raça, como galinhas white wyandotte trazidas dos Estados Unidos. Ele também introduziu novas espécies de árvores, como o eucalipto, construiu estrebarias, galpões e porteiras que ainda funcionam. Ainda inventou utensílios, como a bomba de chimarrão de mil furos que jamais entope e leva o seu nome.
Assis Brasil ergueu a fortaleza com traços medievais numa das paisagens mais isoladas do Rio Grande do Sul para mostrar que era possível desfrutar a natureza sem ficar embrutecido. A idéia não era ostentar, mas enobrecer o campo. O diplomata, que privou com reis e chefes de Estado, achava que o arado e o livro eram as ferramentas do progresso. Em 1999 governo tentou tombar o castelo de Pedras Altas como monumento histórico, mas a família de Assis Brasil recusou, preferindo manter o castelo com a família.
O texto acima é de Nilson Mariano, publicado em Zero Hora, Porto Alegre, Ano 34, nº 11.681, 10/08/1997, páginas 47 a 49.
DIÁRIO DE CECÍLIA NARRA A VIDA NO CAMPO

Cecilia vestida de camponesa para colher aspargos
Por entre as ameias do castelo de Pedras Altas, Cecília de Assis Brasil não contemplou apenas as ondulações vertiginosas do campo. Numa época marcada por sabres ensanguentados, botas embarradas e relinchos de cavalos, a jovem, que devorava as poesias do norteamericano Henry Longfellow (1807-1882) em inglês e ouvia sinfonias de Ludwig van Beethoven na solidão do pampa, registrou o citidiano e as revoluções do início deste século. No seu diário, tão preciso quanto sensível, Cecília contou a vida no castelo e as conflagrações entre maragatos (libertadores de lenço vermelho no pescoço) e chimangos (republicanos de lenço branco).
Primeira filha do segundo casamento de Joaquim Francisco de Assis Brasil, Cecília era diferente da maioria das moças da virada do século. Ela nasceu em Washington, a 26 de maio de 1899, quando Assis Brasil era embaixador nos Estados Unidos. Morreu aos 35 anos, solteira, fulminada por um raio quando cavalgava nas proximidades do castelo de Pedras Altas. As fotos mostram uma mulher de olhos morenos arrebatadores, mãos delicadas, feições suaves e um sorriso compreensivo.
Cecília guardava o castelo quando o pai precisava se ausentar, peregrinando pelas cortes em intermináveis discussões diplomáticas. Era caseira e culta, conciliava as tarefas domésticas com os estudos. Gostava de produzir queijos, bater manteiga, dar mamadeira a cordeiros órfãos, cuidar de uma ninhada de pintos, colher aspargos. Sabia o ponto exato da calda de doce de figo. Também acompanhava o desenvolvimento das vacas jersey, importadas da Inglaterra, e das ovelhas karakul. Divertia-se com os irmãos em pescarias de lambaris ou longas cavalgadas. Lia autores clásicos e revistas como a Life e Les Annales quase diariamente. Quando estava triste, preferia os poemas de Longfellow. Atenta, observava a movimentação de políticos e revolucionários que iam ao castelo se aconselhar com Assis Brasil.
Os diários de Cecília (compilados pelo jornalista Carlos Reverbel e publicados pela L&PM) demonstram o quanto a família Assis Brasil adorava o campo. A 24 de outubro de 1916, quando tinha 17 anos, Cecília anotou:
Estive muito tempo parada, admirando os lindos touros devon há pouco chegados. São duas magníficas estampas... Demos umas voltas a pé, de tarde, e as minhas companheiras tentaram convencer-me que São Paulo ou Paris são melhores do que o Ibirapuitã. Quando for a esses lugares saberei ao certo, mas por enquanto agarro-me ao meu ideal: a vida do campo. Sou assim, e agora?
As anotações no diário mostram como era a rotina em Pedras Altas. Os Assis Brasil madrugavam, faziam serviços de casa e nunca descuidavam da educação. Cecília falava inglês e francês, mas também entendia o linguajar rude dos gaúchos. Tanto podia ler The Jungle Book, de Rudyard Kipling, como citar expressões do tipo "de vereda" (repentinamente), "mateando" (tomando chimarrão) e "bóia" (refeição). A três de janeiro de 1923 ela antecipou a inconformidade dos libertadores, liderados por Assis Brasil, com fraudes eleitorais que reconduziram Antônio Augusto Borges de Medeiros ao governo pela quinta vez:
Encaixotei a manteiga para diversos fregueses (Cia Swift, C. Wigg, F. Lima, Hotel Schaefer e F. Amaral). Enviei também as contas do mês passado. Mandei parar rodeio e dar sal ao gado. Os jornais continuam a trazer notícias alarmantes. Parece que o Chimango (os maragatos apelidaram Borges de Medeiros com o nome dessa espécie de gavião) está distribuindo armamentos. We are prepared!
Em 19 de abril de 1923, Cecília alertava que a guerra era inevitável. Os moradores do castelo de Pedras Altas ficaram apreensivos e adotaram algumas providências:
... É quase certa uma revolução, quando o Borges tomar posse. Os jornais publicam um telegrama do papai, aconselhando calma e dignidade diante das provocações, e a reagir com energia diante de ataques materiais... Decidimos esconder o que pudermos, sem dar nas vistas. Subi ao esconderijo, feito a propósito. Auxiliada pelas manas, lá depositei diversas pastas de papéis, com a maior economia de espaço... Imagino só a aflição da mamãe, tão longe de nós. Antes de me deitar dei um tiro num cão que estava comendo lavagem na porta da cozinha.
Cães e chimangos não eram bem-vindos. A revolução de 1923 convulsionou o Estado. Cecília e os irmãos tiveram de abandonar o castelo, exilando-se no Rio de Janeiro, onde já estava o casal Assis Brasil. Cecília voltaria para Pedras Altas outras vezes. Ela poderia ter morado em Paris ou Washington. Preferiu a amplidão dos campos.
O texto acima é de Nilson Mariano, Zero Hora, Porto Alegre, Ano 34, nº 11.681, 10/08/1997, páginas 47 a 49.
Apresentamos a seguir um interessante artigo de OLYR ZAVASCHI, publicado no jornal Zero Hora, que trata do acordo obtido em Pedras Altas que deu fim à revolução de 1923.
O FIM DAS GUERRAS CIVÍS

Assinatura do término da revolução de 1923 no castelo de Pedras Altas.
À esquerda o General Setembrino de Carvalho e à direita o Dr. Assis Brasil
A paz de Pedras Altas, entre as forças políticas que apoiavam BORGES DE MEDEIROS e suas reeleições sucessivas e aquelas que haviam se insurgido contra isso sob o comando de JOAQUIM FRANCISCO DE ASSIS BRASIL foi assinada no castelo deste último em 14 de dezembro de 1923. A Revolução de 1923 durara apenas 11 meses, mas projetara sombras de preocupação sobre o estado. Estavam vivas ainda em todas as famílias as recordações da guerra de 1893, que fora o mais desapiedado de todos os confrontos da história do Rio Grande. As histórias das degolas e dos degoladores estavam presentes no imaginário popular. O recomeço de um confronto entre chimangos (que apoiavam o governo) e libertadores provocou, por isso, a preocupação em todo o país.
A paz foi conquistada depois das negociações comandadas pelo ministro da Guerra, general FERNANDO SETEMBRINO DE CARVALHO, com a participação do senador JOÃO LYRA, representante do Congresso. O acordo obtido em Pedras Altas previa o fim daquilo que os rebeldes chamavam de "ditadura republicana"que permitia a reeleição sucessiva de BORGES DE MEDEIROS. Este concluiria seu mandato e não mais se recandidataria.
O acordo foi importante para o Rio Grande do Sul. O sucessor de Borge no governo gaúcho seria GETÚLIO VARGAS. Em 1930, a frente única rio-grandense teria forças pata assumir o governo do país.
O texto acima é de Olyr Zavaschi, publicado em Zero Hora, Porto Alegre, 25-11-2003 página 54.
A DURA LIDA, A DOCE CALMA E OS FRAGMENTOS DE HISTÓRIA
Imponente por fora na solidez dos granitos rosados, com os torrões medievais parecendo vigiar a solidão dos campos, o castelo de Pedras Altas também impressiona por dentro. Móveis de madeira maciça, lareira fumegando, estátuas, espadas antigas, relógios que gemem pesadamente e retratos amarelecidos revelam segredos da família de Joaquim Francisco de Assis Brasil e mostram fragmentos da história do Rio Grande do Sul. Entrar na fortaleza é como espiar uma época de sonhos, revoluções e ideais.Já na entrada do castelo, o visitante depara com a inscrição gravada na laje:
Bem-vindo à mansão que encerra
Dura lida e doce calma:
O arado que educa a terrra;
O livro que amanha a alma.
Mais do que uma recepção, o verso indica a filosofia de Joaquim Francisco de Assis Brasil. Suor e sabedoria. Na granja de 300 hectares onde desponta o castelo, todos trabalhavam e cuidavam da educação. Depois de ordenharem as vacas jersey, podiam ler Sheakespeare em inglês.A incursão pelo castelo começa pelo hall. Os móveis, estilo colonial, importados de Nova York, acomodaram políticos, revolucionários e intelectuais. Um enorme relógio, que pertenceu a Bento Gonçalves, o comandante da Revolução Farroupilha (1835-1845), titetaqueia sonolento. Cada objeto conta alguma história. Uma das janelas está com quatro vidros quebrados. Eles lembram que os chimangos (republicanos) invadiram a fortaleza. Assis Brasil não consentiu o conserto da vidraça, argumentando que "toda casa deve ter suas cicatrizes"
Assis Brasil brinca de Guilherme Tell em 1902, no Rio de Janeiro,
e acerta uma maçã sobre a cabeça de Alberto Santos=Dumont
O passeio continua pela sala do piano, onde as filhas de Assis Brasil alegravam os saraus. Nas paredes, fotografias expõem cenas insólitas. Numa delas Assis Brasil aparece brincando de Guilherme Tell com Santos-Dumont. Exímio atirador, o diplomata acertou uma maçã colocada sobre a cabeça do pai da aviação.
A sala de jantar vai virando a roda do tempo. Uma fantasmagórica caveira de cervo comprova outra peripécia. Em 1895, Assis Brasil foi nomeado embaixador plenipotenciário para Portugal, com a missão de melhorar as relações diplomáticas, então bastante azedas. Habilidoso e cativante, Assis Brasil logo caiu nas graças do rei Dom Carlos. Durante uma caçada, o rei mandou que o diplomata disparasse o primeiro tiro contra um cervo. Assis Brasil desculpou-se. O privilégio era de Sua Majestade. Como Dom Carlos insistisse muito, Assis Brasil atirou. O animal continuou andando. Então, o rei abateu a presa e, antes de se dirigir ao cervo caído, perguntou: "Mas onde está a sua fama de bom atirador?" A resposta: "Verifique a galhada direita, Majestade!" Diplomaticamente, Assis Brasil tinha atingido apenas o chifre do cervo (ver foto nº 27, na Galeria de Fotos abaixo).
Todos os 44 cômodos do castelo fascinam. A mobília dos aposentos de Assis Brasil veio de Paris. Doze lareiras aqueciam a família, Os banheiros ficavam dentro da fortaleza, numa época em que a lei mandava instalar sanitários fora das casas. Mas a biblioteca, talvez, seja a mais valiosa, com 15 mil livros. Há clássicos em inglês, francês e latim. Entre as relíquias, 22 volumes da Enciclopédia, de Diderot e D'Alambert, de 1751.
Os descendentes de Assis Brasil preservam o castelo. Zelam por cada fotografia, livro, cristal, prataria. Guardam datas e acontecimentos que permeiam a história do Rio Grande. Também estão mantendo a produção da granja. Os touros devon continuam arrebatando prêmios. As vacas jersey pastam ao redor das muralhas, fornecendo o leite para a fabricação da centenária manteiga de Pedras Altas. Assis Brasil e Lídia repousam no cemitério da Boa Viagem, à sombra de ciprestes e eucaliptos que semearam.
O texto acima é de Nilson Mariano, publicado em Zero Hora,
Porto Alegre, Ano 34, nº 11.681, 10/08/1997, páginas 47 a 49.
ACERVO FOTOGRÁFICO
As fotografias abaixo pertencem à família de Joaquim Francisco de Assis Brasil e não estão disponíveis, sem prévia autorização, para publicação por qualquer meio.