ALCY CHEUICHE


"Nosso trem chegando em Alegrete quando eu tinha quatro anos de idade. De repente, tornei-me conterrâneo de Oswaldo Aranha, Mario Quintana e Sérgio Faraco" (ALCY CHEUICHE, ao ser perguntado por um repórter sobre um fato marcante de sua vida).




ALCY JOSÉ DE VARGAS CHEUICHE nasceu em Pelotas-RS, a 21-07-1940. Filho de ALCY VARGAS CHEUICHE e de ZILAH MARIA DA SILVA TAVARES. Seus pais transferiram-se para Alegrete, quando ele tinha quatro anos de idade, onde passou a infância e a adolescência, razão pela qual considera-se um alegretense.
"Embora já tenha morado em diversas cidades do Brasil e em diversos países, pelo mundo afora, Alegrete continua sendo a minha cidade, esta é a minha querência. Eu sou alegretense. Como dizia meu pai: e estamos conversados." (AC)

Em sua origem se encontram o Oriente dos milenares libaneses e o Ocidente de gaúchos centenários.

Seu modelo indiscutível foi seu pai, General Alcy Vargas Cheuiche, caçapavano, técnico agrícola, médico-veterinário e Bacharel em Direito, apaixonado pela vida rural.

Sua mãe, Zilah Maria da Silva Tavares, pertence a uma das mais nobres linhagens gaúchas: é neta de Joaquim da Silva Tavares, Barão de Santa Tecla, sobrinha neta do famoso General Joca Tavares, Barão de Itaqui, e bisneta de João da Silva Tavares, Visconde do Serro Largo. Isto explica o local do berço de Alcy José Cheuiche: o sobrado do Barão de Santa Tecla, em Pelotas.


CRONOLOGIA

1940
A 21 de julho, nasce ALCY JOSÉ DE VARGAS CHEUICHE.

"Nasci num antigo sobrado da cidade de Pelotas. Casarão construído por meu bisavô materno Joaquim da Silva Tavares, irmão do general Joca Tavares e filho daquele honrado tenente-coronel João da Silva Tavares (Visconde do Serro Alegre), o primeiro oficial a erguer sua espada para defender o Império do Brasil na Guerra dos Farrapos. E, por falar em espada, meu pai, tenente do exército, médico-veterinário e advogado (e, para minha alegria, aqui presente), tinha o hábito de colocar sua espada sob a cama onde minha mãe daria à luz. Segundo antiga tradição militar, tal gesto atrairia um filho varão. Por três vezes colocou a espada e por três vezes recebeu no lar uma menina. Assim, logo antes de eu nascer, desistiu de colocar a espada, mas ao inclinar-se para beijar minha mãe, sua caneta caiu do bolso e rolou discretamente para debaixo da cama. Sem espada para enfrentar a vida, foi com a caneta que saí a esgrimir os meus moinhos de vento, como fazem todos os Quixotes deste nosso mundo de prosadores e poetas." (Trecho do seu discurso pronunciado na Casa de Portugal, no dia 07-08-1985, em agradecimento à outorga do prêmio llha de Laytano, conquistado por seu romance histórico Guerra dos Farrapos, e publicado no fascículo 8 dos Escritores Gaúchos, publicação do Inst. Estadual do Livro, 2002).


Alcy José com seu pai Alcy e suas irmãs Laís (dir.) e Lílian.

1945
Em abril, a família muda-se para Alegrete-RS, que considera sua terra adotiva. Foi lá que aprendeu a ler, escrever e amar a vida no campo.

"Com quatro anos de idade, fui levado de trem para Alegrete. Ali passei minha infância e adolescência. Ali nasceu Luiz Antônio, o meu irmão mais moço. Ali aprendi a ler, a escrever, a nadar no Ibirapuitã, a andar a cavalo. Entre meus conterrâneos de Alegrete, aprendi os valores básicos do gaúcho e alimentei minhas raízes tenras com a seiva geradora de árvores duras como o angico e homens duradouros como Oswaldo Aranha e Mario Quintana." (Do discurso de agradecimento ao prêmio literário Ilha de Laytano, já mencionado).

Diz ainda: "Alegrete é para mim a minha referência da infância e adolescência, onde estão os meus amigos mais antigos, os amigos de infância, e onde ainda moram a minha mãe e meus irmãos"

Ou ainda: "Morei em São Paulo, na Europa, mas sempre me considerei um homem do campo. Minhas referências culturais são todas de lá".

1946
É matriculado no Jardim de Infância do Instituto de Educação Oswaldo Aranha. Um dos seus coleguinhas era o futuro escritor Sérgio Faraco. A amizade dos dois inicia-se aí (iam para a escola juntos, de mãos dadas) e estendeu-se pelos anos.

1947
Os seus pais arrendam a "Granja", propriedade rural a 12 km de Alegrete, o paraíso da infância do escritor.

"E que infância tivemos nós os quatro irmãos! O rio Ibirapuitã a nos molhar o corpo e a nos moldar a alma. Suas areias brancas e suas pedras negras sombreadas por angicos centenários. Os lambaris prateados e os jundiás de longos bigodes que corriam forte na linha e nos enchiam de emoção. A figura máscula de nosso pai, cavalgando, nadando, pescando, contando estórias, sabendo muito de tudo e mestre dedicado para tudo nos ensinar. Nossa mãe, meiga e paciente, valente como seus ancestrais, incapaz de negar o pedido mais caprichoso de uma criança. A Granja, palco da nossa infância, com sua gente, plantas e bichos que continuam a povoar meus sonhos." (Prefácio do livro Estórias dos Bichos, coletânea de estórias infantis contadas pelo pai - Editora AGE, 1984, p.3).

1951 a 1958
Com 11 anos de idade, ganha seu primeiro prêmio literário num concurso de redações sobre o Duque de Caxias, que viria a retratar anos mais tarde no livro A Guerra dos Farrapos. O texto foi publicado na Gazeta de Alegrete, onde Alcy Cheuiche escreve até hoje.

O interesse pela literatura foi despertado pelo pai, um grande contador de histórias, e pelas aventuras no Sítio do Pica-pau Amarelo narradas por Monteiro Lobato.

Em 1955 conclui o Curso Ginasial e em 1958 o Curso Científico, sempre no Instituto de Educação Oswaldo Aranha.

1959
Aos 18 anos de idade, presta exame vestibular na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre e inicia seus estudos na Faculdade de Agronomia e Veterinária. Durante o curso, colaborou em jornais universitários com artigos, contos e poesias. Encontra com MOZART PEREIRA SOARES, o maior de seus mestres.

"E foi aqui, em Porto Alegre, estuário de águas e sonhos, que publiquei meu primeiro poema no jornalzinho dos estudantes da UFRGS. Chamava-se "Reza Chucra"(*) e contava o sofrimento de um homem que deixava o campo, reflexo natural da saudade qwu eu sentia da casa paterna e do meu cavalo tordilho, que lá das coxilhas do Alegrete, relinchava por mim. Certa manhã, ao findar uma das suas aulas que nos incendiavam a mente, o já famoso Professor Mozart Pereira Soares perguntou em alto e bom som: "Quem de vocês é o Alcy Cheuiche?" Senti um frio na barriga porque perdera algumas de suas aulas por andar tropeando na Serra do Cantagalo. Como todos olharam para mim, engrossei a voz e respondi: "Sou eu, Professor". "Pois faça o favor de esperar um minuto. Preciso falar-lhe". Foi a primeira vez que conversei com o meu guru, esse monumento à cultura gaúcha e universal, que elogiou meu poema de estreante, levou-me para sua casa, apresentou-me a querida Tereca e honrou-me com uma amizade que dura até hoje. Ele, Jayme Caetano Braun e Moacir Santana prefaciavam tão bem os meus primeiros livros, que eu tinha medo que fossem comprados apenas pelo prefácio".
(*) Reza Chucra faz parte da coletânea de Versos do Extremo Sul, livro de estréia de Alcy Cheuiche, p.75.

1961
Como presidente do Centro Acadêmico de sua faculdade, participa ativamente do movimento da legalidade, liderado por Leonel Brizola, que mobilizou o Brasil para garantir a posse de João Goulart na Presidência da República, após a renúncia de Jânio Quadros. Sobre esse acontecimento político, o romancista dedica um capítulo do seu livro O Mestiço de São Borja (5ª ed., Sulina, 2001, p.161-80) e um artigo da coletânea do Inst. Estadual do Livro, publicada em 1991, para comemorar os 30 anos da resistência popular.

1962
Aos 22 anos, é diplomado médico-veterinário. Primeiro colocado e orador da turma.

Não apenas procurou exercer sua profissão, mas simultaneamente aperfeiçoou-se nela. Ao saber da existência da Lei Brossard (estadual), que oferecia uma bolsa de estudo no estrangeiro aos melhores colocados em suas turmas, Alcy Cheuiche consegue bolsa de estudos para estudar em Paris.

1963-1965
Realiza seu curso de Mestrado na École Vétérinaire d´Alfort, situada junto à confluência dos rios Sena e Marne, e aproveita para familiarizar-se com a língua e a cultura da matriz do saber ocidental. Convive com estudantes e artistas nos bairros Montparnasse e Quartier Latin.

Sua tese de Mestrado, que lhe deu o título de Maître-en-Sciences Vetérinaires foi defendida em julho de 1965 (ele tinha 25 anos), sob orientação do professor Fernand Lagneau (severo e exigente, como ele diz).

Mantém uma coluna semanal no Correio do Povo, de Porto Alegre-RS, intitulada Cartas de Paris.

Mantém correspondência com seu ex-colega alegretense Sergio Faraco, que estudava em Moscou, na mesma época. "Foi um assunto digno de uma narrativa de ficção. Nós dois, nascidos no mesmo mês e ano, que fomos colegas desde o Jardim da Infância no Colégio Oswaldo Aranha, em Alegrete, e depois contemporâneos de Universidade em Porto Alegre, estávamos estudando na Europa na mesma ocasião. A partir de abril de 1964, quando o Jango foi derrubado e começou a ditadura, toda a correspondência entre o Brasil e a União Soviética era censurada. Um dia, recebi em Paris uma carta da mãe do Sérgio, a Dona Déborah, pedindo para intermediar a correspondência entre ela e o filho, pois tinha medo que suas cartas não chegassem a Moscou. Foi assim que virei pombo-correio da família Conceição Faraco. Recebia as cartas de Alegrete, trocava o envelope e mandava para o Sérgio. Ele respondia para o meu endereço em Paris, eu pegava a carta, colocava num envelope com selo francês e mandava para Alegrete. Tudo até aí muito romântico. Mas quando voltamos ao Brasil e ambos fomos presos, ninguém queria acreditar que as cartas não eram subversivas." (Depoimento exclusivo e inédito para o Inst. Estadual do Livro, em dezembro de 2001).

Sérgio Faraco (out/2006- foto de Carlos Carvalho - Brasil Imagem)

Nota da webmaster:
Recentemente, em 05-10-2006, os velhos amigos Alcy Cheuiche e Sérgio Faraco tiveram um reencontro de muita emoção. Foi num programa da Rádio Gaúcha (Encontros com o Professor), em que a conversa entre o jornalista Ruy Carlos Ostermann e o escritor Sérgio Faraco contou com a presença de vários amigos do entrevistado, entre os quais Alcy Cheuiche, eleito patrono da 52ª Feira do Livro de Porto Alegre poucos dias antes.
Alcy Cheuiche (out/2006- foto de Carlos Carvalho - Brasil Imagem)

Na entrevista, Sérgio Faraco lembrou o episódio acima da intermediação da correspondência feita por Cheuiche, entre ele e a mãe dele, que morava em Alegrete. Em público, com os olhos marejados, Faraco (acima) agradeceu a Cheuiche (à dir.) pela sincera amizade que começou muito cedo, quando os dois iam para a escola juntos, de mãos dadas. Sem conter as lágrimas, Cheuiche confessou: - Eu não chorei quando fui eleito patrono da Feira do Livro, mas estou chorando agora.
(Notícia publicada no jornal Zero Hora - Contracapa do Segundo Caderno, em 09-10-06).

Além de Sérgio Faraco, Cheuiche cita outros amigos granjeados na vida alegretense. São os poetas Hélio Ricciardi, Mário Quintana e Élvio Vargas. Cheuiche fala assim dos seus amigos:

"Hélio Ricciardi, nosso poeta, era o melhor amigo do Mário Quintana em Alegrete, embora 20 anos mais novo que o Mário. Foi ele quem me apresentou para o Mário Quintana. Muitas vezes, quando o Hélio vinha para Porto Alegre, convidava o Mário, a mim e o Sérgio Faraco, e gente ficava conversando sobre muitos assuntos. E eu fiquei conhecendo o Mário. Foi uma experiência muito agradável. Quando o Hélio lançou o seu primeiro livro, eu tive o prazer de escrever na Gazeta e nos jornais de P.Alegre". Além disso, no seu livro Na Garupa de Chronos (Prêmio Açorianos de 2001), há uma crônica sobre Hélio Ricciardi.

Quando se trata do poeta Élvio Vargas, Cheuiche lembra dos tempos quando o conheceu.
"Ele tinha uma maravilhosa pizzaria na Barão do Cerro Largo e, quando eu ia à Alegrete, ficàvamos lá por longo tempo conversando sobre literatura e poesia. Estive no lançamento do seu primeiro livro. Somos muito amigos. O seu livro de poemas, O Almanaque das Estações, foi editado pelo Instituto Estadual do RJ e publicado em 1993. Fiz a apresentação do livro. A pizzaria Da Vinci de Élvio Vargas, era freqüentada também pelo poeta Carlinhos Lopes e e pelo escritor Sérgio Faraco" (foto abaixo).


Porta da Pizzaria Da Vinci (Alegrete-RS), setembro/1996.
Da dir. p/ esq.: poeta Carlinhos Lopes - escritor Sergio Faraco e seu filho Bruno;
poeta Élvio Vargas (proprietário da Pizzaria, à época) e o escritor Alcy Cheuiche.


1966
Em maio, reuniu alguns de seus poemas iniciais com o título de Versos do Extremo Sul, sob o império avassalador da moda dominante daquela hora, os poemas crioulos. E neles não esqueceu a lição paterna:


Tenho sempre na memória
as palavras do meu pai:
Aos velhos sempre ajudai
e protegei as crianças.
porque as águas correm mansas
para quem tem bom coração
e estende sua proteção
aos animais e às plantas.

Alegrete está, de forma permanente, no caminho literário de Alcy Cheuiche. A sua estréia neste campo, com a coletânea de poesias acima, aconteceu no Centro de Tradições Gaúchas Farroupilha, contando com padrinhos fortes, como Jayme Caetano Braun e João Vargas, além de um grande incentivador, que foi Delci Dornelles.

Logo após o lançamento da sua coletânea de poemas, embarca para a Alemanha. Realiza um estágio na Tierärzliche Hochschule, em Hannover, como assistente do Professor Wilhelm Brass, seu paraninfo de turma no Brasil.

Embora cumprisse as tarefas inerentes a seu estágio profissional, não abandonou uma de suas marcantes atividades intelectuais: durante esse período na Alemanha, escreve sua primeira narrativa de ficção O Gato e a Revolução, que foi lançado no ano seguinte.

1967
Em janeiro de 1967, de férias em Portugal, visita o ex-presidente Juscelino Kubitschek no exílio em Lisboa. Esse encontro é descrito em crônica publicada no Correio do Povo e transcrita no livro Na Garupa de Chronos, um dos vencedores do Prêmio Açorianos de 2001.

Em outubro, lançamento do primeiro livro de prosa O gato e a revolução (Ed. Sulina), na Feira do Livro em Porto Alegre/RS. Mário Quintana, seu conterrâneo, recebeu o primeiro autógrafo.

Por iniciativa do jornalista João Paulo Trindade do Diário de Notícias , Alcy Cheuiche foi levado à casa de Érico Veríssimo, para um encontro do estreante com o mais famoso escritor gaúcho. Da conversa, recorda dois pontos comuns: o amor por Paris e a admiração pelo poeta Garcia Lorca. Ali conheceu também a esposa do escritor, Mafalda Veríssimo, que tornou-se sua querida amiga.

1968
Em setembro, lança uma coletânea de versos em português, espanhol e francês, intitulada Entre o Sena e o Guaíba, seu terceiro livro.


Entre o Sena e o Guaíba
gestei a minha poesia
Junto ao Sena fui boêmio
Junto ao Guaíba, menino
Entre os dois rios tão distantes
vivi os sonhos errantes
de uma alma em formação
No Sena bebi cultura
no Guaíba, inspiração
Trago os dois rios no meu corpo
sem misturar suas águas
No Sena lavou o rosto
nossa História Universal
Guaíba é o sangue da terra
dourado de pôr-do-sol.

Inicia sua atividade como professor na Faculdade de Veterinária da UFRGS.

Discursa na inauguração do monumento a Mário Quintana, o famoso "Um engano no bronze é um engano eterno", a convite do Prefeito de Alegrete, Adão Houayeck (ver texto abaixo "À Sombra de um Ipê").

Alcy Cheuiche

1969-1974
Em 1969, sofre perseguições políticas na UFRGS e transfere residência para a cidade de São Paulo, onde assumiu a Diretoria da Divisão Veterinária da empresa Johnson & Johnson.

Ao mesmo tempo em que estuda inglês, marketing e administração, inicia pesquisas sobre a vida dos jesuítas das Missões para seus próximos romances históricos, uma vez que reside muito perto da Biblioteca Pública. Dessas pesquisas resultou seu magnífico livro Sepé Tiaraju.

Nos cinco anos seguintes, viaja e estagia por diversos países a serviço da empresa: Argentina, Estados Unidos, Canadá, França, Inglaterra, Holanda, Bélgica (onde faz um estágio de três meses) e Austrália (estágio de um mes). Freqüenta congressos no México, Espanha, Portugal, Itália e Argentina. Viaja por conta própria ao Egito, Líbano (onde visita a cidade de Zahle, querência de seu avô paterno), Turquia e Grécia.

Aprende a dominar o inglês por exigência de seu trabalho e para ler "O Velho e o Mar", de Hemingway, no original, livro que considera a mais perfeita de todas as narrativas contemporâneas. Fala agora português, espanhol, francês, alemão e inglês.

1974
Demite-se da empresa americana e vai viver na cidade turística de Campos do Jordão/SP, onde comprou um sítio e para onde levou ovelhas, vacas e cavalos de Alegrete. Aí vive de 1974 a 1979, mas não descansa em sua faina literária. Mesmo abrindo uma clínica veterinária, escreveu, nesse período, os seus próximos dois romances.


Se queres ser poeta
pendura teu terno
na cruz do espantalho
e só com teu corpo
caminha ligeiro prá o campo
prá o mar
prá o campo
prá o mar...

Em outubro/1974, lança em São Paulo e Porto Alegre a coletânea de poemas Meditações de um poeta de gravata (Bels), bem recebido pela crítica, inclusive em São Paulo.

Capa do livro Sepé Tiaraju, de Alcy Cheuiche.

1975
Lança Sepé Tiaraju - romance dos Sete Povos das Missões, nas Feiras do Livro de Porto Alegre, Pelotas e na Livraria Cultura de São Paulo. O livro foi traduzido para o espanhol e para o alemão e também editado em quadrinhos no Brasil.


1976
Depois de uma viagem de trabalho ao Canadá e Estados Unidos, a serviço do Laboratório Leivas Leite, coloca uma mochila nas costas e sai a viajar pelo mundo.

1980
Casa-se com sua prima MARIA BERENICE FERREIRA GERVÁSIO, advogada, e passa seis meses em Paris, lecionando na Escola de Veterinária de Alfort.

Desde o início dos anos 80, passa a dividir com a esposa a direção da revista científica e cultural A Hora Veterinária, editada em convênio com a França. Sobre essa revista, assim se manifestou o Prof. Mozar Pereira Soares, o grande mestre de Alcy Cheuiche no curso de Veterinária da UFRGS:

"Uma das maiores obras que o Brasil está devendo à Cheuiche é a publicação da extraordinária revista técnica A Hora Veterinária, a de mais longa duração entre as congêneres em nosso país, com cerca de 25 anos e quase uma centena e meia de edições, cujo objetivo é o ensino pós-universitário e a educação permanente. Seus colaboradores são principalmente brasileiros e franceses. Além dos artigos técnico-científicos, mantém um interessante noticiário e seções que abrangem tudo quanto diz respeito à sua especialidade".

Capa do livro O Mestiço de São Borja, de Alcy Cheuiche.

Em agosto, lança pela Ed.Sulina um de seus romances mais famosos, O Mestiço de São Borja.


1983
Dia 14 de fevereiro, nasce sua única filha Zilah Maria Gervásio Cheuiche, em Porto Alegre/RS, que irá seguir a carreira do pai.

1985
Lança o livro A Guerra dos Farrapos e recebe o prêmio literário Ilha de Laytano.

Apreciação do livro “A Guerra dos Farrapos"- Ivette Tôrres Dorneles (outono 2006).

Capa do livro A Guerra dos Farrapos, de Alcy Cheuiche.

"Li em algum lugar que, se um livro não te seduzir até a décima página, desista dele. Parta para outro, pois este desperdiçou a oportunidade. Com “A Guerra dos Farrapos” a sedução se deu na primeira página.

Encontrei um guri esperto e curioso, que sorrateiramente entra no álbum de família para conhecer sua estória. Logo me identifiquei com ele. Lembrei de uma menininha que aos oito/nove anos folheava a revista Casa e Jardim, e entrava naquelas páginas coloridas com casas lindas, para receber as amigas ou simplesmente descansar nos jardins maravilhosos.

O tal menino cresceu e com ele também cresceu a curiosidade. De repente decide experimentar seus poderes enferrujados. Vai até a ponte da Azenha, em plena Porto Alegre, e entra na história do Rio Grande. Não resisto à tentação e vou com ele.

Estamos na noite de 19 de setembro de 1835. Sem sermos percebidos observamos a retirada dos imperiais acuados por apenas sete rebeldes liberais. Os quais se transformaram em mais de mil, na ótica medrosa do Visconde Camamu. E por ali seguimos. Vamos até Isabel Leonor, esposa de Gomes Jardim, que está no comando do combate na Azenha, na companhia corajosa dos filhos mais velhos. Aflita, a pobre, a espera de notícias de seus amados dedilha o rosário num misto de devoção e pressa. Tomamos mate com Silva Tavares na noite anterior à sangrenta Batalha do Seival. Estávamos lá quando João Manuel de Lima e Silva caiu morto dentro de uma igreja. E presenciamos Roque Faustino sair a galope no cavalo picaço. Sofremos com Bento Gonçalves na sua prisão longe dos pagos, e a fuga mar adentro. Demos as boas vindas a Garibaldi e seu amigo Luigi Rossetti. Rimos e choramos com Ana, que mais tarde se tornou Anita Garibaldi. Navegamos por mares calmos e bravios nas escunas “Caçapava” e “Rio Pardo”. E assim, cruzamos com muitos outros personagens da história riograndense.
(...)

Neste livro encontrei personagens de quem eu ouvira falar nos bancos escolares, lá na minha juventude, mas os quais eu não conhecia. O homem feito que me guiou por essas páginas, cria daquele menino curioso, realmente me apresentou a uma valorosa parte da nossa história. Como ele disse, lá no inicio do livro: chegou a hora de tomar partido. Eu tomei o meu".

Nesse mesmo ano, toma posse na cadeira 37 da Academia Riograndense de Letras, cujo patrono é o poeta Felipe D´Oliveira.

1986
Tendo publicado em quase todos os gêneros literários, da crônica ao romance, da poesia à história, Cheuiche não deixou de fora o teatro: pela Ed. Mercado Aberto, lançou o texto teatral O Pecado Original, em novembro de 1986, cuja primeira encenação ocorreu na Escola Apeles Porto Alegre.

Viagem aos Estados Unidos com o Grupo de Arte Nativa "Os Chimangos", de Caçapava do Sul. Apresentação em diversos lugares, inclusive na Disney de Orlando. Alcy apresentava o espetáculo em inglês.

1987
Recebe em Brasília a Comenda do Mérito Veterinário por sua atuação na comunicação científica e cultural da profissão.

Lança a edição em quadrinhos do romance Sepé Tiaraju, em coedição IEL/Banrisul.

1989
Viagem de peregrinação a Jerusalém e demais lugares santos do cristianismo, com os pais e a esposa. No retorno, visita Roma, Paris e Madri.

1990
Lança na Feira do Livro de Porto Alegre o seu festejado romance Ana Sem Terra, uma cuidadosa (e corajosa) pesquisa histórica sobre a reforma agrária. O livro tem oito edições no Brasil e uma na Alemanha. Tem traduções prontas em espanhol e francês. Na Alemanha, foi um dos livros escolhidos para representar o Brasil na Feira do Livro de Frankfurt de 1994.
Alcy Cheuiche

1991
Assume o cargo de Diretor do Instituto Estadual do Livro (IEL), a convite da Secretária da Cultura do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, Mila Cauduro. Seu projeto de intercâmbio literário com os países do Mercosul é aprovado pelo governador Alceu Collares (estreitou os laços culturais com nossos irmãos latino-americanos, tendo incrementado traduções de obras contemporâneas de maior interesse para aqueles países).

Não se detém, no entanto, nos limites da atividade burocrática, exercendo ainda o jornalismo, realizando viagens de intercâmbio e continuando a criar seus romances e livros de crônicas.

1993
Recebe a medalha do Mérito Legislativo da Câmara de Vereadores de Alegrete pelo conjunto de sua obra.

Lança na Feira do Livro de Porto Alegre e no Rio de Janeiro, o romance Lord Baccarat (Edit. AGE) escrito, segundo ele mesmo confessa, para alertar a filha pré-adolescente para o perigo das drogas. Trata do problema das drogas no Brasil, abordando a figura do traficante que freqüenta a alta sociedade e procura fazer carreira política. Foi o terceiro livro de ficção mais vendido da Feira do Livro de Porto Alegre de 1993.

1994
Ajuda a sua esposa Maria Berenice a realizar um sonho de infância: reeditar a Festa do Divino Espírito Santo em Caçapava do Sul-RS com todo o brilho do passado. Integra o Grupo de Corredores de Cavalhadas que encenam a luta entre mouros e cristãos desde 1839, quando Caçapava foi Capital Farroupilha.

O romance Ana Sem Terra foi uma das obras escolhidas para representar o Brasil, quando o maior encontro mundial da literatura, A Feira de Frankfurt, foi dedicado ao nosso país. Essa Feira reúne em espaço fechado seis mil editoras de todo o mundo.

Na Alemanha, a obra recebeu calorosa acolhida da crítica especializada. Die Welt, por exemplo, em sua edição de outubro de 1994, destaca: "Escrito em estilo vivo e cativante, o romance de Alcy Cheuiche é uma descoberta para aqueles que procuram uma entrada literária para o maior país da América Latina". O conhecido jornal de Berlim, Berliner Illustrierte Zeitung, em sua edição de 02.10.94, afirma: "O romance Ana Sem Terra de Alcy Cheuiche é um livro que ajuda a entender o Brasil, bem distante dos encantos exóticos e do carnaval". Neste mesmo teor se manifestaram outras importantes publicações, como Rheinischer Mercur, Badischer Tagblatt, Hoheloher Zeitung, Heilbronner Stimme, Eppinger Zeitung, Der Tagesspiegel.

1995
É escolhido Patrono da Feira do Livro de Caçapava do Sul-RS.

Lançada a versão espanhola do romance Sepé Tiaraju, na Feira do Livro de Montevideo. Esgota a 1ª edição em três meses.

Participa da organização do Prêmio Aplub de Literatura.

Participa da comissão organizadora da Audioteca da ACERGS, biblioteca de livros gravados em fita e CD, exclusivamente para cegos. Seu livro Ana Sem Terra é um dos primeiros gravados para o acervo, que se encontra numa sala do 5º andar da Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre.

O livro Ana sem Terra é lançado em suas versões em alemão e português, no Instituto Goethe.

1996
Autografa em Porto Alegre, no Consulado do Uruguai, a versão em espanhol de Sepé Tiaraju.

Lança na Bienal do Livro em São Paulo, seu romance A mulher do Espelho, destacada pelo jornal Folha de São Paulo, como uma das obras importantes da feira. A novela recorda a saga dos Dezoito do Forte de Copacabana através de uma narrativa onde mistura história e espiritismo com impressionante veracidade.

Viaja de navio ao Caribe.

1997
Empossado na Academia Brasileira de Medicina Veterinária, com sede no Rio de Janeiro.

Viagem à França para pesquisar sobre Santos Dumont.

Viagem à Alemanha para lançamento da edição em alemão do romance Sepé Tiaraju. Realiza quinze conferências pronunciadas em 15 cidades, inclusive Berlim.

1998
Patrono da Feira do Livro de Alegrete.

Recebe a Comenda do Mérito Oswaldo Aranha, outorgada pela Prefeitura Municipal de Alegrete.

Falecimento do seu pai no dia 29 de outubro (ver mais abaixo uma crônica de Alcy sobre o pai - "Um Toque de Silêncio").

Capa do livro

Lança na Feira do Livro de Porto Alegre o livro Nos Céus de Paris - Romance da Vida de Santos Dumont, em que narra a vida fascinante do “Pai da Aviação”, tão pouco conhecida dos brasileiros. Recebeu diversos prêmios e honrarias em razão desse livro: Prêmio RBS Rádio como o melhor romance lançado na Feira do Livro de 1998, Prêmio Laçador como melhor livro lançado no sul do Brasil em 1998, Medalha de Amigo da Força Aérea (1998), Medalha Mérito Santos Dumont (2001). Foi o 8º livro de ficção mais vendido da Feira do Livro de Porto Alegre, uma das mais importantes do Brasil, que comercializa meio milhão de exemplares em cada edição anual.

Segundo o crítico José Resende Jr., do jornal Correio Braziliense, “Cheuiche conseguiu escrever um romance que não cansa, nem quando é técnico. E isso não é fácil quando se trata de contar a vida de um inventor.” Destaca também no romance histórico a recriação de Paris da Belle Epoque e a ousadia do autor em oferecer detalhes da vida amorosa do grande pioneiro.

"Meu pai foi um grande leitor. Ainda hoje, vasculhar a sua biblioteca me revela muitas surpresas. Foi lá que encontrei, há cinco anos atrás, o livro de memórias de Santos Dumont, Dans l´air, escrito originalmente em francês e que levou trinta e sete anos para ser traduzido em português. Foi este livro que me inspirou o romance Nos Céus de Paris, um dos que mais me orgulho" (A.C.)

1999
Viagem à França: Paris, Lyon e da região vinícola, Avignon, Arles, Nimes, Cauduro, grutas de Lascaux, Lourdes.

Capa do livro

2000
Lançamento da coletânea de crônicas Na Garupa de Chronos, na Feira do Livro de Porto Alegre. Foi prefaciada pelo consagrado escritor Flávio Loureiro Chaves, da Academia Riograndense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul. Esta obra recebeu o Prêmio Açorianos de 2001.

Membro da Comissão Organizadora do Encontro Gaúcho Cristão Ano 2000, com o primo Dom Antônio Cheuiche.

2001
Participou do encontro cultural Porto Alegre-Buenos Aires, na capital argentina, a convite da Prefeitura de Porto Alegre.

Esteve entre os oito escritores pré-selecionados pela Câmara Riograndense do Livro para Patrono da Feira do Livro de Porto Alegre. Foi indicado para saudar o Patrono escolhido, Armindo Trevisan, em nome dos "patronáveis".

Coordenou o Ciclo de Conferências 2001 da Academia Riograndense de Letras, na qualidade de seu Secretário Geral.

Coordenou o lançamento em Pelotas-RS de uma coleção de fotografias artísticas dos prédios históricos da cidade, feitas pelo primo Alceu Cheuiche, com textos de Alcy Cheuiche. O leilão beneficiente, denominado Cheuiche em texto e imagem vendeu todas as 34 obras.

Alcy Cheuiche - capa do fascículo 8 de Autores Gaúchos

Lançamento da quinta edição de O Mestiço de São Borja.

Recebeu a Medalha Mérito Santos Dumont, grande honraria da Força Aérea Brasileira.

Recebeu o Prêmio Açorianos na categoria Crônicas, com o livro Na Garupa de Chronso.

2002
No dia 22 de abril, lançou com um debate no Inst. Estadual do Livro, a oitava edição de Ana Sem Terra.

É publicado pelo Inst. Estadual do Livro (P.Alegre), o fascículo 8 da série Escritores Gaúchos, dedicado a Alcy Cheuiche (foto).

2003

Capa do livro Jabal Lubnàn, de Alcy Cheuiche.

Lança Jabal Lubnàn - As Aventuras de um Mascate Libanês, romance que narra os primeiros anos da vida de seu avô Julião Cheuiche no Brasil (1893/1896). Período conturbado pela Revolução Federalista, que serve de fundo para as aventuras do mascate de Zahlé, a cidade mais cristã do Líbano. Um dos pontos altos da obra é a descrição do cerco de Bagé pelos federalistas do General Joca Tavares, aliás tio-bisavô do autor pelo lado materno. Chama atenção também no romance o processo de aculturação do libanês aos costumes campeiros, descritos com maestria por Alcy. Um dos personagens do livro é Adão Latorre, o famoso degolador do Rio Negro, recriado após uma cuidadosa pesquisa histórica.

Depoimento do escritor Mozart Pereira Soares

"Neste livro estão reunidas duas poderosas vertentes humanas, distanciadas no tempo e no espaço, mas reunidas no terreno espiritual: Alcy Cheuiche é um produto libanês por via paterna, com os açorianos Silva Tavares por fonte materna. Dificilmente, pois, alguém entre nós estaria tão qualificado para reunir numa obra tão importantes culturas e mergulhar na história libanesa e brasileira na mesma profundidade. Quem estudar a saga dos grandes movimentos migratórios, seguramente vai se deter na figura do mascate, um vínculo poderoso entre diversos produtos sociais. O mascate representa a maior esperança de unidade humana em todas as latitudes.
Escritor de elite, Alcy Cheuiche é um dos mais qualificados prosadores do Brasil, com uma bibliografia esplêndida, enriquecida agora com o livro que o leitor tem nas mãos. Uma dádiva rio-grandense e brasileira para a literatura internacional".

Depoimento do escritor Luiz Antonio de Assis Brasil:

"Meu caro Alcy
Li atentamente teu livro, e concluí: é tua melhor obra, até agora. Isso por várias razões estéticas, mas em especial pela linguagem. Estás praticando uma narrativa que prima pela essencialidade discursiva. Utilizas frases mais curtas que, por isso mesmo, tornam-se mais eficientes, e a cada frase dizes algo de novo. Esse fato contrasta com teu estilo pregresso, mais caudaloso. Chamo a isso de evolução. Bom é quando, já escritores experientes, tentamos novos caminhos e possibilidades. No teu caso, foi para muito melhor. A tua história também é muito boa, emotiva e sensível. Tens momentos de intenso minimalismo, como, por exemplo, nos movimentos da natureza, que captas com grande visualidade e força. Parabéns. Escreveste um belíssimo livro. Recebe um grande abraço do Assis Brasil".

2004 e 2005
Os dados deste período estão sendo organizados. Em breve, estarão disponíveis aqui.

2006
Em 26 de setembro, é escolhido como Patrono da Feira do Livro de Porto Alegre.

Depois de ter sido Patrono de Feiras do Livro das cidades gaúchas de Alegrete, Caçapava do Sul, Gramado, Gravataí e São Sepé, Alcy Cheuiche é agora o Patrono da maior feira de livros a céu aberto da América Latina: a Feira do Livro de Porto Alegre.

Alcy Cheuiche na Praça da Alfândega em Porto Alegre, local onde ocorre anualmente a Feira do Livro.

"Na Feira do Livro de Porto Alegre, concorri cinco vezes e fico feliz em ser homenageado no ano em que se comemora o centenário de Mário Quintana, um dos grandes incentivadores que tive".

Alcy Cheuiche na Praça da Alfândega (foto) no centro de Porto Alegre, local onde anualmente ocorre a Feira do Livro, no mes de outubro/novembro.



No momento, o escritor trabalha no livro O farol da solidão, que será publicado pela L&PM Editores em 2007.


""O leitor que acaso ainda não tenha lido as principais obras de Alcy Cheuiche, que apanhe alguma, ao acaso...
E me agradecerá."
(Mozar Pereira Soares).



Fontes:
# Instituto Estadual do Livro - oitavo fascículo da coleção 'Autores Gaúchos - Nova Série', dedicado a Alcy Cheuiche.
# Site oficial do escritor Alcy Cheuiche em: http://www.alcycheuiche.farrapo.net
# "Centenário de Alcy Vargas Cheuiche, Médico-Veterinário, Advogado, General do Exército e da Educação" - publicação de abril/2004, sob a coordenação de Alcy Cheuiche (Métropole Indústria Gráfica, P.Alegre/RS; editoração eletrônica: DMiranda Editoração).



O QUE ELES DISSERAM...

"Cheuiche é escritor de largos horizontes. Não admira que suas obras, especialmente os romances,
cubram extensos períodos de tempo e longos espaços sociais. Através de suas ficções, podemos viajar com ele
pelos ambientes em que viveram suas personagens,na Europa, nas Guianas, na Ilha da Páscoa e por aí afora.
A autenticidade sempre foi sua constante preocupação. Assim, visitou os locais onde seus entes pisaram:
foi ver o chão em que eles se moveram e, se quisesse parodiar Camões, eu lembraria seus famosos versos...
E se mais mundos houvera, lá chegara..."


(Mozar Pereira Soares)

"Alcy Cheuiche, o retrato autêntico e legítimo da inteligência do gaúcho civilizado,
com a admiração de seu leitor, que tanto admira o fascínio que emana brilhante
de seus textos tão criativos quanto belos."


(Dante de Laytano)

"Alcy Cheuiche, você é o herói de todos os seus livros, o primeiro e o mais notável personagem."

(Mila Cauduro)

"... Uma de suas honrosas ambições é pelear por um estilo. E o achou.
Isto basta para situá-lo entre os mais notáveis ficcionistas do Rio Grande do Sul,
entre os mais identificados com sua gente, seus ideais de cara limpa, e suas noites estreladas."


(Armindo Trevisan)

"Nem a poesia, nem a história e a prosa séria, erudita e bela que Alcy Cheuiche produz e lega,
é principal ao seu conceito, ao seu julgamento, à sua vida. Ele vale pelo que tem de bondade em si,
pelo que encerra de puro e perene e sabe repartir aos amigos, com alegria e a sinceridade
da sua mensagem de vida. Em torno dele, perto dele, ninguém morre, porque ele irradia vida, sinceridade e amor!"


(Wilson Vargas)



O QUE ELE DISSE...

(Questionário submetido aos candidatos a Patronos da 49ª Feira do Livro de Porto Alegre - 2003), por Daniela Fetzner.

Quando o(a) senhor(a) decidiu: "Vou ser escritor"?
Foi na Alemanha, quando comecei a escrever o livro “O Gato e a Revolução”. A idéia surgiu de um debate entre amigos de várias nacionalidades sobre as razões de tantos golpes de estado na América Latina. Quando nos separamos, de madrugada, comecei a escrever o livro e senti que essa era, de fato, a minha maior vocação. “O Gato e a Revolução” foi lançado na Feira do Livro de Porto Alegre, em 1967 e retirado de circulação pela ditadura em 1968. Foi na Alemanha, quando comecei a escrever o livro “O Gato e a Revolução”. A idéia surgiu de um debate entre amigos de várias nacionalidades sobre as razões de tantos golpes de estado na América Latina. Quando nos separamos, de madrugada, comecei a escrever o livro e senti que essa era, de fato, a minha maior vocação. “O Gato e a Revolução” foi lançado na Feira do Livro de Porto Alegre, em 1967 e retirado de circulação pela ditadura em 1968.

O que um escritor faz para se divertir?
Eu gosto de viajar, montar a cavalo, ler bons livros, curtir a família, lecionar nas minhas oficinas de criação literária, beber vinho tinto no inverno, cerveja gelada no verão, comer sashimi com pauzinhos, kibe cru, frutos do mar na beira da praia e churrasco na beira do fogo.

O que lhe deixa estressado?
Burrice, prepotência, desgoverno.

E na hora de relaxar, o que fazer?
O mesmo que faço para me divertir.

Uma grande paixão?
Maria Berenice.

Um grande prazer?
Voltar a Paris.

Um fato marcante em sua vida (relacionado ou não a sua obra literária)
Nosso trem chegando em Alegrete quando eu tinha quatro anos de idade. De repente, tornei-me conterrâneo de Oswaldo Aranha, Mario Quintana e Sérgio Faraco.

Cinema clássico ou contemporâneo? Qual seu filme preferido?
Ambos. O meu mais recente filme preferido é o documentário “Tiros em Columbine”.

Teatro ou música?
Ambos outra vez. Se for obrigado a escolher, teatro.

Um ponto de inspiração?
A infância e adolescência na fronteira, misturadas com alguns anos de mocidade na França.

Dia ou noite?
Madrugada. É quando começo a escrever, todos os dias, quando estou trabalhando num romance.

Prato preferido?
Sashimi.

Água ou vinho?
Os espanhóis dizem: si el cuerpo pide água, dele vino. Concordo com eles.

Próxima viagem?
Machu Pitchu.

Na sua opinião, o que falta para o brasileiro ter o hábito da leitura? Como o(a) senhor(a) adquiriu este hábito?
O brasileiro em geral precisa de escola gratuita e obrigatória para aprender a ler e gostar de ler. Eu tive isso e muita influência do meu pai, um grande contador de histórias.

Um ídolo literário?
Ernest Hemingway.

Uma grande obra? Qual o livro que gostaria de ter escrito?
“O velho e o mar”.

O(a) senhor(a) sonha em ingressar na Academia Brasileira de Letras?
Sim. Mas não tenho ainda coragem de concorrer.

Ser patrono da Feira do Livro é...
Um troféu para o resto da vida e para os filhos e netos irem contando que o pai e o vovô chegou lá.



(Fragmentos da entrevista de Alcy Cheuiche a Pedro Antônio Lütkemeyer, do jornal Gazeta de Alegrete, edição 09-12-2006).

"Os meus livros têm o cheiro e a alma de Alegrete".

"Um dos fatos marcantes na minha vida foi a chegada em Paris, começando a conviver e descobrir que o mundo é um só, e que, de repente, nós, lá de Alegrete, podíamos fazer amizades em Paris, uma das cidades mais cultas e importantes do mundo, aprender o idioma francês, descobrir a Europa, uma vez que a nossa cultura é ancorada naquela continente. Uma das minhas maiores emoções foi chegar lá, me adaptar e amar aquela cidade, sentindo-a como minha, sem deixar de gostar do que é meu".



A SOMBRA DE UM IPÊ

Alcy Cheuiche

À sombra de um ipê da Praça Getúlio Vargas, em Alegrete, uma pedra expõe a famosa placa em homenagem a Mario Quintana: um engano em bronze é um engano eterno. Mas essa frase é apenas um outro dos seus Quintanares. Mario assistiu à inauguração da placa, de mãos dadas com a irmã Marieta, num longínquo entardecer de 1968.

Alcy Cheuiche discursando na inauguração da placa em homenagem a Mario Quintana, na praça de Alegrete, em 1968.

Naquela ocasião, a pedido do prefeito Adão Houayek, coube a mim falar em nome de seus conterrâneos. E lembrei a todos de uma noite de julho de 1906, quando Alegrete recebeu a visita de Mercúrio. O mensageiro dos deuses desceu suavemente na Rua dos Cataventos, diante de uma janela iluminada pelo luar. Espiou para dentro do quarto onde dormia um menino recém-nascido. Os olhinhos azul-claros abriram-se de imediato. Mercúrio sorriu, recolheu o bebê e com ele aninhado nos braços retomou ao Olimpo.

Júpiter esperava imponente, cercado de muitos deuses. O mensageiro depositou-lhe o bebê aos pés. O deus maior correu o olhar em torno: Este menino será um grande entre os homens. Por que caminho o faremos chegar a seu destino? Marte deu um passo à frente: Pelo caminho das armas. Mercúrio discordou: O comércio é o melhor caminho. Ceres o queria agricultor, Esculápio médico. Mas a palavra final foi de Minerva: Ele já nasceu poeta.

Hermes devolveu o bebê à sua cidadezinha, antes que o primeiro galo acordasse a madrugada. E o menino Mario seguiu à risca o seu destino. Durante toda a vida dedicou-se apenas à poesia. E escreveu nos bares (e nas mansões secula­res) alguns dos mais lindos versos da Língua Portuguesa. Entre eles, recordo um dos mais carregados de esperança:

A bomba abriu um enorme buraco no telhado
por onde o céu azul sorri aos sobreviventes.

No dia 16 de maio de 1994, nós, os sobreviventes, mesmo com os olhos marejados de lágrimas, não conseguimos ignorar o céu azul de Porto Alegre. Para onde, certamente, o nosso Mario já havia partido.

Legenda da foto: Alcy Cheuiche discursando na inauguração da placa em homenagem a Mario Quintana, na praça de Alegrete, em 1968. Da esquerda para a direita estão: Mario Quintana, o poeta Hélio Ricciardi, o então prefeito municipal Adão Ortiz Houayeck, o poeta Antônio Brasil Milano e, com o microfone, o radialista Samuel Marques.


Nota da webmaster: O poema abaixo é uma homenagem do escritor ao seu pai, o General e Méd. Veterinário Alcy Vargas Cheuiche, uma figura marcante na vida dele.

O ANGICO

Alcy José

Atravessando uma picada grande
no tranquito calmo do tordilho
notei atravessando o velho trilho
o vulto de um angico secular

Com respeito olhei-o sobranceiro
ultrapassar em porte o mato inteiro
como num constante vigiar

Na força da árvore frondosa
enxerguei seus traços com clareza
igual altivez igual firmeza
a mesma impressão de segurança
que desde os tempos de criança
aprendi, dia a dia, a respeitar

Meu peito vibrou ao contemplá-lo
e meus lábios pediram um sorriso
pois ali, nítido e preciso
estava o retrato do meu pai


TOQUE DE SILÊNCIO

Alcy Cheuiche

À memória do meu pai

Estes clarins tocando no cemitério trazem o frêmito da vida ao silêncio da morte. Atravessam num arrepio de emoção a mais dura das couraças. É o som das cargas de cavalaria de Abreu, Andrade Neves e 0sório. É o som que acompanhou Caxias na ponte de Itororó. É o toque de silêncio do corneteiro Nico junto aos despojos de Bento Gonçalves.

Aqui, neste cemitério de Alegrete, os clarins do Exército Brasileiro dizem adeus a outro grande soldado. Um soldado de farda e de gravata. Que soube lutar com as armas de guerra e cultivar com carinho as searas da paz. General da Educação, assim o chamava o povo. E a voz do povo é a voz de Deus.

General Alcy Vargas Cheuiche, pai do escritor Alcy José Cheuiche.

Alcy Vargas Cheuiche repousa na terra alegretense depois de 94 anos de vida. Quase um século se passou desde aquele ensolarado 4 de abril de 1904, em que a linda Maria Cândida deu a luz a mais um menino. Cinco anos depois, ela fechava para sempre os olhos, deixando o pequeno Alcy aos cuidados de sua irmã Alita e sob a proteção de Nossa Senhora.

E como foi protegido aquele menino, um dos doze filhos de Julião Cheuiche, que deixara sua pátria libanesa com modesta bagagem de imigrante. Homem trabalhador e honesto, tirou do seu comércio o sustento da família, mas não podia educar os filhos além do curso primário que a cidadezinha oferecia. Concluído esse curso, o menino Alcy, perambulando pelas ruas de Caçapava, atirou uma pedra numa vidraça. Quando foi castigado pelo seu pai, enfrentou-o olhos nos olhos: "A culpa é minha mas também é sua. Por que o senhor não me manda estudar em outra cidade?"

As palavras do pequeno Alcy calaram fundo no coração do pai e, uma semana depois, estavam os dois em uma carroça em direção à Cachoeira do Sul. Ali estudou em uma escola rural. Depois formou-se Técnico Agrícola em Viamão e partiu sozinho para o Rio de Janeiro. Com vinte anos prestou vestibular na Escola de Veterinária do Exército, modelo de ensino na época, e foi aprovado em primeiro lugar. Também foi o primeiro colocado da turma pelos oficiais veterinários de 1928. E por essa razão, seus colegas Médicos-Veterinários de todo o Brasil o homenagearam pelos seus 70 anos de formado. Além disso, em 1973, buscando aperfeiçoar sua cultura geral, formou-se em direito.

Como militar, Alcy Vargas Cheuiche serviu o Brasil com ardor cívico digno dos grandes patriotas. Ao ver a bandeira verde-amarela sobre o seu caixão, pensamos o quanto ele estaria feliz com esta homenagem. Poucos dias antes de morrer, na Santa Casa que tanto serviu e amou, ele surpreendeu seus familiares e o dedicado médico Dr. Odilon, declamando com voz forte o verso imortal de Castro Alves: Auriverde pendão da minha terra, que a brisa do Brasil beija e balança, estandarte que a luz do sol encerra, as promessas divinas da esperança.

Além da bandeira pátria, também a bandeira da Fundação Educacional o acompanhou até o toque dos clarins. E naquele retângulo de pano estavam recortados vinte anos da sua vida. Depois de deixar o exército, reformando-se como General de Divisão, continuou dedicando sua inteligência lúcida, seu idealismo, sua vontade de ferro a todas as boas causas. Principalmente a criação e manutenção de muitos cursos superiores. E ao fazê-lo, certamente pensava na criança pobre que um dia fora, ansiosa para estudar em sua própria terra.

Tu foste um homem bom, Alcy Vargas Cheuiche, e a vida foi generosa contigo. No teu velório, junto à tua Zilah Maria Tavares Cheuiche, apaixonada por ti em 64 anos de casamento, circularam. homens, mulheres e crianças de todas as condições sociais. Civis e militares, ombro a ombro, carregaram teu corpo forte que nunca se vergou. E quando calaram-se os clarins, quando emudeceram as preces em nossos lábios, ouviu-se do anonimato do povo uma frase murmurada: estamos plantando uma semente de ouro na terra de Alegrete.

(1998)

Do livro Na Garupa de Chronos. p. 100-101.



Marília Santos Cechella (07-01-2006).

Esta página foi desenvolvida pela alegretense Marília Cechella, criadora e administradora do site da genealogia da Família Souza Brasil, como uma forma de homenagear o qualificado escritor do Alegrete - Alcy José de Vargas Cheuiche.

MARÍLIA é filha de Márcio Brasil dos Santos e Percília ("Moza") Lautert de Souza, neta de Fernanda da Silva Brasil (dos Santos, após o casamento), bisneta de Francisco de Souza Brasil, trineta de João de Sousa Brasil, tetraneta de José de Sousa Brasil (Filho), pentaneta de José de Sousa Brasil (o primeiro ancestral a imigrar para o sul do Brasil, vindo dos Açores/Portugal), hexaneta de Matheus de Sousa Brasil e provável dodecaneta do genearca Pero Luís de Sousa do Brasil. Seus fragmentos biográficos podem ser lidos aqui (página da 4ª geração dos descendentes de João de Souza Brasil).

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A última atualização foi feita em 14-02-2007.


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