JOSÉ BICCA LARRÉ
![]()
O jornalista e escritor JOSÉ BICCA LARRÉ nasceu em Alegrete/RS em 1929 e reside em Santa Maria/RS há quase 50 anos anos.
"Nasci no Alegrete. Pela graça de Deus."
"Que enormes e indissolúveis forças telúricas tem o Alegrete! Quem nasceu ou viveu lá, não deslembra nunca do lugar que fica entranhado na gente, como se fosse nossa patriazinha única e verdadeira. O alegretense ostenta como uma condecoração preciosa o seu gentílico."
(J. Bicca Larré)
JOSÉ BICCA LARRÉ nasceu em 25-11-1929, em Alegrete/RS, filho de Marcos Larré Filho e Corália Bicca Larré. É casado com a professora, declamadora e poeta Ruth Farias Larré.
Reside em Santa Maria/RS desde os anos sessenta, onde é funcionário público federal, aposentado do Tribunal Regional do Trabalho.
Iniciou-se no jornalismo no mais antigo jornal do Rio Grande do Sul, a Gazeta do Alegrete, aos 14 anos de idade.
Em 1950, transferiu-se para o jornal A Razão de Santa Maria/RS, órgão dos Diários Associados de Assis Chateubriand. O convite veio depois da cobertura que fez pelo jornal Gazeta de Alegrete sobre a queda do avião em que morreu o senador Salgado Filho.
"Eram dias de chuva e neblina. A Região Central e a Fronteira ficaram isoladas. Fui o primeiro a chegar ao local onde havia caído o avião, de jipe, em São Francisco de Assis. Cláudio Candiota, diretor de A Razão na época, fez um contato pedindo para eu passar a cobertura. Mandamos tudo em um teco-teco. Depois disso, veio o convite" (JBL).
Alguns anos após, mudou-se para Porto Alegre/RS, pois foi convidado para a redação do Diários de Notícias, Na capital, também trabalhou em A Hora.
"Virei repórter itinerante, que seria o enviado especial de hoje. A gente mostrava a carteira de jornalista e viajava de graça, até de avião. Vem daí eu chamar o Jornalismo de "miséria dourada". Éramos bajulados, mas tínhamos a triste realidade no fim do mês, já que jornalista tinha salário baixo e sempre atrasado" (JBL).
Em Caxias do Sul/RS, dirigiu a sucursal regional dos Diários Associados, até que, cansado das condições salariais, pediu demissão.
Em Caxias, ainda trabalhou no jornal O Pioneiro, mas saiu e montou seu próprio jornal, que era o semanário Panorama, que circulou por seis anos consecutivos.
"Lá compramos brigas históricas com o poder. Também foi onde o Pedro Simon foi lançado à política, como vereador. O Panorama funcionou entre 1956 e 1962. Foi a única vez em que ganhei dinheiro com a profissão" (JBL).
Depois disso (1963), veio o casamento com a professora e escritora Ruth Farias e a volta a Santa Maria. Ingressa como funcionário no Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região. Participou como Secretário da Imprensa e Relações Públicas da administração municipal que foi cassada pelo golpe militar de 64. Semanas após o golpe militar, Larré ficou preso durante 45 dias por "ação subversiva".
A partir de 1968 voltou a integrar a equipe do jornal A Razão. Dividia o dia com a redação de A Razão e a revista de sua criação - Agora, que, vista como concorrente, rendeu-lhe demissão do jornal por justa causa.
Foi assíduo colaborador dos jornais A Hora, Folha da Tarde e Jornal do Dia, estes de Porto Alegre/RS.
Atuou no extinto jornal santa-mariense O Expresso, onde ficou até seu fim, em 1996.
O jejum durou até 2002, quando ele voltou aos jornais com suas crônicas no Diário de Santa Maria (pertencente à RBS - Rede Brasil Sul de Comunicações). Mantém uma coluna nas edições de fim de semana, no caderno "MIX", desde o lançamento desse prestigioso diário, em 2002.
"Sempre fui articulista, considerado um polemista. Mas o tempo foi passando, e as razões de ordem sociopolítica fizeram com que se emitissem cada vez menos opinião. Aí, fomos ficando com a crônica, que é mais vasta. E, como o espaço dos textos nos jornais também foi diminuindo, a crônica facilitou a escrita" (JBL).
É detentor, desde 1985, do grau 33, conferido pelo Supremo Conselho do Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceito da Maçonaria para a República Federativa do Brasil. Foi "Venerável Mestre" por cinco vezes e fundador de duas lojas maçônicas em Santa Maria.
Foi Conselheiro Estadual da Cruz Vermelha Brasileira, do Rio Grande do Sul.
ATIVIDADE LITERÁRIA
Foi nas páginas dos jornais que começou sua atividade literária, como cronista e escritor. Suas primeiras participações em livros ocorreram em obras coletivas dos intelectuais santa-marienses.
É membro fundador da Associação Santa-mariense de Letras, tendo participado de todas as edições de produção coletiva publicadas pela ASL - mais tarde transformada em Academia Santa-mariense de Letras.
1995 - Publicou seu primeiro livro individual, de crônicas e contos, intitulado Sereias e Lobisomens, considerado obra destaque literário naquele ano em Santa Maria.
1996 - Publicou Maçonaria Esotérica para Maçons (E um pouco de História também), de circulação fechada, exclusivamente para maçons.
É membro correspondente da Academia Brasileira Maçônica de Letras.
1997 - Recebeu a Comenda do Mérito Literário e o distintivo de ouro, a mais alta distinção conferida pela então Associação Santa-Mariense de Letras.
2002 - Publicou seu terceiro livro, sob o título Tintim por tintim (Memórias de um jornalista), cujo lançamento ocorreu na Feira do Livro de Santa Maria.
2003 - Publicou seu primeiro romance, intitulado A Estrela Dalva, lançado na Feira do Livro de Porto Alegre.
2005 - Foi o Patrono da Feira do Livro de São Sepé/RS.
2006 - Foi empossado na Academia Santamariense de Letras, junto com sua esposa, Ruth Farias Larré - poeta e declamadora, ocupando a cadeira nº 4, que tem o poeta Alceu Wamosy como patrono.
Posse na Academia Santamariense de Letras - José e Ruth Larré.
2007 - Durante a Feira do Livro de Santa Maria, lança novo livro de crônicas (Crônicas do diário), obra de 50 textos, divididos em três partes: "Marotas", "Alegretinas" e "Oníricas".
"Estou feliz. Crônicas do diário é meu quinto livro de produção individual e carrega em suas páginas o meu suor literário dos últimos anos. De fato, é um resumo do melhor que pude fazer, ora para alegrar meus leitores ora para tecer minha crítica social ora para relatar mágoas e alegrias que, afinal, fazem a vida de todos nós. Por isso, as intitulo "do diário", quero dizer: da minha atividade cotidiana nas letras, sejam elas minúsculas ou maiúsculas."
"... neste dolorido ato de coragem e doação que representa a publicação de um livro. É como um verdadeiro parto. É como trazer ao mundo um novo filho, um novo ente, saído das próprias entranhas. É uma parição do cérebro e do coração."
" Viso proporcionar aos que me privilegiam como leitores, o melhor de mim."
"... o livro é muito mais barato para quem adquire do que para quem escreve e publica. Podem crer."
(J.B.Larré)
(...) "Na verdade, são muitas as lições de crônica que os escritos de Larré oferecem, e as três seções do livro, "Marotas", “Alegretinas" e "Oníricas", evidenciam isso. Narrativas, descritivas e/ou líricas, as Crônicas do Diário ensinam que o ritmo, a coesão, a objetividade e a economia são ingredientes básicos nesse gênero limiar entre jornalismo e literatura. E o domínio do vernáculo também impõe-se como fundamental: Larré sabe com profundidade das normas do idioma, dos recursos, dos truques, dos efeitos e da beleza que o dizer confere ao dito. Com vocabulário requintado e culto, mas temperado de acordo com as temáticas que desenvolve, diverte o leitor com a mesma naturalidade com que o leva à reflexão, ao fato histórico, ao deslumbramento ou à comoção.
Também se caracteriza como severo na crítica e arguto observador. Na diversidade de seus temas, esses traços podem ser verificados com nitidez. Sua percepção aguda para com todas as coisas faz com que pareça um verdadeiro radar, e para isso colaboram seu imenso lastro cultural e o olhar particularmente humanizado. Seus textos passam um conhecimento e uma visão especial do mundo, das pessoas, dos acontecimentos, da natureza, da vida e da morte."
Lígia Militz da Costa
(da Academia Santa-Mariense de Letras)
Sobre seu novo livro, assim expressou-se J. Bicca Larré, em sua coluna semanal no Diário de S.Maria, em 12-05-2007:
![]()
Meus prezados leitores: neste domingo, 13 de maio de 2007, lanço meu quinto livro. São crônicas do meu cotidiano. Selecionei 50 textos, com a única intenção de reunir o melhor que posso fazer. Viso proporcionar aos que me privilegiam como leitores, o melhor de mim. São textos do meu dia-a-dia. Muitas deles, a grande maioria, vieram a público nas páginas do Diário de Santa Maria. Outros são inéditos ou estão sendo republicados porque agradaram mais e tiveram elogiosa referência da crítica e de escritores como Moacyr Scliar, Donaldo Schuler, Nilza Castro (de doce e saudosa memória), Lígia Militz da Costa e outros.
O novo livro sai com o título propositadamente ambíguo de Crônicas do diário. A capa e as fotos são de meu filho Gustavo, e a edição, que é independente, traz, pela primeira vez, o aval literário da Academia Santa-Mariense de Letras. A apresentação é de autoria da mestra e doutora em Letras, professora Lígia Militz da Costa, cuja opinião crítica recomenda meu novo livro, certamente pelo valor que o leva aos leitores.
Estou feliz. Crônicas do diário é meu quinto livro de produção individual e carrega em suas páginas o meu suor literário dos últimos anos. De fato, é um resumo do melhor que pude fazer, ora para alegrar meus leitores ora para tecer minha crítica social ora para relatar mágoas e alegrias que, afinal, fazem a vida de todos nós. Por isso, as intitulo "do diário", quero dizer: da minha atividade cotidiana nas letras, sejam elas minúsculas ou maiúsculas.
O lançamento, repito, será feito na Feira do Livro, neste domingo, às 17h, na Praça Saldanha Marinho. Convido a todos os meus amigos e leitores para que vão ajudar-me a trazer à luz o meu Crônicas do diário. É um apoio indispensável para animar-me neste dorido ato de coragem e doação que representa a publicação de um livro. É como um verdadeiro parto. É como trazer ao mundo um novo filho, um novo ente, saído das próprias entranhas. É uma parição do cérebro e do coração.
A entrada na Feira do Livro é grátis, e o livro é muito mais barato para quem adquire do que para quem escreve e publica. Podem crer.
2008 - Foi eleito o Patrono da Feira do Livro do Sesquicentenário de Santa Maria-RS e, durante a Feira, lança um novo livro O Cego e a prostituta (duas histórias), obra de ficção com 144 páginas. Nota da Webmaster: A escolha do patrono é feita pelas entidades que participam da comissão central organizadora: Prefeitura, UFSM, Câmara Santamariense do Livro, UNIFRA, CESMA, Sesi, Sesc e 8ª Coordenadoria Regional de ducação. As instituições consultam suas bases e indicam de três a cinco candidatos. Nas reuniões entre as entidades, são feitas a seleção, o levantamento de currículo e a defesa dos nomes. Da lista, três indicados vão à votação entre os oito participantes da Comissão Organizadora. Depois são escolhidos o Patrono(a) da Feira do Livro, o patrono(a) da Feira do Livro Infantil e um santamariense, já morto, ligado à cultura da cidade.
Larré fazendo pronunciamento na cerimônia de lançamento da Feira do Livro.
Ao seu lado, Selma Feltrin, Patrona da Feira do Livro Infantil.
"Faço um inventário da própria vida e lhes digo que, dos meus 78 anos, quase 50 são santa-marienses". Com estas palavras, J. Bicca Larré deu início ao seu pronunciamento na cerimônia de lançamento da Feira do Livro 2008. O Patrono convidou a comunidade a "cultuar a cultura" na Feira 2008 e anunciou o lançamento de O Cego e a Prostituta (Duas histórias), sua mais recente obra. Bicca Larré faz um apelo: "Temos que ler um livro, e outro, e outro, e outro, para libertar o que de mais nobre tem o homem: o seu pensamento".
Das lembranças do escritor, veio a inspiração para os seus personagens. Veja abaixo uma matéria com o escritor, no Diário de Santa Maria.
COM CEGOS E PROSTITUTAS
Bianca Backes
Diário de Santa Maria-RS, em 02-05-2008.Não é de hoje que o patrono desta edição da Feira do Livro de Santa Maria, o escritor e jornalista José Bicca Larré, 78 anos, alimenta afeição por cegos e prostitutas - que serviram de inspiração para sua última obra, O Cego e a Prostituta (Duas Histórias), que será lançado neste domingo. Seu talento para a arte veio cedo, apesar da infância pobre, como ele mesmo conta. Aos 14 anos, ele foi convidado a trabalhar como repórter do jornal Gazeta do Alegrete, na sua cidade natal. E, no Instituto de Educação Osvaldo Aranha, onde estudava, participava de uma orquestra. Parte (menor) do grupo tocava também em serenatas e cabarés da cidade.
![]()
- O meu pai tinha morrido, e a gente, lá em casa, não tinha nem o que comer direito. Então, eu fazia o que aparecia para conseguir algum dinheiro - relata Larré.
Sabendo que ele passava fome, as mulheres que trabalhavam na casa noturna passaram a lhe servir um prato de comida nos intervalos das apresentações. Era a refeição mais nutritiva do seu dia. Tudo com o consentimento da cafetina, que se chamava Anita (o nome que deu à personagem do seu livro). Segundo Larré, uma mulher de alma nobre, que também ajudava crianças, doando-lhes material escolar e roupas.
- Isso sempre ficou marcado em mim. Tenho muita gratidão por aquelas mulheres. Fiquei com essa imagem boa das prostitutas - explica o escritor.
Quanto aos cegos, estes também sempre o atraíram. Para Larré, quem não tem o sentido da visão tem os outros mais aguçados. É assim, pelo menos, com todos os que ele conhece.
- Tenho uma amiga cega de nascença, a Lucy Portugal Kortz. Ela sabe identificar a cor das rosas. E não erra uma - exemplifica.
Lançamento - Quando foi convidado para ser patrono da Feira do Livro, no ano passado, Larré resolveu escrever prostitutas e cegos. Duas histórias, distintas, já haviam começado a ser escritas. Depois de finalizá-las e fazer uma ligação entre elas, estavam prontas para ser editadas.
- O convite foi uma surpresa. Em contrapartida, achei que devia lançar algo novo. Nunca tive a ambição de ser patrono - afirma o escritor, confessando que o seu único desejo "secreto" é ser considerado cidadão emérito de Santa Maria.
Larré na sacada de sua casa.
2009 - É agraciado com o título de CIDADÃO BENEMÉRITO 2009, concedido pela Câmara de Vereadores de Santa Maria. Tal título é destinado àquele que, por destacada atuação no meio social, cultural, político, haja prestado relevante srviço de interesse público ao município.
A Sessão Solene de entrega do título de Benemerência está marcada para o dia 7maio, às 18h.
Cronologia de seus livros:
Sereias e Lobisomens - crônicas e contos (1995).
Maçonaria Esotérica para Maçons e um pouco de História também - de circulação fechada (1996).
Tintim por Tintim - Memórias de um Jornalista (2002),
A Estrela Dalva - romance (2003);
Crônicas do diário (2007). O cego e a prostituta (duas histórias) - ficção (2008).
Nota da webmaster:
OS livros de J.Bicca Larré (produção independente) podem ser solicitados diretamente ao autor através de e-mail (rutlarre@terra.com.br ) ou pelo telefone (55)3221.3932 .
Abaixo a saudação a J.BICCA LARRÉ feita pela acadêmica TANIA LOPES, por ocasião da Feira do Livro de Santa Maria, em maio/2008.
HOMENAGEM AO PATRONO J.BICCA LARRÉ
Tânia Lopes
Academia Santamariense de Letras.
![]()
Querido homenageado, J. Bicca Larré, Ruthinha e demais familiares.
Caríssimos amigos das letras, da praça, da Feira que sacia nossa fome de criatividade e de saber!
Caríssimos irmãos, legítimos ou adotados, da nossa sesquicentenária Santa Maria.Coube–me a prazerosa tarefa de dizer algo para nosso querido Patrono, e particular amigo J.Bicca Larré. Pinço, nos seus livros, a inspiração para extrair um pouco a essência dessa sua longa e produtiva vida.
Em Sereias e Lobisomens, encontro a delícia do criar e fazer viagens fantásticas ao imaginário e, rapidamente, em algumas crônicas, um convite à emoção e ao riso, bem ao seu modo! Em A Estrela Dalva (bem como naquela que está pendurada no alto!) vejo brilho. O brilho do escritor sensível, criador da personagem forte e sofrida do livro com o mesmo nome. E é esse mesmo brilho que também está presente e há de perdurar no espaço conquistado pelas Crônicas do Diário... E que se mantenha irmanado nos intrincados mistérios que certamente procura elucidar na Maçonaria Esotérica para Maçons. Passeio os olhos ( isso, passeio mesmo) para enfronhar–me nos caminhos e escaninhos desta nossa cidade, para melhor conhecê–la num tempo pretérito... Por teus olhos, amigo Larré, descubro esmiuçado, Tintim por tintim, tudo o que aconteceu antes de eu enamorar–me desta Santa Maria da Boca do Monte. Que ciúme! O livro O cego a prostituta me remeteu a minha “patriazinha”, Itaqui, onde se sabia o nome de cada uma das prostitutas, com suas histórias, suas dores e amores... Lembrei–me de que ouvia à noite, distante duas quadras da nossa casa, a gaita e os pandeiros do “Gralha” (filho de uma famosa cafetina), que animava as noites dessas mulheres e de seus freqüentadores.Será que não andaste tocando pandeiro por lá?
Amigo Larré, acho que a falta de luz e brilho nos olhos do cego (O cego e a Prostituta) foi compensada com maior sensibilidade, ou tu, como encantador das palavras, adoçou–lhe a visão interior mesclando-a com a tua, para nos brindar com tanta riqueza! Emocionou–me tua gratidão às mulheres sofridas que emprestam o corpo para simular o amor aos que dele carecem. Se alguns pratos de comida que delas ganhaste ou os trocados que generosamente te alcançavam ajudaram a tornar–te o homem que és, elas, acomodadas em algumas nuvens, espiam esta festa e estão batendo palmas para ti!!! Como nós fazemos!
Abaixo uma crônica de J.BICCA LARRÉ escrita após o encerramento da Feira do Livro de Santa Maria - 2008.
AVE, GENTE!
Bicca Larré
Diário de Santa Maria, edição de 25-05-2008.
![]()
Desde o dia 14 de novembro do ano passado, quando o então secretário da Cultura, Humberto Gabbi Zanatta me visitou e me surpreendeu com o convite para ser patrono da Feira do Livro do Sesquicentenário, estive envolvido nesse certame literário.
Agora, depois de 15 dias de Praça Saldanha Marinho, entre muitas barracas de livrarias e de editoras, retorno aos meus exercícios físicos, às minhas avaliações médicas e à minha poltrona preferida na convalescença do sucesso.
Foram duas semanas inesquecíveis, de muitas homenagens, de incomensurável solidariedade e de inúmeras manifestações de simpatia e tolerância. Senti-me feliz, recompensado das canseiras e recomposto na minha auto-estima. Às vezes, gosto do que escrevo. Mas ficar sabendo, como fiquei, que há centenas de pessoas que me lêem e não desgostam, é realmente um privilégio.
Entretanto, as cenas que me encheram os olhos de alegria e lágrimas foram as multidões que vi na Feira do Livro, durante todos os 15 dias de tempo bom, de sol e sem chuvas, coisa inédita. Encantaram-me as levas de gente disputando lugar diante das bancas de livros, ouvindo as palestras, os debates, as entrevistas do Livro Livre, os teatrinhos de fantoches para os pequeninos e as encenações para gente grande.
Nunca uma praça foi tanto do povo. E, se não havia condor no nosso céu, substituiu-se a ave símbolo da liberdade pelo céu claro dos dias e pelos luares noturnos.
Foram tantas homenagens que, se não houvesse, há anos, colocado uma eficiente válvula de escape no meu ego, certamente teria explodido de orgulho e vaidade.
Agradeço a todos. De maneira especial, ao Marcelo Canellas, que escreveu uma crônica tão bonita e tão gratificante sobre o J do meu nome. A ele, a certeza de que, na próxima Feira, quero trocar de lugar: que esteja eu a escrever sobre o seu sucesso e ele a lançar seu livro-solo, que precisa vir a lume, com o brilho do autor.
Os alunos das sextas séries do Instituto Estadual de Educação Olavo Bilac elaboraram um jornalzinho de bolso em minha homenagem, com fotografia e texto, dizendo-me um dos "tesouros de Santa Maria"! E, no jornalzinho, que se chama Sintonia, sob a orientação da professora de português Marli Silveira, a notícia surpreendente e alentadora de que seus alunos têm uma hora de leitura semanal em sala de aula. Podendo cada um escolher seu livro, alguns chegam a ler um livro por semana. Como me fizeram bem a homenagem e a informação! Eu, que não me comportava bem em certas aulas para ser mandado para a biblioteca da escola... Que bom que os alunos do Bilac não mais precisam fazer isso.
Dos jornalistas e cronistas do Diário, estávamos lá o Francisco Dalcol, a Sione Gomes, o Orlando Fonseca, o Diomar Konrad, o Marcelo Canellas, e eu. Todos envolvidos com o tema, com a Feira do Livro, com a cultura.
Ave, gente!
Crônicas sobre Alegrete e sua gente
(...)
"As crônicas de "Alegretinas", por exemplo, dão um show para o leitor com as lembranças exclusivas da cidade do Alegrete. Recriado pela memória fotográfica e afetiva do escritor, Alegrete sobressai no cenário do Rio Grande como um universo inesquecível e de brilho único, seja por sua fisionomia regional e urbana, sua história, sua tradição educacional e cultural, suas figuras típicas e até por alguma libertinagem, seja pelos grandes vultos que lá nasceram e de lá saíram, gerando a vocação da cidade de exportar talentos".Lígia Militz da Costa
(da Academia Santa-Mariense de Letras)
Nota da webmaster:
Duas crônicas do seu livro Crônicas do diário (Patriazinha e Do Alegrete) estão publicadas na página Alegrete - http://assisbrasil.org/joao/alegrete.htm.
A crônica em que Larré descreve o seu primeiro encontro, ainda menino, com Mário Quintana (Nostalgias) está publicado na página sobre Mário Quintana ( http://assisbrasil.org/joao/quintana.htm ) e o texto em que relata uma história hilariante contada pelo escritor alegretense Antônio Brasil Milano (Trem tombado) está inserida AQUI (página sobre Antônio B. Milano).
DESENCANTO
J. Bicca Larré
Crônica publicada no Diário de Santa Maria, em 11-02-2007.
Apertou-me a saudade. E era uma saudade dupla e doída. Precisava rever meu irmão Francisco, que há tempos reside em Uruguaiana, e está acometido de moléstia irreversível. Necessitava pisar de novo no solo do meu Alegrete e reabastecer de telurismo os meus olhos cansados de tanto ver outras paragens alheias. Fiz uma viagem temerária com meu filho Gustavo. Saí de Santa Maria no cedo da manhã e cheguei de volta à noite. Foi uma gauchada, como se vê.
Parei apenas um instante no Alegrete. Mas, na correria, andei pela praça central, onde vaguei pelos passeios, recordando coisas, bebendo as belezas daquele logradouro, fotografando monumentos, admirando as velhas árvores, vendo a revoada da passarada. Fotografei as duas enormes acácias, debaixo das quais o poeta Alceu Wamosy escreveu o imortal soneto Duas Almas. Procurei os dois pés de magnólia que floravam nos verões do meu passado e perfumavam os meus sonhos juvenis.
Encontrei ainda uns poucos minutos para dar alguns passos apressados pela Rua dos Cataventos e fotografar a casa onde nasceu e se criou Mário Quintana.
Dia de semana, em plena manhã de sol muita gente debalde, gente humilde sentada na praça, ocupando todos os bancos. Gente desempregada e baldia. Gente vinda, por certo, do imenso mundo rural das cidades pecuárias da Fronteira Oeste do nosso Rio Grande. Gente de todas as idades, de olhar cansado e tez morena, queimada de sol e curtida de desilusão e desamparo.
![]()
Sentei ao lado de um homem avelhantado, cuja fisionomia me pareceu familiar. Trajava uma bombacha surrada e uma camisa velha. Puxei conversa e ele se mostrou receptivo. Quando lhe contei que morava em Santa Maria, ele me disse que teve um colega no curso primário do Colégio Modelo, que nunca mais vira, mas que sabia estar residindo em Santa Maria. Perguntei quem era e ele disse meu nome! Respondi que já ouvira falar nesse sujeito. Disse-me chamar-se Adroaldo Jesus de Deus. Era ele! Como poderia esquecer esse santo nome do Adroaldo. Lembrei-me de nossas aulas e das correrias pelo pátio grande do colégio, nas horas do recreio. Recordei, até, que ele levava sempre, para a merenda, um ovo cozido e uma pitada de sal para temperá-lo!
Quase enfartei com essa dose exagerada de emoção. Nem me identifiquei. Levantei-me apressado e saí para conter uma lágrima teimosa e sentimental que explodiu e rolou, cascateando, pelas rugas do meu rosto.
Literalmente, fugi para o carro, rumo a Uruguaiana. E o Adroaldo deve ter ficado a perguntar-se quem seria aquele velho caduco e mal-educado, que saiu assim, sem ao menos dizer adeus!
O MEU RIO
J. Bicca Larré
Crônica publicada no Diário de S.Maria, em out/2006.
A tragédia biológica do Rio dos Sinos, que matou 100 toneladas de peixes, preocupa minha consciência ecológica. A ganância e a irresponsabilidade de alguns industriais condenaram fauna e flora ribeirinhas a alguns anos de agonia e recuperação. Pescadores da região emagrecerão suas famílias à mingua de peixes.
![]()
No meu rio não tem isso. Meu rio é calmo e tranqüilo, tem coração e vida. Nas suas águas claras, nadam dourados e traíras, e os pescadores não usam redes. Meu rio é o velho e pacato Ibirapuitã que, de tão amigo, abraça a cidade do Alegrete, num abraço de ilha, de pedras grandes e areias claras. Falo do rio da minha infância. Como andará, hoje, o meu Ibirapuitã?
Meu rio desvia o rumo do seu curso natural, e entra cidade adentro, descrevendo longa curva bem traçada, num abraço imenso. Gosto desses rios que banham cidades. Melhores do que aqueles outros que circundam vários povoados, como o Uruguai e o Paraná, mas não são exclusivos. Não gosto desses rios que se tornaram fronteiras e não têm pátria nem querência.
Parece que o meu rio não corre pela cidade, mas que a cidade é que o envolve. De fato, se abraçam, rio e cidade, num amplexo telúrico e fraterno. Já dentro de Alegrete, ele contorna, a estibordo, a velha usina de energia elétrica, cheirando a óleo, e as enormes formações rochosas, de pedras imensas, arredondadas e lisas, nas quais as lavadeiras coravam lençóis e fronhas, anáguas e roupas brancas, a poder de sabão, anil, água e sol. E as pedras ficavam brancas e polidas, leitos em que, nas noites de luar, realizávamos o sonho virginal das fogosas donzelas do lugar.
Depois, vinha a grande curva do rio e o Porto dos Aguateiros, onde as velhas pipas rangedeiras bebiam água limpa e fresca. Em seguida, ficava o Porto dos Casais, lugar de refrescarem-se as famílias, nas tardes de verão. E a curva continuava, quase a fechar-se, no caminho das grandes praias, como a das Areias Brancas.
![]()
Após o demorado abraço, voltava o rio a seguir caminho, no seu destino de belezas e de história. Vinham, então, os subafluentes diversos.
O grande abraço do meu rio na sua terra mais querida começa na histórica Ponte do Ibirapuitã (foto), palco de encarniçados e sangrentos combates do passado glorioso do Rio Grande. E o rio afrouxa o abraço quando recebe as águas dos arroios querendões e invejosos que se seguem. E prossegue, renovado e telúrico, o meu velho e saudoso Ibirapuitã, na sua generosa sina de ajudar o Rio Uruguai a ser fronteira e mar.
PONTE
J. Bicca Larré
Crônica publicada no Diário de Santa Maria, em 22-11-2008.
Existem coisas que são mágicas, como algumas palavras. São simbólicas, as coisas de que falo. Os portais são assim. Se abrem para as entradas, para os inícios, para as renovações, para os novos caminhos. As portas, portanto, são simbólicas também. É por meio delas que entram todas as sensações e saem as palavras. E as palavras têm forças próprias e graça e vibrações diversas. Há as que animam e iluminam, mas também existem as que ferem, as que acabrunham e as que matam. Mas existem as que são sagradas, místicas, mágicas.
As pontes têm um simbolismo ainda mais admirável. Além de abrirem portas, elas nos conduzem a novos mundos, atravessam-nos para o outro lado das incertezas. Têm início, caminho e fim. A ponte mais simbólica e mais etérea é o arco-íris, que conduz da borrasca até o esplendor.
Chega de sonhar, que a vida tem de transcender as quimeras e as utopias. As pontes de que falo agora, têm a dureza das estruturas pétreas, de ferro ou de madeira, porque estas pontes são coisas concretas.
![]()
Falo de pontes por saudade. Porque, para mim, não existe ponte mais ponte do que a ponte histórica do Rio Ibirapuitã (foto), que cruza o meu Alegrete. Ela não é uma pontezinha qualquer e meramente incidental e arquitetônica. Embora não seja pênsil, ela pulsa, significa e é. Sabem quando alguma coisa é? Definitivamente? Pois a ponte do Ibirapuitã é assim. Serviu de passagem e sepultura para guerreiros que lutavam por um ideal histórico. Foi palco de entreveros cruentos entre chimangos e maragos. Nela, entrincheiraram-se bravos e morreram heróis temerários e quixotescos.
A Ponte do Ibirapuitã, nos lânguidos de seu destino, tem valores sociológicos. Nela, termina o campo longe. E nela, começa a cidade histórica, devagarzinho, indolente, teimando na sua preguiça de crescer. Primeiro, pelas vilas ribeirinhas, por ruas e avenidas tímidas, por onde a arquitetura vai crescendo.
Quanta gente, como eu, nascidos no Alegrete, tem saudade do Ibirapuitã e da sua ponte! Aqui, muitos me lêem, me telefonam, me enviam recados, me cumprimentam e remetem e-mails atropelados. Menos por solidariedade e mais por saudades do Alegrete, do seu rio e da sua ponte. O que nos une é o telúrico do rio, da ponte e do chão alegretense.
Eles me pedem que escreva mais, que fale mais, que diga mais sobre o Alegrete, da sua gente antiga e das suas ruas velhas. E me solicitam que relembre o nome dos que já se foram. Que enormes e indissolúveis forças telúricas tem o Alegrete! Quem nasceu ou viveu lá, não deslembra nunca do lugar que fica entranhado na gente, como se fosse nossa patriazinha única e verdadeira. O alegretense ostenta como uma condecoração preciosa o seu gentílico.
Por isso lhes digo: ponte que é ponte, é a Ponte do Rio Ibirapuitã. Quanto ao rio, se, no dizer de Vianna Moog, o Rio dos Sinos imita o Reno, digo-vos que o Ibirapuitã, com certeza, imita o Nilo.
WAMOSY e ALEGRETE
J. Bicca Larré
Crônica publicada no Diário de Santa Maria, em 05-08-2007.
Embora tenha nascido em Uruguaiana e morrido em Livramento, Alceu Wamosy morou seis anos em Alegrete, e ali viveu, certamente, os dias mais intensos de sua vida poética, e o desabrochar de sua fama.
Em Alegrete, ele dirigiu, aos 16 anos, o jornal A Cidade, fundado pelo seu pai. E, nas oficinas gráficas desse periódico, com o componedor nas mãos de tipógrafo, compôs e imprimiu os dois únicos livros que publicou em vida: Flâmulas e Na Terra Virgem. A quase totalidade dos sessenta e três poemas, contidos nesses dois tomos, foram escritos em Alegrete.
![]()
Na cidade-coração da Fronteira, a família Wamosy morou na Rua Barão do Amazonas, a meia quadra da praça Getúlio Vargas. No centro daquela praça, debaixo de frondosas acácias, Alceu escreveu seu mais famoso soneto: Duas Almas. O espaço e as árvores, preservados, ainda existem, assinalados pela Maçonaria. Eu me criei ouvindo essas histórias.
Rua Barão do Amazonas, praticamente deserta, numa tarde de domingo.
Ao fundo, vêem-se as árvores da praça Getúlio Vargas.Quando foi ferido, no combate de Ponche Verde, e já estava por ser degolado pelos soldados maragatos, dois irmãos, filhos do famoso coronel Vasco Alves Pereira, intercederam junto ao comandante Batista Lusardo, para que o poeta fosse poupado. Eles conheciam Wamosy, pois eram ambos alegretenses e, em Alegrete, conviveram com o adversário político mas amigo. Um desses irmãos era Hermínio Alves Pereira, respeitável ruralista, que foi meu padrinho de batismo e sogro de meu irmão Hyran. Batista Lusardo atendeu, e Alceu Wamosy foi transportado para um hospital da Cruz Vermelha, onde morreu, entretanto, onze dias depois.
Esses fatos, e muitas paixões por moças alegretenses, que valeram inúmeros poemas imortais, ligaram Wamosy a Alegrete, de forma definitiva.
Na cidade de Alegrete, Alceu Wamosy morou durante seis anos, primeiro na Rua General Sampaio e depois, na Rua Barão do Amazonas.
Foram muitas as divas que motivaram os poemas de Wamosy. Ele as cativava pela delicadeza de seu espírito e pelo brilho de seu estro.
Minha primeira professora de francês foi uma de suas musas. Já a conheci a meia-idade, casada e mãe de três filhos, dois dos quais foram meus colegas. Mas fiquei sabendo que, quando mocinha, dona Maria foi uma das jovens mais bonitas do Alegrete de seu tempo.
Indeléveis histórias essas, que tornaram Wamosy tão estreitamente ligado ao meu Alegrete. E a mim também, certamente.
NOSSA EMBAIXADA
J. Bicca Larré
Crônica publicada no Diário de Santa Maria, em 29-09-2007.
Quando, em 1950, vim para Santa Maria, eram poucos os alegretenses que aqui residiam. Santa Maria oferecia, então, poucos atrativos. A universidade somente foi criada muitos anos depois. Havia escolas, estudantes, ferroviários e militares. O comércio não chegava a ser um grande entreposto, mas um mercado persa desta metade oeste do Rio Grande. E, assim, os alegretenses ficavam lá mesmo, ou passavam de trem por Santa Maria e iam para Porto Alegre buscar estudos e outras perspectivas de vida. Lembro que os poucos alegretenses que aqui moravam eram tímidos e ensimesmados. Raramente referiam a nossa pequena grande cidadezinha fronteirista.
Devido à minha atividade como jornalista, não pude me esconder num recanto qualquer, obscuro e perdido, desta cidade "coração do Rio Grande". Desde o início, estive na vitrina dos acontecimentos, com plena atividade, nome e fotografia no jornal. Então, e só por isso, perguntavam-me de onde eu era. E, como nunca fui rogado, dizia, alto e bom som, ser do Alegrete. E sempre fiquei gabando-me publicamente dessa circunstância gentílica. Eu era um cidadão do Alegrete, de nascimento e de coração. E, assim, me tornei uma espécie de embaixador gratuito e incompetente da minha "patriazinha" nestas paragens ferroviárias de Santa Maria. Mas o tempo foi me desgastando, e eu fui sendo massacrado pela própria mediocridade. Considerei-me "aposentado" do cargo que, assim como o fizera o Barão do Itararé com o título nobiliárquico, eu mesmo me atribuíra.
![]()
Digo essas coisas para constatar, com grande alegria, que temos, de uns tempos para cá, nova "embaixada" alegretense nestas terras. E a embaixadora atual é, sem qualquer dúvida, muito mais competente do que eu. Muito mais legítima, muito mais ativa, com muito mais autoridade e competência. Com muito mais grandeza, talento e representatividade. Digo-vos que o meu Alegrete tem agora, como sua verdadeira e devotada representante, uma de suas filhas ilustres. Trata-se da dra. Marília Cechella, médica e conceituada professora de nossa universidade, que se fez diligente lidadora das coisas alegretenses. Internauta quase obstinada, ela vem magnificando o Alegrete, mostrando-o grande e significativo entre todas as demais patriazinhas gaúchas. E junta informações ricas e pormenorizadas, confiáveis e atuais. Pesquisadora minuciosa, ela criou um site (www.assisbrasil.org/joao), com uma sessão sobre Alegrete.
Marília Cechella ao lado de J.Bicca Larré e Ruth Larré, no dia
da posse deles na Academia Santa-mariense de Letras (15-12-2006).Esse trabalho de garimpagem que Marília Cechella faz, a credencia e recomenda à comarca de Alegrete como uma legítima embaixadora honorária da nossa lendária terra do Ibirapuitã. O atual governo alegretense deve reconhecê-la melhor e agraciá-la com um título oficial. É justo. Voltarei a falar sobre ela.
HISTÓRIA VIVA
J. Bicca Larré
Crônica publicada no Diário de Santa Maria, em 01-09-2007.
Somos nós que passamos pela vida ou é a vida que passa por nós? Depende. A vida passa por nós quando por ela passamos em brancas nuvens, como disse o poeta Francisco Otaviano. Sem nos dar conta do tempo, do espaço e dos acontecimentos que fazem a história. Essas considerações pseudofilosóficas me ocorrem porque, pela ignorância da minha meninice, não me dei conta da história que me passava à frente. Nascido em 1929, eu não sabia por que meu pai era amigo de Oswaldo Aranha; por que e como se tornara funcionário federal, escrivão do Posto Fiscal de Repreensão ao Contrabando em Alegrete. Eu não alcançava a razão e o significado daquela grande fotografia de corpo inteiro, que encimava a porta da sala de nossa casa.
Quem era eu, então, para entender o que significou a Revolução de 23 e as conseqüências dela no futuro do Rio Grande e do Brasil? Como compreender os meandros da política e as razões que levaram ao enfrentamento sanguinário de republicanos e federalistas, nos combates entre chimangos e maragatos, entre castilhistas, borgistas e assisistas?
Muito depois de meu pai falecer, consegui decifrar aqueles mistérios. Meu pai era chimango, republicano e borgista. Veio daí seu convívio e sua amizade com Oswaldo Aranha, que foi intendente em Alegrete. E foi a pedido de Oswaldo que Getúlio Vargas nomeou meu pai para a então chamada Mesa de Rendas, que foi precursora da atual Receita Federal. Junto com meu pai, e pela mesma razão política, também o coronel Laurindo Ramos, pai de Rui Ramos, foi nomeado chefe do Posto Fiscal. Todos eram republicanos. Todos eram chimangos.
A última descoberta minha foi saber quem era aquele homem, de lenço branco, botas e bombachas, que, pelo lado de dentro, encimava a porta da entrada da nossa casa. Era um tipo imponente, discursando com um lenço na mão para enxugar o suor da testa e secar as lágrimas fáceis e emocionadas. Tinha o braço erguido, sentenciando não sei o quê. Era tão solene e grave que, quando ainda menor, cheguei a pensar que era uma fotografia de Deus. Havia muito poucas estampas de santos em nossa casa. A rigor, não lembro de manifestações de religiosidade em minha infância. Decorreria isso das convicções positivistas que, à época, margeavam o ceticismo religioso do meu pai? Não sei.
Foi com alguma decepção que descobri que a fotografia imponente era um retrato do general José Antônio Flores da Cunha, comandante das forças legalistas de Borges de Medeiros, que, depois, levariam Vargas ao governo do Estado e à presidência da República.
Guardo comigo os dois decretos assinados por Getúlio. Um deles nomeando meu pai, e o outro promovendo-o na função pública.
CANTO GREGORIANO III
J. Bicca Larré
Crônica do livro "Sereias e Lobisomens", 1995.
Nota da webmaster: O personagem principal desta crônica é Gregoriano Ferreira da Costa, abastado fazendeiro de Alegrete/RS e a narrativa conta um episódio dele com o casal Brás & Francisca Maria Faraco. Gregoriano era o avô materno de uma trineta de João de Sousa Brasil - ANA CYBELE FERREIRA DA COSTA MILANO. Por outro lado, Brás e Francisca Maria são os avós paternos do escritor Sérgio Faraco, marido de ANA CYBELE.
![]()
Mais ou menos na década de 1920, instalou-se em Alegrete a família italiana dos Faraco, que tantos filhos ilustres deu ao Brasil. Desde logo, tratou o velho italiano de montar sua indústria. Inicialmente, foi uma moderna padaria. Logo depois, uma admirável fábrica de massas e saborosas bolachinhas que fizeram a delícia de minha mesa de menino nas plagas alegretenses. Era o espírito europeu e progressista dos imigrantes italianos, que trouxeram novas técnicas e novos empreendimentos à pátria adotiva. Principalmente na fronteira oeste, naqueles idos tempos, as iniciativas técnicas e o espírito industrial simplesmente não existiam. Era a pecuária, rudimentar e extensiva, em que o fazendeiro deixava aos touros, aos garanhões e aos carneiros, a sorte da atividade que, sem outro mérito além da descendência, recebiam em herança dos pais e avós. E estes haviam recebido as sesmarias de campos por graça imperial, por feitos guerreiros, por política ou por interesse da Corte Portuguesa. Não é o que nos interessa diretamente, mas serve para ilustrar a ambiência do fato que a seguir se desenrolará.
![]()
Os fornos da grande padaria consumiam muita lenha, de sorte que freqüentemente chegavam duas ou três grandes carretas carregadas. Eram carretas realmente enormes, puxadas pela fartura de quatro juntas de bois mansos. Como a padaria estava localizada bem no centro da cidade, na rua General Sampaio, em terreno bastante valorizado, não havia pátio com tamanho suficiente para a entrada das carretas, e estas, conseqüentemente, estacionavam na rua, ocupavam grande espaço, e descarregavam ali, sobre a calçada, verdadeiras montanhas de lenha de mato, com toras grossas de metro. Desocupadas as carretas, iniciava-se a segunda e mais penosa tarefa de carregar para dentro a montanha de lenha.
Nota da webmaster: A foto acima mostra a indústria Faraco na década de 1920 ("A Industrial"), na rua Gal. Sampaio. Na parte de cima do sobrado, morava a família de Brás Faraco e, na parte térrea, localizava-se uma padaria, uma fábrica de massas e um armazém de secos e molhados. Antes, porém, os Faraco tiveram uma alfaiataria nesse local.
Na rua, ficava a frota de carroças (puxadas por um ou dois cavalos), utilizadas para a distribuição de pães, bolachas e bolachinhas até os armazéns mais afastados do centro da cidade. Garibaldi Faraco, um dos filhos de Brás Faraco, era o responsável pela frota de carroças e pela distribuição dos produtos, tornando-se, em razão desse ofício, uma pessoa muito conhecida na cidade. Depois da morte de Brás Faraco, alguns de seus filhos (Humberto, José, Ernani, Mário) encerraram as atividades da padaria e da fábrica de massas e instalaram um ferragem no local (Ferragem Faraco), a qual existe até os dias de hoje, sob a administração de um bisneto de Brás (Lúcio Faraco).O italiano precisou sair e encarregou sua mulher de ficar na janela, à espera de algum changueiro que se dispusesse a carregar a lenha, mas que pechinchasse no preço. E lá se plantou dona Maria, gorda e branca, sempre com o alvo avental de trabalho e um pano atado na cabeça. E eis que, depois de muita espera, surgiu aquele homem alto e barbudo, maltrapilho, bombacha remendada. Dona Maria chamou o changador e contratou o trabalho por um mil réis. E o homem, coitado, arremangou-se e meteu mãos à obra. Talvez estivesse necessitado, faltando as coisas em casa para as crianças, pensou dona Maria, penalizada. Sabe lá como viriam em boa hora aqueles mil réis...!
Ocorre que o carregador não era outro senão o grande estancieiro Gregoriano Ferreira, o homem mais rico do Alegrete, maior conta bancária em dinheiro sonante no Banco do Rio Grande do Sul e no "Província"! Mas ele nem queria saber: tratou de realizar a tarefa contratada e sem descanso.
À tardinha, concluiu e foi receber o mil réis. Atendeu um dos meninos, mas ele queria falar era com a dona da casa, com quem contratara o serviço. Dona Maria demorou-se e veio atender, resmungando. Ora, ela com tanto o que fazer lá dentro e aquele homem a tirar-lhe da ocupação. Que esperasse. Afinal, o dinheiro não iria fugir. Que voltasse mais tarde, na hora da janta, que agora o patrão não estava em casa. - Às 8 horas, mais ou menos? - É, a essa hora tá bom. - Pois então, dona, volto na hora do jantar.
Quando, às 20 horas em ponto, bateram, foi o velho Faraco quem atendeu à porta. E maravilhou-se: - Oh, senhor Gregoriano...! A que devo a grandíssima honra...? O senhor na minha casa...!
- Não, senhor... Vim tratar de um negócio... mas é com a sua patroa... Um serviço que ela contratou comigo... vim receber.
![]()
Foto atual (2005) do sobrado dos Faraco, onde ainda hoje funciona uma ferragem.
No lugar da frota de carroças, hoje uma frota de motos (microempresa de Entrega Rápida - telemotos ).O velho Faraco não entendeu bem aquela conversa e, por via das dúvidas, chamou a mulher. Quando Maria viu o visitante, sem saber ainda de quem se tratava, informou ao marido que aquele era o homem que ela contratara para trazer a lenha pra dentro. Tem que pagar um mil réis pra ele... O velho Faraco disparou uma série de impropérios contra a mulher. Não sabia ela, ignorante, que aquele era o senhor Gregoriano?! E quis desmanchar-se em desculpas, mil perdões... pelo amor de Dio! Mas Gregoriano não quis saber de desculpas. Nem tinha o que desculpar. Fez questão de receber o seu mil réis. Negócio é negócio. Ela propôs, ele aceitou. Tudo muito claro e muito limpo.
![]()
Quando ele se retirou com os mil réis no bolso, o velho Faraco, desesperado e desconsolado, jogou-se numa cadeira: não sabia a esposa que a fábrica de massas que pretendiam montar dependia de um empréstimo que pedira ao senhor Gregoriano e que ele ficara de estudar? Claro que tudo estava liquidado, ora veja...! Agora, quem sabe quando e onde iria conseguir um empréstimo grande como aquele... Mas, no dia seguinte, Gregoriano telefonou para o senhor Faraco: que estudara o pedido do dinheiro para a fábrica. Que Faraco viesse à sua casa, que ele emprestaria o capital. E emprestou, confiado apenas na honestidade e no espírito batalhador de Faraco. E nunca mais se falou na lenha...
UM TIPO INESQUECÍVEL
J. Bicca Larré
Do livro "Crônicas do diário", 2007.
Pedro de Oliveira Palma era militar. Natural de Quaraí, viveu quase toda a vida em Alegrete e ali se tornou um grande líder, querido e admirado por todos. Conheci-o já no posto de capitão de cavalaria, e com ele convivi estreitamente até ele passar para a reserva como general de divisão.
![]()
Homem de grande talento, era cronista e poeta de nomeada. Como orador, encantava a todos com seus discursos inspirados. Bondoso e fraterno, tratava seus semelhantes com extraordinária atenção e desvelado carinho. No pátio de sua bela casa, sob o caramanchão da parreira, fizera construir enorme mesa de arenito, rodeada de bancos de pedra. Era o "refeitório" dos pedintes que ali vinham almoçar a comida que ele fazia servir todos os dias. Saíam fartos e satisfeitos, abençoando aquele homem extraordinário.
"Adotou-me" quando a orfandade me impôs dias de penúria, sob a alegação de querer que eu estudasse junto com seu filho Eduardo, meu colega de classe. Chamava-me de "Zeca, meu filho".
Era espiritualista atuante. Fazia admiráveis palestras sobre a doutrina de Kardec. Médium vidente de rara capacidade, certo dia, à mesa do almoço, de repente cruzou os talheres e ficou em transe. Então, anunciou que estava chegando uma senhora com uma criança no colo. O menino engolira uma moeda. Logo bateram desesperadamente à porta. Era a senhora com um menino de cerca de dois anos. O médico dissera que a criança precisava ser operada. Pedro Palma tomou a criança nos braços, soprou-lhe o nariz, ergueu-a, virou-a para a direita e para a esquerda, sacudiu-a e parou. Devolveu o menino à mãe e disse que não se preocupasse mais. O menino expeliria a moeda no dia seguinte. No dia seguinte, a mãe voltou com a criança e a moeda.
Foi prefeito de Alegrete. E, um dia, apareceram três pessoas humildes pedindo ajuda ao prefeito. Sua filha morrera e, cheios de fé, trouxeram o corpo para ser "encomendado" na Igreja Matriz. Os padres pediram pagamento adiantado, e eles não tinham dinheiro. Pedro Palma instruiu-os: que voltassem e dissessem que não precisavam da "encomendação", mas que deixariam o corpo ali, dentro da Igreja. E foram sentar nos bancos da praça em frente. Logo saiu um padre à procura deles. Resolveram abrir uma exceção. Encomendariam o corpo gratuitamente! Vencera a ardilosa sabedoria do bom Pedro de Oliveira Palma. Meu segundo e saudoso pai.
Nota da webmaster:
Segundo relata uma sobrinha e afilhada de Pedro Palma (Maria Odila Rodrigues), sua fama de fazer curas extraordinárias estendeu-se além do Rio Grande do Sul. Certa ocasião apareceu, querendo consultar com ele, um senhor uruguaio que já havia percorrido os mais famosos médicos do Uruguai e da Argentina, sem obter cura. Tinha uma erupção horrível na pele. A sobrinha diz lembrar-se dele contar que, ao ver o senhor, disse-lhe: Vou te curar logo. Isso é uma sarna danada. E realmente curou-o em pouco tempo. Por conta das inúmeras consultas que dava, chegou a responder a processos por exercício ilegal da Medicina - conta a sobrinha.
| PÁGINA INICIAL | ATUALIZAÇÕES | LISTA NOMES | GENEALOGIA | JOÃO BRASIL | FILHOS | NETOS |
| BISNETOS | TRINETOS | TETRANETOS | PENTANETOS | ALEGRETE | LIVRO DE VISITAS |