HÉLIO RICCIARDI

O poeta HÉLIO RICCIARDI nasceu em Alegrete-RS, em 18 de agosto de 1926.

Escrevo com simplicidade
porque sou simples.
“Não tens mistério algum”, disseram-me os médicos
depois da minha operação de apendicite.
Perguntar-me-ão sobre a minha alma,
também não há mistério,
Quando faz vento, sou vento,
quando faz primavera, sou primavera.”

(Hélio Ricciardi)


"Sou todo construído de saudade. Tenho saudade dos meus sonhos, das minhas esperanças coloridas,e principalmente, do bom moço que eu poderia ter sido..."




CRONOLOGIA

  • O poeta HÉLIO IRAJÁ RICCIARDI DOS SANTOS, filho de Horfilo Gonçalves dos Santos e Maria Ernestina Ricciardi dos Santos, nasceu em Alegrete-RS, em 18 de agosto de 1926, e jamais deixou sua cidade, onde continua a residir.

    ALEGRETE
    Uma das coisas boas foi ter nascido no Alegrete
    É que eu não saberia nascer em outro lugar.

    *****

    NOVA YORK & ALEGRETE
    Um mundaréu de gente
    mora em Nova York
    Em prateleiras que chamam de pavimentos,
    Bitolados, catalogados, numerados,
    numa incrível orgia aritmética.

    É uma cidade sem poesia.

    Em Alegrete, onde mora o Nico?
    Ah, o Nico fica logo ali
    perto do barzinho do Seu Zeca
    que fica ao lado da casa daquela moreninha de tranças
    que sabe bordar e cantar.

  • Estudou até o terceiro ano do curso Primário, no Colégio Oswaldo Aranha, abandonando seus estudos face à necessidade de trabalhar, o que fez nas oficinas do jornal Gazeta de Alegrete. Nesse período começou a dedicar-se à poesia e ao desenho. Fez do desenho sua profissão, por muitos anos. Aos vinte e dois anos, licenciou-se como projetista construtor.

    "Desenhista, construtor, corretor de imóveis e depois jornalista, o que Hélio Ricciardi desejava mesmo, desde moço, era ser humorista e poeta. Na forja dos anos, essas duas ambições terminaram por caldear-se em seus escritórios, daí resultando uma poesia singela, fácil de ler e ao mesmo tempo peculiar, que pede ao leitor, além de sua emoção, o seu sorriso. E é um sorriso tenro o que se consegue, porque seus versos freqüentemente evocam aquilo que fomos e que hoje, consumidos nas aflições da vida contemporânea, já não podemos nem sabemos ser mais" (Sérgio Faraco, 1992).

    1953
    Em março, funda o Cadernos do Extremo Sul, em Alegrete, uma edição de 300 exemplares, composta à mão.

    " (...) Nos anos cinqüenta fundou os Cadernos do Extremo Sul, que ao longo de duas décadas publicaram plaquetas de autores que estavam à margem dos grandes circuitos. Entre elas, as suas: Em busca da lua cheia; Diário de um poeta de aldeia; Meu baú de moço" (Sérgio Faraco, 1992).

    1955
    Publica Em Busca da Lua Cheia.

    1964
    Publica Diário de um Poeta de Aldeia.

    1968
    Publica Palavras de Natal e Meu Baú de Moço, este último com poemas da década de quarenta.

  • Tem poesias publicadas em vários jornais e revistas, inclusive no Almanaque do Porto, em Portugal.

  • Colaborou no jornal A Platéia, de Santana do Livramento-RS, no qual mantinha duas secções: Da Gaveta Amarela e da Gaveta Azul.

  • Na Gazeta de Alegrete, foi redator responsável do Correio do Povo da Lata, secção constante de sátiras, crônicas e poesias.

    1992
    Juntamente com o escritor Sérgio Faraco, publicou a Antologia dos seus poemas, no livro intitulado Diário de Um Poeta da Aldeia, pelo IEL - Instituto Estadual do Livro (Porto Alegre/RS), através da coleção Estado Interior.

    " (...) O poeta de Alegrete, portanto, era inédito em livro, e sua poesia ficava circunscrita ao pago. Agora caminhará, graças a mais esta iniciativa de nosso querido Instituto Estadual do Livro, que não quer deixar que se cale no tempo a voz bonita de nosso “estado interior” (Sérgio Faraco, 1992).

    Hélio Ricciardi recebendo a Comenda de Mérito Oswaldo Aranha das mãos do então Prefeito Municipal de Alegrete, Rubens Pillar.

    Eem 24-10-1992, recebeu a Comenda do Mérito Oswaldo Aranha da Prefeitura de Alegrete (foto).

  • Foi Patrono da Feira do Livro de Alegrete.

  • É Diretor da Gazeta de Alegrete, o jornal mais antigo do Rio Grande do Sul e o segundo do Brasil (fundado em 1º de outubro de 1882).

  • Possui dois livros de poesias inéditas.

  • Há muitos anos, HÉLIO RICCIARDI mantém uma coluna na Gazeta de Alegrete, denominada Diário de um Poeta da Aldeia, onde publica seus poemas e crônicas, bem como sátiras, estas sob o pseudônimo de HEITOR SANTOS FILHO. Outro pseudônimo que utiliza para suas sátiras é HER BARÃO de K. TUTINHA.




    O POETA DA RUA NINA

    Alcy Cheuiche
    Escritor alegretense
    Do livro "Na Garupa de Chronos*, 1992.

    Pois num dia das primeiras décadas deste século, um navio de guerra aportou em Alegrete. Aportou é exagero, porque Alegrete de porto só tinha o dos aguateiros. E ali somente aportavam velhas pipas puxadas por burros sonolentos.

    Mas que o navio chegou em Alegrete, isso eu garanto. Chegou apitando com aquela voz rouca e ancorou junto da ponte da estrada de Ferro. É claro que a ponte estava quase coberta pelas águas. A enchente era enorme e graças a ela, o Capitão Nina conseguira subir o Ibirapuitã desde a embocadura com o Ibicuí.

    Foi uma festa, molecada correndo, buzinar de ford-de-bigode, foguetório, mulheres apontando para os marinheiros, gauchada de beiço caído, olhando para aquele bote enorme e iluminado à noite como uma árvore de Natal. Contam os antigos que o baile do Clube Cassino foi um faiscar de jóias e um deslizar de sedas como nunca acontecera na cidade. Fraques cheirando a naftalina, smokings comprados em Montevidéu, os fazendeiros velhos e moços pareciam urubus junto aos uniformes brancos e dourados do capitão Nina e de seus oficiais. Mais não conto para não ofender as famílias tradicionais. Mas as más línguas cochicharam horrores sobre as crianças que nasceram em Alegrete, nove meses depois.

    Bueno, mas as águas começaram a baixar e o navio de guerra teve que levantar âncora. Foi uma despedida de muitas lágrimas e acenar de lenços rendados. Em discurso inflamado, feito de cima da ponte, o Intendente agradeceu a visita “dos gloriosos marinheiros de Tamandaré” e prometeu dar o nome de uma rua ao Capitão Nina. Prometeu e cumpriu. E foi nessa rua Nina que nasceu, em 1926, o nosso Poeta de Aldeia.

    “Vivíamos só nós três/na casa grande da rua Nina./Minha mãe, Totó e eu./A noite havia estalidos/por todos os cantos da casa./Eram os fantasmas do meu pai, do meu avô/ e também da vó Paulina/que caminhavam pelos corredores./Eram almas amigas, dizia comigo e abraçava Totó entre as cobertas./Medo? Eu não tinha medo, não./Era por causa do Totó,/que não era conhecido deles.”

    Órfão de pai aos dois anos de idade, o menino Hélio tinha sonhos impossíveis de realizar: “Nunca me compreenderam./Precisei ficar adulto/e ter dinheiro /Para ter um coelho de verdade. Consolava-se com os seus grandes amigos, os vira-latas da rua Nina: “Se me fosse dado escolher,/ao vir ao mundo novamente,/eu queria ser/um simpático vira-latas,/destes que são amados/pelas cadelinhas da minha rua.” E completava com madura filosofia: “Como me alegra a ternura que vem do fundo dos olhos dos cachorros.../ Eles continuam nos perdoando.”

    Mas aconteceu um fato que até os cachorros da rua Nina não conseguiram perdoar. Um vereador tardiamente ciumento do uniforme cintilante do Capitão Nina (ou porque só então ficara sabendo...) conseguiu trocar o nome da rua do poeta. E o poeta esbravejou aos dois ventos (o Minuano e o vento Norte) pois quatro ventos nunca sopram no Alegrete.

    “Fizeram o que quiseram,/ mudaram tudo/ na minha velha rua,/ hoje Joaquim Nabuco./A minha Rua Nina/ toda esburacada e pedregosa,/ de muros floridos,/ de gente amiga, gente boa..../ A minha Rua Nina/ tinha cadeiras na calçada/e de ponta a ponta/era uma família só,/Eu entrava por uma casa/e saía por outra./ Hoje não posso fazer mais,/ ela se chama Joaquim Nabuco/ e tristemente me mudei de lá.”

    Mas não é verdade. Poeta também mente. Mesmo morando em outra rua, Hélio Ricciardi dos Santos continua vivendo na rua Nina. E para ela volta sempre, geralmente acompanhado da mulher amada: “O céu está cravejado de pirilampos/ Vamos amada,/ ainda há luz bastante/ para iluminar nossos caminhos.” Nas noites de insônia/ pouco a pouco vou reconstruindo/ a minha antiga ruazinha./ Monto-a como se fosse um presépio/ Todos nós não existimos mais.”

    Entre brincalhão e assustado, o poeta alinhou quarenta epitáfios nas últimas páginas de seu livro. Lembrei-me de nosso encontro recente, no dia de finados, no cemitério de Alegrete. Recolhido diante do túmulo de Ciro Leães, ele me disse: “Tu sabes que eu não lembro da morte do meu pai, era pequeno demais. A primeira morte que me deixou órfão foi a do Ciro.” E apontando para a lápide com a frase “Simplesmente um homem”, perguntou-me à queima roupa: “O que ela quis dizer?”

    Hélio Ricciardi

    Na página doze do livro “Diário de Um Poeta de Aldeia”, caprichosamente editado pelo Instituto Estadual do Livro e pela Editora Tche, Hélio Ricciardi dá ele mesmo a resposta: “Escrevo com simplicidade/ porque sou simples./ “Não tens mistério algum”,/ disseram-me os médicos/ depois da minha operação de apendicite./ Perguntar-me-ão sobre a minha alma,/tambem não há mistério,/ Quando faz vento,/sou vento,/ quando faz primavera,/ sou primavera.”

    Tu não és um poeta simples, amigo Hélio. Simplesmente um poeta, é o que tu és.


    (*) Por este livro, Alcy Cheuiche recebeu o Prêmio Açorianos, 2001.





    UMA VIDA PLENA

    Sérgio Faraco
    Escritor alegretense

    Como é fazer 80 anos? O aniversariante olha para trás e vê quase um século de lembranças, que compreendem sua vida, mais a da sua família, seus amigos, sua cidade, seu país. Imagino que, com tal olhar, queira o aniversariante pesar o que fez ou deixou de fazer, e ao cabo se pergunte se de fato vale a pena viver tanto. Não encontrará resposta, ainda que, iludindo-se, possa pensar que sim. Não é capaz de julgar. Ignora, por exemplo, até que ponto e de que modo sua vida repercutiu em outras vidas, na cidade ou no país.
    Hélio Ricciardi, já se vê, não é o melhor juiz de si mesmo.
    Ele há de pensar que se esforçou para ser justo e bom em sua relações interpessoais, que se esforçou também para fazer versos em que declarava seu amor à cidade e às suas ruas, e que talvez nunca tenha sido mais que um poeta provinciano, do qual a metrópole raramente se ocupou. Há de pensar que seus 80 anos passaram em branco, e que quase em branco passarão os outros 80 que ainda tem por vir.
    Como ele se ilude!
    Eu é que sei: essa figura que você diariamente vê passar pela Rua Gaspar Martins é um retrato acabado e glorioso de tudo aquilo que ela acha que apenas se esforçou para ser. E como poeta, inscreveu seu nome na história de nossa literatura com aquele Diário de um poeta de Aldeia, bah, que livro bonito, que livro amável, eu me orgulho de ter sido seu organizador. E não é só. Como poeta inspirou outros poetas e abriu caminho para inúmeros escritores, eu inclusive. Como poeta, criou os Cadernos do Extremo Sul, que avultaram Alegrete em nosso mapa cultural. Como poeta, uniu-se a outro romântico, Samuel Marques, para salvar a Gazeta.
    Também não é só.
    Como poeta, essa figura que você vê diariamente não tem sequer um pingo de vaidade, único combustível de tantos outros poetas. Ele nem sabe o que significa ser Hélio Ricciardi, e vive como se não o fosse. Ainda escreverá muitos versos, ainda deixará sua marca em outras vidas, mas se quisesse sossegar nos seus 80 anos, recolhendo-se a uma laura, tenho certeza de que poderia olhar para trás e, face a face com a balança, dizer que viveu tudo aquilo que justifica uma vida plena.
    Bem, isso ele não dirá.
    Então digo eu.


    Texto publicado na Gazeta de Alegrete - Encarte Especial 80 Anos de Hélio Ricciardi, de 19-08-2006.



    UM SORRISO DE 1930

    Élvio Vargas
    Poeta alegretense

    Era um corredor profundo, precipitado no arvoredo que nascia no pátio do Edifício Consórcio. Exíguo, medindo no máximo 3 metros de largura, com mesas encostadas num dos extremos e várias máquinas de escrever. Lá se vão quase 40 anos. O José Roberto Ramos recebia e catalogava os pergaminhos. Dura é a profissão do poeta. A solidão: quatro imensas paredes, com os retratos dos meus mortos. Transitavam ali, o Fernandinho Carús, Terezinha Repetto, Miguel Jacques Trindade, Lacy Osório e outros. Silêncio, irmão, em cada brisa, em cada sopro, às vezes, sinto a presença dos seres que passaram. Enquanto o Zé Roberto desculpava-se pelos textos não publicados, fui socorrido pela gentil intervenção do Moisés Mendes, que prontamente perguntou-me: Se é poesia, deixa que eu entrego para o Zeca! Tão logo terminou nosso breve assunto, notei que ele colocou-a numa gaveta (...) em prateleiras que chamam de pavimentos, bitolados, catalogados, numerados, numa incrível orgia aritmética. À medida em que iam publicando meus poemas, acelerava minhas visitas à redação da Gazeta de Alegrete. Fizera amizade com todos, conhecia o Guta, um moreno grande, meia-idade, educado e sorridente. Trabalhava ao lado do Saulo Medeiros com impressão, no porão das letras. Foi o primeiro e único homem do mundo que após o almoço dormia em pé, com uma técnica desconhecida no ocidente de nosso limitado burgo, só os braços permaneciam acordados para as funções que a máquina exigia. Tempos Modernos. Que nada me falte, na minha vida. O pão de cada manhã, o vinho do meio dia, e a mulher da noite, amém. Nesta época o meu amigo e compadre José Airam era o fotógrafo. Relâmpagos? Não são relâmpagos, são anjos policiais com seu flashes a nos fotografar para o cadastro do Juízo Final. Numa distante tarde, de horário crepuscular, estava de saída, quando o Moisés perguntou-me: Tu conheces o poeta Hélio Ricciardi? Respondi-lhe: Só em versos! Por quê? Ao que ouvi: Ele acabou de entrar , passou por nós! Era um homem alto, com um ombro caído no estilo do regente austríaco Herbert Von Karayan, calçando góticos sapatos negros. Às vezes puxava um pequeno pente e num giro econômico, sustentado pelo braço direito colado ao tórax, penteava um topete desmoronado, que em nada lembrava Bogart. Escrevo com simplicidade porque sou simples. Vivíamos só nos três na casa grande da Rua Nina. Alma, não abandones esta matéria. Afinal, vivemos tantos anos juntos. Nunca me compreenderam. Naqueles sapatos pequenos que usei quando menino cabia um mundaréu de coisas na noite de Natal. Fizeram o que quiseram, mudaram tudo na minha velha rua. Nas noites de insônia, pouco a pouco vou reconstruindo a minha antiga ruazinha. Monto-a como se fosse um presépio. Eis tudo o que possuo: toma a palma da minha mão e escreve o teu nome na linha do meu destino. Me entrego, Senhor! Estou cansado de procurar no Povo da Lata, na Coxilha Seca, nas ruas da cidade, aquele meu sorriso de 1930. Quero ser sempre assim como sou: um grande rei disfarçado de povo. Muitas Felicidades Poeta, pelo dia de hoje.

    Um fraterno abraço do amigo
    Élvio Vargas.
    18.08.06

    Nota do autor: Todos os versos em itálico representam uma montagem com fragmentos extraídos do livro "Diário de um Poeta de Aldeia”, de Hélio Ricciardi.


    Texto publicado na Gazeta de Alegrete - Encarte Especial 80 Anos de Hélio Ricciardi, de 19-08-2006.



    O “SEU” HÉLIO

    José Roberto Ramos
    Jornalista alegretense

    “Estamos partindo ou estamos voltando?
    Somos satélites humanos
    Em órbita da terra...”

    O “seu” Hélio foi a minha primeira referência de poeta de quem estive, diariamente, mais próximo. Ele era a síntese e a antítese. Estava sempre ali, presente, nas páginas do jornal que cuspia fogo nas linotipos pilotadas pelo Volnei e pelo Fernando.

    Ali estava o poeta vivo, tocável.

    Não havia engano, para nós, entre o Heitor Santos Filho e o “Seu” Hélio. Era o poeta que mandava naquele espaço especial, não com a força do mando, absoluto, mas com a magia do talento.

    O “seu” Hélio, naqueles tempos em que vivi na Gazeta, transformava tudo em poesia: Brasil rimava com mil, (e quantos mil) Heleno, com terreno; casa rimava com..., e até o nome da empresa tinha rima. Era a Rima, mesmo.

    Hélio Ricciardi dos Santos é um imortal na grande academia dos que passaram a vida fazendo versos, sem pompas, sem chás, sem tapetes vermelhos.

    “A alma existe?
    Sim.
    A minha está aqui
    neste verso sofrido
    que trabalho para te comover.”

    Sim, poeta, a alma existe.

    Para que não nos esqueçamos, também é preciso dizer aqui que havia um certo orgulho de ter o poeta Hélio por perto. Satisfação de andar com ele em um tempo que não se podia imaginar – só sonhar – com viagens pelo mundo, mas que sempre nos levara para uma Brasília política e efervescente que naquela época caminhava para o lento e gradual. Chegamos a transformar discursos em peças de publicidade. E, desavergonhadamente, havia a poesia do coletivo, do interesse nacional... e de nós próprios.

    Recentemente, quando acompanhei pela televisão, pelos jornais e revistas tudo o que se falou sobre Quintana, confesso que, no íntimo, lá no fundo, onde ninguém descobre, pensei que era preciso resgatar toda a magnífica obra do “seu” Hélio. Faraco, o Sergio, transcreveu carta trocada entre Quintana e Ricciardi. Este outro gênio e magnífico poeta que é o Élvio Vargas – talento puro, estandarte, comissão de frente e porta-bandeira no desfile das nossas almas, o mesmo que disse entre outras coisas maravilhosas: “Batizei de Alegrete/ os reinos silenciosos/ da cidade que inventei...” – ele, aprendiz de feiticeiro, exalta o poeta octogenário, o que por si só já é uma poesia. O “seu” Hélio já é eterno nos seus 80 anos.

    E naqueles tempos de Zacarias, Guta, Marilene, Carlinhos, Moisés, Fernando – sob a batuta do “mestre”, pós-graduado naquela que foi a nossa Universidade, a indomável Gazeta do Alegrete, sob os olhos do poeta – fomos crescendo e procurando ser digno da Casa de Luiz de Freitas Valle.

    O “seu” Hélio sempre afirmou que importante mesmo é quem ficou no Alegrete: resistindo, ajudando, promovendo, lançando-se no afã diário da sobrevivência da cidade e sua gente. E sua permanência é o atestado de sua narrativa.

    Erros e acertos não fazem poesia. Ou fazem? Rima-se com o quê? Não importa. O que importa é que toda a nossa trajetória pode ser iluminada pela consciência de que somos parte de um mundo no movimento das idéias, da luz dos que ensinam e dos que aprendem, da doçura das palavras, dos que inspiram.


    Texto publicado na Gazeta de Alegrete - Encarte Especial 80 Anos de Hélio Ricciardi, de 19-08-2006.



    SESSÃO DE AUTÓGRAFOS

    Élvio Vargas
    Poeta alegretense
    Do livro "O Almanaque da Estações", 1993.

    (Para Hélio Ricciardi)

    Gosto muito
    destas manhãs de outubro
    bordadas por um fio de primavera
    cheias de uma magia juvenil
    que lembram o encantamento
    de um antigo cartão postal.
    Vem com elas
    uma orquestra de pássaros
    e páginas de vento
    todas anunciando
    pelos alto-falantes da vida
    o grande comício das almas.

    Hélio Ricciardi autografando na Feira do 
Livro em Alegrete, em dez/1992.

    Gosto imensamente destas manhãs
    encadernando nossos poemas
    com folhas de cetim
    banhadas de orvalho.
    O que mais me emociona nestes versos
    é a força de vontade
    para organizar suas feiras
    onde as sessões de autógrafos
    são inauguradas pelas canções
    que brincam de ciranda
    trazendo notícias
    sobre os últimos lançamentos
    da eternidade.






    Seus poemas...

    AS RUAS DE ALEGRETE
    As ruas de Alegrete são um tanto estreitas.
    Quem as projetou teria necessidade, assim tanto, de calor humano?
    Acho que sim, eu não poderia ter nascido e sobrevivido sem o calor humano que eu sinto nessas ruas.

    ORDEM
    A ordem é partir para o outro mundo
    Mas por que tenho de deixar as minhas coisas
    abandonadas na Gare da vida?

    FANTASIAS
    Hoje senti falta das minhas fantasias.
    Sentei-me na minha cadeira de balanço, como sempre, para viajar.
    Ainda, da minha cadeira de balanço, sou tudo o que desejo ser:
    rei, piloto de avião, marinheiro...
    Ou aquele operário que volta do trabalho
    e pára no portão de um casebre para receber o sorriso de sua namorada
    como prêmio de seu dia de árduo labor.
    Hoje não estou triste. Não sou ninguém, não consigo ser nada.
    Onde foram parar minhas fantasias?

    CARNAVAL
    A vida é um carnaval
    com suas incríveis fantasias
    e suas tristes quarta-feiras de cinzas...

    VIAGEM
    Estamos partindo
    Ou estamos voltando?
    Somos satélites humanos
    em órbita da terra...
    Assim como a terra
    está para o sol
    até que a morte da terra
    e do sol nos separe...

    SERÁ
    Afago-te de leve para não despertar
    O sonho que embalo
    De sonhar que sonhas comigo.

    SÁBADO XXX
    Fecho hermeticamente
    as portas e as janelas dos meus sentimentos
    Fico espantado
    Não sei como consegues entrar!

    VERSO
    A alma existe?
    Sim.
    A minha está aqui
    Neste verso sofrido
    que trabalho para te comover...

    QUANTOS ANOS
    Sou um adolescente!
    Não vês essa coisa louca
    de escrever versos sem parar?

    MENINO SEMPRE
    Sou eu mesmo
    É que agora estranhos homens
    moram em mim.

    OS VELHOS
    Os velhos passam longas horas mergulhados no passado.
    Por isso um dia eles se afogam e não voltam mais.

    SÁBADO VI
    Eu sou o menino que passa,
    O homem que passa,
    o velho que passa.
    Eu sou o passa-passará da vida.

    QUANDO ALGUÉM MORRIA
    Dona Maria dizia, com ar profético
    quando alguém morria:
    - O Senhor chamou para o seu Reino de Glória
    E eu logo me punha a rezar
    e a rezar
    para que Ele não me chamasse ao Reino
    e me deixasse sem Glória alguma
    perdido por essas ruas,
    seus luares
    e seus bares.

    O BEIJO
    Mentirosos são aqueles
    que cantam e decantam as maravilhas do beijo,
    as suas mil e uma sensações...
    Eu sei por mim que é pura mentira,
    das tantas vezes que eu beijei,
    me dá uma coisa,
    um maravilhoso encantamento burro,
    que foge qualquer explicação para dar...

    QUEM VÊ CARA...
    Como luto
    com essa minha terrível máscara de Frankstein
    que porto na minha cara...
    Se eu pudesse mostrar a todos
    que, por trás dela,
    há uma cara linda que sorri e chora...

    SÚPLICA
    Apaga com o teu sorriso
    a tristeza dos meus olhos.

    ESSAS FOLHAS BRANCAS
    Como dói ver o destino destas alvas folhas brancas dos escritórios.
    Dá pena ver esses anjos pálidos que não sabem que irão morrer cedo no breve vôo das frias circulares comerciais...
    Oh! folhas brancas! Venham a mim, que na minha oficina de poetar, vocês serão versos, nunca o vôo inglório a se espatifar contra um cesto de papel...

    FRONTEIRA
    Quando morrer
    burlarei a alfândega das almas...
    Vou levar comigo aquele beijo
    que roubei de ti
    enquanto dormias.

    ESSES BARCOS
    Às vezes, sem me dar conta, estou dentro do barco da minha solidão a fazer turismo pelo imenso mar de mim mesmo...
    Aí, ventos que de longe vêm, assopram suas frágeis velas para os rios de minha infância.

    CRIMES DE ADULTO
    Fui crescendo, crescendo...
    Donald, Robin Wood, Jesus...
    Assassinei-os todos!

    SERÁS PERDOADA
    Se usares a mentira como bálsamo, mintas sempre
    mil vezes minta-me dizendo-me que me amas.

    ALMA
    Alma, não abandones esta matéria.
    Afinal, vivemos tantos anos juntos.

    O POETA
    Com minha capa bordada de estrelas, quero ser sempre assim como sou:
    um grande rei disfarçado de povo.

    FELICIDADE
    Eu sei onde estão as portas da felicidade.
    O meu problema é onde buscar as chaves para abri-las.

    SER FELIZ
    O passado é um enorme baú onde guardamos
    Nossos bons e maus momentos
    As pessoas felizes têm por norma
    não abrí-lo.

    A DÚVIDA
    A grande dúvida depois da nossa morte,
    É se seremos vírgula ou ponto final.

    ENDEREÇO
    Quase nunca me encontram em casa.
    É que eu passo mais tempo na Nina, ruazinha de chão
    onde minha infância brincava com meu cachorro.
    Como posso abrir a porta da minha casa se agora estou lá?
    As teclas da minha máquina não me deixam ouvir.
    as pancadas à porta da minha casa onde moro.

    DO MEU AMOR
    O amor não é cego. Se fosse cego, minha amada,
    eu não estaria a te enxergar
    até onde não estás...


    Na comunidade Hélio Ricciardi do ORKUT, existem outros poemas do escritor. Clicar AQUI




    Suas frases...
    (Heytor Santos Filho, seu pseudônimo)

    "Mais vale uma mentira que nos faz sorrir do que uma verdade que nos faz chorar"

    "As criaturas cultas estão destruindo o planeta. Só os ignorantes serão bem recebidos no céu."



    Sua amizade com Quintana...

    Inauguração da placa de bronze em 
homenagem à Mário Quintana, na praça de Alegrete (1968). Da esq. para dir.: Alcy Cheuiche, Hélio Ricciardi, prefeito 
Adão Ortiz Houayeck, poeta Antônio Brasil Milano e Samuel Marques (radialista)

    (...) "A amizade de Mario Quintana e Hélio Ricciardi é bastante conhecida e data de antes dos tempos dos Cadernos do Extremo Sul, veículo de expressão literária criado na década de 50 por Ricciardi e rebatizado por Quintana com o "Extremo". "O nome original era Cadernos do Sul, e ele disse que era para colocar a palavra "Extremo", que ficava mais bonito", explica Ricciardi. Apesar de quase 20 anos mais velho, Quintana, que contribuiu por vários anos com a Gazeta de Alegrete escrevendo seus primeiros poemas, sempre foi para Ricciardi um "amigalhaço", como se auto-intitulava em suas missivas destinadas ao amigo. "O Mario gostava muito de escrever cartas. E tudo o que ele escrevia era uma confissão", conta Ricciardi (...).

    Daniel Regina
    (Gazeta de Alegrete - Edição Especial 100 Anos de Mario Quintana, de 29-07-2006).

    Foto: Inauguração da placa de bronze em homenagem à Mário Quintana,
    na praça de Alegrete (1968). Da esq. para dir.: Alcy Cheuiche, Hélio Ricciardi,
    prefeito Adão Houayeck, poeta Antônio Brasil Milano e Samuel Marques (radialista).

    (...) "O Mario poeta era que nem passarinho, às vezes quieto, às vezes irrequieto. Suas palavras transitavam com a mesma naturalidade entre os homens e entre os anjos. Seus poemas o provam. Quem teve o privilégio de partilhar sua vida conta belas histórias de Quintana. O nosso poeta Hélio Ricciardi foi um desses privilegiados. Outro dia, cheguei à redação da Gazeta e, à entrada, me deparei com seu Hélio. Costumo chamá-lo de nosso poeta maior. E ele responde: Claro que eu sou o maior. Olha a minha altura, ninguém ganha de mim. O seu olhar emite um sorriso de gozação e já emenda. Sabe esta do Mario? Não, respondo. Afinal, o que é que eu sei a respeito do poeta? E ele conta uma história atrás da outra" (...).

    Pedro Antônio Lutkemeyer
    (Gazeta de Alegrete, de 29-07-2006)



    CANÇÃO PARA MARIO QUINTANA

    (Hélio Ricciardi)

    Da dir. para esq.: O poeta Mário Quintana, Hélio Ricciardi e <BR>
o escritor alegretense Alcy Cheuiche.

    O outono meia volta
    Volta e meia veio dar
    Catavento enlouqueceu
    Ficou girando, girando...
    Não foi nada, não foi nada.

    Lá vem Mario Quintana
    Com seus Sapatos Floridos
    Com seus Sonhos de Menino
    Os seus Sapatos Antigos

    Venham todos, venham todos,
    Amigos, Mortos, Amadas
    Em torno do Feiticeiro
    Dancemos todos em bando

    Dança meu Ibirapuitã
    Tuas águas que eram Vermelhas
    Agora são Prateadas
    Dos pedaços de espelhos
    Que teu Mágico jogou...

    Da dir. para esq.: Mário Quintana, Hélio Ricciardi e o escritor
    alegretense Alcy Cheuiche.

    Na Alegrete adormecida,
    O Aprendiz de Feiticeiro
    Há muito já não pisava
    Há muito já não cantava
    Por isso dancemos todos,
    Amigos, Mortos, Amadas...

    Até que as paineiras tenham
    Por sobre os muros florido.



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