DIÁRIO DE CECÍLIA NARRA A VIDA NO CAMPO

Por entre as ameias do castelo de Pedras Altas, Cecília de Assis Brasil não contemplou apenas as ondulações vertiginosas do campo . Numa época marcada por sabres ensanguentados, botas embarradas e relinchos de cavalos, a jovem, que devorava as poesias do norteamericano Henry Longfellow (1807-1882) em inglês e ouvia sinfonias de Ludwig van Beethoven na solidão do pampa, registrou o citidiano e as revoluções do início deste século. No seu diário, tão preciso quanto sensível, Cecília contou a vida no castelo e as conflagrações entre maragatos (libertadores de lenço vermelho no pescoço) e chimangos (republicanos de lenço branco).

Primeira filha do segundo casamento de Joaquim Francisco de Assis Brasil, Cecília era diferente da maioria das moças da virada do século. Ela nasceu em Washington, a 26 de maio de 1899, quando Assis Brasil era embaixador nos Estados Unidos. Morreu aos 35 anos, solteira, fulminada por um raio quando cavalgava nas proximidades do castelo de Pedras Altas. As fotos mostram uma mulher de olhos morenos arrebatadores, mãos delicadas, feições suaves e um sorriso compreensivo.

Cecília guardava o castelo quando o pai precisava se ausentar, peregrinando pelas cortes em intermináveis discussões diplomáticas. Era caseira e culta, conciliava as tarefas domésticas com os estudos. Gostava de produzir queijos, bater manteiga, dar mamadeira a cordeiros órfãos, cuidar de uma ninhada de pintos, colher aspargos. Sabia o ponto exato da calda de doce de figo. Também acompanhava o o desenvolvimento das vacas jersey, importadas da Inglaterra, e das ovelhas karakul . Divertia-se com os irmãos em pescarias de lambaris ou longas cavalgadas. Lia autores clásicos e revistas como a Life e Les Annales quase diariamente. Quando estava triste, preferia os poemas de Longfellow. Atenta, observava a movimentação de políticos e revolucionários que iam ao castelo se aconselhar com Assis Brasil.

Os diários de Cecília (compilados pelo jornalista Carlos Reverbel e publicados pela L&PM) demonstram o quanto a família Assis Brasil adorava o campo. A 24 de outubro de 1916, quando tinha 17 anos, Cecília anotou:

Estive muito tempo parada, admirando os lindos touros devon há pouco chegados. São duas magníficas estampas... Demos umas voltas a pé, de tarde, e as minhas companheiras tentaram convencer-me que São Paulo ou Paris são melhores do que o Ibirapuitã. Quando for a esses lugares saberei ao certo, mas por enquanto agarro-me ao meu ideal: a vida do campo. Sou assim, e agora?

As anotações no diário mostram como era a rotina em Pedras Altas. Os Assis Brasil madrugavam, faziam serviços de casa e nunca descuidavam da educação. Cecília falava inglês e francês, mas também entendia o linguajar rude dos gaúchos. Tanto podia ler The Jungle Book, de Rudyard Kipling, como citar expressões do tipo "de vereda" (repentinamente), "mateando" (tomando chimarrão) e "bóia" (refeição). A três de janeiro de 1923 ela antecipou a inconformidade dos libertadores, liderados por Assis Brasil, com fraudes eleitorais que reconduziram Antônio Augusto Borges de Medeiros ao governo pela quinta vez:

Encaixotei a manteiga para diversos fregueses (Cia Swift, C. Wigg, F. Lima, Hotel Schaefer e F. Amaral). Enviei também as contas do mês passado. Mandei parar rodeio e dar sal ao gado. Os jornais continuam a trazer notícias alarmantes. Parece que o Chimango (os maragatos apelidaram Borges de Medeiros com o nome dessa espécie de gavião) está distribuindo armamentos. We are prepared!

Em 19 de abril de 1923, Cecília alertava que a guerra era inevitável. Os moradores do castelo de Pedras Altas ficaram apreensivos e adotaram algumas providências:

... É quase certa uma revolução, quando o Borges tomar posse. Os jornais publicam um telegrama do papai, aconselhando calma e dignidade diante das provocações, e a reagir com energia diante de ataques materiais... Decidimos esconder o que pudermos, sem dar nas vistas. Subi ao esconderijo, feito a propósito. Auxiliada pelas manas, lá depositei diversas pastas de papéis, com a maior economia de espaço... Imagino só a aflição da mamãe, tão longe de nós. Antes de me deitar dei um tiro num cão que estava comendo lavagem na porta da cozinha.

Cães e chimangos não eram bem-vindos. A revolução de 23 convulsionou o Estado. Cecília e os irmãos tiveram de abandonar o castelo, exilando-se no Rio de Janeiro, onde já estava o casal Assis Brasil. Cecília voltaria para Pedras Altas outras vezes. Ela poderia ter morado em Paris ou Washington. Preferiu a amplidão dos campos.

Transcrito de texto de Nilson Mariano (Zero Hora, Porto Alegre, 10/08/1997, pag. 48)