ALEGRETE-RS
Crônicas sobre a cidade e sua gente


Calçadão - Rua Gaspar Martins



ALEGRETE É ....

Pedro Passamani
Crônica publicada no Jornal O Expresso Minuano.


Alegrete é, antes de tudo, a terra de nossos avós, nossos pais, nossos amigos e nossos vizinhos. São estes que, na hora que mais precisamos, nunca nos deixam sozinhos.

Ovelhas e guaxos da raça Texel, na estância Conceição da Figueira, propriedade de Celestino Nogueira de Oliveira, na Vila da Conceição - 7º subdistrito de Alegrete   (Foto de Ingrid Nogueira de Oliveira Viero).

Alegrete é também a cidade onde podemos criar nossos filhos, educá-los com segurança e tranqüilidade. E o lugar onde vivemos, trabalhamos, sorrimos, sofremos e choramos, mas na verdade é o lugar onde sabemos quem mora ali na esquina, sabemos quem mora aonde.

Alegrete só é a cidade do Já era e do Já teve para os pessimistas, que não têm sensibilidade, que não sabem ver e cantar sua aldeia, como se nela fosse um turista. Para o turista tudo é novo e diferente, está longe de sua terra e de sua gente. Se, para estes poderemos divulgar Alegrete como queremos que eles nos vejam, tenham certeza, por aqui há muita beleza e muita cultura para ser explorada. Se nos dermos conta disto talvez tenhamos mais amor com as nossas coisas e delas talvez possamos tirar uma vida melhor. Olhemos o Alegrete que eu vejo, e tenhamos certeza, que é este o Alegrete que é. Só precisamos querer para transformá-lo em um lugar onde todos gostariam de passear ou viver, criar seus filhos, e até mesmo morrer.

Alegrete é a mais conhecida das cidades da fronteira, onde um céu de infinito azul disputa atrativo e simpatia com sua gente franca, honesta e hospitaleira, que parece rir à toa como por deboche, porque aqui não se ri de um jeito qualquer, nosso riso é largo e bonachão. Depois do riso, vem o cordial chimarrão, a prosa, o canto, a nossa dança, por fim, toda nossa cultura e tradição.

Gado no açude - estância Figueira da Conceição, propriedade de Celestino Nogueira de Oliveira, na Vila da Conceição - 7º subdistrito de Alegrete  (Foto de Ingrid Nogueira de Oliveira Viero)

Alegrete é a mais gaúcha das cidades, temos o maior número de CTGs do interior e talvez até da Capital do Estado, onde há sempre um bom fandango e muito índio pilchado, preservando as culturas do pago. Temos também nossas estâncias de campo fino, enorme criação de gado, seja ovino, eqüino ou bovino, sempre bem cuidado, oferecendo genética para diversos lugares, até mesmo fora do nosso estado.

Alegrete tem uma pujante agricultura, que se perde no louro dos nossos arrozais, produzindo riquezas de tempos ancestrais. E se tudo isto não é suficiente, Alegrete tem muito mais, como eventos internacionais, museus e muitas invernadas de danças típicas regionais.

Alegrete é um jardim de flores, com suas largas avenidas, praças lindas e floridas, parques com árvores frondosas tudo desabrochando beleza e germinando vida. Olhemos Alegrete lá da coxilha do 6° RC e veremos a grandiosidade do que lhes falo, é beleza tanta para encantar qualquer visitante. Sem falar da oportunidade de observar a vista, lá da chácara do Dr. Delci, no mais alto da coxilha.

Palacete da Família Dornelles, na praça principal, hoje residência do neto Alpheu (Féco) Dornelles (foto: Nosso Guia).

Avaliemos a riqueza de nossos prédios históricos, como a Santa Casa, Oswaldo Aranha, a Igreja Metodista, a Igreja Matriz, o prédio do Féco, a Rodoviária, a Estação Ferroviária, primor de arquitetura, o prédio da prefeitura e tantos mais, históricos e lendários, que muitas façanhas podem contar. Então, é só querer estudar e divulgar o que Alegrete é e logo teremos um sem número de visitantes querendo conhecer este pago, que só parece mas não é insignificante.


Palacete da Família Dornelles, na praça principal, hoje residência do neto Alpheu (Féco) Dornelles.


Outra vista é a ponte da estrada de ferro no rio Ibirapuitã, próximo da Termoeléctrica, de onde se pode ver ao longe as curvas do rio serpenteando nossas planícies.

Açude na estância Figueira da Conceição, propriedade de Celestino Nogueira de Oliveira, na Vila da Conceição - 7º subdistrito de Alegrete  (Foto de Ingrid Nogueira de Oliveira Viero)

Alegrete tem também lugares para visitar que, se bem divulgados, são um atrativo sem igual, não vamos longe, comecemos pelo Poço de Bombas, onde se colhe água para abastecer a cidade. Lá se pode fazer fotos beleza impressionante do encontro das águas do Caverá com o Ibirapuitã. Subir de barco o Caverá é um passeio interessante e logo estaremos no balneário, que tambem tem belezas exuberantes. E assim se segue: a Serra do Caverá, a reserva do Ibirapuitã; o deserto do São João, Cerro do Tigre, as lendárias estações da viação férrea, nos mais longínquos rincões e demais subdistritos todos com suas atrações, tudo é história, é cultura, é beleza e pode ser explorado, desde que respeitando a natureza.

O turismo bem pensado pode ser uma das melhores indústrias geradoras de riquezas, trabalho, desde que saibamos que cantar a nossa aldeia é dever nosso para que todos aqui sintam-se bem e sejam respeitados.

Açude - Alegrete/RS - Foto: Nosso Guia - www.onossoguia.com.br.

Já posso até ver a cara de espanto dos leitores, mas passado isto, verão que é possível e que há motivo de sobra para sermos um Pólo Geoturístico, banhado pelo Ibirapuitã, circundado de caminhos, que cortam nossas planícies cobertas de flores do campo, sem considerar o luxo do material humano que dispomos, sempre alegre, servidor e hospitaleiro.

Pensemos com carinho a respeito e com o esforço de todos em breve estaremos rindo, aparentemente sem causa, pois o progresso e a dignidade de um trabalho traz o crescimento e quando cresce o mercado interno, a melhora no padrão de vida de todos é imensurável.




Nota da Webmaster:
As fotos do pampa (exceto a última) são da alegretense Ingrid Nogueira de Oliveira Viero, batidas na estância Conceição da Figueira (7º subdistrito de Alegrete: Vila da Conceição), de proprietário de seu avô, Celestino Nogueira de Oliveira.



VIBRA, ALEGRETE!.

Paulo Sant´Ana
Crônica publicada no jornal Zero Hora, em 10-01-2007.

Amanhã estarei a caminho do Alegrete, onde durante três dias me tornarei embaixador da RBS naquele pedaço de chão histórico do Rio Grande.

Pego a estrada ou alço vôo em algum avião que drible os sistemas fragilizados de controle de vôo e, de uma forma ou outra, camioneta ou pequena aeronave, eis-me em seguida no solo transido de emoção do Alegrete, que da última vez que visitei me prestou inesquecíveis preitos de reconhecimento e amizade.

Acompanha-me o Kenny Braga, esse sátiro peralta ainda anestesiado pelo sonho do Japão. A diferença entre mim e o Kenny Braga é que eu sou veterano de duas campanhas no Japão, enquanto ele vem de apenas um début, embora bem-sucedido, teve sorte quando o árbitro do jogo decisivo desconheceu o pênalti sobre Ronaldinho Gaúcho.

Mas a sorte é componente da vida das pessoas.

Meu segundo e último companheiro na viagem até o Alegrete é o doutor Afonso Motta, Vice-presidente da RBS, outro que também foi ao Japão no último dezembro.

Minha sina é ter vivido toda a minha vida assim como acontece nessa viagem: cercado de colorados por todos os lados. Eles sempre tentaram me encurralar, eu sempre gambeteei¬os nos entreveros e pus-me a salvo de suas insídias, depois de esporeá-los airosamente.

O Afonso Motta, filho do saudoso taura Cassiano Paim da Motta, é um cobra do trabalhismo gaúcho, daqueles que respiram e vão respirar até que deixem de respirar as idéias de Leonel Brizola, aquele que disse que os adversários, na epopéia da Legalidade, estavam se enganando com o Rio Grande, que em realidade era como um abacate: macio por fora, mas por dentro encontrariam um caroço duro de roer.

Honório Lemes, o Leão do Caverá, nascido em 23.9.1864 e falecido em 30.9.1930.

Então vai comigo o Afonso Motta, que é um trabalhista. A diferença entre ele, um trabalhista, e mim, é que eu sou um trabalhador.

Eu sou um trabalhador de mãos calosas e de neurônios suados: em 55 anos, nunca deixei de trabalhar, com e com e sem carterira de trabalho, o que me deram para fazer, neste mais de meio século, fiz. E acho que dei e venho dando conta do recado.

E lá vou eu pela imensidão do pampa, como disseram os Fagundes, no rumo do Alegrete, no rumo do próprio coração. Como dizia o poeta e filósofo russo Maiakovski, em mim a anatomia enlouqueceu.

Em mim também a anatomia enlouqueceu, quando forem os legistas analisar o meu cadáver, levarão um susto: não vão encontrar ossos, nervos, tendões, cartilagens, vísceras, encontrarão tão-somente um grande músculo, o coração. Ele só fez bater e pulsar durante toda a minha vida no interesse de tudo que fosse, objetos e causas, relacionado com os homens. O meu endiabrado coração só se interessou por tudo que fosse humano, danado coração que nunca ligou para os fatos fúteis.

Eu estou indo para uma terra que abrigou um centauro dos pampas, um guerrilheiro indomável, nas revoluções de 1893 e 1923, Honório Lemes, o Leão do Caverá (foto).

Estou indo para o Caverá, que leva o nome da serra do mesmo nome, é preciso ter consciência do lugar que se está visitando.

Churrasco em estância do Alegrete (Conceição da Figueira). Foto: Ingrid Nogueira de Oliveira Viero, julho/2006.

Ali mesmo, pertinho do Cerro do Dinheiro, debaixo de algumas árvores que já freqüentei, vou comer dois churrascos de borrego gordo que já me prometeram; num almoço e noutra janta, depois de amanhã e sábado, as duas máximas delícias que saborearei.

Por sinal, dizem os entendidos que a carne de ave mais saborosa do mundo é o faisão. E que a carne mais saborosa do mundo, em animal de quatro patas, é o cervo. Mas eu duvido que o cervo seja mais delicioso que o cordeiro mamão que eu vou comer em Alegrete, principalmente porque o piedoso cordeiro que vou saborear será sacrificado uma hora antes da minha refeição.

É de comer ajoelhado.

O pretexto dessa minha viagem de sonhos é o EFIPAN, tradicional campeonato infantil de futebol, que reúne vários países participantes, agitando e orgulhando Alegrete.

Futebol e churrasco. Eu estarei em casa no Alegrete.

Foto de Ingrid Nogueira de Oliveira Viero
(Churrasco em estância do Alegrete).



EU SEI ONDE FICA O ALEGRETE

Paulo Sant´Ana
Texto publicado no jornal Zero Hora, em 19-09-2007.

Como amanhã é o 20 de Setembro, dirijo-me hoje para uma das mais vibrantes catedrais do tradicionalismo gaúcho: Alegrete.

Lá, amanhã e depois, vou matear, vou churrasquear a mais tenra e saborosa costela de cordeiro abatido apenas algumas horas antes, um bichinho vindo especialmente para mim lá do Cerro do Dinheiro, onde a pastagem detém um húmus tão rico em proteínas quanto a da Província de Buenos Aires.

Serão rápidos mas cheios de conteúdo humano esses dias de Alegrete, a tertúlia, a música, a poesia, a hospitalidade daquela gente amiga que se entrega à beira do fogo, mas principalmente a costela crocante do cordeiro, mas essencialmente a chuletinha úmida e macia e doce do cordeiro, como aqui tristemente não se encontra e lá se constitui num manjar dos privilegiados.

Desfile de cavalarianos, na praça de Alegrete, em 20-09-07. Foto: Marco Santierri - www.doalegrete.com.br.

E depois é curtir o sacrário da tradição no desfile de quase 10 mil cavalarianos na data máxima farroupilha e o Jornal do Almoço, na Praça Getúlio Vargas. Amanhã, junto com a Rosane Marchetti, o Lasier Martins e toda a turma chefiada pelo Zé Pedro Vilalobos.

É sempre agradável uma mudança de ares.

Desfile no Dia do Gaúcho, na praça de Alegrete, em 20-09-07. Foto: Marco Santierri - www.doalegrete.com.br.


Clique aqui (http://br.youtube.com/watch?v=nCEYKb40aIk) para ver um vídeo sobre o desfile tradicionalista em Alegrete, no Dia do Gaúcho.
Nas imagens, fatos e vultos históricos dos primórdios da cidade são relembrados, bem como sobre a Revolução de 1923 - a luta política entre chimangos (legalistas) e maragatos (revolucionários). Foi feita uma simulação do famoso combate sobre a ponte do rio Ibirapuitã, entre as forças de Flores da Cunha (líder chimango) e Honório Lemes (líder maragato), e representado o batalhão de Vasco Alves Pereira - alegretense que teve importante participação na Revolução Federalista de 1893. Também foi relembrada a formação da Aliança Liberal (maragatos e chimangos) na Revolução de 1930, representada pela pessoa de Getúlio Vargas.


Quinta-feira, 20 setembro de 2007

Perdi o sono por aqui, no Alegrete. Embalei a madrugada versejando. Saiu um poema em homenagem a esta terra e sua gente. Ei-lo:

POEMA À ALEGRETE

Paulo Sant´Ana

Cá estou de novo no Alegrete
a gozar tua fidalguia
cidade amada
o macete de curtir teu dia-a-dia
para mim é um bilhete premiado da loteria

Como tu ficas distante de mim
mas quando diviso Rosário
sinto inquietante tremor, paixão, um aviso
que estou entrando triunfante
nas portas do paraíso

Terra amada Rio-Grandense,
do Brasil dileta filha
distância longa se vence
até chegar a esta ilha
este solo alegretense
é a catedral Farroupilha.

O poema acima e o texto abaixo sobre a culinária alegretense estão publicados no Blog de P.Sant'Ana /jornal Zero Hora Virtual, em 20-09-2007.
Clique aqui para ouvir P.Santana recitar o poema.


Paulo Sant´Ana

É impressionante a hospitalidade em Alegrete. Tive um legítimo dia de rei aqui na Fronteira, especialmente quando o assunto era culinária. Além do espetacular churrasco gordo de cordeiro, apreciei um prato que não conhecia.

Paulo Sant'Ana: um dia de rei na fronteira. Foto: Jarbas Abreu, Especial.

O prato, este, configura uma das maiores pretensões do movimento tradicionalista aqui do Sul. Querem transformá-lo num símbolo da comida crioula gaúcha.

À direita na foto, enquanto entretenho-me com um mate feito de erva hors concours, uma frigideira ostenta o preparo do tal prato que, pouco depois, eu devoraria lambendo os beiços. É uma espécie de paella crioula, mas é a primeira paella que vi ter seus ingredientes misturados só ao fim da fritura.

Primeiro, apóiam vegetais sobre a borda da frigideira. Só depois que os legumes (e aí entram cebola, tomate, pimentão, vagem, couve-flor e outros) ganham aroma e cor é que o centro da frigideira recebe iscas de cordeiro. Embebidos em azeite, os vegetais então deslizam para o centro, como que num abraço às iscas de cordeiro.

Da mistura de tudo, então, nasce uma paella deliciosa, digna de dar sabor a qualquer 20 de Setembro.




Nei e sua paixão: a culinária ovina.

Nota da webmaster:
A paella de cordeiro em disco de arado é uma das especialidades do alegretense Nei Milano Galvão - um apaixonado pela criação e culinária de ovinos, que transformou seu hobby em um negócio. NEI divulga e faz eventos de culinária ovina e já publicou um livro só com receitas de carne ovina, em 1999 ("Carne Ovina - técnicas culinárias e dicas", editora INFOTEC, de Alegrete-RS). A idéia do livro surgiu a partir de lembranças que ele tinha do seu pai, Mário Neves Galvão, que chamava a ovelha de "bicho sagrado".
Há mais de 5 anos, NEI é organizador do buffet da Festa do Cordeiro, no Centro de Tradições Gaúchas Farroupilha de Alegrete e de vários outros grandes eventos da cidade.
Seu trabalho de culinária com carne ovina vem sendo divulgado no seu site http://www.neigalvaoculinariaovina.com.br.

Mais detalhes sobre Nei Milano Galvão podem ser vistos na página da 4ª geração da Genealogia da Família de João Souza Brasil, do qual ele é descendente (trineto), no ramo Brasil Milano da família.




Texto publicado no jornal alegretense O Expresso, em 2006:

NOSTALGIA POÉTICA
"Alegrete e suas personagens mais significativas. Homens e mulheres representantes de uma época, de um tempo que passou e que marcaram de um jeito definitivo a lembrança de infância e da mocidade de gerações. A cidade e suas esquinas, seus prédios que guardam os sussurros do passado e que teima, em lugares recônditos da memória, trazer de volta as cores, os odores e uma lasca de vida de tudo o que foi. Não há como tecer uma ligação real, mas é possível acreditar que a lembrança possa reanimar esse sonho permanente de recuperar o tudo que nos pertenceu... aqueles ares, aquelas pessoas, os ambientes, os matizes. Talvez a poesia que, se não de toda, mas em parte e com o vigor e o calor da saudade, nos entrega a beleza e a magia do que não voltará jamais. A seguir, para deleite dos leitores ( muitos realizarão uma viagem ao passado), a poesia de Gilberto Carvalho, lembrando um dos locais mais memoráveis da gastronomia alegretense, o bar do seu Romeu, ao lado do cine Glória. O poeta endereçou seu trabalho em homenagem aos familiares de Seu Romeu e Dona Neci, sua esposa."

NO "BACACHIRI"

Gilberto Carvalho

Retoma vivo na nossa memória o seu "tempero" das alaminutas
... e carinhosamente nos remete ao tempo antigo do "Bacachiri"!

Prédio do antigo Bar e Restaurante Bacachiri, ao lado do ex-Cine Glória (foto de M.Cechella)

Não há como ingressar no Cine Glória, porque o seu Romeu nos "enfeitiça" com a ternura dos seus olhos doces, o seu sorriso de invadir a alma, a alquimia do melhor sorvete e a culinária da Dona Neci.
... este é o tempero do Bacachiri.

À direita da porta, na entrada o balcão-geladeira, guarnecendo um mundo - só sorvete e picolés pra colorir a nossa fantasia!
Mesas esparramadas no salão com toalhas de "olhado" multicor, as cadeiras torneadas, de madeira, uma limpeza de fazer inveja e ternura de lar para todos nós!

No antigo "orbiphon" na prateleira, a Ângela Maria se derrama com o seu samba-canção pleno de amor.
- É o programa do Hélio (do seu Paco) desde os estúdios da Rádio Alegrete, revelando as belezas brasileiras do nosso cancioneiro popular
... num tempo em que a gente namorava ao embalo da arte nacional.

- Picolé de groselha - beiço roxo! mas boca verde vem do de limão.
-Me dê um copo de massa com três bolas!
-Bote o meu na livreta, seu Romeu.
- Me dê mais outro para a minha irmã, que a minha mãe depois lhe paga aqui!

Local onde antigamente funcionava o Bar e Restaurante "Bacachiri", ao lado do antigo Cine Glória, hoje é uma papelaria. Num passado mais remoto, esse sobrado era a residência da família do poeta Mário Quintana (na parte superior era a residência da família e, na parte térrea - na esquina - era a farmácia do seu pai, Celso Quintana).

- Piriri ... pipipi, é o "Caruncho" (pedindo um trocadinho, um picolé)
- qualquer sabor virá saciar o sonho do guri que nasceu já sem visão!

Sobre a escrivaninha escura, bem ao fundo, paira o retrato de seu dia a dia:
- cigarros na metade, que apagaram, notas de "pila" que os guris deixaram, chaves da casa, moedas, seus remédios, martelinhos de pinga, um baralho, a folhinha do Banco da Província,
um vinho Luiz Antunes - pelo meio,
E uns versos do João Vargas - na Gazeta.

Diuturnamente assim, ano após ano, o trabalho, a família - o seu mundo.
- De peito aberto para encarar a luta, o jeito firme pra educar os filhos
... os amigos de pife e pescaria, até que o tempo lhe extinguisse a vida.

....................................................

A "bicha" do cinema não tem mais (e nem sessões pra se "bater os pés")
A troca de "gibis" - as matinés,
E até o Caruncho se foi na rua afora apitando pra nunca mais voltar.

Porém, de vez em quando, o coração insiste esta janela escancarar.
E uma saudade boa vem levar
Nossa lembrança aos tempos de guri: ao cinco, oito, cinco - ali na Andradas
Com um sorvete pra nós, o seu Romeu
Sorrindo, à porta do Bacachiri.




UMA LENDA: "JANGOTA" PEREIRA.

Sérgio A. Pereira Borja
Advogado e professor de Direito na PUC/RS e UFRGS
http://www.sergioborja.com.br

Meu avô materno foi uma lenda viva em toda a Fronteira Oeste. Nasceu no dia 30 de julho de 1888 na fazenda "do Buracal" entre o município de Alegrete e Rosário do Sul, nas dobras da Serra do Caverá.

Filho de Manoel Severino Pereira da Costa, oriundo de Lavras do Sul, filho de proprietários de minas de ouro esgotadas que rumaram para a fronteira em busca de uma vida melhor, que era casado com Vitalina Rufino Pereira da Costa.

Conta a lenda que minha bisavó, que já tinha várias filhas, perdia todos os filhos varões logo após o parto. Um velha índia teria-lhe ensinado uma simpatia: Quando o próximo filho varão nascesse teria de dar-lhe um banho de cacimba. Meu avô nasceu no forte do inverno e vindo a luz, foi levado a uma cacimba que distava da casa da fazenda, sendo que pela manhã quebrou-se o gelo que espelhava a superfície da água. Meu avô, bêbê recém nascido, foi enfiado na água gelada e temperado, como aço, para o resto de sua vida, quando demonstrou de sobejo esta têmpera.

Casou com a pouca idade de 18 anos com Zulmira Carneiro da Fontoura, filha de Valentim Carneiro da Fontoura, família nobre oriunda de Dom Pedrito, e que por herança do pai recebeu entre Rosário e Alegrete a fazenda "Vista Alegre", com 70 quadras de sesmaria e uma chusma de escravos que tinha inclusive um negro reprodutor (como chamavam na época) casado com Francisca Elisa Carvalho Carneiro da Fontoura, nascida na cidade de Salto, no Uruguai.

Recém casado dedicou-se no seu começo ao plantio do tabaco, mas logo abandonando a cultura para dedicar-se ao que o caracterizou para o resto de sua vida: tropeiro.

Nascera assim a lenda da fronteira oeste: JANGOTA PEREIRA, O PATRIARCA DO GAUCHISMO ! Como intitulou-o a Gazeta de Alegrete, o jornal mais antigo do Rio Grande do Sul, em edição comemorativa a passagem de aniversário de sua morte.

Fazia tropas de mulas para vendê-las aos "birivas" (nomes que os gaúchos atribuíam aos "gringos" italianos) da serra, que depois as comerciavam com os paulistas, para o transporte das cargas de São Paulo para o Rio Grande do Sul e para o Rio de Janeiro, porquê na época inexistiam automóveis e as linhas de trem eram deficitárias. Somente o comércio litorâneio era feito por navios sendo que o tráfego interno era feito através de tropas de carga tracionadas pelas famosas mulas (cruza híbrida de égua com burro).

Na época da segunda guerra mundial, em razão do abastecimento do teatro de operações na Europa, na África e na Ásia, os ingleses instalaram-se em Rosário do Sul, com a Cia. Swift-Armour, que montara um grande frigorífico que enlatava carnes para o teatro de operações.

Meu avô, homem correto e muito honesto, conhecido de todos, recebia tropas em consignação, que ultrapassavam mais de 3000 cabeças de gado, por vez, e as conduzia de todos os rincões da Fronteira Oeste para os matadouros de Rosário.

Foi assim, à pata de cavalo, começando entre as escaramuças de chimangos e maragatos, conduzindo tropas, tendo inclusive um "salvo conduto" perante Honório Lemes, o Leão do Caverá, que iniciou uma fortuna que transformou em mais de 150 quadras de sesmaria, três léguas de campo, distribuidas entre várias fazendas, que atendia pessoalmente até provecta idade.

Morreu aos oitenta e sete (87) anos de idade e ainda andava a cavalo, tendo distribuido sua fortuna em vida, por três vezes, fazendo a "Reforma Agrária em Família", como dizia, começando sempre novamente do quase nada, "enricava" de novo, dando exemplo de tirocínio nos negócios.

Seu interesse pelos negócios privados não o desviava de sua atividade social e seus compromissos para com a sociedade em que vivia, participando das Sociedades e Sindicatos e Associações, escrevendo nos jornais da Gazeta, do Correio do Povo e inclusive na Zero Hora Rural, contribuindo sempre com sua opinião de homem prático do campo, embora não tivesse concluido o primário, sendo assim, um autodidata.

Eis o talho de uma vida feita com perseverança, que vencendo as desvantagens da civilização e do tempo, levou-o a tornar-se uma figura lendária, como homem campeiro, conhecedor das lides do campo, amigo dos peães e capatazes, a quem sempre estimulava com sua simplicidade e exemplo no trabalho.

Foi ele, pela primeira vez, que implantou no Rio Grande do Sul, a cruza do zebu com a raça Durham, obtendo um tipo genético semelhante à raça "Santa Gertrudes" que foi posteriormente estabelecida pelo King Ranch, no Texas. Em sua honra, postumamente, foi instituido um prêmio cognominado "Jangota Pereira" para touros rústicos criados à campo, que foi como um prêmio Nobel para os criadores da Fronteira Oeste e os Missioneiros.

Deixou uma linhagem de 9 filhos, 43 netos e mais de uma centena de bisnetos entre eles, alguns destacados no ramos da criação, como Manoel Getúlio Fontoura Pereira, Luis Antônio Pereira Rodrigues , Luis Odilon Pereira Rodrigues, criador muito premiado e várias vêzes entrevistado pela Zero Hora e ainda seu irmão, já falecido, João Carlos Pereira Rodrigues, grande criador conhecido no Brasil e no Mundo, pela sua célebre "Marca de Casco", todos expositores em Esteio. Hoje, grande parte da família dedica-se ainda a pecuária de corte e a agricultura, como diversificação, apesar da época de crise.

Este homem, que foi e é uma lenda ainda viva, em todos os rincões da Fronteira, onde se contam causos sobre o mesmo nas rodas de galpão e nos bolichos, do Parové, do Queromana, do Touro Passo, do Caverá, do Guaçú Boi, do Inhanduí, e de tantos nomes lendários do país dos gaúchos, que dão testemunho, sobre sua coragem, tenacidade, persistência, conhecimento das lides e pelo seu entusiasmo pelo trabalho que até hoje é relembrado em causos e xistes populares.

E para dizer que não minto sozinho, dou de testigo duas direções para que comprovem estas histórias da vida: O "Barão de Catutinha", poeta do Alegrete, cognome do Hélio Ricciardi, diretor-presidente da vetusta "Gazeta do Alegrete" e o "Biriva" , com todo o respeito, Presidente da Farsul, cujo pai, em tempos antigos, comprou muita mula do meu avô.

JANGOTA PEREIRA ! EIS O NOME DA LENDA !

Quem lhes conta o causo é o neto "cola fina de cidade", um sujeito maturrango, nascido "nas capital", mas morador "do Alegrete", que de baixo dos sarandis, nas barrancas do Ibirapuitã, tomou muito gole d'água, no Porto dos Aguateiros. Assim fico a disposição prá qualquer prosa a respeito, meu nome Sérgio Augusto Pereira de Borja, mais conhecido como Sérgio Borja.




HISTÓRIA DE UMA ESPADA
(Carta aberta a um oficial do Exército)

Carta escrita pelo general Carlos Alberto da Fontoura, em março de 1973.)

O ano era de 1941. Abril, o mês. O dia não me recordo. Mas era frio e chuvoso. A terra, Alegrete, no Rio Grande do Sul. O regimento, o legendário Sexto Regimento de Cavalaria Independente (6º RCI), hoje Regimento José de Abreu.

Comandava a então 3a Região Militar (3ª RM), hoje Comando Militar do Sul, um general firme, inteligente, culto e dinâmico. Seu nome: Estevão Leite de Carvalho.

A 2a Guerra Mundial ensangüentava a Europa. O Brasil, atento à conjuntura, preparava suas Forças Armadas para a eventualidade – que afinal ocorreu – de se ver obrigado a participar do conflito.

Duas jornadas (dois dias) de inspeção, com aviso prévio de 48 horas, transformaram a rotina do 6º RCI. Do comandante ao mais modesto dos soldados, todos se preparavam para a guerra e para encontrar o comandante da então 3ª RM.

No Campo da Aviação, o regimento teve o primeiro contato com o chefe. Este passou em revista, minuciosa, a unidade completa. Até os cavalos, como que vivendo a situação, portaram-se magnificamente bem, imóveis e atentos aos seus cavaleiros, em verdadeira posição de sentido. Nem o vento, molhado por uma chuvinha fria, logrou empanar a beleza militar da cena nem diminuir a tensão do momento – realmente solene.

Finda a revista, e consoante o programa, caberia a um esquadrão reforçado (1º Pelotão de Morteiros e 1º Pelotão de Metralhadoras) dar uma carga para que se pudesse avaliar o espírito de agressividade do regimento. Coube ao II Esquadrão fazê-lo. Qualquer dos esquadrões poderia executá-la. O regimento estava instruído.

O II, em batalha, numa das extremidades do Campo de Aviação, espadas e lanças em riste, rostos contraídos, estribando fundo, a um gesto de seu capitão, irrompeu furiosamente, como se fora mesmo enfrentar o inimigo. Realizada, com êxito, pois que ninguém tombara, nem peças de equipamento se desprenderam. Ao sinal de reunião, estava novamente o esquadrão pronto a receber nova missão, o que realmente aconteceu.

Tratava-se agora de exercício tático em que o regimento seria lançado, em profundidade, como vanguarda da 2ª Divisão de Cavalaria. Coube, ainda, ao II Esquadrão constituir a vanguarda da unidade.

Era necessário atravessar a cidade e prosseguir no rumo da fronteira. Mas, para tal, era indispensável transpor o rio Ibirapuitã. Pela situação original a ponte sobre ele estava ainda intacta. Entretanto, quando a patrulha de ponta aproximava-se da ponte, um árbitro (inimigo em tempo de paz) considerou-a destruída. O tenente comandante decidiu atravessar o rio a nado.

A época era de enchente. O rio Ibirapuitã estava campo a fora, bufando, como dizem os gaúchos. Media cerca de 200 metros de água, vale dizer, de nado.

O tenente não titubeou. O tempo e a urgência eram fatores preponderantes. Equipado, como estava, o rio Ibirapuitã fora da caixa, a chuva, o frio, nada o impediu da única decisão a tomar. "Patrulha, por um, à minha retaguarda!" – foi o que disse. E encaminhou-se para o rio. À frente, dando o exemplo, atirou seu cavalo à água fria e correntosa do Ibirapuitã. A patrulha, disciplinada e instruída, seguiu o jovem tenente. Todos os homens, sem pestanejar, jogaram seus cavalos nas águas. A correnteza, fortíssima, porém, frustrou o desejo do conjunto. A quase totalidade dos cavaleiros foi levada rio abaixo, talvez dois ou três quilômetros, onde por fim alcançavam terra, mas na mesma margem, isto é, naquela em que entraram no rio.

Dois homens, porém, atingiram a barranca oposta: o tenente, comandante da patrulha, e um cabo, o cabo Jotilho.

Era a certeza do cumprimento da missão. Prosseguindo o tenente e o cabo, ficou-se sabendo do que se passava nas hostes inimigas.

De posse das informações recebidas, o esquadrão aprestou-se para transpor o rio. Entretanto, o comandante da 3ª RM, antevendo, talvez, o grave risco a que se submeteria a tropa (cerca de 250 homens), dadas as condições do rio, suspendeu a travessia, considerando a ponte reparada pela Engenharia.

Finda a operação, ao cair da tarde, verifica o tenente comandante da patrulha que perdera, nas águas do Ibirapuitã, a sua espada. Sua espada de comando, símbolo de honra militar e de sua condição de oficial.

Concluída a inspeção, na qual, aliás, se fora bem o regimento, uma única perda a considerar: a espada. O regimento, à frente seu comandante, em formatura solene, entrega ao tenente outra espada.

Os tempos passaram. O tenente, transferido, já integrava outra unidade de Cavalaria por esse Brasil afora.

No verão seguinte, o rio, com suas águas baixas, oferecia praias agradáveis para o banho. Um outro tenente, Renê Guedes da Luz, da reserva, convocado devido ao estado de guerra, banhava-se nas águas do Ibirapuitã. Sentiu que seu pé tocara algo estranho. Abaixou-se e, para surpresa sua, encontrou uma espada "rabo de galo", de Cavalaria. Era a espada perdida do tenente comandante da patrulha.

Participou o fato ao seu comandante de esquadrão. Este propôs-lhe uma troca, que foi aceita. Ficou assim o comandante do II Esquadrão com a espada que fora do tenente. O comandante do esquadrão, então, pensou: "Se um dia o comandante da patrulha tiver um filho oficial, outra não será a espada que deverá portar".

Correm os anos. O comandante do esquadrão e o tenente comandante da patrulha, já coronéis, vêm a servir na mesma organização militar. Aí, convívio diário, o comandante do II Esquadrão ficou sabendo que o comandante da patrulha tinha um filho cursando a Academia Militar das Agulhas Negras.

O tempo passou. Em dezembro de 1969, o comandante do II Esquadrão viu realizado o seu desejo de vinte e oito anos atrás:

– O filho do comandante da patrulha, aspirante-a-oficial, recebeu, a 20 de dezembro de 1969, a espada que seu pai perdera nas águas ligeiras do Ibirapuitã, em 1941.

Assim, tenente Rui Monarca da Silveira – a quem dirijo essa carta – foste tu o aspirante que passou a portar a espada do tenente comandante da patrulha – teu pai – hoje general-de-brigada José Magalhães da Silveira, comandante do 1º Grupamento de Fronteira, no Rio Grande do Sul.

Como vês, meu jovem tenente – os cavalarianos de hoje são herdeiros fiéis dos cavalarianos de ontem. Dos cavalarianos de Osório que, no dizer do insuspeito Garibaldi, constituíam a melhor Cavalaria do mundo.

Aqui termino esta carta, pensando no exemplo eficiente que a história dessa espada constitui, ligando, pelo seu punho, duas gerações, igualmente irmanadas no cumprimento do dever.

Um pai, um filho, o mesmo uniforme.

A mesma fibra, a mesma espada, o mesmo ideal.

Um exemplo: cumprir a missão a qualquer preço.

Fonte: http://www.exercito.gov.br/NE/2000/NE/ne9751/cul751.htm.




REFLEXOS DA 2ª GUERRA MUNDIAL EM ALEGRETE.

Francisco Carlos D´Andrea (*)
(Engº. Civil e ferroviário aposentado)

Corria o ano de 1942: a guerra, até então algo distante e alheio a nosso cotidiano, passa a bater à nossa porta, com navios mercantes brasileiros afundados por submarinos nazistas e com a declaração formal de guerra do Brasil contra as potências do “Eixo”.

Começam então os preparativos para o envio de tropas ao cenário da luta: reservistas são reconvocados de todos os recantos deste imenso país; como diz a Canção do Expedicionário:

“Você sabe de onde eu venho? Venho do morro, do engenho, Das selvas, dos cafezais, Da boa terra do coco, Da choupana, onde um é pouco, Dois é bom, três é demais

Venho das praias sedosas, Das montanhas alterosas, Do pampa, do seringal, Das margens frescas dos rios, Dos verdes mares bravios Da minha terra natal!”

Desses que vieram do pampa, haveria algum de Alegrete? Eu sei apenas de um, Rui Jacques Trindade, filho do Seu Ismael e de Dona Vitoriana, moradores do Capivari, que deram uma festança por ocasião de sua volta (e eu fui a esta festa; é verdade que não aproveitei muito,terminei sendo posto a dormir em uma cama de casal, com mais meia dúzia de crianças, enquanto os adultos bailaram a noite inteira!).

Outro que foi reconvocado, embora não tenha seguido para a frente de combate, foi meu irmão Pedro D’Andrea Neto. Ele foi destacado para o Sexto Regimento de Cavalaria, ali próximo da Estação Ferroviária, onde hoje está o Batalhão de Engenharia. Quando ele tinha que ficar alguns dias no quartel, minha mãe lhe mandava diariamente um fiambre, que era entregue ao sentinela, no portão. Naquela época jamais sequer se pensaria em mandar uma menina ou uma moça levar algo a um quartel: como meu irmão Domingos trabalhava, sobrava para mim, um homem com quase 5 anos caminhar pouco mais de uma quadra da rua Tamandaré, atravessar a linha férrea, chegar até o quartel com o fiambre, entregá-lo ao sentinela e dizer a quem se destinava (embora a tarefa não me agradasse muito, eu a cumpria a contento, afinal guerra é guerra).

E apesar de minha pouca idade, ficava a filosofar: guerra devia ser uma coisa muito ruim, pior que aquela grande enchente (1941) que desabrigou tanta gente, pois fazia minha mãe chorar com a simples possibilidade de seu filho ser enviado à luta... e eu sequer imaginava a dor daquelas mães cujos filhos foram e não voltaram!


(*) Francisco Carlos é neto do casal de imigrantes italianos Pedro (Pietro) D´Andrea e Luzia (Lucia) La Gamba, que aportaram em Alegrete junto com uma leva de imigrantes italianos ((Faraco, Brancato, Mitidieri, Apratto, La Gamba e outros), no final do século XIX/ início do XX.
A listagem dos descendentes de Pedro e Luzia La Gamba D´Andrea está publicada aqui: http://www.orkut.com/CommTopics.aspx?cmm=653941 (Comunidade Família D'Andrea, no Orkut - tópicos "Nossa Genealogia" partes I, II, III e IV).

Nota da Webmaster:
A chegada dos imigrantes italianos na América do Sul era, inicialmente, no porto de Buenos Aires-ARG e, de lá, por via fluvial pelo rio Uruguai, chegavam até Passo de los Libres-ARG e atravessavam para Uruguaiana-RS. A viagem de Uruguaiana à Alegrete era feita através da empresa de barcos a vapor Bárbara, pela via fluvial no Rio Uruguai, Rio Ibicuí, Rio Ibirapuitã, até o Passo do Mariano Pinto. Daí para Alegrete, o percurso de 80km era feito por carros de madeira (de quatro rodas), puxados a cavalo ou por carroças.




CANTATA E FUGA

Francisco Carlos D´Andrea
(Engº. Civil e ferroviário aposentado)

Tinha eu entre 2 e 3 anos e morávamos próximo a Igreja Metodista, em Alegrete, só não lembro o nome da rua.

Todas as manhãs, após tomar o café, minha irmã Francisca penteava cuidadosamente meus cachos e eu ia sentar no portal da casa para olhar o movimento de pessoas e de carroças, as quais vendiam frutas, verduras ou lenha para fogão; quanto aos cachos, eram resultantes de uma promessa feita por minha mãe de não cortar meu cabelo até os sete anos, pois estive muito doente, com poucos meses de vida.

Uma das pessoas que por ali passava era o barbeiro que vinha abrir seu salão localizado 2 ou 3 casas depois da nossa; ele passava e dizia:
- Que linda menina!

Ao que eu replicava:
- Eu não sou menina, sou homem!

E vinha a tréplica:
- Homem não usa cabelo comprido, vai até o salão e eu corto teu cabelo!

Dia após dia esta conversa se repetia, até que eu criei coragem e fui atrás do barbeiro, para que ele cortasse meu cabelo. No salão ele colocou uma tabuinha sobre os braços da cadeira e me sentou nela e foi cortanto cacho após cacho. Eu estava alheio a tudo, ouvindo maravilhado o cantar de passarinhos que estavam em gaiolas dependuradas nas paredes em volta de mim.

Terminado o corte, voltei para casa cheio de alegria, contrastando com a tristeza de minha mãe por ver quebrada sua promessa.

Quanto ao barbeiro, não sei o seu nome, mas era conhecido pelo apelido de Pipiu, provavelmente por criar pássaros canoros.

No título desta historieta os passarinhos são responsáveis pela cantata e eu, pela fuga!


Nota da Webmaster:**
Quando Francisco repassou-me esse seu texto, ele não sabia que eu conhecera (e muito!) esse barbeiro que lhe provocava e veio a lhe cortar os cachos.

Custódio José dos Santos - marido de Fernanda Brasil, pai de Márcio Brasil dos Santos e avô paterno de Marília Cechella

Essa figura de apelido Pipiu era o barbeiro do Salão Brasil, que ficava quase na esquina da rua dos Andradas com a Vinte de Setembro. Junto à sua barbearia, Pipiu também tinha uma pequena loja de artigos masculinos (gravatas, camisas, meias, chapéus, abotoaduras).

Ele era um homem de origem simples, filho de mãe solteira (algo inaceitável nos padrões morais da época), fruto de um relacionamento dela com um homem casado, da então vila de Manoel Viana.

Eu o conheci só quando criança (pois ele faleceu quando eu tinha uns 8-9 anos), mas meu pai teve estreito convívio com ele durante vários anos e foi quem contou-me bastante sobre ele.

Ele chamava-se Custódio José dos Santos, mas poucos amigos sabiam disso, pois só o conheciam pelo apelido.
Embora fosse de uma família modesta, de parcos recursos financeiros, Pipiu era um moço bonito, de belos olhos verdes (foto), vindo a casar-se com uma moça de família conhecida na cidade - Fernanda Brasil.

Dos descendentes de Fernanda e Custódio, o filho mais velho chamava-se..... Márcio Brasil dos Santos - meu pai !

Francisco, o barbeiro Pipiu da sua história era o meu avô Custódio!

Marília Cechella**




UM TERNO DE CASEMIRA BEGE

Francisco Carlos D´Andrea
(Engº. Civil e ferroviário aposentado)

Quando retornei ao Alegrete, dia 19 de setembro de 2009, minha prima em 2º grau Vera Álvares da Cunha me presenteou com um exemplar da Revista do Imigrante de 2008 em que ela escrevera uma crônica sobre a Alfaiataria La Gamba, que existiu na cidade e na qual trabalharam os cunhados Rafhael La Gamba e Pedro D’Andrea, respectivamente meu tio-avô e meu avô paterno.

A Alfaiataria La Gamba ficou conhecida como “A Moderna”. Diz ainda a professora Vera, que o legado da Alfaiataria La Gamba foi tributado a Pedro D’Andrea Filho (Pedrito), meu tio, que foi considerado um dos melhores alfaiates de Alegrete até meados da década de 60, quando se aposentou e que o mesmo exerceu seu oficio na Rua dos Andradas ( nº 253), já com o nome de Alfaiataria D’Andrea.

A partir do que diz a professora Vera, eu continuo com a história, acrescentando:
Dos filhos de Rafhael La Gamba, nenhum seguiu a profissão do pai, tendo a sua linhagem de alfaiates se extinguido com ele.
Dos filhos de Pedro D’Andrea, além de Pedrito também trabalharam neste ramo meu tio Ventura Radamés D’Andrea, que foi auxiliar de Pedrito em sua alfaiataria, mas que nunca chegou a se estabelecer como alfaiate, e meu pai João Batista D’Andrea, também alfaiate, que exerceu a profissão em Alegrete e posteriormente, em Quarai.

Apesar de ter três filhos (Pedro, Domingos e Francisco) João Batista não pode transmitir a profissão a estes, pois morreu muito jovem, com 42 anos incompletos e o mais velho dos filhos, Pedro D’Andrea Neto tinha na ocasião apenas 18 anos, Domingos tinha 14 anos e eu, Francisco, apenas 2 anos. O ciclo dos D’Andrea alfaiates não se encerrou com ele, pois continuou com seu irmão Pedrito.
Como Pedrito não teve filhos, o ciclo dos alfaiates D’Andrea se encerrou com ele.

Meu cunhado Ivo, casado com minha irmã Francisca, um homem afeito a negócios de compra e venda e profundo conhecedor de tecidos, adquiriu, certa feita um corte de tecido de casemira leve, bege,de meia-estação e queria que minha irmã fizesse um traje para ele daquela casemira. Minha irmã Francisca, apesar de ótima costureira, não sabia fazer trajes masculinos e o corte de tecido ficou algum tempo guardado. Aí então eles resolveram me presentear com o tecido, para que minha mãe, Belmira Pires D’Andrea, fizesse um traje para mim. Minha mãe além de ótima costureira, sabia fazer trajes masculinos, pois aprendera com meu pai, mas não quis fazer o traje, pois não gostava de costura masculina e demandaria um tempo que ela não dispunha, em função do serviço para suas clientes. Aí minha mãe me levou até a alfaiataria Giuliani. O alfaiate, de nome Giuliani e cujo prenome hoje não lembro, aceitou fazer a roupa para mim.
Minha grande preocupação era quanto e como iríamos pagar ao alfaiate Giuliani, profissional reconhecido em Alegrete. Quando lhe perguntei quanto saiaria o serviço, ele me disse:
- Fui oficial do Batista, teu pai; foi ele que me ensinou o ofício de alfaiate. Tu não terás que me pagar nada! E nada me cobrou, nem do serviço nem dos aviamentos que usou. Fez para mim um terno (paletó, calça e colete), o mais bonito e o mais bem feito que tive em toda a minha vida e o mais significativo para mim, pois fora feito com o que de melhor havia, a GRATIDÃO, esta virtude tão rara!

Este terno de casemira bege me acompanhou por muitos anos e, numa ocasião, já formado e trabalhando na Rede Ferroviária, houve um encontro em Livramento, entre Diretores da Ferrovia do Estado e diretores da Ferrovia Uruguaia. Eu, que era responsável pela linha que incluía Livramento, estava lá. Quando os diretores uruguaios chegaram, todos eles vestiam ternos, com belos coletes; do lado brasileiro apenas eu vestia um terno com o respectivo colete (o que fora motivo de discretos sorrisos em minha chegada), os demais apenas trajes. Eu vestia meu terno de casemira bege.

Posso dizer que a profissão de meu pai não morreu com ele, pois deixou um seguidor, o alfaiate Giuliani!




Esta página faz parte do tópico POETAS E ESCRITORES ALEGRETENSES e foi desenvolvida pela alegretense Marília Cechella, criadora e administradora de uma página sobre ALEGRETE, dentro do website da genealogia de sua família Sousa Brasil. Seus fragmentos biográficos podem ser lidos aqui (página da 4ª geração dos descendentes de João de Souza Brasil).

Se quiser enviar um comentário sobre esta página, use o nosso Livro de Visitas ou o endereço eletrônico da webmaster . Para retornar às páginas da genealogia da Família Souza Brasil, use os links no rodapé. Obrigada por sua visita.



| PÁGINA INICIAL | ATUALIZAÇÕES | LISTA NOMES | GENEALOGIA | JOÃO BRASIL | FILHOS | NETOS |
| BISNETOS | TRINETOS | TETRANETOS | PENTANETOS | ALEGRETE | LIVRO DE VISITAS |