ANTONIO AUGUSTO FAGUNDES

Nico Fagundes (2002)

(..) "E na hora derradeira que eu mereça,
Ver o sol alegretense entardecer,
Como os potros vou virar minha cabeça,
Para os pagos no momento de morrer.

E nos olhos vou levar o encantamento,
desta terra que eu amei com devoção.
Cada verso que eu componho é o pagamento,
De uma dívida de amor e gratidão".

Versos do "Canto Alegretense" - letra de Antonio Augusto Fagundes e música de Euclides Fagundes.







Antonio Augusto ("Nico") Fagundes nasceu em 4 de novembro de 1934, no Inhanduí, interior do município do Alegrete-RS, - local de tradicionais famílias campeiras da fronteira - filho de Euclides Fagundes e Florentina (Mocita) da Silva Fagundes.

Foi escoteiro e fundador, sub-chefe e chefe da Tropa "Anhangüera". Na época de estudante destacou-se como poeta e declamador.

Iniciou a carreira jornalística em 1950, aos 16 anos, no jornal Gazeta de Alegrete, o mais antigo do Rio Grande do Sul, nas funções de cronista e repórter. No mesmo período começou a atuar na Rádio ZYE9 - Rádio Alegrete, apresentando programas humorísticos e gauchescos.

Foi secretário dos Cadernos do Extremo Sul, publicações que sob a direção de Helio Ricciardi, lançou diversos poetas da cidade de Alegrete.

Em 1954, mudou-se para Porto Alegre e é como poeta que é apresentado ao 35 CTG - Centro de Tradições Gaúchas, por intermédio do poeta Lauro Rodrigues. E nunca deixou de fazer verso. Tornou-se amigo e companheiro de Waldomiro Souza, Horácio Paz, João Palma da Silva, Amandio Bicca, Niterói Ribeiro, Luiz Menezes, José Hilário Retamozo, Hugo Ramirez, João da Cunha Vargas, ou seja, a fina flor da poesia gauchesca da época, que freqüentava o rodeio do 35 CTG, às quartas de noite e aos sábados de tarde, na Av.Borges de Medeiros, no quinto andar da FARSUL.

Conhece, então, e torna-se amigo de Jayme Caetano Braun, cujo ingresso no 35 CTG vai amadrinhar.

No mesmo ano, tornou-se redator do Jornal A Hora, no qual atuou durante muitos anos com a página Regionalismo e Tradição.

O encontro de Antonio Augusto Fagundes, por esta época, com Glaucus Saraiva foi histórico: vinham de uma briga pelos jornais, mas quando se encontraram, foi amor à primeira vista, uma amizade tão forte que nem a morte de Glaucus conseguiu interromper.

Pelas páginas do jornal A Hora, lançou Jayme Caetano Braun e dois moços que estavam aparecendo com muita força: Aparício Silva Rillo e José Hilário Retamozo. O prestígio que emprestava à obra de outros poetas não fez com que descurasse de sua própria poesia.

Ganhou prêmios e concursos em Vacaria, Alegrete e em Porto Alegre.

Em 1955, passou a fazer parte do Instituto de Tradições e Folclore da Divisão de Cultura do Estado. Durante oito anos fez formação em folclorismo, especializando-se em Cultura Afro-gaúcha. Tornou-se professor de danças folclóricas e literatura gauchesca no Instituto de Tradições e Folclore. Viajou para a Europa como sapateador do Grupo Gaudérios, morando em Paris por quatro meses.

Iniciou pesquisas de indumentária gaúcha, tornando-se a maior autoridade sobre o assunto no Rio Grande do Sul.

Foi contratado pela TV Piratini para atuar como ator.

Foi um dos fundadores do Conjunto de Folclore Internacional, batizado de Os Gaúchos, e do qual foi diretor durante 15 anos.

Fundou, no Instituto de Tradições e Folclore, a Escola Gaúcha de Folclore, de nível superior, que funcionou durante seis anos. Atuou como titular nas cadeiras de danças folclóricas e indumentária gaúcha. Foi diretor da escola durante seis anos.

No início da década de 1960, conquistou o primeiro lugar em concurso literário promovido pelo Instituto Estadual do Livro, com a obra Destino de Tal. Pouco depois passou a trabalhar na TV Tupi.

Em 1960, ingressou na Faculdade de Direito de Porto Alegre. No mesmo ano, casou-se com Marlene Nahas.

Formado em Direito, pós-graduado em História do Rio Grande do Sul e Mestre em Antropologia Social, todos os seus cursos foram realizados na Universidade Federal do RGS (UFRGS).

Por todas essas suas qualificações, Antonio Augusto Fagundes é respeitado como autoridade em Folclore gaúcho, História do Rio Grande do Sul, Antropologia, Religiões afro-gaúchas, Indumentária gauchesca, Cozinha gauchesca e danças folclóricas.

Além disso, sempre deu a devida importância à dupla ligação da cultura gaúcha, com o outro Brasil e com os países do Prata. Tornou-se, assim, com o tempo e apoiado em uma biblioteca preciosa, um estudioso sério, respeitado e aclamado no Rio Grande do Sul, no Uruguai e na Argentina, conferencista bilíngüe e autor de inúmeras obras de consulta obrigatória.

Entretanto, a face menos conhecida deste intelectual brilhante, é também sua face mais antiga, a de poeta.

Ganhou prêmios e distinções importantes, como a Medalha do Pacificador, do Exército Brasileiro, a Comenda Osvaldo Vergara, da Ordem dos Advogados do Brasil, da qual é também advogado jubilado, e a Comenda do Mérito Oswaldo Aranha (esta última, em 24-10-08, da Prefeitura de Alegrete).

Premiado incontáveis vezes como poeta, novelista, compositor, autor e ator de teatro, TV e cinema.
Escreveu o roteiro do filme "Para Pedro". Atuou como ator, assistente de direção e consultor de costumes do filme "Ana Terra".
Escreveu o roteiro, dirigiu e trabalhou como ator no filme "Negrinho do Pastoreio", com Grande Otelo.
Atuou ainda como ator no filme "O Grande Rodeio", o qual também produziu e dirigiu.

Em 1976, ingressou na Fundação Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore.

Desde 1982 apresenta pela RBS TV (afiliada da TV Globo) o programa Galpão Crioulo, o que já lha rendeu três prêmios internacionais: em Buenos Aires, em Nova York e na Cidade do México.

Em 1984, passou a apresentar o mesmo programa na Rádio Gaúcha.
No mesmo ano voltou a atuar no jornalismo, escrevendo no jornal Zero Hora - uma coluna semanal que mantém até hoje.

Em 1998, comandou em Paris, a apresentação do Grupo "Os Gaúchos".

No mesmo ano escreveu a peça teatral A Proclamação da República Rio-grandense".

Ao longo de sua carreira recebeu diversos prêmios, entre os quais, Prêmio Copa Festivales de España, Medalha de Bronze da Televisão Mundial pelo programa "Galpão Crioulo" e o Troféu Guri da Rádio Gaúcha. Recebeu inúmeros prêmios em poesia, canções gauchescas, declamações, danças folclóricas e teses. É autor de mais de 100 músicas, entre as quais, "O canto Alegretense".

"O Canto Alegretense", música em que os versos são de sua autoria, é mais cantado que o próprio Hino de Alegrete. Nico Fagundes (2002)

Publicou seu primeiro livro de versos "Com a Lua na Garupa" e depois o segundo "Ainda com a Lua na Garupa".

O terceiro tem o nome de "Canto Alegretense", nome tirado da canção famosa cujos versos escreveu. Aliás, neste livro aparecem muitas letras das suas canções mais famosas dentre as 370 gravadas e regravadas por vários intérpretes e parceiros.

Da fina flor da poesia gauchesca, da época de ouro, de poesia crioula só Antonio Augusto Fagundes continua em atividade, mantendo acesa a chama.

O velho poeta de hoje, de sempre, continua o mesmo guri que ficava horas com um caniço nas mãos, esquecido dos peixes, apenas bebendo a imensa poesia das mansas águas do Rio Ibirapuitã.

Livros publicados:
É autor de quase vinte livros, a maioria com várias reedições. Para saber sobre suas obras, clicar em:
http://www.orkut.com.br/Main#Album.aspx?uid=12517951524760143599&aid=1225035785&p=0
http://www.orkut.com.br/Main#Album.aspx?uid=12517951524760143599&aid=1225035785&p=1

Fontes:
- Wikipédia - a enciclopédia livre (http://pt.wikipedia.org).
- http://www.dicionariompb.com.br - 23/04/2007 - 20:21:35


OS FAGUNDES

Em 24 de outubro/2008, os autores da música Canto Alegretense, Antônio Augusto (Nico) e Euclides Fagundes Filho (Bagre) receberam a Comenda do Mérito Oswaldo Aranha em reconhecimento ao seu destacado trabalho no cenário musical estadual, nacional e até fora do país.

A Comenda Oswaldo Aranha é outorgada pelo município de dois em dois anos, a no máximo cinco cidadãos que, através de seu trabalho artístico, cultural ou intelectual, levam o nome do Alegrete além dos seus limites geográficos.


Ernesto e Ruclides Fagundes Fº ao lado do Prefeito, após a entrega da comenda.
(Foto obtida no site www.doalegrete.com.br)


A música CANTO ALEGRETENSE tornou-se um verdadeiro hino em todo o Rio Grande do Sul e foi considerada, através de decreto da Prefeitura Municipal do Alegrete (jan/2009), com valor de excepcional relevância artística, o que levou o Prefeito a efetuar o tombamento provisório da mesma, junto com outros bens e monumentos do município de Alegrete.

Na estrada próxima à cidade de Alegrete-RS (BR-290), foram instaladas várias placas (outdoors) com todos os versos do Canto Alegretense (clique aqui para ver as imagens).



CANTO ALEGRETENSE
(Letra de Antônio Augusto Fagundes e música de Euclides Fagundes)

Não me perguntes onde fica o Alegrete
Segue o rumo do teu próprio coração
Cruzarás pela estrada algum ginete
E ouvirás toque de gaita e de violão.

Pra quem chega de Rosário ao fim da tarde
ou quem vem de Uruguaiana de manhã,
tem o sol como uma brasa que ainda arde
Mergulhado no rio Ibirapuitã.

Estribilho:
Ouve o canto gauchesco e brasileiro,
Desta terra que eu amei desde guri;
Flor de tuna, camoatim de mel campeiro,
Pedra moura das quebradas do Inhanduí.

E na hora derradeira que eu mereça,
Ver o sol alegretense entardecer,
Como os potros vou virar minha cabeça,
Para os pagos no momento de morrer.

E nos olhos vou levar o encantamento,
desta terra que eu amei com devoção.
Cada verso que eu componho é o pagamento,
De uma dívida de amor e gratidão.





Neto Fagundes, o príncipe

Antônio Augusto Fagundes
Jornal Zero Hora - Segundo Caderno, 14-05-2007.

Neto Fagundes é o verdadeiro príncipe do gauchismo, no talento e na elegância física e moral. De personalidade cativante, eternamente bem-humorado, sorrindo sempre com aqueles dentes muito brancos que nunca viram cigarro, Neto estabelece de imediato um elo de simpatia com todas as platéias, sobretudo com os jovens e as crianças. É impressionante o carinho que ele desperta entre os piás e as prendinhas, que parecem ver nele um guri grande - o que realmente é. Cristina, sua mulher, costuma dizer que tem três crianças em casa: os filhos Marina e Mateus e o marido. Neto Fagundes (D), com seu pai Euclides Filho (Bagre) e seu irmão Ernesto (2008) - foto obtida no site www.doalegrete.com, sem referência ao nome do autor da foto.

Euclides Fagundes Neto, seu verdadeiro nome, é o primeiro filho do casal Bagre e Marlene e repete o nome do pai e do avô. A família gaúcha cultiva o costume de ter os seus mimosos. E o Bagre foi sempre o mimoso do velho Euclides, por ter o nome do pai e ter grandes qualidades artísticas. Quando nasceu o Neto, já nasceu mimoso. De simpatia irradiante, brincalhão e inteligente, acho que quando bebê até o choro já era afinado em dó maior, e o Bagre se parava ao lado do berço da criança tocando a gaitinha de oito baixos ou o violão campeiro, cantando em português ou castelhano. Assim, o guri aprendeu a falar e a cantar quase ao mesmo tempo.

Neto Fagundes (D) com seu pai Euclides Filho (Bagre) e seu irmão Ernesto (2008).

Pareceu claro desde logo que seria bem sucedido no futebol e na música. No esporte, chegou a ser profissional no Alegrete, mas quando surgiu um convite para jogar em Porto Alegre o Bagre disse não: o filho tinha que estudar e cantar. Adolescente ainda, o guri pegou o violão e não parou mais. Como estudante, chegou até a metade do curso de Direito, que é a vocação natural de todos os Fagundes, mas aí o sucesso como cantor era um apelo muito forte. Em Porto Alegre, Neto fez dupla e parceria com um jovem gaiteiro ascendente chamado Renato Borghetti, cantando e namorando nos bares e pulperias da cidade.

Quando eu adoeci, indiquei o Neto para me substituir no Galpão Crioulo. Ele segurou o programa sozinho durante muitos meses, com brilho e simpatia. Hoje fazemos uma dupla que se completa. Graças a ele, eu, que era Antonio Augusto Fagundes, hoje sou o tio Nico para os gaúchos e gaúchas de todas as querências.

Veja aqui um vídeo do programa Galpão Crioulo, da RBS-TV, apresentado semanalmente por NICO e NETO FAGUNDES (homenagem ao aniversário da cidade de Porto Alegre, em março/2009).



Pequeno Grande Ernesto

Antônio Augusto Fagundes
Jornal Zero Hora - Segundo Caderno, 16-04-2007.

Quando o Ernesto nasceu, a América vivia sob a emoção da morte de Che Guevara, em plena ditadura militar. Os pais, Bagre e Marlene, viram que o gurizinho era a cara do guerrilheiro famoso e quiseram homenageá-lo - Ernesto Villaverde Fagundes. Na ocasião, eu lhe dediquei alguns versos: "No píncaro boliviano não faltará em Vallegrande outra voz que nos comande no porvir americano, porque ao argentino-cubano, que se mata e não se vence, porque a si não mais pertence, mas à América e à Glória, há de honrar-lhe o nome e a história o Ernesto alegretense". Proféticas palavras: aquele gurizinho nasceu predestinado a vencer.

Aos oito anos de idade e à sombra do pai, aficionado ao nativismo castelhano, o Ernesto começa a brilhar vencendo todos os concursos de sapateio - chula e malambo - na invernada mirim do CTG Vaqueanos da Tradição na velha Capital Farroupilha. Mas não cantava, o cantor da família era o mano Neto. Um dia, passando pelo Alegrete, eu lhe dei um bombo legüero, um dos dois primeiros instrumentos deste gênero vindos para o Brasil. Foi amor à primeira vista, nunca mais se separaram. Na adolescência, o Ernesto começa a cantar e aí, para a surpresa de todos, se revela um baita cantor.

Muito moço ainda, com o Neto e o Bagre já brilhando em festivais e espetáculos gauchescos, eu insisti para que ele viesse a Porto Alegre e aí não parou mais de brilhar. Hoje possui quatro CDs gravados e é parte importante nos trabalhos gravados do grupo Os Fagundes. O seu disco Guevara Vivo, lançado em Havana, está no Museu Guevara na capital de Cuba.

Ernesto já se apresentou no Museu do Louvre, em Paris, em Havana, em Verona e Veneza, na Itália, no México, nos Açores, em Hong Kong e em Buenos Aires. Brilhou no Fórum Social Mundial com o espetáculo Guevara Vivo e vive fazendo apresentações com Os Fagundes pelo Estado inteiro, em Santa Catarina, no Paraná, em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Brasília. Como radialista, apresenta na Rádio Rural o programa A Hora do Mate e o Galpão do Nico. É parte importante do projeto Teixeirinha Memória Nacional e está preparando outro CD para agosto e produzindo o novo DVD dos Fagundes. Marido apaixonado da bela Juliana e orgulhoso pai da Manoela, Ernesto é muito apegado à família Fagundes, do pai, e à família Villaverde da mãe. É também irmão do Paulinho, virtuoso da guitarra.

Ernesto é um dínamo, irrequieto, de simpatia irradiante. Embora seja o mais jovem dos Fagundes é na prática o diretor do grupo, ao lado do irmão Neto, do pai Bagre e do tio que escreve estas linhas. Nunca ninguém viu o Ernesto mal-humorado. Seu sorriso é famoso. Eu costumo dizer que ele tem 380 dentes e sorri com todos eles...Vai longe esse guri. Quem gosta de música regionalista gauchesca e das canções argentinas, gosta do Ernesto. Quando artistas argentinos visitam o Rio Grande, como Mercedes Sosa, é certo que lá, ao lado do astro ou da estrela estará o pequeno grande Ernesto batendo bombo, dedilhando um violão ou cantando. E sorrindo, claro.



Canto de amor ao Alegrete

Antônio Augusto Fagundes
Porto Alegre, primavera de 1994.

Tudo que eu quis desta vida
foi ser um dos teus poetas
para cantar-te, Alegrete.
Foi assim desde guri
apreendendo, no Inhanduí,
uma outra geografia,
vagando de rio em rio
dentro do teu território:
um pouco de desafio
mais gaúcho, mas inglório,
sentindo em tua poesia
o caudaloso Ibicuí
feito de pedra e de areia,
o Caverá, que incendeia
o lendário do meu pago,
o Ibirapuitã, que trago
latindo em cada uma veia...

São artérias, esses rios,
tão de prata -minerais!
e os arroios, viscerais,
e as sangas, que olham o céu.

Ah, tuas águas, Alegrete,
violentas em cada enchente,
quando ranchos e gente
e secas, em cada estio
No fundo, eu também sou rio,
igual aos rios que bebi!

Mas tudo que eu sempre quis
foi ser um de teus poetas,
uma das almas inquietas
que andejavam por aqui.
Ou se foram para longe:
Quintana, poeta, anjo e monge,
duende-menino e povoeiro.

E Juca Ruivo, um "pombero",
estranho gênio mateiro,
misto de poeta e guerreiro,
com alma de guarani.

Helio Ricciardi, a quem vi
piazito, com quem cresci,
perdulário de poesia,
pródigo de fantasia,
eternamente guri.

O melhor que eu conheci!

Cyro Leães, médico e santo,
a quem admirei tanto
pela inteireza moral,
pela cultura geral
e a poesia sem igual.

Paulo Leães, "ligeira" -e quanto!
flor de mato, sem espanto
escondendo o próprio canto
como quem esconde o pranto,
alma sofrida, a doer.

E como hei de esquecer
Lacy Osório, o operário
das águas e das correntes,
duro eterno, mas coerente
com o que sobrou da semente
do grande sonho social
que se quis universal
e se perdeu nas alturas?

E outra dessas figuras
como quem queria ser,
campeiro a mais não poder,
tropeiro de estradas largas,
sem medo de horas amargas
que nem chegou a conhecer
-como, João da Cunha Vargas,
eu podia me igualar,
ter um lugar ao teu lado
junto ao fogo, pra matear?

Eu sempre quis ser poeta,
flecha, adaga, lança reta,
humano como um demônio,
divino como um fetiche.

Como Alcy José Cheuiche,
rebelde e poeta-criança,
um derviche de esperança
e um palanque de confiança
desta nossa Tradição,
poeta, escritor, meu irmão,
sonhador dos mais profundos
a correr mundos e mundos
sem que o mundo mais imundo
profanasse a sua mão.

Eu só quis foi ser um desses.
Poeta mesmo, mas então
invejava cada irmão:
o Darcy, pura emoção,
cantor, músico e poeta
(que grande declamador!)
O Aldo, jeito de asceta
com dimensão de profeta,
sempre o melhor orador
que eu já ouvi em minha vida.

O João, soldado e gaudério,
a desvendar o mistério
de se amar estes Brasis,
orador dos mais sutis,
senhor do verso e da pena.

o Bagre, uma fada morena
deu-lhe tudo: inspiração,
a esportiva vocação,
a gaitinha e o violão
e uma voz com emoção
a dizer cada canção
como se fosse oração.

o Júlio Cézar é um Juiz
gaúcho, orador feliz
que a cada frase que diz
reacende fogo e tição.

Deus não me deu o que eu quis.
Eu não sei tocar violão,
canto mal, mas a intenção
de todas a predileta
foi ser um dos teus poetas,
como um desses de que falo.

Alegrete, canto e galo!

Os cascos do meu cavalo
te aqueceram como forja:
do Patronato a São Borja,
de Rosário a Uruguaiana
campeando a estrela vaqueana
que eu mesmo escolhi um dia.

Sei de cór a geografia
alegretense dos campos,
pagos, rincões, ventanias
e ao encher as mãos vazias
te andei tanto, te vi tanto,
te amei tanto, que o encanto
com pena de mim, um dia
sem me fazer dos teus poetas,
me transformou em poesia.



Lá no Alegrete

Ernesto Fagundes e Antônio Augusto Fagundes

Se vai passar no Alegrete
Ou no começo ou no fim
Quando cruzares a ponte
Atira um beijo por mim
Manda esse beijo parceiro
Nas pétalas de alguma flor
Levando a minha saudade
Nas asas do meu amor.

Lá no Alegrete parceiro
Verás um povo feliz
Nas barrancas do meu rio
De pedras e sarandis
Bombo no peito e cantando
Quem sabe um verso que eu fiz.

Meus amigos que se foram
Um dia eu hei de encontrar
Cada vez que eu lembro deles
Voltam no vento a cantar
E aquela menina linda
Que foi meu primeiro amor
Viverá em dó maior
Na garganta de um cantor.




Eu, índio

Antônio Augusto Fagundes
Viamão, Fazenda São Luizinho, Posto Pago Macho, 24 de janeiro de 2007.
Jornal Zero Hora - Segundo Caderno, 05-02-2007.

Não se enganem com a casca,
Com o falar caprichado,
Com o anel de doutor.
Não.
A casca não importa. O cerne, sim.
Há um índio ancestral
- guarani, pela mãe, charrua, pelo pai -]
Dentro de mim.
Estes olhos atentos, desconfiados,
Esta pele de bronze que me cobre,
Este cheiro de mato e de capim
Isto é índio, no mais,
Porque eu sou índio,
Eu nasci índio e vou morrer assim.

El soldado oriental Narciso Fagundez]
Echó las ñanduceras de los ojos
A la indiacita oscura y grave
Con dibujos rituales por la cara
En una tolderia charrua em Paysandu.]
La pidió y la llevó.
Después la bautizó
En la capilla blanca de los curas
Con el nombre cristiano y portugués de Señoriña]
Y se casó.
Ellos serán los padres
De Juan Bautista Fagundez,
Nacido oriental y luego brasileño,
Pai do meu pai - o meu avô.

O indiozinho veio num petiço
Acompanhando o oficial de Caçapava]
Que voltava da guerra vitorioso
Cozido de lançaços e medalhas.
Nunca disse o seu nome guarani.
Tomou o nome branco do padrinho]
- Manoel Pedroso da Silveira -
E virou peão de estância e capataz.
Che mbiá chondaro
Che aikó Chaco Paraguay py!
Dizia, com orgulho.
Roubou a única filha do patrão,
A moça Filisbina da Rosa
E fugiu para o Uruguai
Com rosa e tudo.
O índio Maneco e Filisbina
Serão os pais de Flora
A mãe da minha mãe - a minha avó.]

E aqui estou eu, charrua e guarani.
São charruas o chiripá e a boleadeira,]
São guaranis o pala bichará, a Lança de Sepé]
E o mate. Ah, o mate!
A essência verde da terra que é meu berço,]
Que é meu chão,
Meu limpo orgulho campeiro,
Minha fé, minha paixão.




CRÔNICAS sobre ALEGRETE e SUA GENTE

Nico Fagundes mantém uma coluna semanal no jornal Zero Hora/P.Alegre desde a década de 80, escrevendo sobre a história do R.G.do Sul e diversos temas do folclore e da cultura gaúcha (indumentária, cozinha, danças, religiões, antropologia), além de assuntos relacionados às suas lembranças infanto-juvenis no seu Alegrete.

Catutinha, o louco-soldado

Antônio Augusto Fagundes
Jornal Zero Hora - Segundo Caderno, 20-02-2010.

RECITADO:
Nos meus tempos de guri,
Neste Alegrete querido,
Quantos loucos conheci!
Alguns já terão morrido.
Para que céu terão ido
O Ordálio, a Mãe-da-Canha,
E a Benvinda, pobrezinha?
Porém eu sempre me lembro
A cada Sete de Setembro,
Do mulato Catutinha,
Borracho, meio fardado,
Tocando um violão rachado,
Cantando a mesma marchinha:
“Nós somos da Pátria a guarda,
Fiéis soldados por ela amados...”
Soldados sem regimento,
Praça velho, Catutinha,
Tua Pátria não te amou
Com toda a farda que tinha.
Deus te dê um céu verde-oliva,
pobre criança sozinha!

CANTO:
Coitado do Catutinha,
Com sua farda rasgada,
Violão com corda de arame,
Marchando pela calçada.
Coitado do Catutinha,
Que enlouqueceu a cantar
Para o riso dos paisanos,
Seu sonho de militar.

REFRÃO:
“Nós somos da Pátria a guarda,
Fiéis soldados por ela amados...”
O sonho de mil crianças,
De loucos e de soldados".

Quando o trator veio em cima O Catutinha a sonhar,
Pensou que fosse uma “carga” Que ele devia enfrentar.
Dentro da alma, um clarim.
Dentro da noite, um clarão.
Com as Três Marias nos ombros
Ele morreu - capitão.

REFRÃO:
“Nós somos da Pátria a guarda,
Fiéis soldados por ela amados...”
O sonho de mil crianças,
De loucos e de soldados.

Nota da Webmaster:**
Quando eu tinha cinco anos de idade, numa certa tarde de verão, minha mãe ficou intrigada com a meu inusitado apetite, porque voltei repetidamente à cozinha para pedir-lhe mais uma fatia de pão, no horário do lanche. Depois da minha terceira vez em busca de mais alimento, minha mãe desconfiou que havia alguma coisa estranha comigo e saiu na minha retaguarda, sem que eu a visse. Morávamos, nessa época, na casa que pertencera aos meus avós paternos, na rua Waldemar Masson (defronte à Igreja dos Mórmons, próximo à Praça Nova).
Com o novo pedaço de pão na mão, saí sorrateiramente pelo portão da casa e ganhei a rua. Dali caminhei rapidamente até a esquina da rua Bento Manoel e dobrei à esquerda. Minha mãe fez o mesmo trajeto e, ao dobrar a esquina, ainda teve tempo de ver-me entrando num pequeno terreno baldio que existia logo adiante, junto à calçada direita da rua Bento Manoel. Muito intrigada e até um pouco assustada, ela foi conferir o que eu fazia por lá, sendo ainda uma criança tão pequena.
E qual não foi a sua surpresa, ao verificar que, debaixo de uma carroça velha e em meio a uns trapos sujos, lá estava sentado o louco Catutinha - o tipo pitoresco cantado acima por Nico Fagundes -, com sua farda verde-oliva rasgada, recebendo, com um sorriso agradecido, um pedaço de pão das mãos de uma menininha.

(Marília Cechella** / 21-03-2010).



Esta página faz parte do tópico POETAS E ESCRITORES ALEGRETENSES e foi desenvolvida pela alegretense Marília Cechella, criadora e administradora de uma página sobre ALEGRETE, dentro do website da genealogia de sua família Sousa Brasil. Seus fragmentos biográficos podem ser lidos aqui (página da 4ª geração dos descendentes de João de Souza Brasil).

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