ÉLVIO VARGAS


O poeta ÉLVIO VARGAS nasceu em Alegrete/RS em 14-10-1951 e reside em Porto Alegre/RS, desde 2001.


BRINQUEDOS DE JÓ

"Depois das contrações, apareci.
Duas palmadas fortes e uma sede ardente me despertaram.
O seio anunciado estava seco. Nunca chorei pelo leite não derramado.
Troquei as dores do Édipo, pelas feridas de Rômulo. Um destino duro sempre me guiou.
Domino pouco a arte das palavras. Só isto basta para ventar céu, infernos e mortalha.
Guardo a sete chaves, desde os meus primeiros dias: ferramentas, utensílios
e os mais estranhos brinquedos de Jó."

(Élvio Vargas, abril/2006)




CRONOLOGIA

1951
A 14 de outubro, nasce ÉLVIO VARGAS em Alegrete-RS, filho do ourives Alvimar ("Marzinho") Ogaiar Vargas e da enfermeira Wilma Pereira Vargas.

1958
Inicia o Curso Primário no Grupo Escolar Demétrio Ribeiro, em Alegrete-RS e, logo depois, faz a 1ª e a 2ª séries do Curso Ginasal (1º grau) no Instituto de Educação Oswaldo Aranha (IEOA). A seguir, abandona os estudos em 1969, vindo a completar o Ginásio através do Curso Supletivo.

1959-1968
No interstício deste período, recebe aulas particulares de três professoras em Alegrete-RS: Brandina Pesce, Maria Castro e Maria Faraco.

"Brandina Pesce, numa pequena sala iluminada, vigiada através da vidraça por uma parreira minguante. Maria Castro, portando lápis bem apontado, transitava pelos avarandados. E o franco biquinho-lábio-semântico da Maria Faraco pronunciando: Le jour de gloire est arrivé. Estas professoras estão eternizadas na minha lembrança" (E.V.).

1969
Escreve desde os anos sessenta, tendo publicado o seu primeiro poema em setembro de 1969, no jornal Gazeta de Alegrete.


1970
Serve como soldado no 6º Regimento de Cavalaria, em Alegrete, de 15 de janeiro a 18 de novembro. Entretanto, o Poeta não guarda boas recordações do seu período de caserna.

"No dia 15-01-1970, acompanhado por José Airam B. Vasconcelos, Mocho Peres, Augusto Zé Colméia, Renato Ferrugem Paim, Gordo Léo e Saulo Medeiros, subi ao "Morro Dos Ventos Uivantes" para quitar minha dívida com o serviço militar. Sete Homens e um Destino. É muito difícil alguém ter idéia do que foi a nossa passagem. A ditadura militar governava com mãos de ferro. Amigos e conhecidos estavam presos nos quartéis. Passeatas, torturas, crimes e Copa do Mundo. A Roda-Viva do Chico estava cada vez mais viva. O jogo era duríssimo e nós, uns guris com 18 anos e poucos meses. Entrei como soldado raso e saí mais raso ainda" (E.V.).

Abaixo, transcreve-se um texto em que ÉLVIO VARGAS expressa as marcas que lhe ficaram sobre o triste episódio de afogamento de Zoroastro, um jovem que, à sua época no 6º Regimento de Cavalaria, freqüentava o Curso de Sargentos. Conta-nos o Poeta que, conforme boatos da época, o pobre moço chegou a dizer ao instrutor que não sabia nadar, mas ouviu do mesmo: "O bom cabrito não berra!" "Não deu tempo de berrar",- reage o Poeta. "Ele afogou-se antes. Foi aberta uma sindicância, mas saímos em 18 de novembro, sem saber o desfecho. "

ZOROASTRO

A ponte do trem, que cruza rente às fortificações militares, recebendo águas da Restinga e canalizando-as com o rio Valêncio, formara um dilúvio pelo volume das cheias. A notícia escapou do Alto Comando, pelo cozinheiro dos oficiais, que na última sexta-feira de junho, haveria um exercício, com travessia por cordas, na parte mais longa dos vãos. A cinzenta manhã desta manobra alcançou-me junto aos cavalos, pois estivera de cavalariça na noite anterior. O movimento era intenso com viaturas e equipamentos. Assistíamos quietos a crescente odisséia. Perto do meio dia, um vento frio foi brotando do fundo das baias. Gélido seguiu nos flancos, invadindo paiol, enfermaria, garagens e esquadrões. Era o mesmo que soprara no Egito, semeando a praga dos primogênitos. As duas e pouco da tarde aportou a notícia. Zoroastro, o aprendiz de sargento, recebera uma ordem para entrar no rio. Mergulhou e nunca mais foi encontrado. Os olhos verdes dos sarandis, a luz morta das baionetas e a reluzente chama das esporas não conseguiram guiá-lo. Morreram afogados os sonhos do aluno persa. Ao deixar a caserna, reli a célebre frase do General Osório: “É fácil a missão de comandar homens livres, basta mostrar-lhes o caminho do dever” (E.V.).

Nota da Webmaster: Os parceiros de caserna de Élvio Vargas acima citados com seus apelidos são, respectivamente, Ângelo Garaialdi Peres, Augusto Trindade, Renato Paim (falecido) e Léo Vasconcelos da Fontoura.



1971
Conclui o 1º Grau pelo Supletivo.

"Aconselhado maternalmente pela professora Cecília Costa Guterres, numa psicologia superior a Piaget e com uma didática de cartesiana ternura, concluí o primeiro grau pelo Supletivo. Horas de combate e aulas sem trégua festejaram a vitória. Polinômios, o poeta nunca mais esqueceu" (E.V.).

1972
Retoma os estudos regulares no IEOA, mas abandona definitivamente os bancos escolares no 1° ano Científico (2ºgrau).

De julho a dezembro deste ano, trabalha como redator no jornal Gazeta de Alegrete.

1973
Muda-se para Porto Alegre-RS e começa a trabalhar no Banco Iochpe-Crédito, Financiamento e Investimentos, como analista de crédito, cargo que ocupa até setembro/1974.

"Ano de 1973! Este talvez seja o horário mais cardíaco da vida do poeta. Os brinquedos recolheram-se às suas caixas, as pandorgas perderam os rumos e a ludicidade exigia um invento novo. As paixões mudaram os endereços e o manuscrito virou poesia. A mão que tomava emprestado o braço da professora, agora sentia pulsações. Os amores correspondidos eram proscritos. A primeira musa despediu-o, ordenando-lhe que não queria mais vê-lo. Ficara noiva. Um olhar negro, marejado de renúncia, umedeceu o ar. A segunda, tragicamente, comunicou-lhe que a mãe praguejava, gritando: Adjutórium nostrum in nómine Dómini. Traduzido do latim clássico para o vulgar, significa: Ele e os amigos saíram da lata do lixo. Na terceira, a mãe bradou: Este menino, além de ser mais novo do que tu, está reprovado na terceira série ginasial! Cansado, vai morar em Porto Alegre, para desafiar a mãe de outras musas" (E.V.).



1974
Em setembro deste ano, volta para Alegrete em férias do Banco e lá decide permanecer.

1975
Trabalha como escriturário no Banco Bradesco, em Alegrete, durante seis meses.

1976
A partir de agosto, passa a trabalhar como Inspetor Regional de Seguros da Bamerindus Cia. de Seguros, com sede em Santa Maria-RS, cargo em que permanece até dez/1985. Por conta desse trabalho, reside em S.Maria durante um período (de 1976 a julho/1979), retornando após à Alegrete-RS.

1978
No dia 28 de janeiro, casa-se com a alegretense Brites Francisca Dorneles Rodrigues, jornalista formada na Universidade Federal de Santa Maria-RS (UFSM). Brites é funcionária pública e trabalha na Assessoria de Imprensa do Procon em Porto Alegre-RS.

Poucos dias antes do seu casamento, ÉLVIO e BRITES sofrem um acidente automobilístisco quase fatal, na estrada entre Santa Maria-Cachoeira do Sul/RS.

"Treze dias antes, numa sexta-feira 13, às 13 horas", informa o poeta, sinalizando um cabalístico evento. "Maus fluidos reinaram naquele instante".



1979
Em 30 de abril, nasce em Alegrete-RS seu filho Caian Rodrigues Vargas, advogado formado na UNISINOS (Universidade do Vale do Rio dos Sinos), São Leopoldo-RS.

1982
Em 29 de setembro, nasce em Alegrete-RS sua filha Maina Rodrigues Vargas, universitária do curso de Turismo na FARGS (Faculdades Riograndeses), Porto Alegre-RS.

1984
Passa a fazer parte do Conselho Municipal de Cultura de Alegrete-RS, onde foi vice-presidente e tesoureiro.

Escreve textos, com freqüência, para apresentar artistas plásticos de Alegrete-RS. Entre estes, Maria Clara Leiria dos Santos.

1986
Abandona a Bamerindus Cia. de Seguros e passa a atuar como Gerente de Vendas da firma Kurtz Comercial de Veículos-Revenda Ford, em Alegrete-RS, permanecendo neste cargo até março/1988.

1987
Participa do Concurso Laci Osório no cidade de Alegrete-RS, em maio, obtendo o 1° lugar com o poema Sem Reprise:

"Quando eu me convoco/ alista-se em mim / este tempo trêmulo / de noites repassadas./ Não me repriso/ sou sempre assim/ este elevador sem sobrenome/ instalado nos prédios/ de tua intimidade/ sonho nu/ no rodapé de tua notícia./ Não me repriso/ sou sempre assim/ este desejo classificado/ no anúncio dos ventos/ o tombadilho do teu último navio/ ancorado na maresia/ do meu olhar./ Hoje sou estas/ pegadas de louça/ na cristaleira frágil/ de tua memória/ pandorga cega debruçada/ nos esconderijos da lua./ Sou sempre assim/ viu!!! "

O seu poema Sem Reprise é publicado na Revista Ponto, da extinta Fundação Educacional de Alegrete.



1988
Classifica-se no Concurso Mário Quintana em Porto Alegre-RS, com Menção Honrosa, com o poema Paixões Urbanas:

"Hoje estou desenhado/ no out-door dos teus subúrbios/ sou esta conspiração silenciosa/ nos utensílios do teu camarim/ um holofote circular/ olho a olho no teu olho/ vaga impressão de possuí-la/ sem posse./ Me ocorre de vez/ uma lenta preguiça/ de filmar os caminhos/ do teu metrô, devorar-me/ na essência perfumada/ dos teus parques/ te cuidar na vidraça/ dos olhares, me derramar/ na volúpia dos teus bares./ Rotos bares no prêt-à-porter/ dos luares./ Hoje sou o sereno quieto/ das tuas madrugadas/ lento esforço de iluminar/ a tua ribalta noturna./ Me ocorre ainda/ uma vontade de suspirar/ bêbado na ânsia de tuas/ avenidas, largas avenidas/ salpicadas de tontas/ e efêmeras paixões urbanas."

Seu poema Paixões Urbanas é publicado no livro do Concurso Mário Quintana de Poesia - EditoraTchê e Casa de Cultura Mário Quintana.

De abril a setembro/1988, trabalha como comprador da Empresa Raul Englert & Cia, em Alegrete-RS.

Nota da webmaster:
Nesta empresa, ÉLVIO VARGAS trabalha junto ao engenheiro MÁRCIO SOUZA SANTOS, com quem desenvolve estreita amizade. Em razão disso, três anos mais tarde, quando Márcio veio a falecer em acidente automobilístico junto com a esposa Jocelene (Kelene) Pahim, ÉLVIO dedica um poema ao casal morto ("Caminhos"), publicado no jornal Gazeta de Alegrete à época, e que veio a fazer parte de seu livro de poesias "O Almanaque das Estações", editado em 1993. Esse poema está transcrito no registro de MÁRCIO, na homepage da família de João de Sousa Brasil (para lê-lo, clicar aqui).



1989
Classifica com Menção Honrosa Especial uma trilogia de poemas (O Poema Explícito, O Poema Marginal, O Poema Sem Nome), no Concurso Simões Lopes Neto, em Pelotas-RS.

O Poema Explícito
Este poema virá/ rosa do povo/ cristalino, como um/ sonho não sonhado./ Nas ruas virá/ ungindo a febre/ das manhãs iguais./ Invadirá a tua casa/ a minha e a dos outros./ Não será o poema/ do João da feira, do Dinarte/ da mercearia./ Virá pelo clarim das/ Virá pelo clarim das/ auroras incendiadas/ e mapeará tudo/ como um topógrafo/ que mede tardes e crepúsculos. / Então reiventaremos a vida / matricularemos a esperança / na idade dos começos / depois seguiremos/ como um baú de ritmos/ recitando a voz dos cânticos.

O Poema Marginal
O poema que trago hoje/ é um poema marginal/ fundido na insônia luminosa/ das madrugadas./ Avesso às coisas formais/ sem esta métrica terrível/ de um tempo sonâmbulo./ Vive pela força / da paixão que tem/ se expressa pela própria/ liberdade dos signos/ irreverentes ao rigor / dos estilos, anárquicos/ ao modismo das escolas/ mas legítimo diante/ dos grandes comícios da vida./ O poema que trago hoje/ está instalado/ numa armada coragem/ de viver.

O Poema Sem Nome
Meu poema/ não tem mais nome/ nem parente algum./ Vive no subúrbio/ de uma ternura abandonada/ insaciado espreita/ o vulto de uma nova paixão./ Desenhado está/ no parapeito de tua emoção/ morna. Do teu olhar gasto/ ele filma a trajetória/ de um novo verbo./ Minerador garimpa/ jazidas de uma linguagem nova./ Insurreto seduz/ palavras que falem /de tua sensualidade./ Proscrito mora/ nos ninhos úmidos/ da manhã que te acorda nua./ Meu poema não tem mais nome/ hoje é inquilino/ sem contrato/ no bloco das orações...



Participa da Revista Literária Ibirapuitã, de Alegrete-RS.

Organiza, em parceria com o poeta José Carlos Fernández de Queiroga, no final desse ano, a Coletânea dos Autores Diversos (conto-crônica-poesia) sobre escritores alegretenses.

Nesse ano, decide montar um negócio próprio e, em dezembro, torna-se proprietário de uma pizzaria em Alegrete (Pizzaria Da Vinci), atividade à qual dedica-se até abril/2000.

"Pizzaria Da Vinci! Das fundações até a última pedra, foram meses de suor, esperanças e sonho. Estava pronto o “Tabernáculo dos Pães”. Da Turquia vieram oréganos. Um carpinteiro chinfrim, amigo meu, construiu o balcão. Minha única preocupação era sua atração por essências etílicas. No dia combinado, fui buscá-lo ali perto da Ponte Seca. Bati palmas em frente ao portão, um cusco esquelético nem abriu a boca. Surgiu Gomercindo, com suas bombachas das “1001 Noites”. Parda, levemente tubiana. Ao chegarmos no templário gastronômico, todo cuidado era pouco. Qualquer movimento brusco poderia provocar um abalo sísmico no artesão. Puxou um martelo, encheu a boca de pregos, serrou madeiras, confundiu-se entre o ponto para bater e o polegar. Demoliu o último. Deu uma cuspida no dedo, mais álcool que saliva, e seguiu. Por incrível que pareça, o balcão ficou bem bonito! Só que assemelhava-se à Torre de Pizza. Fugia de sua própria gravidade, bailando. Coisas do Gomer. No dia 08 de dezembro de 1988, às 21 horas, um calor infernal. Minha mãe, os empregados, a Yeda e uns amigos de toda a vida esperavam os convidados. Aos poucos foram chegando as Mona Lisas e os Apóstolos. Estava inaugurada a Santa Ceia da Pizzaria da Vinci. Pelo dízimo, recebi 2400 noites de bonança. Em agosto de 1995, começou o flagelo bíblico do Alegrete. Duas das grandes profecias de José, o escravo vidente de Putfar, materializaram-se. As brancas espigas de arroz curvaram-se para o jugo negro dos ágios. Minha pequena Pátria empobreceu. Resistimos 1726 noites. Em abril de 2000, abandonei a regência da “Ópera Alegre das Minhas Mesas”. Fui para o exílio, com outros retirantes. Não faço mais pizzas. Hoje sirvo poemas e os distribuo em cestas básicas..." (E.V.)

Porta da Pizzaria Da Vinci - setembro/1996


Da dir. p/ esq.: O poeta Carlinhos Lopes - escritor Sérgio Faraco e seu
filho Bruno; o poeta Élvio Vargas e o escritor Alcy Cheuiche.



1989
Simultaneamente à sua atividade como comerciante, assume o cargo de Diretor de Compras da Prefeitura Municipal de Alegrete-RS (de 1989 a 1992). Mais adiante, retoma essa mesma atividade em outra gestão (de 1997 a 2000).

1990
O seu poema Ibirapuitã Profissão Rio faz parte da Revista Ecológica Ibirapuitã, de Alegrete-RS.

1993
Lança O Almanaque das Estações, seu livro de poesias, apresentado pelo romancista Alcy José Cheuiche e editado pelo Instituto Estadual do Livro (RS).


Capa do livro de poemas

        Fragmento da apresentação do escritor alegretense Alcy Cheuiche no livro
        O Almanaque das Estações de Élvio Vargas.

            "O mago espiou pela fechadura da lua
        na madrugada quieta dos poemas
        trinca uma estrela de porcelana
        talvez aí resida o insondável mistério
        do poema
        talvez...
        aí...

           Tenho inveja do Mário Quintana, este mago
        que espia pela fechadura da lua. Surpreendido em
        sua curiosidade por Élvio Vargas, um seu talentoso
        aprendiz de feiticeiro."


                                                               Alcy Cheuiche




1994
A Revista Cultura Contemporânea publica o poema A Quinta Hora, dedicado a Mário Quintana e cita, na seção de Literatura, seu currículo e referências.

1995
Dirige e edita o projeto literário A Palavra Escrita em Alegrete 1845 – 1995, retrospectiva dos 150 anos da literatura alegretense, com outras parcerias e o patrocínio da Prefeitura Municipal de Alegrete (gestão Dr. Nilo Soares Gonçalves). Este livro traz no seu prefácio, um belo ensaio da professora alegretense Virgínia de Almeida Pires do Rosário. As capas foram desenhadas pelo artista plástico alegretense Pirata Leães.

1996
A convite do poeta Luiz Coronel, participa com o poema Alegrete, da edição bilíngüe intitulada Cidades Gaúchas, com poesias e fotos, ao lado de Armindo Trevisan, Carlos Nejar, José Clemente Pozzenato e outros, livro este premiado na Feira do Livro de Porto Alegre/1997, como o melhor livro de poesias da Feira.

                                          ALEGRETE

Residências antigas na praça principal de Alegrete-RS. Foto de Edelweiss Bassis

A cidade que herdei
tem rebanhos de pedra
semoventes de sombras
e um cavalo de tróia.
Negrinhos, salamandras e pastoreios
perseguidos por um rio
atiçado de vertentes
na misteriosa profecia
de suas águas
Ilhargas, hortos e casarios
quinchados de sóis poentes
Cartuns, Cartago
músicas que jamais acabam
enfeitiçando o mágico festim
dos meus brinquedos
Igrejas de torres afiadas
num céu azulado de sonho
vigiado a distância
por uma minúscula
lua de marfim.
Batizei de Alegrete
os reinos silenciosos
da cidade que inventei...


A foto acima também é do mesmo livro e é de autoria de Edelweiss Bassis. Mostra um conjunto de residências antigas de Alegrete, junto à praça principal (Praça Getúlio Vargas). Da dir. para esq., estão as residências que pertenceram a Alpheu de Sá Dornelles, Francisco Carlos de Sá Dornelles, Cel. Antônio de Oliveira Macedo e Amadeu Bicca de Medeiros. Esta última propriedade hoje é o MUSEU de ARQUEOLOGIA e ARTES JOSÉ PINTO BICCA DE MEDEIROS. A foto menor inserida na parte superior é a escultura do Negrinho do Pastoreio, de Vasco Prado - "O Negrinho Triunfante" - colocada no Parque Rui Ramos, na entrada da cidade, próximo à ponte do rio Ibirapuitã.

VERSÃO em ESPANHOL:
La ciudad que heredé / tiene rebanõs de piedra / semovientes de sombras / un caballo de troya. / Negritos, salamandras y pastoreos / perseguidos por un rio / atizado de vertientes / en la misteriosa profecía/ de sus aguas. / Ijadas, huertos y caseríos / quinchados de sol poniente. / Cartuns, Cartago / músicas que nunca acabam / hechizando el mágico festín / de mis juguetes./ Iglesias de torres afiladas / en un cielo azulado de sueño / vigilado a la distancia / por una minúscula / luna de marfil. Bauticé de Alegrete / los reinos silenciosos / de la ciudad que inventé...

VERSÃO em INGLÊS:
The city I inherited / has stone herds of / moving shadows / and a horse of Troy. / Black boys, salamanders / and pastures / chased by a river / stirred up by streams / in the mysterious prophecy / of its waters. Flanks, garden and rows of houses / thatched by setting suns. / Cartuns, Cartaghe / endless songs / charming the magic feast / of my playthings. / Churches with sharp towers / against the blue of a dream sky / watched at a distance by a minuscule / ivory monn. / I batpized Alegrete / the silente kingdoms / of the city I invented...



Neste mesmo ano, publica o poema O Escafandro na Revista Sur, edição bilíngüe do Instituto Estadual do Livro, num intercâmbio literário dos escritores do Mercosul, sob a coordenação de Tânia Franco Carvalhal.

O seu poema O Anjo recebe Menção Honrosa no Concurso Nacional de Brasília - categoria Poesia.

Foto de Edelweiss Bassis, do livro Legado das Missões, de Luiz Coronel.

O ANJO
De todos os meus delitos
o mais grave tem sido
esta insônia da eternidade.
Toda a expiação que cometi
foi punida
por esta metamorforse do anjo
mortalmente ferido
pelo abismo de vôo quebrado.
Sem asas sobressalentes
declaro-me apócrifo
perambulando pelas rapinas do céu.
As substâncias que trago
desvendam os mistérios do coração
e decifram os signos do pensamento.
Nomearam-me com exclusivos poderes
para a guarda de amores proibidos
e desejos tontos de esperança.
Fui alertado severamente
sobre o uso abusivo das paixões
e intensas overdoses de sono.


Foto: Edelweiss Bassis.

Tive o corpo
totalmente sequestrado
não deixo sombras, nem vestígios
interfiro quando solicitado
pela mágica música dos presságios.
Instantâneo me transmuto
numa peregrina intenção de viagem.
Sou este fósforo de luz
na noite apagada
um anjo, mais nada.




Ainda em 1996, o músico alegretense Dattero (Deio) Escobar musica o seu poema Carmim. Para escutar a música ("um tango meio piazzolado", segundo informa o músico), clicar AQUI.

CARMIM Deio Escobar, músico alegretense.

A vida
vai fazendo de mim
um alambrador
das longínquas sesmarias da imensidão
a china, o truco, a tava
carrego pelo mundo afora
nesta minha sina de carmim.
Meus acordes são feitos
de saudades, lembranças e solidão
as milongas que escrevo
nascem dos remansos de um coração.
Meus tangos, a rancheira e o baião
vêm na flor do desespero
abrindo o teu vestido de xitão.
O braço do violão
te aperta
e toca por diante
toadas, valsas e canções.


Teu corpo
estirado nas léguas de capim
é um sono de quero-quero
um gaita de botão
que perdidamente dedilho até o fim.
A vida vai fazendo de mim
um alambrador
das longínquas sesmarias
da imensidão.

Em novembro deste ano, Élvio Vargas é homenageado pela Administração Municipal de Alegrete-RS, com uma placa de bronze no Núcleo Habitacional Ulisses Guimarães, contendo nesta, fragmentos do poema O João de Barro.



1997
Assume, pela 2ª vez, o cargo de Diretor de Compras da Prefeitura Municipal de Alegrete-RS (gestão 1997-2000).

O poema Alegrete é parte integrante da Revista Ponto, editada pela Universidade da Região da Campanha-RS (URCAMP).

Tem dois poemas seus coreografados por Maria Waleska Van Helden e sua escola de dança, no espetáculo Tangentes, com a coordenação do coreógrafo uruguaio Ricaldo Alfonso, do Trio Montevideo, executando músicas de Astor Piazzola e a participação do bailarino argentino Fernando Conesa, sob a direção geral de Maria Waleska Van Helden, na cidade de Alegrete-RS.

Em novembro, recebe a Outorga do Mérito Legislativo, concedida pelo Poder Legislativo de Alegrete-RS, por seu profundo envolvimento com a Literatura.



1998
A convite da fotógrafa Edelweiss Bassis, escreve o poema O Sétimo Dia, trabalho que acompanha os textos de Armindo Trevisan e Luiz Coronel, na mostra fotográfica intitulada A Última Lua do Império Guarani, um ensaio de imagens sobre as Missões Guaraníticas do Brasil, Paraguai e Argentina.
Esta exposição já esteve no Museu da República do Rio de Janeiro-RJ, Casa de Cultura Mário Quintana, na Universidade de Pelotas-RS, no Centro de Estudos Brasileiros em Buenos Aires/Argentina, no Palácio do Governo de Florianópolis-SC e no espaço CIC dessa mesma cidade.

1999
A convite do escritor e organizador Sérgio Faraco, participa com o poema O Espinilho da Antologia As Árvores e seus Cantores, Editora UNISINOS, uma coletânea luso-brasileira, com poetas de todas épocas, escrevendo poemas sobre suas árvores prediletas.

No final deste ano, é publicado o poema Alegrete no livro XX Poemas e Uma Carta de Amor para Alegrete, organizado por Gilmar Martins.

Em dezembro, recebe o Trófeu Amigo, instituído pelo Museu de Arte Dr. José Pinto Bicca de Medeiros, de Alegrete-RS, a todos aqueles envolvidos na produção cultural.



2000
Em março, é publicado o poema O Sétimo Dia, numa antologia bilíngüe organizada pelo poeta Luiz Coronel, intitulada O Legado das Missões, com fotos de Leonid Streliaev, Edelweiss Bassis e Fernando Bueno, com parcerias literárias de Armindo Trevisan, Carlos Nejar, Alcy Cheuiche, Simões Lopes Neto, Jaime Caetano Braum e outros.

Em abril deste ano, encerra o seu ramo de negócio na Pizzaria Da Vinci em Alegrete. Abandona, relutante, a sua Ítaca do Alegrete e muda-se novamente para Porto Alegre, quase 30 anos depois da primeira vez.

"Minha pequena Pátria empobreceu. Resistimos 1726 noites. Em abril de 2000, abandonei a regência da “Ópera Alegre das Minhas Mesas”. Fui para o exílio, com outros retirantes. Não faço mais pizzas. Hoje sirvo poemas e os distribuo em cestas básicas..." (E.V.)

Nota da webmaster:
A Pizzaria Da Vinci ainda existe e, segundo informações de quem a freqüenta em Alegrete, é um dos melhores locais que existe por lá. Depois que ÉLVIO vendeu e alugou as instalações da pizzaria, a situação econômico-financeira da cidade melhorou um pouco, mas já era tarde. O poeta já seguira rumo para a Capital.


Participa da Exposição Virtual Porto Alegre Corsário, com o poema Cais e o texto O Mármore da Lembrança, no site da fotógrafa Nádia Raupp Meucci.
A partir desta data, mantém espaço na página dessa fotógrafa, alternando textos encomendados para as exposições dela. Entre eles, o epigrama Traços Mineiros, que acompanhou a exposição homônima em Araxá-MG.

Em outubro/2000, recebe a Comenda do Mérito Oswaldo Aranha, junto com os conterrâneos Sérgio Faraco, Cira Neves Brites, Arnaldo da Costa Paz e Suzana Dorneles, outorga esta instituída pela Prefeitura Municipal de Alegrete-RS. Ainda nesse ano, é convidado a escrever o texto intitulado “Algum Lugar do Passado”, para o CD homônimo do músico alegretense Fernando Crispim do Rio, lançado em outubro de 2000, na cidade de Alegrete/RS.



2001
Retorna a Porto Alegre e torna-se corretor de imóveis da Osmar Pinto Corretora, permanecendo neste ramo até julho/2003.

Participa com os poemas Agrárias, Caim e a Última Ceia, do livro Antologia do Sul, com poetas contemporâneos do Rio Grande do Sul, editado pela Assembléia Legislativa, com a organização do poeta Dilan Camargo.

CAIM

O deus que me fez
usou sal, areia, granizo e pedra.
As águas prometidas
jamais choveram.
Minhas vinhas eram de sangue
o gosto acre, amargo
até a esperança encardiu.
Os linhos de Abel
eram persas
as miçangas gregas
os turbantes de Damasco.
Minhas sandálias couro cru
fiadas em peles de serpentes.
O corpo
uma arado de músculos
as mãos, retorcidas e aduncas
escondiam um sexo
de insônia e atrofia.
Outro Deus me proibia
eu teimava, praguejando
entre sóis incandescentes
e luas de martírio.
Minhas vestes tisnadas
gritavam blasfêmia, perjuro
pecado e sedução.
Meu coração era um fogo
minha palavra, danação.
Sete vezes me excomungaram
banido fui
das fronteiras do Éden.
Comigo foram
amores que não tinham pátria
sonhos encarcerados
conspiração, silêncios
êxtase e loucura
hordas de párias, mendigos
loucos, amanhecidos
tudo aquilo que não tem governo.
Depois da luz
eu vim.

2002
A convite do professor de literatura sul-americana Albert Von Brunn, da Universidade de Berlim, participa da Antologia temática sobre trens intitulada Trilhos na Cabeça, com as parcerias de Sérgio Faraco, Moacyr Scliar, Mário Quintana, Manoel Bandeira e outros brasileiros e europeus, obra esta lançada em maio/2003 em Messina/Itália e, logo após, em Berlim/Alemanha.

Nesse mesmo ano, o seu texto O Império dos Alcizais é publicado na revista Autores Gaúchos, em homenagem ao romancista Alcy Cheuiche, editado pelo IEL – Instituto Estadual do Livro-RS.

Ainda em 2002, o seu O Alfabeto do Corpo faz parte da abertura do livro Os Anais da Dança, obra que reuniu todos os assuntos tratados em oficinas e palestras do 1º Congresso Internacional de Dança, realizado em Porto Alegre-RS, presidido pela coreógrafa e bailarina Maria Waleska Van Helden.




2003
Em julho, deixa o trabalho na Corretora de Imóveis e assume o cargo de captador de recursos para projetos culturais no SESC (Serviço Social do Comércio), em Porto Alegre-RS, Trabalha nesse setor até maio/2004, quando é submetido a uma cirurgia e afasta-se definitivamente do trabalho por recomendação médica.

Participa com o poema O Sétimo Dia da revista literária Cadernos de Literatura nº 11, editada pela AJURIS.




2004
Idealiza, organiza e edita, através do Fumproarte, o livro Torres da Província, um resgate histórico de 12 Igrejas de Porto Alegre-RS, com textos de Armindo Trevisan, Alcy Cheuiche, Moacyr Flores e fotos de Edelweiss Bassis. Escreve, exclusivamente para esta obra, o texto Salmos de Cedro, composto de 12 versículos no formato de quartetos.

O seu poema O Sétimo Dia é recitado na Semana Cultural das Missões, festa realizada no sítio arqueológico em frente ao secular pórtico da Catedral (1735-1745), nas ruínas de Sâo Miguel da Missões-RS.



2005
Os poemas Carmim e o Espinilho são publicados na Coletânea da Poesia Gaúcha, editado pela Assembléia Legislativa do R.G.Sul, tendo como organizador Dilan Camargo.

2006
O seu texto Os Reinos de Trebizonda integra, com outros, as homenagens de vários escritores na Antologia dos 100 anos para o poeta Mário Quintana, editada pela Companhia ZAFFARI, sob a coordenação de Luiz Coronel.

O seu poema A Torre do Sono, recitado pelo ator João Batista Dimmer, abre a festa de comemoração do Centenário de Nascimento do Poeta Mário Quintana, no dia 30 de julho de 2006, na Casa de Cultura MQ, em Porto Alegre. Esse poema foi escrito no dia da morte do poeta.

TORRE DO SONO

Vai, Mário, vai assim
deslizando entre os dedos
o vento de vidro da infância.
Vai, contigo o carrilhão
da vida, escoltado
pela fúnebre orquestra dos grilos.
Vai, Mário, vai assim
carregado pela alma de cristal
da tua cidade de brinquedo.
Vai com esse jeito infinito
de quem solta moedinhas
no rastro das manhãs.
Vai para Bizâncio
lá não dormem os pássaros
nem os poemas.
Vai, poeta,
a morte é a torre do sono.

Lança o seu segundo livro de poemas Água do Sonho, na Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre/RS, no dia 04 de outubro/2006 (foto). A obra apresenta estudo crítico de Armindo Trevisan (doutor em Filosofia, ensaísta e poeta) e Sérgio de Castro Pinto (poeta, ensaísta e Professor de literatura da Universidade Federal da Paraíba).

As ilustrações são do artista plástico alegretense Pirata Leães. A impressão do livro é independente, com custeio do autor (e-mail) e de alguns amigos.


Élvio Vargas recebendo os cumprimentos do seu conterrâneo,
o escritor Sérgio Faraco (Casa de Cultura Mario Quintana).



2007
Faz a apresentação do seu livro Água do Sonho aos seus conterrâneos, no Museu Oswaldo Aranha em Alegrete, na noite de 24 de maio .



Élvio Vargas junto ao seu conterrâneo,
o poeta Hélio Ricciardi (Museu Oswaldo Aranha).


Sobre o novo livro, assim manifestou-se uma poeta de sua terra:

Élvio Vargas

Jussara Monte Giacomoni
Poeta alegretense

Voou para a capital levando no alforje a leveza seus versos.

Aportou silencioso, como de costume, carregava nos bolsos "uma minúscula lua de marfim". E a cidade grande encantada com a mágica, curvou-se aos encantos do cantador de sonhos que escuta "músicas que jamais acabam, enfeitiçando o mágico festim dos seus brinquedos".

E a cidade grande o aplaude quando lança seu segundo livro, lá estão no núcleo, seus conterrâneos, herdeiros da mesma cidade de "lua de marfim" que "ele batizou de Alegrete", no seu sonho incensado de poeta.

"Canta tua aldeia e serás universal", ensinou Maiakowski. Elvio Vargas vem até nós com mais um presente lírico, pois gestou um novo livro com páginas oníricas de encantamento, cada uma delas a propor visitas às cirandas de paixões, que são mais profundas "nos reinos silenciosos da cidade que inventou".

Só os muito sensíveis conseguem mover-se no universo tortuoso dos sonhos, que a poesia propõe. E o mais torturado é o próprio poeta.

A cidadezinha dos poetas ganha mais uma estória, cada página salgada pelo mar da terra, cada palavra urdida com a benção do amor.

Élvio Vargas, o mágico da palavra, "vigiado à distância por sua minúscula lua de marfim" merece o aplauso.



Élvio Vargas no lançamento do seu livro em Alegrete, rodeado de conterrâneas (24-05-07).



Élvio Vargas, o mascate da luz

Alcy Cheuiche (*)
Escritor alegretense

Leitura dinâmica do livro “Água de Sonho”, de Élvio Vargas.
Texto publicado na Gazeta de Alegrete, em 16-06-2007.

O escritor alegretense Alcy Cheuiche, junto ao poeta Élvio Vargas, na Casa 
de Cultura Mario Quintana (P.Alegre), na noite de lançamento do livro Água de Sonho, em 04-10-2006.

Será concedido a todos o solitário poder da magia. As cores que encomendei chegaram luarizadas, isentas, batizadas pelo nome de Maria. Me entrego hoje, com bastante pressa, ao penhasco fundo das palavras. A dor que me dói é uma dor de exílio.

Um joão-de-barro exigiu, pela voz armada do canto, que cessassem os roncos do trator. O trapezista despenca, hipnotizando a platéia com sonoros arrepios. Almas, saudades, presságios e tempo são retalhos bordados com lã de outono. Delicado tecido de paciência, cerzindo o lento enigma da vida.

Escritor Alcy Cheuiche, junto ao poeta Élvio Vargas, na Casa de Cultura Mario Quintana,
em Porto Alegre, na noite de lançamento do livro Água de Sonho (04-10-2006).

A escotilha azul do céu vigia a febre amarela dos casarios. A cidade que herdei tem rebanhos de pedra quinchados de sóis poentes. O Jordão corre quieto no curso lento de suas águas. Por mais que me fique o ar dos pássaros e a dança dos peixes, o que escuto é a dor que me dói, limpa na intenção da água.

Vêm de muito longe as vidas que vivem em mim. Pendurei a esperança na parte mais alta do varal. Me fotografaram assim nesta humana roupagem das marés. As borbulhas que na água brotaram não eram minhas nem tuas. O vento trazia um toque nupcial da vida com a morte.

De todos os meus delitos, o mais grave tem sido esta insônia de eternidade. Sou este fósforo de luz na noite apagada. O deus que me fez usou sal, areia, granizo e pedra. Fui alertado severamente sobre o uso abusivo das paixões. Enquanto falo, apareço na voz das putas, cafajestes, gigolôs. Sete vezes me excomungaram. Depois da luz eu vim.

Meus mortos trago encadernados no desenho das brumas. Todo o abismo é iluminado. Solitária é a chama que não invade o átrio de fogo. Retesado, o arco vibra na corda do violino. Soprou uma brisa encantada pelo desejo de meninos mortos. O carrossel começou a girar e até o tempo sucumbiu afogado na sua própria imagem. Vivo na intensa trama da cumplicidade que criei. Premedito cheio de esperança a chegada de um poema novo. Sou um estrangeiro mascate da luz boreal.

(*) Para conhecer a vida e obra do escritor alegretense Alcy Cheuiche, ir para http://assisbrasil.org/joao/cheuiche.htm



Os poemas de Élvio Vargas

Sérgio de Castro Pinto
Poeta, jornalista e Professor da Universidade Federal da Paraíba.

Jornal O Norte Online
Quinta, 19 de Janeiro de 2006.

Discorrendo sobre poemas sonhados, a exemplo do "Kublai Khan" e de "O Lutador", respectivamente de Coleridge e de Bandeira, o poeta Anderson Braga Horta chegou a uma conclusão lapidar: "(...) mas não sonha um poema aquele que em vigília não sabe fazê-lo".

Sonhar com o poema não é tê-lo, possuí-lo, dar-lhe forma e acabamento, uma vez que ele somente adquire existência real, palpável - e foros de poema propriamente dito - quando passa pelo crivo do poeta. E do poeta - diga-se de passagem - em estado de vigília.

Os poemas de Élvio Vargas parecem recém-saídos do sono e do sonho; parecem esfregar os olhos, abri-los e bocejar, para, só então, serem tomados do susto de nascer e de adquirirem a condição de poemas. Mesmo assim, ainda conservam o cordão umbilical parcialmente atado ao mundo informe que lhes deu origem. São, em suma, jorros de um sonho onde convivem harmoniosamente o caos e a cosmogonia, ambos faces de uma só moeda, quem sabe da moedinha perdida de que tanto fala Mario Quintana, para quem "O poema é um objeto súbito".

Pois bem, os poemas desse "Água do Sonho" são objetos súbitos, objetos do surto, do susto, do transe de um poeta que põe a respirar na superfície poemas que ainda liberam resquícios da placenta e que deixam escorrer o líquido da bolsa rompida para batizar seres e coisas com o sortilégio da linguagem.

Os poemas de "Água do Sonho" nascem de um só fôlego, pois possuem o medo de sucumbir antes de apreender a eternidade do frêmito de vida da condição humana: "Vêm de muito longe/ as vidas que vivem em mim/ na cumplicidade e no pacto/ sou nuvem, migalhas de sonho/ e pensamento/ o sono das águas/ neste rio invisível do vento/ Às vezes e não escassas/ trago o ritmo/ intuição e encantamento/ Sou um estrangeiro/ mascate da luz boreal/ É tarde demais/ me construíram assim/ com este estranho tecido/ de sangue, linguagem e paixão/ carregado de sóis amedrontados/ e luas transitivas".

Não por acaso, as metáforas genitivas inflacionam os poemas desse livro. E se elas surgem da necessidade urgente de aproximar o irreconciliável, já sabem de antemão do malogro de sua tarefa em celebrar as "núpcias dos contrários". Mesmo assim, tentam; e tentam porque é próprio do homem sonhar o impossível. Daí a avalanche - na poesia de Élvio - de termos que empulham a cartesiana e redutora compreensão do mundo dos empedernidos cultores do ponderável: "sóis amedrontados", "imensas luas/ duas renas ofegantes", "asas de jacarandá", "escamas de cedro", "cais do olhar", "pólen das lembranças", "mascate da luz boreal", "cardumes de rios", "cristais de insônia", enfim, termos e mais termos que, para os desprovidos de sensibilidade poética, parecem orquestrar uma espécie de "samba do crioulo doido". Vou mais além: os paralelos insólitos da poesia de Élvio Vargas assentam-se na necessidade humanística de aproximar os contrários para eliminar as diferenças.

Élvio Vargas, assim como Quintana e Sérgio Faraco, é natural de Alegrete. Alegrete, ma non troppo, uma vez que a sua poesia parece surda aos fonemas da alegria que emanam do nome Alegrete. E isso por uma razão muito simples: o seu lirismo evoca "o lirismo dos bêbados/ o lirismo difícil e pungente dos bêbados/ o lirismo dos clowns de Shakespeare". Vale dizer: lembra o seu lado "gauche" tão bem expresso no recurso estilístico utilizado nesse fragmento do poema "Os Vagões de Schindler": "Trilhos, dormentes, rebites/ nada mais me socorria/ Meu destino estava selado/ era ferro contra ferro/ fornalha acesa/ no calor dos medos/ Trem ____________".

Preciso dizer que a palavra Trem é o próprio Trem diante do traço que, iconograficamente, desperta no leitor a idéia de um solitário trilho sobre o qual, de modo inevitável, locomotiva e vagões irão descarrilhar? Assim como esse Trem, o eu lírico da maioria dos poemas de Élvio Vargas não "anda nos trilhos", descarrilha. É um eu lírico desaclimatado, estrangeiro, "gauche".

Enfim, sobre Élvio Vargas eu diria o mesmo o que já disse a propósito de Mario Quintana: "(...) é um fronteiriço não por ser natural de Alegrete, mas por extrapolar os estreitos limites da geografia para conceber um mundo de magias e de sortilégios".

Obs.: Sérgio de Castro Pinto é autor, entre outros livros, de Zôo Imaginário (poemas), Longe daqui, aqui mesmo - a poética de Mário Quintana (ensaio) e A casa e seus arredores (textos escritos para a imprensa e outros).




Élvio Vargas

Armindo Trevisan
Poeta, ensaísta.
Ex-Professor da UFSM e Professor aposentado da Universidade Federal do R.G.Sul.

Prefácio do livro Água do Sonho, lançado em 04-10-06.

O poeta alegretense decidiu-se, enfim, a voltar ao picadeiro, e mostrar ao público “um baú de coisas vivas”.
Começo, pois, minha apreciação dos poemas de Élvio por esse extraordinário detalhe: a ligação de sua poesia com a realidade.

O autor tem um alto conceito da técnica poética, e empenha-se, com responsabilidade, por exercitá-la. Consegue imprimir um ritmo convincente aos seus versos, utilizando, com discrição, também os processos sonoros. Mas o principal, para Élvio, não reside nessa perfomance. Para ele, o que importa é o mergulho nas profundezas (às vezes impuras) da existência. Vai à caça dos tesouros - obscuros ou resplandecentes - de uma autobiografia que se quer honesta, e algo estóica.

Notemos que tal atitude de realismo psicológico não dispensa o halo imaginativo que envolve a História, e nossas pequenas histórias individuais:

Quando inventaram tudo
sobraram para mim
este viveiro de ilusões quietas
e uma bicicleta
que até hoje pedalo
soprado pelos ventos
do fim do mundo.

Aproveito tais versos para apontar uma qualidade de Élvio que, particularmente, me impressionou: a sua capacidade para converter coisas simples, objetos do uso diário, em comunicação emotiva. Essa bicicleta, a que se refere, evoca dá um cidadão comum que, na parafernália industrial, eletrônica e informática da vida contemporânea, precisa ganhar o seu pão, ainda hoje, com o suor do rosto. A expressão “soprado pelos ventos / do fim do mundo” confere, à aparente trivialidade do ciclismo, uma dimensão que remete ao destino da criatura humana, a quem a morte - como dizia Albert Camus – confere uma dignidade que os animais e as coisas não possuem. A dignidade de uma consciência que sabe que vai morrer.

Aprecio, igualmente, o talento de Élvio em poetizar a partir de um determinado contexto sócio-econômico, de uma identidade, isto é, a gaúcha. O interessante é que o poeta o faz sem incidir no provincianismo. O sabor local está presente em seus poemas, associado, porém, à transcendência do símbolo. Este pertence ao poema, que pode ser lido aqui, ou em outra parte. Mas a universalidade da aldeia, de que falava Tchecov, não deixa o poema perder-se em divagações. O poema tem raízes, ainda que estas raízes exijam asas, senão por elas mesmas, ao menos pela exigência dos ninhos, donde voarão as aves.

Admiro, por exemplo, poemas como “Carmim”, “O Sétimo Dia”, “Colcha de Retalhos”, “Agrárias” e “Lamparinas”.

“Carmim” impressiona por sua simplicidade: “A vida/ vai fazendo de mim/ um alambrador/ das longínquas sesmarias da imensidão...”. Um verso como “a china, o truco e a tava/ carrego pelo mundo afora” evoca Borges, o que não é pequeno elogio, visto que o teor do poema nada tem a ver com o do grande argentino. Como não apreciar “Meus tangos, a rancheira e o baião/ vem na flor do desespero”? Acho maravilhoso “Teu corpo/ estirado nas léguas de capim/ é um sono de quero-quero/ uma gaita de botão/ que perdidamente dedilho até ao fim”. A referência ao quero-quero, por sua conotação subliminal de desejo, empresta aos versos levíssimo acento erótico, com sabor de água de arroio e pitanga... O poema “Sétimo Dia” é um gênesis da saga das Missões, que termina com “sarças de fogo, diáspora/ um crepúsculo para as terracotas/ ruínas, altares/ silêncio”.

Destaco, ainda, “Colcha de Retalhos”, cujos versos iniciais são encantadores:

Pendurei a esperança
na parte mais alta
do varal

O poema conclui com os seguintes versos, não menos belos:

Almas, saudades, presságios e tempo
são retalhos de uma pequena colcha
bordada com lãs de outono.
Delicado tecido de paciência
cerzindo com nós de orvalho
o lento enigma da vida.

Poesia, no meu entender, é isto: a linguagem que vai buscar, no fundo do poço, a água mais pura da memória e da imaginação, sem esquecer que a própria roldana faz parte da vida, e que os braços, que a acionam, são braços reais, de alguém que sofre, sonha, ama e canta. O balde, gotejante de líquido, é a alma... que também goteja de emoção!

Obs.: Armindo Trevisan obteve muitos prêmios. É autor de vários livros de ensaio, em especial: A Poesia, uma iniciação à Leitura Poética e o Rosto de Cristo, que conquistou o Prêmio Sul de melhor livro do ano em Não-Ficção.




Pelas sesmarias da imensidão: Água do Sonho de Élvio Vargas.

Maria do Carmo Campos

Poeta, ensaísta e Professora da Universidade Federal do R.G.Sul.
Texto publicado no jornal Gazeta de Alegrete, em 19-05-07.

Saberá mesmo um poeta em que consiste essa espécie de força oculta que o faz poetar?
(Mario Quintana)


A vida / vai fazendo de mim/ um alambrador/ das longínquas sesmarias da imensidão...
(Élvio Vargas)

Poemas são objetos fluidos como o sonho, como as águas. Espertos, escorregam, não se deixam agarrar, querem permanecer livres das nossas convicções, certezas e mecanismos, voam para longe de alguns porquês e senões. Filha de uma antiga sabedoria, a poesia imita a leveza, a autonomia dos pássaros. No intrincado de suas redes, os poemas carreiam palavras, algumas incomuns, devolvidas em estado quase nascente.

Os poetas são servos das palavras, disse Octavio Paz. Atingidos pelas nervuras do verbo, descem a um penhasco fundo para extrair o ritmo, o som e o sentido que farão o poema respirar. Sob um tremor de vida, cada poema forma-se como um cristal, ressonância breve de um instante que faz vibrar, em simultâneo, algum sopro remoto da cadência de outros tempos. É assim que o poeta Élvio Vargas labora, entre um abismo de forças e a tenuidade do papel, gravando na timidez das páginas uma seqüência de objetos novos, até então inexistentes. Vigorosos, os poemas entalham-se sob a armadura breve de uma conquistada linguagem. Os versos, à luz de enredos e armadilhas, mobilizam o traçado de um auto-retrato. Em alguns poemas, mais enigmáticos e por vezes brevíssimos, sobrevoam dramas históricos e inquietações de largo alcance. Entre eles, Os vagões de Schindler, As ruas de Kafka, Abismo e Brevidade, reproduzindo situações e vivências labirínticas em afinidade com certa literatura contemporânea. Mais uma vez, o leitor escorrega ao tentar encapsular sentidos pulsantes, que deslizam nos intervalos. Por vezes, imagens inusitadas descrevem o fazer próprio da poesia, com suas profundezas e escavações (Escombros, Alquimia, O Escafandro). A dança imagética resulta em construções surpreendentes, que podem “abalar” o leitor, como queria Mario Quintana. É o caso de Febre, poema de alta voltagem, obtida por um conjunto delirante de imagens, cuja associação causa impacto: é poesia de condensação pictórica, impensada, convidando ao inusitado. Que analogias podemos encontrar entre a melancolia de um cenário urbano e as projeções de um claro-escuro matizado de azul e de amarelo?

O livro Água do Sonho busca outras formas e ultrapassa o plano mais evidente da expressão subjetiva. Armado com a intensidade do olhar e da imaginação, o poeta desce aos horizontes da memória. Ao descobrir-se, descobre versos conjugados entre instinto, razão e sentimento, que se sustentam no frágil paradoxo de umas asas de jacarandá. Na busca da própria face (As feições/ que me surgem agora...), o eu-lírico assume um tempo ampliado, habilitando-se à percepção de um contínuo reciclar: Vivi na rotação máxima de cada signo ou Vêm de muito longe as vidas que vivem em mim. Investido de um passado de águas e marés, fundante da poesia em língua portuguesa, Élvio Vargas sabe de viagens e “caravelas”, alicerçado embora nas raízes da sua terra. Ancorado na vaga dos navios (O dia de partir/ é aquele de sustentar/ auroras na proa/ e soltar âncoras/ nas ilhas do céu) , envereda por temas telúricos, sabendo transitar entre o próximo e o longínquo, o visível e o sonhado, o óbvio e o estranho, como se lê em Luz boreal.

O poema Espinilho remonta à instância bíblica da criação do mundo e instaura uma ordem democrática entre as árvores, que repartem os seus atributos, prescindindo da intervenção de Deus: ao modo de um patinho feio, um “espinilho” vê-se num calvário, apresentando-se esquálido e adunco, infestado de formigas. Objetos fluidos, os poemas de Água do Sonho transitam por largos temas, convidando o leitor a encontrar fragmentos que fazem pulsar o lado pictórico da religiosidade e dos mitos, alguns entranhados de história e de arte. É o que podemos extrair de Sétimo Dia, Salmos de Cedro e A última ceia, poemas que, por sua vez, contrastam com Profana, lugar do erotismo feminino. O mais novo livro do alegretense Élvio Vargas traz à luz um caleidoscópio de vivências, “migalhas de sonho e pensamento” que sobrevivem como se fossem cristais. Percepções do ilimitado e de um tempo/espaço barrado por fronteiras subjazem a uma escrita da voz poética que se contempla em rasgadas direções: É tarde demais/ me construíram assim/ com este estranho tecido/ de sangue, linguagem e paixão/ carregado de sóis amedrontados / e de luas transitivas.




Capa do livro de poemas Água do Sonho, de Élvio Vargas (2006).

        Fragmento da apresentação dos poetas Armindo Trevisan (P.Alegre/RS)
         e Sérgio de Castro Pinto (Paraíba), no livro Água do Sonho, de Élvio Vargas.

           " (...) Mas o principal, para Élvio, não reside nessa performance. Para ele, o que importa é o mergulho nas profundezas (às vezes impuras) da existência.
            Vai à caça de tesouros - obscuros ou resplandescentes."
           

(Armindo Trevisan)

           " (...) São, em suma, jorros de um sonho onde convivem harmoniosamente o caos e a cosmogonia, ambos face de uma só moeda, quem sabe da moedinha perdida de que tanto fala Mário Quintana."

(Sérgio de Castro Pinto)





2007/setembro
Participa como ator coadjuvante, no papel de um padre jesuíta, no curta-metragem Um menino vai ao colégio, baseado no livro homônimo de Cyro Martins. Produção da Zeppelin Filmes, exibido pela RBS-TV (Porto Alegre) em setembro de 2007, integrando a nova série de ficção da RBS-TV – Escritores (programas livremente inspirados em autores gaúchos). Direção de Marcello Lima e Liliana Sulzbach.

Participa como palestrante, no Centro Cultural Érico Veríssimo, em Porto Alegre/RS, dentro das atividades culturais do projeto PortoPoesia, com o tema Poetas da Literatura Fronteiriça e passa a fazer parte do grupo de coordenação do evento.

Nota da webmaster:
Na sua palestra, Élvio iniciou com Alceu Wamosy e depois resgatou raros poetas da poesia urbana e regional, muitos do Alegrete. Foi do simbolismo ao modernismo.Sua palestra foi alvo de muitos cumprimentos e elogios da seleta platéia presente ao evento, pelo profundo conhecimento demonstrado em relação a nomes raros e importantíssimos da literatura fronteiriça. Também pelo seu conhecimento sobre os diferentes estilos dos poetas, sabendo situá-los nas suas diferenças e estruturas imagéticas. Élvio pôde demonstrar, ainda, através desse passeio pelo mundo dos poetas da região da Campanha, o seu sincero amor pela fronteira.

"A sensação que tenho é que, naquele momento, os poetas guiaram-me, para mostrar ao mundo que eles não viveram em vão, que alguém, em algum momento, declara-se fiel depositário deles e os cultiva até o fim dos seus dias. Talvez outro fator que tenha plasmado o bom resultado foi a emoção. Transformei-me num incêndio e ardi até a última gota de inspiração para exorcizar todas aquelas palavras e iluminá-las com os círios imortais da linguagem. Minha intuição confirma que, mesmo aturdido, fui feliz." (E.V.)

2007/outubro
É convidado para gravar uma entrevista no canal da Assembéia Legislativa do Estado-RS, no quadro Expressão Cultural, em 15-10-07.

É o organizador e faz a apresentação do livro de poemas da poetisa alegretense CARMEM BICA BELTRAME, intitulado Escrito em Batom, lançado em São Leopoldo/RS, em outubro/2007.

É convidado a participar da equipe da Editora Território das Artes de Porto Alegre, pela artista plástica e poeta Liana Timm.

Participa do grupo de atores amadores, numa coreografia teatral, no espetáculo “Outono”, sob a direção de Décio Antunes e Maria Waleska Van Helden, no Parque Moinhos de Vento, em Porto Alegre.

É escolhido o Patrono da Feira do Livro em 2007 - ano do Sesquicentenário de Alegrete, em 31-10-2007. O evento ocorreu de 20 a 24 de novembro, no Largo do Centro Cultural da cidade. Seu discurso na abertura da Feira foi uma prosa ensaiada, em que inicia com uma homenagem ao seu primeiro colégio - Demétrio Ribeiro - e após ao seu segundo e último colégio (Oswaldo Aranha), onde cursou o Ginásio (atual Ensino Médio). Ao final, com fragmentos de versos e prosa de vários escritores alegretenses de diversos estilos, ele homenageia os seus pares, numa poética colcha de retalhos - o que chamou Tributo Aos Meus Pares.

"Articular todo este comboio e fazero trem apitar, não foi fácil, mas todos os dias eu retocava."

"Pinçei todos eles e os interliguei-os com uma única voz, pois aos ouvidos dos leigos eu os alcançaria pela música das palavras e, para os mais sensíveis, a relação de equilíbrio seria completa. Mas foi um desafio, tendo em vista que, na hora da leitura, as pessoas poderiam não assimilar o fio dramático melódico que unificava as vozes dos poetas e o clamor afetivo pela terra natal. Mas acho que acertei! O texto foi lido pela Jussara Giacomoni, que foi esplêndida. Interpretou as falas com emoção e postura cênica. O crepúsculo derramado sobre os pés e cabeças das pessoas invadiu-lhe as almas! O olhar de espanto de muitos foi assaltado por uma discreta lágrima! Todo o culto das memórias congelou o ar!" (E.V.).

Clicar aqui para ler o seu discurso na íntegra.


"O único salário de um poeta, e dos artistas em geral, são as palmas.
Não existe melhor resposta do que o estampido emocional das palmas.
Elas não atingem a vaidade, elas coroam o espírito."
(Élvio Vargas)

2007/dezembro
É convidado para participar da equipe da Editora Território das Artes (Porto Alegre/RS), cuja homepage (www.territoriodasartes.com) foi lançada em 11 de dezembro.



2008
Participa da Coleção Pôépurú de Poesia de Língua Portuguesa, editada pelo poeta porto-alegrense Paulo Bacedônio, formada por poetas clássicos e contemporâneos dos oito países de língua oficial portuguesa: Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau, Cabo Verde e Timor Leste. A coleção é um conjunto de livros de bolso semi-artesanais, com tiragem de 50 exemplares, todos numerados. Élvio escreve o 6º volume da série ("Esparsos Vargaslume").
Volume 1: 5 Poemas barrocos, de Manuel Botelho de Oliveira (1636-1711), Bahia, Brasil;
Volume 2: Sonetos, de Antero de Quental (1842-1891), Arquipélago dos Açores, Portugal;
Volume 3: De tudo hei de pedir conta, de Paulo Roberto do Carmo (1941), Rio Grande do Sul, Brasil;
Volume 4: Poemas, de António Soares (1934), Esposende, Portugal;
Volume 5: Cantares são-tomenses, de Caetano de Costa Alegre (1864-1890), São Tomé e Príncipe;
Volume 6: Esparsos vargaslumes, de Élvio Vargas (1951), Rio Grande do Sul, Brasil;
Volume 7: Haicais das cinco estações, de Raul Machado (1934), Rio Grande do Sul, Brasil.

Seu ensaio Vozes da Bruma nos Códigos Poéticos integra, com outros ensaios e poemas, o primeiro livro do grupo Território das Artes intitulado Arca de Impurezas, em parceria com outras escritoras e poetas: Liana Timm, Dione Detânico, Maria Helena Martins, Renata Rubin, Vânia Falcão, Neusa Matte, Tânia Galli, Emília Viero, Lenira Fleck e Cristina Macedo.

Em parceria com a poeta Liana Timm, fala sobre A Cidade do meu olhar, na primeira edição do Porto Alegre Dá Poesia.

Seu texto O mármore da lembrança está entre as publicações do primeiro número do jornal Porto Poesia – Literatura e Arte.

No Porto Poesia II, na companhia do romancista Alcy Cheuiche, desenvolve a palestra Vozes da bruma nos códigos poéticos.

Ingressa no Instituto Machado de Assis e concorre a uma vaga de Conselheiro do Fumproarte, sendo eleito para o mandato de um ano, com possibilidade para duplicar este tempo.

Com a produção de Marisa Veeck e o patrocínio da CEEE, no Centro Cultural Érico Veríssimo, participa da mostra “Poemas Gravados” que desenvolveu-se durante a Feira do Livro de Porto Alegre. Nesta, os artistas plásticos ilustraram os poemas com suas releituras pictográficas.



2009 - abril.
Homenageia seu conterrâneo Wilson Villaverde com um poema póstumo.

Nota da webmaster: Wilson Villaverde, falecido em em 06-04-09, era empresário e o fundador da fábrica de calçados que confeccionava as alpargatas Feitio do Alegrete. Villaverde iniciou seu ofício aos 23 anos, no ramo do conserto de calçados e dali partiu para a fabricação de botas de couro masculinas e femininas. Sua habilidade no manejo do couro garantiu produtos de qualidade e conquistou uma clientela fiel que deu força aos negócios. Há cerca de 10 anos, o empresário partiu para a fabricação do produto que passou a ser a sua marca registrada, as alpargatas Feitio do Alegrete. Atualmente, seus produtos são vendidos por mais de 700 representantes em todo o país. Por causa da popularidade, a marca foi citada na música Guri, composição de Júlio Machado que se popularizou no Estado na voz de Cézar Passarinho. Além do trabalho, Villaverde gostava da boemia e de interpretar canções de Lupicínio Rodrigues.
(Fonte: jornal Zero Hora, edição de 08-04-09).

RAPSÓDIA PARA UM SAPATEIRO ALEGRE

Wilson Villaverde - foto de Marco Santierri. Wil amaciava a sola
benzia-lhe com o vinagre dos suores
e uma água, que só os sapateiros usam-na
na alquimia dos seus ateliers.
O boi que nela viveu, sorria
cirandando pela vitrine
levitado pelo brilho único
do seu derradeiro sapato.
O martelo pediu demissão
para transformar-se em arco.
Os preguinhos alinhados
embarcaram no convés
de uma solitária alpargata
e partiram em direção à Coxilha.


Os pares de botas
viraram tubas
e compuseram a tua rapsódia.
O luminoso que anunciava
sapataria era uma tábua de partitura
de agora em diante
tudo será concerto.
Os passantes, amigos, surdos, mudos...
ouviam o sapateiro cantar sua música predileta:
"Estes moços, pobres moços
se soubessem hoje o que eu sei..."
Wilson foi bater sola no céu...........

( A última vez que nos encontramos ele abraçou-me, beijou-me e me disse: Poeta!!!, vou te cantar uma música)

Wilson Vilaverde foi enterrado no Alegrete agora às 11 hs da manhã.

Élvio Vargas - 07.04.09

Nota da Webmaster:
Élvio Vargas é mesmo um mago das palavras. Sua inspiração para fazer poesia pode brotar em qualquer lugar, basta que uma fagulha de emoção atice a sua alma sensível.
Assim respondeu, a respeito do poema acima, após eu tê-lo cumprimentado pelas beleza de seus versos:

"Eu a escrevi numa Lan House, tão logo soube por um amigo do falecimento do Wilson. A sorte é que as lágrimas corriam quietas e só um gurizinho, que jogava esses jogos de hoje, sorrateiramente me olhava, certamente pensando: Pobre velho louco! Decerto chora pelos soldados que mato em meus jogos de guerra!"

2009
Seu poema A Última Hora é publicado na obra “Dr. Romário: Uma Biografia sem Fim”, resultado de uma monografia de Adriane Finoketti, sob a coordenação do Prof. e poeta alegretense André Mitidieri, sobre a vida do médico alegretense – Dr. Romário de Araújo Oliveira.

Participa da mostra Poemas Gravados - 2ª edição, com a produção de Marisa Veeck e o patrocínio da CEEE, no Centro Cultural Érico Veríssimo, durante a Feira do Livro de Porto Alegre, só que inverteu-se a proposta inicial: os poetas escreveram poemas inspirados na pictórica dos artistas.

Em 08 de outubro de 2009, participa da Feira do Livro de Frederico Westphalen-RS no programa Mesas e Gerações de Poetas, elaborado pela URI – Universidade Regional Integrada.

No dia 09 de outubro, junto com o escritor e poeta Armindo Trevisan, entrevistam o cineasta Fabiano de Souza, sobre a influência da “Poética na Sétima Arte”. Logo após, integra o Sarau Literário, em parceria com Cristina Macedo, Eduardo Degrazia, Liana Timm e Paulo Roberto do Carmo, atividade que encerrou o Porto Poesia e que foi totalmente desenvolvido na Casa de Cultura Mário Quintana, Porto Alegre.

Escreve a apresentação do livro Caixa de Istambul, ainda no prelo, obra que reúne os poemas de Flávio Carneiro de Souza.

No dia 1° de outubro de 2009, após ter se candidatado à cadeira n° 6 da Academia Rio-Grandense de Letras, cujo patrono é Apolinário Porto Alegre e o antecessor Elvo Clemente, elege-se com expressiva vantagem.

Assim falou para o jornal Gazeta de Alegrete, o novo imortal:

"Perdi o direito da minha espontânea marginalidade poética, agora estou catalogado! Antes eu poderia ser rã, serpente e até formiga. Agora carrego o dever sonoro das cigarras. Haja o que houver, preciso fabricar mais sopro para sustentar o meu canto".




2010
No dia 16 de janeiro, seu texto Figas é coreografado por Maria Waleska Van Helden e apresentado pela bailarina Fabiana Severo, em Torres-RS, dentro do projeto Band Verão SESC.

Em 15 de abril, toma posse na Academia Riograndense de Letras. A saudação esteve a cargo de acadêmico e escritor Alcy José Cheuiche, seu conterrâneo.

Em 8 de maio, participa de um encontro sobre a significação da poesia, no BATE BOCA BOM, junto com os poetas Dilan Camargo, José Eduardo Degrazia, Laís Chaffe, Liana Timm, Marco Celso Viola, Renato Mattos Motta, no Instituto Cultural Brasileiro Norte-Americano, em Porto Alegre-RS.

No dia 16 de maio, é entrevistado pelo poeta Dilan Camargo, no canal da TV Assembleia-RS, dento do programa Livros e Autores.

Em 31 de maio, participa de novo encontro no evento BATE BOCA BOM, sobre o fazer poético e o seu lugar no mundo contemporâneo, junto com outros poetas gaúchos, no Instituto Cultural Brasileiro Norte-Americano, em Porto Alegre-RS.



Seus poemas...

CONTATOS DE 1º GRAU
(Para Maina Rodrigues Vargas)

Anos a fio, troquei
esperanças por álgebras
ciranda por verbos
e sonhos
pela geografia do primeiro amor.
Matriculado permaneço
descobrindo fórmulas
para a matemática da vida.

O NAVIO DE VIDRO

O dia de partir
é aquele de sustentar
auroras na proa
e soltar âncoras
nas ilhas do céu.
Navio - imagem obtida da Internet 
(autor não referido).

Nessa hora
haverá ventos limpos
num cais parado
barcos amanhecidos
de conveses molhados.
Absurdo será o mar
submersa será a vida.
Nesse dia
surgirá uma pressa ferida
como uma loucura desamparada
as malas terão o sopro da brisa
o caminho a força das águas.

Nessa noite
nascerá uma lua assustada
com estrelas em desalinho
no brilho delas
aviaremos rudes máscaras de linho
Para esse tempo
farei com cristais de insônia
um navio de vidro
que singrará até o fim
todas as correntezas
que navegam em mim.

ZODÍACO

(...)
Vivi na rotação máxima
de cada signo
Extraí deles os elementos
de solidão e contentamento
que foram urdindo
vagarosamente
o indecifrável horóscopo
da minha vida.


Pandorga - imagem obtida da Internet 
(autor não referido).

ESCRITURAS

Minha vida tem sido um rio
escrito com rápida correnteza.
Todos os meus cardumes
trocaram seus leitos
pela imensidão do céu.
Para uma lenta aproximação
reciclo sonhos e os transformo
em vôos de pandorga, esculpida
nestes azuis dos meu fins
de tarde...


O ANO VELHO

Quando viajam estes anos velhos
vão com eles tantas coisas nossas
aquela lágrima de cristal
que nem o tempo mais desfaz
uma saudade desbotada
que sonha pelo infinito grau do encontro
ou talvez até, uma paixão no seu banho
de espera, solte seu grito, depois
da última taça de champanhe.
Na virada destes, com ardente frequência
casamos com aquelas sublimes tentações
que nos reservam os sonhos que não sonharam.
O destino nesta hora é implacável
na sua fatalidade nos rouba o encantamento
mas mesmo assim, teimamos
pelo resgate da magia perdida.
Quando viajam estes anos velhos
vão com eles tantas coisas nossas
aqueles sapatos que esqueceram os caminhos
a ciranda das almas amigas
morando ali no próximo hemisfério
e um pouquinho do nosso resto adolescente
que no finzinho do ano que vai
sonha no comecinho do ano que vem...



OS VAGÕES DE SCHINDLER
Trilhos - imagem obtida da Internet (autor não referido).

Trilhos, dormentes, rebites
nada mais me socorria.
Meu destino estava selado
era ferro contra ferro
fornalha acesa
no calor dos medos.
Trem -------------
abrindo clareiras
nas linhas da escuridão.

Meus mortos
trago encadernados
no desenho das brumas
os vivos, classificados
um a um
nas coisas do coração.
Carrego os bolsos vazios
com alguns fragmentos
de esperança.
Me considero pronto
lentamente conduzido
para ser gado
no tombadilhos dos vagões.
Gueto
encharcado nos vapores
rumo ao túnel silencioso
da eternidade ----------



COLCHA DE RETALHOS

(Para Wilma Pereira Vargas)



Colcha de retalhos - imagem obtida em www.editorasalesiana.com.br Pendurei a esperança
na parte mais alta
do varal
roupa suja, mancha, vícios
ficaram enxaguados
no fundo dos baldes
paixões encardidas e panos
permaneceram alvejados
no silêncio dos tanques.

As borbulhas que na água brotaram
não eram minhas
nem tuas
pertenciam ao espólio
dos amores submersos.
Pássaro, rio, nuvem, voaram
restaram a solidão e o retrato.
Para espantar as sombras
varremos o pó das lembranças
e o cisco da existência.

Colcha de retalhos - imagem obtida na Internet - autor não referido. Os fios engruvinhados da memória
pespontamos nos labirintos
de um ponto cruz.
Almas, saudades, presságios e tempo
são retalhos de uma pequena colcha
bordada com lãs de outono.
Delicado tecido de paciência
cerzindo com nós de orvalho
o lento enigma da vida.

LUZ BOREAL
(ao Rammé)

Vêm de muito longe
as vidas que vivem em mim
na cumplicidade e no pacto
sou nuvem, migalhas de sonho
e pensamento
o sono das águas
nesse rio invísível do vento.
Às vezes, e não são escassas
trago o ritmo
intuição e encantamento.
Sou um estrangeiro
mascate da luz boreal.
É tarde demais
me construíram assim
com este estranho tecido
de sangue, linguagem e paixão
carregado de sóis amedrontados
e luas transitivas.

ÁLBUM DE FAMÍLIA




Álbum de foto da família Naquela época do ano
todos estavam ali.
Os retratos guardavam
nas paredes o encanto
solitário da vida
que começava cedo.
Tinha naquela gente
o olhar vivo
de uma paixão suspensa.
Eles entravam e saíam
daquelas fotos
como quem invade
a sala de espera
do mundo.
Vestiam casimiras leves
calças curtas
e sapatos pretos.
Emprestavam as roupas
usadas de suas lembranças
púrpuras, viviam com as
mãos cheias da pálida
luz que ficou do último
flash do tempo.
Rindo uns, sonhando outros
eles dançavam pela
música de suas antigas canções.
Hoje ao folhear estas páginas
vamos sentindo saudades
daqueles que ficaram presos
por um fino véu de luar
neste eterno álbum de família.




Álbum de família do poeta (de cima para baixo):
Pais Wilma Pereira e Alvimar ("Marzinho") Vargas - Élvio e esposa Brites, quando crianças - Casamento em 28-01-1978, no Centro Tradições Gaúchas (CTG) Farroupilha, em Alegrete - filhos Caian e Maina Rodrigues Vargas, no CTG Farroupilha, em 20-09-1987.



O ESPELHO

No outro lado do espelho - imagem obtida na Internet em http://outofafrica.blogs.sapo.pt/ - autor não referido.

Fui gastando
todas as vidas
que me deram para viver
as emoções me arrastam
trazendo à tona
um coração submerso
que aos poucos vai mostrando
tudo que é meu
Vivo na intensa trama
da cumplicidade que criei
no enigma do outono
despenco-me
no desejo do verão
ressurjo


Premedito cheio de esperança
a vinda de um poema novo
e saio me adivinhando
nos mistérios
da chuva e do vento
Atrás de mim
vão ficando
os escombros de gramáticas vencidas
gritos de civilizaçoes inquietas
e um espelho
abarrotado
pelas estátuas do meu sono.


Sobre o poema acima (1995), disse Virgínia de Almeida Pires do Rosário - Professora de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, em "A Palavra Escrita em Alegrete, 1845-1995", publicação do governo municipal de Alegrete, (gestão 93/96 - Dr. Nilo Soares Gonçalves), em agosto de 1995:

"O Espelho, de ÉLVIO VARGAS, configura o pessoalismo no uso da primeira pessoa do singular e expõe, já no título, o intimismo embutido na palavra espelho com sua conotação de reflexo, imagem, representação. A trajetória dilacerada do eu vincula-se ao simbolismo das estações do ano, quer mencionando o outono e o verão, quer deixando-as implícitas nas características que as determinam. Os verbos fortes em sua carga sonora e semântica, como arrastam, despenco, aproximam-se dos substantivos com peculiaridade idêntica àquela, mas que ressaltam o eu interior inefável ou o dilaceramento mencionado: trama, cumplicidade, enigma, mistérios, escombros. O verbo premedito é uma aposta, primeiramente, no poema como possibilidade de arrimo ao caos iminente e, posteriormente, a locução saio me adivinhando é o indicativo da convicção de que a poesia é a solução à crise deflagrada no interior do poeta pelo caos externo (estações do ano...). Vale dizer que os versos finais do poema não apagam a pungente dor existencial, aliviam-na apenas, colocando-a no passado: "Atrás de mim/ vão ficando os escombros de gramáticas vencidas/ gritos de civilizações inquietas; e um espelho abarrotado/pelas estátuas do meu sono". Ficam os escombros e o espelho (imagem); e um espelho abarrotado/pelas estátuas (obviamente inertes, representações do passado) presas ao sono, que se liga ao universo surrealista e passadista, delineiam o poema (esperança do poeta e movimento do presente) como veículo de leitura do mundo interior/exterior, ainda que o poema continue a ratificar a perplexidade diante da vida em movimento para o futuro, possivelmente até a(s) próxima(s) poesia(s). A poesia de Elvio Vargas, com seu intimismo, com seus espelhos e suas imagens delicadas-dilaceradas, evoca o tom de certos poemas de Cecília Meireles. Por exemplo, em o Retrato, após poetizar sobre as mudanças que ocorreram em seu exterior-interior, Cecília pergunta-se: "Em que espelho, ficou perdida / a minha face?". Faz-se, desse modo, o ponto de encontro entre os dois poemas."



O RETRATO

Autor: Costa Pinheiro -

O que vai ficando para mim
é este retrato
feito na luz das manhãs
com a leve sombra do eclipse.
Me fotografaram assim
nesta humana roupagem
das marés
os olhos ainda vestiam
a brisa mansa das minhas caravelas

Nos oceanos do degredo
fui me buscando
onde havia água
fiz com ela
a submarina ração
do meu sustento
onde fora terra
de um agreste puramente noturno
construí com uma galharia amanhecida
o denso arvoredo dos meus sonhos.
De tudo o que me tiraram
vai ficando este retrato só
pintado pelos náufragos
dos meus eus...




A ÚLTIMA PANDORGA

(Para Angela Guterres Vasconcelos)

Colégio Demétrio Ribeiro - Alegrete, onde Élvio Vargas fez o curso Primário (1º grau) - (Foto: José Airam Vasconcelos).

Na época do meu primeiro colégio
as manhãs acordavam-se com a gente
existia para elas
uma música desajeitada
nascendo na alvorada dos carretos
que aos poucos iam fretando
os sonhos leves da infância
O sabor era inconfundível
café com leite e um avental
bem engomado, o resto
              era enfrentar o olhar sisudo das maestras

Dona Ana com a sua sineta
benzia o reboliço das filas
Lúcia com o seu olhar
incendiava minha paixão de guri
Lá bem do fundo dos corredores
vinha a Catarina, que não era da
Rússia, era de todos nós
do João Pedro, Ivaldo, José Júlio, Joás
e tantos outros, inclusive
os já matriculados no educandário
de uma outra vida

Colégio Demétrio Ribeiro - Alegrete, onde Élvio Vargas fez o curso Primário (1º grau) - (Foto: José Airam Vasconcelos).

Na época do Demétrio Ribeiro
as tardes tinham um gostinho de picolé
nelas a ternura brincava de ciranda
num sério descompromisso com a vida
Hoje assistimos ao desfile
de nossas estações
e por estas auroras e crepúsculos
vamos soltando
nossas últimas pandorgas.






Grupo de professoras do Colégio Demétrio Ribeiro, em Alegrete-RS,
à época em que ÉLVIO VARGAS fez o curso Primário (1º grau).

Legenda
Primeira fila em pé, ao fundo (da esq. p/ a dir.): 1. Marieta Souza Silva - 2. Percília (Moza) Souza Santos - 3. Reni Ricciardi - 4. Ana Oliva Lautert Dornelles - 5. Zeli Souza Paim - 6. Odila Dellaméa - 7. Zaira de Souza Nunes. Fila do meio: 8. Maria de Tal (não fazia parte do quadro de professoras, aguardava transferência) - 9. Helena Juri - 10. Lisete Bisch - 11. Diosina Tubino - 12. Elsa Fuck Rodrigues - 13. Vanda Silveira - 14. Circe Neves Pereira. Sentadas: 15. Dalcidia Di Napoli - 16. Ernestina Weber - 17. Ruth Paim - 18. Tereza Carivali - 19. Eliva Camargo - 20. Irlê Fagundes Salomão - 21. Célia Castro.

A foto foi tirada no pátio do prédio antigo da escola, na esquina da Praça Nova, nos anos 50. Logo depois, a escola passou a funcionar em novo prédio com amplas instalações (fotos menores junto ao poema), à rua Gal. Sampaio/esquina com a rua Marquês de Alegrete.

Ao centro (fila traseira), a figura da diretora ANA OLIVA LAUTERT DORNELLES* - a Dona Ana a quem ÉLVIO VARGAS refere-se em seu poema. Dona Ana, falecida em 2005 após uma longa e degradante Doença de Alzheimer, era uma pessoa carismática e com um espírito de liderança tão impressionante que a sua simples presença no topo da escadaria do colégio já fazia silenciar o alvoroço de dezenas de crianças uniformizadas que corriam/gritavam pelo pátio da escola, antes da sineta bater para o início do turno, ou para o reinício após o recreio. Alguns poucos movimentos do braço de Dona Ana com a sineta na mão eram suficientes para que todas as crianças rapidamente se alinhassem em filas organizadas e, usando apenas o seu olhar, ela os silenciava, para que esperassem a chamada nominal de sua turma para dirigirem-se à sala de aula ("Dona Ana com a sua sineta benzia o reboliço das filas").

Nota da webmaster
*ANA OLIVA MEDEIROS LAUTERT ("Dona Ana"), nasceu em Alegrete-RS em 26-11-1916 e faleceu em 08-06-2005. Era filha de OSWALDO DE SOUZA LAUTERT e MARIA DA CONCEIÇÃO DE SÁ MEDEIROS, ambos oriundos de famílias alegretenses. Casou com DÁRIO MARQUES DORNELLES, comerciante, passando a assinar-se ANA OLIVA LAUTERT DORNELLES. Sem filhos.

Na fila traseira, a 2ª à esquerda, está PERCÍLIA (Moza) LAUTERT DE SOUZA (prima de ANA OLIVA, em 1º grau), que casou com MÁRCIO BRASIL DOS SANTOS, Percília e Márcio Brasil dos Santos são os pais da webmaster desta página, MARÍLIA CECHELLA que também é a criadora e administradora da homepage da genealogia da Família João de Sousa Brasil.

“Hoje ao folhear estas páginas, vamos sentindo saudades, daqueles que ficaram presos, pelo fino véu de luar, neste eterno álbum de família”(E.V.)



O JUÍZO FINAL

(À Jussara Giacomoni)

Anjo - imagem obrida da Internet (autoria não referida).

Quando me chamaram para viver
vieram junto comigo
um par de sapatos rotos
e um anjo de asas caídas
vestido apenas
por um céu de azul turquesa
Deram-me ainda
um punhado de poemas
e meia dúzia de canções
Registrado fui
com este desejo forasteiro
que me aprisiona
num destino sem remissão
Por estes casarios da memória
vou encontrando vidas
e nomeando os sonhos
para a ceia do dia-a-dia

Quando me chamarem novamente
levarei os sapatos
magicamente empoeirados
pelo segredo dos caminhos
e num rápido trailer
passarei em curta metragem
os melhores dias de minha vida
tocados pela trilha sonora do coração
e embalados pela doce brisa
de um sopro de asas
do anjo que um dia
aprendeu a voar.




EM ALGUM LUGAR DO PASSADO

( Ao Kidoca e tantos outros)

Élvio Vargas

Porta principal do Instituto de Educação Oswaldo Aranha (IEOA), em Alegrete-RS, antes da restauração e pintura da sua fachada. 
(Foto: Valdir Machado - Alegrete/RS)

Um domingo qualquer, I.E.O.A, anos 60, outubro, 16 horas, perfume Lancaster, calça de nycron e uma camisa Volta ao Mundo. Conjunto "The Beavers". Mulheres, desejos, paixão. Soutien rendado, biquini De Millus, banlon e seios nas versões limão, pêra e laranja. Chiclete Adams, Coca-Cola, Ping-Pong, Ploc... Uma morena belíssima, F. Comme Femme. C´era un ragazzo que come me amava i Beatles e i Rollings Stones. Mãos suadas, batom, beijo, Ciao Amore Ciao. Logo após a sessão das 20th no Cine Glória, com Steve Reeves na tela e o Caruncho na bilheteria. Que saudade da fumaça gastronômica do Romeu. Na seqüência, tômbola dançante do Hélio no Caixeiral, com os passos dobles do Canhão e da Isa Bertanha. Sublimes, nas palavras do cronista Fernandinho Carús. Na tarde do outro dia, Carlos Grande, Nelly Assumpção e o seu Aladim. Pra variar, o teste de francês da Maria Trovão. Na última hora, ensaio da banda, pernas, lisas, esvoaçantes, balizas. Rá, tá, tá, tá, bum, bum... Rá, tá, tá, tá, bum, bum....................

THE END


O texto e foto acima fazem parte da última capa do CD homônimo do músico alegretense Fernando Crispim do Rio.
Foto (porta principal do colégio Oswaldo Aranha, antes da restauração): Valdir Machado, fotógrafo alegretense.


Nota da webmaster:

Instituto de Educação Oswaldo Aranha (IEOA), em Alegrete-RS, em maio/2005 (Foto: Marília Cechella)

I.E.O.A. é a sigla do Instituto de Educação Oswaldo Aranha, colégio onde quase todos alegretenses contemporâneos de ÉLVIO VARGAS fizeram o Ensino Médio (antigamente, curso Ginasial e Científico ou Clássico).

CARLOS GRANDE era o Diretor do IEOA à época, e NELLY ASSUMPÇÃO, professora de Português, era a sua respeitável assistente na Direção. Seu ALADIM era o velho porteiro do colégio, um preto alto e magro, de pouca fala e olhar impassível, encarregado de barrar qualquer aluno que tentasse entrar pelo portão principal da escola após soar o 3º sinal da sirene. MARIA TROVÃO era o apelido dado pelos alunos à MARIA FARACO GALLAS, professora de francês, por sua estrondosa voz dentro da sala de aula.

KIDOCA, o amigo de juventude em Alegrete-RS a quem ÉLVIO VARGAS dedica o texto acima é EUCLIDES MILANO DO CANTO, cujo nome é uma homenagem a seu avô, EUCLIDES BRASIL MILANO, descendente de um dos ramos da Família Souza Brasil, cuja genealogia está publicada na página http://assisbrasil.org/joao



O poema abaixo faz parte do livro "O Almanaque das Estações" e foi inspirado no Instituto de Educação Oswaldo Aranha. Além de seu papel educacional, o IEOA foi palco de inúmeros acontecimentos e descobertas para os jovens ginasianos de todas as décadas.

Instituto de Educação Oswaldo Aranha (IEOA), em Alegrete-RS, em nov/2006 (Foto: Marília Cechella)

OLHOS DE GIZ

Tudo estava como
da primeira vez.
Os corredores longos
as portas altas
aquelas brancas
escadas de mármore.
Suspenso, intocável
como se regesse
a ópera das almas
estava ali, o clima da época
vivo, transpirando.
Os ruídos da canções
vinham de longe
com vozes e músicas
de um tempo antigo.
Os sonhos escritos
no quadro negro
aos poucos foram
se apagando
no seu lugar nasceram
minguados olhos de giz.
Após a sineta
todos voltam para
a sala de aula.
Nós não voltamos mais.
A seringueira quieta, plantada
está, como uma esfinge
a cuidar nossos eternos
deveres de casa.

Instituto de Educação Oswaldo Aranha (IEOA), em Alegrete-RS, em nov/2006 (Foto: Marília Cechella)

Os telhados carregados
de silêncio, vão anunciando
pouco a pouco, o ninho
de novos pássaros.
Pelas paredes aqueles
cartazes tão familiares
chegavam para mim
como íntimos telegramas
do tempo
pedindo socorro
pela ternura doente
pela paixão aniquilada
por tudo aquilo que perdemos juntos.
Tudo estava como
da primeira vez
só que desta
não gazeamos mais
as aulas do destino...




Em 2004, ÉLVIO VARGAS idealiza, organiza e edita o livro Torres da Província, um resgate histórico de 12 Igrejas de Porto Alegre-RS, com textos de Armindo Trevisan, Alcy Cheuiche, Moacyr Flores e fotos de Edelweiss Bassis. Escreve, exclusivamente para esta obra, o texto Salmos de Cedro, composto de 12 versículos no formato de quartetos.


TORRES DA PROVÍNCIA

Dom Antonio do Carmo Cheuiche
Bispo Emérito de Porto Alegre

Foto de Edelweiss Bassis, do livro Torres da Província (orf.: Élvio Vargas).

Para que serve um caminho, a cujo final não se ergue uma igreja”? Esta exclamação interrogativa de “L’Annonce fait a Marie”, de Paul Claudel, aparentemente marginal no texto do drama do célebre poeta francês, poderia perfeitamente servir de epígrafe a “Torres da Província”. No contexto da peça do Prêmio Nobel de Literatura, para além do episódio do atraso na preparação da estrada que deverá conduzir o rei da França ao majestoso templo de Reims, aquele grito de um simples aprendiz de construtor de catedrais, acena para o destino eterno do homem, criado por Deus e para Deus destinado. Em “Torres da Província”, a metáfora claudeliana sobre o sentido itinerante da existência humana rumo a Deus, continua ressoando em todas as suas páginas, na medida em que seus autores Élvio Vargas, Alcy Cheuiche, Armindo Trevisan e Moacyr Flores, nos levam a visitar as igrejas de Porto Alegre. Aqui, torres, fachadas e pórticos, ao assinalar as fronteiras exata entre o profano e o sagrado, transformam-se em um convite silencioso a ultrapassá-la.

A partir de então, através do texto, iluminado pela belíssima ilustração fotográfica de Edelweiss Bassis, que o acompanha em seus mais delicados detalhes; ao longo da narração histórica da origem e construção de cada uma delas; do estilo que as define; da iconografia e da decoração que revestem o seu interior; enfim, tudo em “Torres da Província” contribui para o conhecimento e vivência do templo cristão como “Casa de Deus e porta do céu”.

O selo artístico impresso no texto e nas ilustrações da magnífica edição de “Torres da Província”, não deixa de aludir, em boa hora, à relação profunda entre fé cristã e arte. Em 1963, falando a mais de duzentos artistas europeus reunidos na Capela Sistina, dizia Paulo VI: “Nós temos a doutrina, mas os senhores possuem a linguagem, a imagem, o sentimento com que expressá-la”. E acrescenta ainda mais: “A Igreja necessita de santos, mas necessita também de artistas”. Mas tarde, João Paulo II vai afirmar, em sua “Carta aos Artistas”, que a arte é um lugar teológico, quer dizer, é uma razão-anexa à Revelação e à Tradição, capaz de corroborar e explicitar ao vivo as verdades da fé cristã.

O itinerário histórico-artístico empreendido por “Torres da Província” lembra o “Romance das Igrejas de Minas”, da autoria de Murilo Mendes. Nesse longo poema, a alma do vate “sobe ladeiras e desce ladeiras, com uma candeia na mão... percorrendo na cidade e no sertão”, as marcas da passagem do “gênio mineiro”, talhado no barroco colonial. Embora muito longe da fama internacional da arte religiosa cantada por Murilo Mendes, “Torres da Província”, em compensação, possibilita ao leitor percorrer o grande arco que traçam os diversos estilos das igrejas da nossa cidade, e que vai do barroco até o estilo moderno: o neoclássico, o neoromânico, o neogótico e o neobasilical, tendo como centro o puro estilo do primeiro renascimento romano da Catedral Metropolitana.


Nota da webmaster:
As imagens obtidas de páginas ou capas de livros foram feitas por varredura pelo designer alegretense Giuliano Costa Guterres Vasconcelos, sob a supervisão de Élvio Vargas.





Élvio Vargas por ele mesmo...

ÉLVIO VARGAS tem a poesia em suas entranhas. Mesmo proseando em mensagens eletrônicas, muitas vezes suas palavras têm o mesmo tom de seus versos, seus textos são pequenos poemas. Abaixo, transcrevem-se pensamentos e idéias do poeta ÉLVIO VARGAS, pinçados das conversas virtuais com a webmaster.

Élvio Vargas (arquivo pessoal)

(...) "A sensação que tenho, em alguns momentos, é que os meus poemas representam pixels de sonhos em memórias que as outras vidas não conseguiram deletar. Cada vez que abro o disquete das minhas lembranças, e recebo-os, fico seqüelado por uma infinita ressaca, uma letargia de séculos."

(...) "Em mim, a chama poética continua intensa, vulcânica. A Poesia não é um estado de linguagem, é um estado de espírito."

(...) "O maior de todos os personagens é o Poema. Pois nele moram pássaros, sóis, luas, oceanos, exércitos de mulheres amadas, homens ímpios, crianças, adolescentes versos que ainda não têm casa própria e orações maduras que perderam sua validade. Imagina esta multidão de vozes, desesperos, paixões e fadigas morando num único coração e vagando em busca da terra da promissão! A vida de um Poeta é breve demais para abrigar tantos!"

(...)"Hoje, através da poesia, me decifrei. Carrego um ar expiado de assombros e fantasmas da infância, enternecido e ligeiramente exorcizado pela candura carnal das mulheres. É por isso que a minha poesia é um labirinto, infestado de febres, sombras e ressurreição. Confunde os incautos e guia os sóbrios. Uma mistura contagiosa de vólúpia e desespero, pálidos triunfos e perversas decadências!"

(...)"Para mim o destino é uma mulher cega. Quando escolhe os eleitos(as), apalpa-lhes a cabeça e as mãos. Um homem com a cabeça de monge e as mãos presbíteras, só pode ser um poeta! Olha as mãos de um poeta, sempre são macias, embora magras. Estas, devem-se ao veludo da linguagem ou a plumagem fugaz soprada pela magia do pássaro. Não são mãos, são páginas esperando ser lidas... ou carícias emanadas à distância."

(...) "Existe uma freqüência mística nos textos, ele perambula por um espaço sensorial que capta outras emissões eletromagnéticas. Até porque a inspiração está interligada na idéia e esta, ao pensamento. Este, por sua vez, é energia. Sobre este assunto, o Jorge Luiz Borges trata no seu ensaio metafórico e comenta que todos os livros do mundo estão concentrados na biblioteca virtual da Alexandria".

(...) "Vou escolher uma foto, bem atual. Que mostre o que sou hoje, ortônimo e heterônimo fundidos num só rosto. Mr. Hyde e o Monstro no mesmo avental. Pele, carne, ossatura e palavra. Os poetas trilham o caminho inverso de Dorian Gray, envelhecemos para que a palavra rejuvenesça."

(...) "A grande verdade é que todos querem ser um Kafka ou um novo Fernando Pessoa. Para mim é bem mais fácil ser eu mesmo."

(...) "Nossa geração, sem sombra de dúvida, está entre as melhores gerações que o Alegrete produziu. Desta, saíram profissionais liberais, músicos, pintores, políticos, e toda a sorte de outros inventores. Pegamos aquela ressaca glamurosa dos anos dourados e a seqüela incurável dos dias de chumbo. Vitoriosamente, sobrevivemos, graças à nossa incorrigível vontade de sonhar..."

(...) "Existe um filme do Patrice Leconte, chamado O Marido da Cabeleireira, que está entre os 100 melhores filmes do século, que justamente traduz o que eu sinto diante da felicidade. Quando estou feliz, - e isto não é aferível em tempo, pois este sentimento ao longo de uma vida, representa, ao menos para mim, a fugaz parcela de um milésimo na escala da luz - recolho-me. Fico bem quieto e vou dormir (talvez numa inconsciente volta ao útero materno) tudo o que em mim rarifica-mitifica. Neste filme, a Cabeleireira, de tão feliz, suicida-se. Não é o meu caso, pois o Poema, por si só, é um suicídio lento das minhas lembranças."

(...) "Como estão me doendo estas memórias que estou escrevendo para a homepage. Muitos já estão mortos, a Brandina Pesce está cega. A Maria Trovão, perdi notícias. O Katib, já mora com Maomé. A Maria Castro tem mais de 80 anos. Todo mundo acha bonita uma página escrita, ninguém imagina a tortura de um poeta, reordenar todas as cenas da memória e re-filmá-las, sentindo os aromas e ouvindo o som das épocas. Os olhos, nestes instantes, teimam e sobra-lhes apenas velar com lágrimas a ciranda das almas."

(...) "O Alegrete está bem bonito. Com aquele sol de Jerusalém e luas de Bagdá! Eu gosto de ir nestas condições, de aportar sem atracar. Estava muito bom o Dança Alegre Alegrete (um festival de dança), principalmente ontem. Movimentou a cidade. De vez em quando, é bom sair, rever os amigos, reavivar lembranças. A sensação que tenho quando chego lá, é de que nunca saí, o tempo aninha-se na palma da minha mão. Durante o curso implacável do tempo, quando visitamo-nos naqueles lugares onde deixamos rastros de nossso aroma, é tão forte a presença filmada que os vultos conquistam envergadura de personagens." Seguidamente espio-me pelas ruas..."

(...) " Quando escrevo, não repito palavra. Muitas vezes é por isso que atraso a feitura de um texto. Existem palavras fáceis, cortesãs (aquelas que valorizam outras quando juntas, na sua sonoridade), palavras simples que servem de tijolos. E existem as palavras únicas. Decodificando mais: um gemólogo tem suas preferências na hora de cravejar uma jóia. Em alguns pontos, ele coloca jade, noutros topázios e várias ametistas. E no coração estético de sua aurífera estamparia, ele introduz o diamante. Estas são as palavras rainhas! Tu poderás senti-las quando são apenas palavras opcionais e quando são eleitas pelo poeta. Cada um tem as suas. Lê o Neruda e o Borges. Lê o Drumond e o Quintana. As palavras são escamas... é uma pele que nos reveste para a grande viagem pela eternidade."

(...) " Aos olhos do mundo, pareço amplamente visitável. Permito, inclusive, venda de pipocas nos longos corredores do meu monastério. Mas, cá para nós..., é propaganda enganosa! Só na tabuleta para desavisados turistas. Anuncio-me esquilo e sou uma peçonhenta e furtiva cobra real. Às vezes, até os encantadores indianos com suas flautas são picados."

(...) "A vela / ao longo de sua existência / jamais apaga / diante da ventania. / Frágil, trêmula, escassa / sua diminuta chama / arde, impondo / um resquício de luz / na treva que se anuncia...
Talvez tenhas esse mesmo sintoma. Custo assimilar um desafio, até pelo desgaste, mas uma vez aceito e digerido, inverto a vocação de caçado e passo aos extremos de caçador. A dor que me mutila, transformo-a em esperança. O prazer que se aquieta, reacendo em novos focos de incêndio. O pesadelo, por maior que seja, torna-se um doce temor diante da possibilidade do sonho."




Suas frases, seus pensamentos ...

Élvio Vargas, junto à majestosa catedral 
de pedras, em Canela-RS

Sobre a pesquisa pública feita no R.G.Sul, à época da virada do século XX: "Dos 20 homens do século, Alegrete ofereceu dois, e com um pouco mais de esforço, teríamos apresentado três. São eles: Oswaldo Aranha, Mário Quintana e Rui Ramos. Sempre estou emitindo para os meus amigos e outros ouvidos interessados a seguinte sentença: muitas cidades produzem homens ilustres, nós produzimos homens eternos".

Sobre a página Alegrete deste site: "(...) o que interessa é que ela está movimentando o carrossel das lembranças, mantendo vivo o circo da nossa mitológica pátria."

Sobre a página Alegrete deste site II: "(...) Tu és a Penélope da modernidade. Tua página é o tapete".

Sobre esta página a uma amiga conterrânea: "(...) Eu e a minha "Madrinauta" passamos meses ajeitando detalhes, tornando continente, tudo aquilo que parecia insular."

Sobre o perigo da palavra escrita: "A palavra é como um tiro, depois de proferida ou escrita, ela inunda o ar e os olhos. Aí, qualquer reparo é tarde demais."

Sobre haikais: "Em certos momentos, o nosso Mario Quintana consegue este efeito em seus epigramas. Diga-se de passagem, vitoriosos. É muito fácil ser estético, o difícil é ser sintético."

Ao receber notícias sobre um amigo de juventude, meses após tê-la solicitado a um amigo em comum: "Hoje ao abrir os meus e-mails, me senti como o Noé, quando soltou o pássaro nos altos do monte Ararat e este voltou com um raminho de flor."

Sobre a foto das professoras do colégio onde fez o curso Primário (hoje, Ensino Fundamental): "Vou ver se decifro estes rostos. Cada um deles ainda guarda, discretamente, uma felicidade infante. Pequenos córregos em formação, nascentes desenhando, com os grafites do destino, as feições para o rosto final."

Sobre os comentários deixados por conterrâneos na "Comunidade Alegrete" do Orkut: "Li e achei hilários certos comentários. Impressionante como cada olfato desenha seu aroma. Surpreendente o que representa o inventário das lembranças, em cada um, com as hierarquias devidamente ordenadas. O lúdico, cultural, prazeroso e afetivo. Cada ser humano é uma mágica enciclopédia, abarrotada por milhares de capítulos. Só a enternecida música da pátria cicatriza nossa ferida de orfandade."

Após enviar seu material bibliográfico para esta homepage: "Agora te entrego esta placenta com todo o DNA, para que acrescentes toda a tua materna e afetiva proteína. Tentei ser sintético na minha parte. Agora tendões, ossos, músculos e carnes te pertencem. O colorido das minhas 21 gramas e a fortuna crítica te transfiro. No final, te restará a célebre frase de Michelangelo, diante de David, ao vê-lo imponente e colossal. Nada mais tendo a fazer, guardou o cinzel, bateu-lhe na perna e, sussurando baixinho, disse-lhe : Viva!".

Sobre os burilamentos nesta página: (...) "Estou no retoque final do texto sobre a Pizzaria. Tive que filtrá-lo, pô-lo na devida geometria. A explosão da poética é sempre discursiva, ela jorra com a velocidade do mar. Mas não está na grandeza e nem na velocidade o que precisamos, está na singeleza, no pungente. O que importa para os poetas é a cristalinidade das palavras. É nesta onírica residência, que a idéia e os conflitos habitam, para ficarem próximos do grande pulsar da linguagem."

Ainda sobre esses burilamentos: (...) "Agora estou retocando outros textos. Possuímos a mágica responsabilidade do Gepetto, até darmos o último sopro de vida para o Pinochio. Não basta só articulação, mexer os olhos e as pernas. Têm que ter remorsos e prazeres, sonhos e desejos. Depois disto, aí sim, vem o laqueamento do livre arbítrio."

Sobre as frases selecionadas para este tópico: (...) "Hoje de manhã dei mais uma olhada na minha página e têm mais frases novas. Custo acreditar que apresento-me com o rosto de tantos! Estão muito bem escolhidas, dada à variedade. Teus holofotes de leitora e amiga focam-me nos lugares mais autênticos, sinceros e sombrios... Foram abertas as criptas góticas do meu cemitério vivo. Surjo repentinamente com os andrajos de Lázaro."

Após ser solicitado a enviar seus antigos poemas premiados: (...) "Me emocionei ao ser surpreendido por poemas que frequentaram minhas entranhas, alimentaram-se das migalhas mágicas dos meus sonhos e hoje vivem bem sucedidos nas trajetórias individuais de cada leitor. O primeiro tem 20 anos e os outros estão nessa base. É inacreditável como passa o tempo!!! Não tive coragem de remexê-los. Os textos também conquistam as suas rugas".

Após receber vídeo com uma música italiana de sua época de juventude (Il Mondo, cantada por Jimmy Fontana): (...) "Essa flecha atravessou-me o coração! Já enxergo o féretro das minhas recordações, chorando sobre a minha vida".

Sobre o mercado de trabalho atual: (...) "O mundo está tão seletivo, que a própria esperança já cansou de esperar. Toda a modernidade colocou o mundo em descompasso, a massa dos excluídos está crescendo. Daqui uns anos, e não demora muito, vamos assistir "a grande viagem para o sistema feudal". Voltaremos à sociedade de trocas, a mercadoria valerá pela mercadoria, sem o ágio mercantil. Talvez aí o capitalismo fique mais humanizado. Às vezes os poetas contabilizam, nem sempre poetizam."

Sobre o período após a morte dos nossos pais: (...) "A nossa orfandade, quando todos se vão, é a pior fase da vida da gente. Já passei por isso. Simbolicamente, perdemos a leveza dos galhos e assumimos a densidade dos troncos."

Sobre o valor da amizade: (...) "o grande patrimônio de uma vida são os amigos. Com três amigos, formamos uma legião. Imagina com vários!"

Sobre a morte de amigos próximos: (...) "Tem viuvez de amizades que supera a perda dos casamentos. Simbolicamente, nossa intimidade não reconhece ausência, e sim uma amarga dor provocada por um insólito poder de abdução. Nessas horas, a saudade infesta-se de desejo e, cega, procura por um afago que não existe mais".

Sobre as dores da alma: (...) "Aos poucos vamos nos acostumando. As dores não passam, elas também amadurecem".

Sobre o viver: (...) "Vivemos e sonhamos, cada um na sua respectiva tarefa. Os dias que nos deram para viver, teremos que vivê-los. A única diferença é na escolha dos sonhos: alguns sonham sozinhos e são esquecidos; outros, com humildade, sonham o sonho de todos, por isso são lembrados e respeitados."

Sobre o destino: (...) "Eu conquistei, ou a vida me deu, um lugar raro na dimensão de uma existência. Para mim, o destino é uma mulher cega. Quando escolhe os eleitos(as), apalpa-lhes a cabeça e as mãos. Um homem com a cabeça de monge e as mãos presbíteras, só pode ser um poeta. Olha as mãos de um poeta! Sempre são macias, embora magras e isto deve-se ao veludo da linguagem ou à plumagem fugaz soprada pela magia do pássaro. Não são mãos, são páginas esperando ser lidas... ou carícias emanadas à distância."

Sobre os aplausos após a leitura de seu poema e texto pelo ator João Diemer, na Casa de Cultura Mário Quintana, nas comemorações do centenário do poeta alegretense, no dia 30-07-06: (...) "O espetáculo foi triunfal. Até o Mário Quintana assistia, fumando, na nuvem mais próxima. O único salário de um poeta, e dos artistas em geral, são as palmas. Não existe melhor resposta do que o estampido emocional das palmas. Elas não atingem a vaidade, elas coroam o espírito".

Após ler a crônica de Sérgio Faraco sobre a tendência progressiva do êxodo anual de alegretenses fazer a cidade desaparecer lá pelo ano de 2085: (...) Realmente está grande a migração. Só ficarão por lá os fiéis depositários de si mesmos, que só são gente e existem na sua cidade, pois têm um medo febril de virarem anônimos por aqui. Estou muito à vontade, pois o meu coração já está sepultado lá. Só a memória é que freqüenta estranhos trânsitos, hospedada num corpo que já decifrou, há muito tempo, que numa vida são várias as estradas e só existe um caminho - o de voltar para a casa das origens. É tão vivo o Alegrete em mim, que todas as manhãs levito e vôo sobre a cidade, amparado pelas cartilagens oníricas da minha phoenix."

Após saber que o seu conterrâneo Bicca Larré foi eleito Patrono da Feira do Livro de Santa Maria em 2007 e referindo-se ao talento dos escritores alegretenses: (...) "Esses alegretenses e suas fantásticas mensagens de sonhos! Podem até atrasar a nossa marcha, mas é difícil bloquear-nos. É só uma questão de tempo. Impressionante! Que criaturas terríveis! Podemos até desaparecer, conforme o sinistro vaticínio do Sérgio Faraco em sua crônica. Antes disto, povoaremos todas as nações da terra com nossos mensageiros".

Ainda referindo-se ao talento de seus conterrâneos: alegretenses: (...) "Lá em Alegrete tem homens e mulheres imersos nos seus casulos, produzindo diamantes com a simplicidade de quem extrai carvão. Verdadeiros mineradores da arte fronteiriça".

Após receber a notícia de que fora escolhido Patrono da Feira do Livro de Alegrete, em 2007: "Às vezes me assusto com tudo isso, por incrível que pareça. Quando as lendas elegem os samurais, o que está em jogo não é somente coragem. Nesta hora, o que mais os preocupa é se o fio da espada aguentará, sem uma mácula de ferrugem, a névoa orvalhada da última manhã."

Após sua volta para casa (Porto Alegre), depois da Feira do Livro de Alegrete, quando foi o Patrono (2007): " A Feira no Alegrete estava excelente! Tudo deu certíssimo. Simbolicamente, representou para mim a volta de Ulisses para Ítaca, ungido pelos Deuses! Ainda bem que diante dos ritos, não fui traído pela lágrima. Talvez a oculta fada dos poetas, diante da possibilidade do pranto, tenha soprado-me uma doce brisa para represar as águas do meu olhar"..

É um cinéfilo que aprecia filmes não apenas pelo seu lado artístico ou por entretenimento, mas como uma fonte de inspiração para criar a sua poesia. A partir das imagens, dos diálogos e dos personagens das películas cinematográficas que assiste, seus versos vão tomando forma. (...) "De tanto que escrevo sobre vários temas e me inspiro em muitos personagens que flutuam nas películas do cinema, aos poucos estou me transformando num deles. Não sou mais feito desta matéria que habita os homens, meu desejo é inquilinato de todos, o sonho é tão volátil que suspende o frágil poder da brisa e adverte a mais terrível sentença do vento. Sobrevivo com a parca limitação de um par de asas. Pétalas não me comovem e perdi o interesse por essências escarlates e o rubro sangue que anima todos os tons do adeus. O que me contenta neste horário é vampirizar palavras e interrogar o silêncio apunhalado pelo script das paixões."

Sobre si mesmo I: "Não nasci para ser tronco / tenho parentesco com folhas / esfumaço-as pela urgência do molde / para depois soprá-las / nos roteiros que me invento..."

Sobre si mesmo II: " Não me falem de pobreza e penúria, pois me criei numa manjedoura. Não me venham chorar pelos desafios enfrentados, pois herdei a pedra do Sísifo e as outras tarefas sonegadas do Hércules. Me entendo melhor hoje nos meus enigmas, do que quando jovem. Perdi a virilidade dos macacos, mas em compensação ganhei o olhar da águia".

Sobre si mesmo III: "Para certos desafios, não me acho um homem e sim uma garrafa de vinho, pois estou sempre maturando-me nos barris dos meus carvalhos".

Sobre o seu fastio de festas sociais: (...) "Não sei o que está acontecendo comigo, mas hoje poucas coisas me dão prazer, talvez seja a lua cheia dos poemas que tornaram-me assim, este vampiro lírico que alimenta-se no seio solitário das sombras..."

Sobre ser poeta: "O Poeta é um refém das almas. Vive atormentado no limbo das paixões de todos aqueles que viveram e não se reconhecem mais no plano das ausências."

Sobre ser poeta II: "Os poetas vivem noutro fuso. Somos os operários que reciclam os lixos existencias da humanidade, trabalhamos e nos contentamos com a indiferença dos formigueiros e não abandonamos nunca o canto metálico de sirene crescente da cigarra."

Sobre ser poeta III: "O maior de todos os personagens é o POEMA, pois nele moram pássaros, sóis, luas, oceanos, exércitos de mulheres amadas, homens ímpios, crianças, adolescentes versos que ainda não têm casa própria e orações maduras que perderam sua validade. Imagina esta multidão de vozes, desesperos, paixões e fadigas morando num único coração e vagando em busca da terra da promissão! A vida de um Poeta é breve demais para abrigar tantos."

Sobre ser poeta IV: "POETA! Uma das profissões que os humanos abominam e as almas festejam. Passei anos tentando evitar este epíteto de POETA, mas cedi para meu heterônimo. Pode-se enganar o mundo, mas não se engana a vocação!"

Sobre ser poeta V: "Sonego muito esta condição de poeta, talvez por ser muito doída e cara. É um paradoxo que não entendo muito. Muitas pessoas vêem no poeta um lunático... Ou, como diria o Mário Quintana, um nefebilático. E, de mais a mais, mesmo que a gente se apaixone pela poesia, o lucro é zero. Poesia é como voto de castidade daqueles monges do Nepal! Em vida, afronta e enternece. E na eternidade, envaidece..., mas aí já fomos levados por Caronte."

Sobre a diferença entre poesia e prosa: (...) "A prosa tem decifração espontânea, é dermica, altamente venosa, enquanto que a poesia é virulenta, provoca no leitor uma febre de feno, e, a partir daí, vai se instalando nos pontos vitais. Ela inocula uma neurotoxina, é letal, mata por asfixia. Esta é a grande diferença das duas. Para a primeira existe uma profilaxia. Quanto maior é a leitura, mais rápido aparece a cura. Na segunda, é justamente o contrário. Febril, ela expande suas metástases e vai migrando para as regiões mais sombrias da psiquê humana. Não existe exorcismos, xamanismos, nenhuma tecnologia ou droga que a cure. A única e remota possibilidade está no poder miraculoso da lágrima ou na adrenalina da emoção. Salvem-se!"

Sobre ser cobrado por escrever pouco: "Tenho escrito quase nada de poesia. Hoje, inclusive, o Armindo ( o poeta Armindo Trevisan) estava a me cobrar isso e aconselhou-me a preparar um livro a partir da minha palestra sobre Os Poetas e suas ligações com as cidades, até mesmo para disciplinar-me. Ele tem razão, mas... esse é o meu ritmo. Sobrevivo pela espuma que antecede a onda. Vaga por vaga. É na vaga que me refaço..."

Sobre a morte: "À medida que a vida vai passando, vamos sentindo a crescente morte do tempo. Morrer é o que menos preocupa-me, a minha ansiedade está centrada na vida dos filhos que pus no mundo e na minha mulher. A nossa sorte é que o patrimônio humanístico que construímos ao longo de uma vida, nos permite olhar para a Esfinge de frente, e não termos aquele vácuo torturado de quem acumulou horas e não feitos."

Sobre seus momentos de êxtase e felicidade: "Têm dias que o meu êxtase é tão grandioso, só comparável ao de um alpinista no topo do mundo. Mas é um evento solitário. Mesmo que eu o ofereça, para compor uma cesta básica de raras felicidades, ninguém vai querê-lo. Justamente pela sua característica de isolada suspensão, de rarefeita presença e celestial solidão. Não existe isonomia sensorial que o descreva, nem medida capaz de aferí-lo, na sua hermética amplitude. Ele é mágico pelo sopro que o levita e estéril no seu raio de propagação. Toda a sedução do aroma reside na sua exígua fração de passagem. Torpor que fere mas não mata, luz que alcança e não sobrevive."

Sobre seus momentos de êxtase e felicidade II: "A finitude infinita da felicidade está gravada nos catálogos da lembrança. Lembrar um grande momento é muito mais intenso do que tê-lo vivido. Tudo está interligado na relação memória-tempo. Quando tudo acontece pela primeira vez, existe um raro gozo de sequência inexplicada, sensação parecida como a de deixar-se levar pela correnteza de um rio. Conhecemos a progressão e não mensuramos a velocidade. Imagina agora toda esta cena congelada na lembrança! Para acionarmos todo o mecanismo de regressão, teremos que catapultar, em nossas cenas passadas, a melhor parte do filme e refilmá-la."

Sobre seus momentos de êxtase e felicidade III: (...) "É isso que difere homens e animais. Os primeiros selecionam (na lembrança) por códigos de afeto e traumas, e os últimos, por medo e instinto de defesa. Cada um de nós, ao longo de uma vida, vive uma experiência única. Portanto, créditos e débitos emocionais são intransferíveis nesta conta corrente. A taxa cambial do destino apenas rentabiliza os dias e as noites, cada turno com seu devido rendimento e cada existência com suas ações, no grande pregão da eternidade."

Após olhar fotos dos anos 60, de contemporâneos e alguns professores seus, no colégio Oswaldo Aranha: (...) "As fotos antigas me assustam! Como diria a Helena Petrovna Blavatski(mãe da teosofia), não existe tempo, o que existe são as várias viagens provocadas pelos diferentes níveis de nossa consciência. A sensação que tenho, é que todos os negativos dos filmes, ao longo de uma vida, são sequestrados pelos fantasmas, para que os mortos não nos esqueçam, na sua longa viagem dos abandonos".

Após receber o pedido de uma aprendiz de poesia para o entrevistar acerca de sua obra e pedir-lhe que dedicasse os seus olhos de poeta sobre alguns versos dela: (...) " Esse é o grande legado de um Poeta! / Poetar-se tal qual pétalas / polinizando almas antigas, alegres, tristes e juvenis... / Poetar-se cegamente / sem nada esperar. / Palavra semeada com lágrima / brota com os vergéis dos orvalhos! / É água nascida na pedra dura da treva / É incenso, mirra, desejo e consolação. / É fio de gramática, afiando as arestas / doídas, vincadas e solitárias /que marcam o silencioso / rosto que refizemos todas as manhãs..."

Sobre o mundo atual: (...) " Não basta mais criar os filhos, hoje temos que re-criá-los! Nunca vi tempos tão urgentes e demolidores quanto estes que estamos vivendo. É só correria, todos estão voando, numa pressa neurótica, e os progressos andam lentos. Os meios de comunicação imprimiram um ritmo muito veloz no mundo e toda a nossa harmonia fragmentou-se, numa tentativa de conciliar as funções vitais e o conhecimento (entenda-se por tal também as notícias). Hoje está assustador viver, a civilização ruma para uma desordem, um discreto caos, ocultado pela falência orgânica e cível do estado. O mundo é um grande jogo de xadrez disputado pelos corifeus. As sociedades modernas mitologizaram o glamour de tal forma, que todos querem ser celebridades, custe o que custar. Prova disso é o Big Brother. As pessoas esqueceram as conquistas sérias de uma vida e criaram um modelo único, centrado na perversa ética do consumo e do hedonismo. Somos a nova Babilônia!"

Sobre o resultado de sua eleição para a Academia Rio-Grandense de Letras em 1º de outubro de 2009: (...) "Acho que vim mesmo ao mundo para ser O POETA e nada mais... Aos poucos, no seu baile de máscaras, o destino mostra-me com clareza o meu elmo de prata".

(...) "No começo de junho, começou a odisséia, e fui avançando. Houve três estágios, ou melhor dizendo, ritos. O primeiro foi o currículo; depois, o gládio com outro candidato com muitos livros publicados; e hoje, o dia da eleição. Mas nas últimas horas, começei a criar argumentos favoráveis a mim mesmo, e pensei: Sou frágil, sim (não tenho muitos livros), mas a minha capacidade de ilusionista semântico é mais real do que a de outros, porque aprendi sozinho. Sou um Samurai que forjou sua própria adaga".

Sobre a data de hoje (14-10-2009), dia do seu nascimento: "O dia do meu aniversário é um dos dias mais solitários da minha vida. Sinto-me como o Faroleiro da Alexandria. Avisto naus fenícias, ouço os estalos melancólicos dos cedros do Líbano, assisto Osíris pesar as almas sobre o cume das pirâmides. Sinto-me no topo do mundo... soterrado por meus brinquedos!"

A última atualização nessa página foi feita em 25-05-2010.