MARIO QUINTANA


O poeta MARIO QUINTANA nasceu em Alegrete/RS em 30-07-1906 e faleceu em Porto Alegre/RS, onde residia, em 05-05-1994.

"Esta vida é uma estranha hospedaria,
De onde se parte quase sempre às tontas,
Pois nunca as nossas malas estão prontas,
E a nossa conta nunca está em dia."

(M. Quintana)



Quintana por ele mesmo...

Mário Quintana

"Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me aconteceu. E agora pedem-me que fale sobre mim mesmo. Bem! Eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão. Ah! mas o que querem são detalhes, cruezas, fofocas... Aí vai! Estou com 78 anos, mas sem idade. Idades só há duas: ou se está vivo ou morto. Neste último caso é idade demais, pois foi-nos prometida a Eternidade.

Nasci no rigor do inverno, temperatura: 1 grau; e ainda por cima prematuramente, o que me deixava meio complexado, pois achava que não estava pronto. Até que um dia descobri que alguém tão completo como Winston Churchill nascera prematuro - o mesmo tendo acontecido a sir Isaac Newton! Excusez du peu...

Prefiro citar a opinião dos outros sobre mim. Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que acho que nunca escrevi algo à minha altura. Porque poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz. Dizem que sou tímido. Nada disso! Sou é caladão, introspectivo. Não sei porque sujeitam os introvertidos a tratamentos. Só por não poderem ser chatos como os outros?

Exatamente por execrar a chatice, a longuidão, é que eu adoro a síntese. Outro elemento da poesia é a busca da forma (não da fôrma), a dosagem das palavras. Talvez concorra para esse meu cuidado o fato de ter sido prático de farmácia durante cinco anos. Note-se que é o mesmo caso de Carlos Drummond de Andrade, de Alberto de Oliveira, de Érico Veríssimo - que bem sabem (ou souberam) o que é a luta amorosa com as palavras".

Texto escrito pelo poeta para a revista Isto É, de 14-11-1984.
Fonte: http://www.estado.rs.gov.br/marioquintana



AUTO-RETRATO: Eu sou Mario Quintana.

Carlos André Moreira
Jornal Zero Hora, Porto Alegre/RS - Caderno Donna, em 30-07-2006.

Exatamente há cem anos, nascia em Alegrete o poeta Mario de Miranda Quintana, cujo centenário motivou este ano exposições, peças, especiais de TV e, claro, a reedição integral de sua obra – da qual foram retirados os trechos de poemas e crônicas que formam a entrevista imaginária abaixo.

Qual a sua lembrança de infância mais remota?
Fui um menino por trás de uma vidraça – um menino de aquário. Via o mundo passar, como numa tela cinematográfica, mas que repetia sempre as mesmas cenas, as mesmas personagens.

Onde você passou as suas férias inesquecíveis?
O que estraga as viagens, agora, é o seu rápido destino: de repente já estás em Pequim... Benditos, mil vezes benditos aqueles carrosséis que ensinaram aos meninos de meu tempo a pura alegria de viajar!

Qual a sua idéia de um domingo perfeito?
No céu é sempre domingo. E a gente não tem outra coisa a fazer senão ouvir os chatos.

O que você faz para espantar a tristeza?
O único problema da solidão consiste em como conservá-la.

Que som acalma você?
Quando os sapatos ringem...

Qual a palavra mais bonita da língua portuguesa?
Clair de lune, chiaro de luna, claro de luna... jamais os franceses, os italianos e os espanhóis saberão mesmo o que seja o luar, que nós bebemos de um trago numa palavra só.

Que livro você mais cita?
Livro bom é aquele de que às vezes interrompemos a leitura pra seguir – até onde? – uma entrelinha... Leitura interrompida? Não. Esta é a verdadeira leitura continuada.

Que filme você sempre quer rever?
...devia ser proibido fazer desenhos animados depois de Walt Dysney.

Um gosto inusitado.
O que eu mais adoro, depois da precisão, são os expletivos.

Um hábito de que você não abre mão.
Alarmar senhoras gordas é um dos maiores encantos desta e da outra vida.

Um hábito de que você quer se livrar.
O que eles chamam de nossos defeitos é o que temos de diferente deles. Cultivemo-los, pois, com o maior dos carinhos – esses nossos benditos defeitos.

Um elogio inesquecível.
Poeta de amplo espectro, como se diz nas bulas farmacêuticas. Assim se expressou um dia a respeito deste escriba o seu cúmplice em poesia e colendo crítico Guilhermino César. O que bastou para que alguém me interpelasse: “Como é? Ele está te chamando de fantasma?”

Em que situação você perde a elegância?
O mais irritante de nos transformarem um dia em estátua é que a gente não pode coçar-se.

Em que outra profissão consegue se imaginar?
...eu queria ser um pajem medieval... Mas isso não é nada. Pois hoje eu queria ser uma coisa mais louca: eu queria ser eu mesmo!

Eu sou...
Eu não sou eu, sou o momento: passo.



Sobre o poeta Quintana... Mario Quintana

1906
Nasce MARIO DE MIRANDA QUINTANA, quarto filho do farmacêutico Celso de Oliveira Quintana e de dona Virgínia Palma de Miranda.

(...) Mario aboliu o nome do meio. Algo deve ficar escondido mesmo. Nasceu em uma noite gélida em Alegrete, fronteira do Estado, em 30 de julho de 1906. A cidade estava a um grau negativo. Parecia abrigar um congresso anual de ventos. O parto fora prematuro, de sete meses. "Quintana brincava que não estava pronto", lembra a sobrinha-neta e herdeira Elena Quintana, 50 anos, diretora de teatro, que o acompanhou de 1979 a 1994.

A fragilidade do nascimento resultou infância adentro no apelido de "menino azul", devido à pele fina e branca, e às veias azuis e saltitantes. Virou o protegido entre os três irmãos - Celso, Marieta e Miltom - e dos pais Celso e Virgínia. (...)

(Fabrício Carpinejar - Revista Entrelivros, edição nº12, abril/2006).

1913
Com 7 anos, auxiliado pelos pais, aprende a ler tendo como cartilha o jornal Correio do Povo. De seus pais recebeu, também, noções de francês.

1914
Inicia seus estudos na Escola Elementar Mista de Dona Zulmira (Mimi) Contino.

1915
Ainda em Alegrete, freqüentou a escola do mestre português Antônio Cabral Beirão, onde conclui o curso primário. Nessa época trabalhou na farmácia da família.

"Quintana nasceu numa cidade interiorana, dessas que crescem mais em direção à memória do que em direção ao futuro". (...)
(Armindo Trevisan, em Mario Quintana Desconhecido, Brejo Editora - Porto Alegre, 2006).

1919
Foi matriculado no Colégio Militar de Porto Alegre, em regime de internato.
Começa a produzir seus primeiros trabalhos, que são publicados na revista Hyloea, órgão da Sociedade Cívica e Literária dos alunos do Colégio.

1924
Por motivos de saúde, deixa o Colégio Militar. Emprega-se na Livraria do Globo, onde trabalha na seção de literatura estrangeira, por três meses, com Mansueto Bernardi, então encarregado do setor editorial. A Livraria era uma editora de renome nacional.

Mario Quintana - 07-07-1986

1925
No ano seguinte, retorna a Alegrete e passa a trabalhar na farmácia de seu pai.

(...) Quintana poderia ter ficado a vida inteira atrás de um balcão em sua terra natal. Seu pai tinha farmácia e ele chegou a atuar como prático durante cinco anos. A experiência o motivou a dosar as palavras, cuidar das contra-indicações e, a partir das bulas de remédio, não desprezar nada que fosse escrito, ainda que em caractere mirrado. Sua principal cliente acabou sendo a poesia. Foi atendê- la em Porto Alegre, após a morte dos pais, em 1927. Autodidata, traduziu para a editora Globo clássicos como Joseph Conrad, Guy de Maupassant, Virginia Woolf e Marcel Proust - verteu para o português os três primeiros volumes do Em busca do tempo perdido.(...)

(Fabrício Carpinejar - Revista Entrelivros, edição nº12, abril/2006).

1926
A mãe de Quintana falece. Seu conto, A Sétima Personagem, é premiado em concurso promovido pelo jornal Diário de Notícias, de Porto Alegre.

1927
O pai de Quintana falece. A revista Para Todos, do Rio de Janeiro, publica um poema de sua autoria, por iniciativa do cronista Álvaro Moreyra, diretor da citada publicação.

1929
Começa a trabalhar na redação do diário O Estado do Rio Grande, que era dirigida por Raul Pilla.

1930
A Revista do Globo e o Correio do Povo publicam seus poemas.

Vem, por seis meses, para o Rio de Janeiro, entusiasmado com a revolução liderada por Getúlio Vargas, também gaúcho, como voluntário do Sétimo Batalhão de Caçadores de Porto Alegre.

1931
Volta a Porto Alegre e à redação de O Estado do Rio Grande.

1934
O ano de 1934 marca a primeira publicação de uma tradução de sua autoria: Palavras e Sangue, de Giovanni Papini. Começa a traduzir para a Editora Globo obras de diversos escritores estrangeiros: Fred Marsyat, Charles Morgan, Rosamond Lehman, Lin Yutang, Proust, Voltaire, Virginia Woolf, Papini, Maupassant, dentre outros. O poeta deu uma imensa colaboração para que obras como o denso Em Busca do Tempo Perdido, do francês Marcel Proust, fossem lidas pelos brasileiros que não dominavam a língua francesa. Ao todo, Quintana foi tradutor de 138 obras para o português.

1936
Retorna à Livraria do Globo, onde trabalha sob a direção de Érico Veríssimo.

Mario Quintana - 07-07-1986

1939
Monteiro Lobato lê doze quartetos de Quintana na revista lbirapuitã, de Alegrete, e escreve-lhe encomendando um livro. Com o título Espelho Mágico o livro vem a ser publicado em 1951, pela Editora Globo.

1940
A primeira edição de seu livro, A Rua dos Cataventos, é lançada pela Editora Globo. Obtém ótima repercussão e seus sonetos passam a figurar em livros escolares e antologias.

1943
Começa a publicar o Do Caderno H, espaço diário na Revista Província de São Pedro.

Em 1946, no número 5 da Revista Província de São Pedro, Quintana responde a uma crítica de James Amado, que, em número anterior dessa revista, sugeria que o poeta alegretense havia tomado o bonde errado em poesia. Com sua ironia particular, Quintana faz pouco do pedido de engajamento social formulado por Amado e afirma o interesse por outros temas poéticos: “Há outras coisas, as coisas eternas, que não se resolvem nunca, graças a Deus: estrelas, grilos, penas de amor, saudades, anjos, nuvens, mortos, arroios, todas as paisagens, alegrias e tristezas deste e do outro mundo”.

Nota da webmaster: A edição completa da Revista Província de São Pedro está disponível no site www.ipct.pucrs.br/letras/saopedro/htm.
Publicada pela antiga Livraria do Globo, a revista circulou entre 1945 e 1957 e foi elemento fundamental na afirmação do pensamento crítico no Rio Grande do Sul.

1946
Canções, seu segundo livro de poemas, é lançado pela Editora Globo. O livro traz ilustrações de Noêmia.

1948
Lança Sapato Florido, poesia e prosa, também editado pela Globo. Nesse mesmo ano é publicado O Batalhão de Letras, pela mesma editora.

1950
Seu quinto livro, O Aprendiz de Feiticeiro, versos, é uma modesta plaquete que, no entanto, obtém grande repercussão nos meios literários. Foi publicado pela Editora Fronteira, de Porto Alegre.

1951
É publicado, pela Editora Globo, o livro Espelho Mágico, uma coleção de quartetos, que trazia na orelha comentários de Monteiro Lobato. Mario Quintana - 07-07-1986

1953
Com seu ingresso no Correio do Povo, reinicia a publicação de sua coluna diária Do Caderno H (até 1967).
Publica, também, Inéditos e Esparsos, pela Editora Cadernos de Extremo Sul - Alegrete (RS).

1962
Sob o título Poesias, reúne em um só volume seus livros A Rua dos Cataventos, Canções, Sapato Florido, Espelho Mágico e O Aprendiz de Feiticeiro, tendo a primeira edição, pela Globo, sido patrocinada pela Secretaria de Educação e Cultura do Rio Grande do Sul.

1966
Com 60 poemas inéditos, organizada por Rubem Braga e Paulo Mendes Campos, é publicada sua Antologia Poética, pela Editora do Autor - Rio de Janeiro. Lançada para comemorar seus 60 anos, em 25 de agosto o poeta é saudado na Academia Brasileira de Letras por Augusto Meyer e Manuel Bandeira, que recita o seguinte poema, de sua autoria, em homenagem à Quintana:

Meu Quintana, os teus cantares
Não são, Quintana, cantares:
São, Quintana, quintanares.

Quinta-essência de cantares...
Insólitos, singulares...
Cantares? Não! Quintanares!

Quer livres, quer regulares,
Abrem sempre os teus cantares
Como flor de quintanares.

São cantigas sem esgares.
Onde as lágrimas são mares
De amor, os teus quintanares.

São feitos esses cantares
De um tudo-nada: ao falares,
Luzem estrelas luares.

São para dizer em bares
Como em mansões seculares
Quintana, os teus quintanares.

Sim, em bares, onde os pares
Se beijam sem que repares
Que são casais exemplares.

E quer no pudor dos lares.
Quer no horror dos lupanares.
Cheiram sempre os teus cantares

Ao ar dos melhores ares,
Pois são simples, invulgares.
Quintana, os teus quintanares.

Por isso peço não pares,
Quintana, nos teus cantares...
Perdão! digo quintanares.

1966
A Antologia Poética recebe em dezembro daquele ano o Prêmio Fernando Chinaglia, por ter sido considerado o melhor livro do ano.

Recebe inúmeras homenagens pelos seus 60 anos, inclusive crônica de autoria de Paulo Mendes Campos publicada na revista Manchete no dia 30 de julho. Arte Chagas/Diário de S.Maria, publicado em 02-03-2006

Preso à sua querida Porto Alegre, mesmo assim Quintana fez excelentes amigos entre os grandes intelectuais da época. Seus trabalhos eram elogiados por Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Morais, Cecília Meireles e João Cabral de Melo Neto, além de Manuel Bandeira. O fato de não ter ocupado uma vaga na Academia Brasileira de Letras só fez aguçar seu conhecido humor e sarcasmo. Perdida a terceira indicação para aquele sodalício, compôs o conhecido

Poeminho do Contra

Todos esses que aí estão
atravancando meu caminho,
eles passarão...
eu passarinho!

1967
A Câmara de Vereadores da capital do Rio Grande do Sul — Porto Alegre — concede-lhe o título de Cidadão Honorário.

Passa a publicar Do Caderno H no Caderno de Sábado do Correio do Povo (até 1980).

1968
Quintana é homenageado pela Prefeitura de Alegrete com placa de bronze na praça principal da cidade, onde estão palavras do poeta: "Um engano em bronze é um engano eterno". Falece seu irmão Milton, o mais velho.

Quintana

1973
Nesse ano o poeta e prosador lançou, pela Editora Globo — Coleção Sagitário — o livro Do Caderno H. Nele estão seus pensamentos sobre poesia e literatura, escritos desde os anos 40, selecionados pelo autor.

Despreocupado em relação à crítica, Quintana faz poesia porque "sente necessidade interior", segundo suas próprias palavras.

1975
Publica o poema infanto-juvenil Pé de Pilão, co-edição do Instituto Estadual do Livro com a Editora Garatuja, com introdução de Érico Veríssimo. Obtém extraordinária acolhida pelas crianças.

1976
Por ocasião de seus 70 anos, o poeta é alvo de excepcionais homenagens. O Governo do Estado concede-lhe a medalha do Negrinho do Pastoreio — o mais alto galardão estadual.

Quintanares é impresso, em edição especial, para ser distribuído aos clientes da empresa de publicidade e propaganda MPM.

É lançado o seu livro de poemas Apontamentos de História Sobrenatural, pelo Instituto Estadual do Livro e Editora Globo.

Sobre esse seu livro, diz Quintana:
"Eis o meu primeiro livro cujos poemas saem mais ou menos na sua ordem cronológica. Porque antes, se reuniam numa ordem lógica: sonetos com seus companheiros de lirismo um tanto boêmio, canções com suas irmãs de dança, quartetos filosofando uns com os outros, diante da seriedade que se presume existir num simpósio, poemas em prosa proseando sobre isto ou aquilo, poemas oníricos com suas perigosas magias de aprendizes de feiticeiros."

1977
A Vaca e o Hipogrifo, segunda seleção de crônicas, é publicado pela Editora Garatuja.

O autor recebe o Prêmio Pen Club de Poesia Brasileira, pelo seu livro Apontamentos de História Sobrenatural.

1978
Falece, aos 83 anos, sua irmã D. Marieta Quintana Leães.
Realiza-se o lançamento de Prosa & Verso, antologia para didática, pela Editora Globo.
Publica Chew me up slowly, tradução Do Caderno H por Maria da Glória Bordini e Diane Grosklaus para a Editora Globo e Riocell (indústria de papel).

1979
Na Volta da Esquina, coletânea de crônicas que constitui o quarto volume da Coleção RBS, é lançado, Editora Globo.
Objetos Perdidos y Otros Poemas é publicado em Buenos Aires, tradução de Estela dos Santos e organização de Santiago Kovadloff.

1980
Seu novo livro de poemas é publicado pela L&PM Editores - Porto Alegre: Esconderijos do Tempo.

Mario Quintana (foto: Paim - Caderno Cultura/ZH 18-02-2006)

Recebe, no dia 17 de julho, o Prêmio Machado de Assis conferido pela Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra.

Participa, com Cecília Meireles, Henrique Lisboa e Vinicius de Moraes, do sexto volume da coleção didática Para Gostar de Ler, Editora Ática.

1981
Participa da Jornada de Literatura Sul Rio-Grandense, uma iniciativa da Universidade de Passo Fundo e Delegacia da Educação do Rio Grande do Sul. Recebe de quase 200 crianças botões de rosa e cravos, em homenagem que lhe é prestada, juntamente com José Guimarães e Deonísio da Silva, pela Câmara de Indústria, Comércio, Agropecuária e Serviços daquela cidade.

No Caderno Letras & Livros do Correio do Povo, reinicia a publicação Do Caderno H.

Nova Antologia Poética é publicada pela Editora Codecri - Rio de Janeiro.

1982
O autor recebe o título de Doutor Honoris Causa, concedido pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, no dia 29 de outubro de 1982.

1983
É publicado o IV volume da coleção Os Melhores Poemas, que homenageia Mário Quintana, uma seleção de Fausto Cunha para a Global Editora - São Paulo.

Na III Festa Nacional do disco, em Canela (RS), é lançado um álbum duplo: Antologia Poética de Mário Quintana, pela gravadora Polygram.

Publicação de Lili Inventa o Mundo, Editora Mercado Aberto - Porto Alegre, seleção de Mery Weiss de textos publicado em Letras & Livros e outros livros do autor.

Por aprovação unânime da Assembléia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul, o prédio do antigo Hotel Magestic (onde o autor viveu de 1968 a 1980), tombado como patrimônio histórico do Estado em 1982, passa a denominar-se Casa de Cultura Mário Quintana.

1984
Ocorrem os lançamentos de Nariz de Vidro, seleção de textos de Mery Weiss, Editora Moderna - São Paulo, e O Sapo Amarelo, Editora Mercado Aberto - Porto Alegre.

1985
O álbum Quintana dos 8 aos 80 é publicado, fazendo parte do Relatório da Diretoria da empresa SAMRIG, com texto analítico e pesquisa de Tânia Franco Carvalhal, fotos de Liane Neves e ilustrações de Liana Timm.

1986
Ao completar 80 anos, em 1986, é publicada a coletânea 80 Anos de Poesia, organizada por Tânia Carvalhal, Editora Globo.

Recebe o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade do Vale dos Sinos (UNISINOS) e pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

Lança Baú de Espantos, pela Editora Globo, uma reunião de 99 poemas inéditos.

Mario Quintana - 28-06-1987.

1987
São publicados Da Preguiça como Método de Trabalho, Editora Globo, uma coletânea de crônicas publicadas em Do Caderno H, e Preparativos de Viagem, também pela Globo, reflexões do poeta sobre o mundo.

1988
Porta Giratória, pela Editora Globo - Rio de Janeiro, é lançada, uma reunião de crônicas sobre o cotidiano, o tempo, a infância e a morte.

1989
Ocorre o lançamento de A Cor do Invisível pela Editora Globo - Rio de Janeiro.

Recebe o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Campinas (UNICAMP) e pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

É eleito o Príncipe dos Poetas Brasileiros, entre escritores de todo o Brasil.

1990
Velório sem Defunto, poemas inéditos, é lançado pela Mercado Aberto.

1992
A editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) reedita, em comemoração aos 50 anos de sua primeira publicação, A Rua dos Cataventos.

1993
Poemas inéditos são publicados no primeiro número da Revista Poesia Sempre, da Fundação Biblioteca Nacional/Departamento Nacional do Livro.

Integra a antologia bilíngüe Marco Sul/Sur - Poesia, publicada Editora Tchê!, que reúne a poesia de brasileiros, uruguaios e argentinos.

Seu texto Lili Inventa o Mundo é montado para o teatro infantil, por Dilmar Messias.

Treze de seus poemas são musicados pelo maestro Gil de Rocca Sales, para o recital de canto Coral Quintanares - apresentado pela Madrigal de Porto Alegre no dia 30 de julho (seu aniversário) na Casa de Cultura Mário Quintana.

1994
Alguns de seus textos são publicados na revista literária Liberté, - editada em Montreal, Quebec, Canadá - que dedicou seu 211º número à literatura brasileira (junto com Assis Brasil e Moacyr Scliar).

Publicação de Sapato Furado, pela editora FTD - antologia de poemas e prosas poéticas, infanto - juvenil.

Publicação pelo Inst. Estadual do Livro, de Cantando o Imaginário do Poeta, espetáculo musical apresentado no Teatro Bruno Kiefer pelo Coral da Casa de Cultura Mário Quintana, constituído de poemas musicados pelo maestro Adroaldo Cauduro, regente do mesmo Coral.

Falece, em Porto Alegre, no dia 5 de maio de 1994, próximo de seus 87 anos, o poeta e escritor Mario Quintana.

"Quando eu morrer e no frescor da lua/ Deixai-me em paz na minha quieta rua...".

(...) Sua morte aconteceu quatro dias depois da tragédia de Ayrton Senna, em 5 de maio de 1994, e comoveu tremendamente o Rio Grande do Sul. O ficcionista Sergio Faraco, amigo fiel de três décadas, guarda a despedida com a nitidez de ontem. "A morte dele, para mim, foi muito dolorosa, não só pela perda de um amigo e de um grande poeta que, embora idoso, ainda escreveria seus belos e sentidos poemas, mas pelas circunstâncias em que se deu. Estávamos ao lado dele na UTI do Hospital Moinhos de Vento, Elena e eu, segurando-lhe as mãos. Mario já não falava, já não ouvia, a agonia se prolongava e então desci para fumar um cigarro no pátio do hospital, com o propósito de retornar logo e acompanhá-lo até o fim. Naqueles escassos minutos que permaneci no térreo, ele morreu. Nunca me perdoei por essa absurda deserção justamente no instante em que ele deixou de respirar e partiu para o céu dos poetas. Quintana talvez quisesse falecer como cantou: "sozinho como um bicho". (...)

(Fabrício Carpinejar - Revista Entrelivros, edição nº12, abril/2006). Mario Quintana no seu quarto

Escreveu Quintana:
"Amigos, não consultem os relógios quando um dia me for de vossas vidas... Porque o tempo é uma invenção da morte: não o conhece a vida - a verdadeira - em que basta um momento de poesia para nos dar a eternidade inteira".

E ainda: “Quando morremos, acontece com as nossas esperanças o mesmo que com esse brinquedo de estátuas, em que todos se imobilizam de súbito, cada qual na posição do momento. Mas as esperanças têm menos paciência. E vão imediatamente continuar, no coração dos outros, o seu velho sonho interrompido”.

E, brincando com a morte: "A morte é a libertação total: a morte é quando a gente pode, afinal, estar deitado de sapatos".

“Morte: nada de maior; simples passagem de um estado para outro – assim como quem se muda do estado do Rio Grande do Sul para Santa Catarina”.

Ou ainda: "A morte deveria ser assim: um céu que pouco a pouco anoitecesse e a gente nem soubesse que era o fim..."

Da Morte
Um dia... pronto! me acabo.
Pois seja o que tem de ser.
Morrer que me importa?... O diabo
É deixar de viver!



Mario Quintana e Bruna Lombardi, em 2002.

Discreto quanto à sua vida pessoal, Mario Quintana teve duas grande paixões platônicas assumidas em versos: Cecília Meireles e Bruna Lombardi. "A amizade é um amor que nunca morre", disse Quintana. Ele e Bruna, roteirista de filmes e poeta, se conheceram nos anos 80, durante uma Feira do Livro em Porto Alegre e se tornaram muito amigos. Ela foi diversas vezes apontada como a musa do poeta. Bruna, na sua última vinda ao R.G.Sul, declarou: "A nossa amizade foi baseada nisso: uma pequena e mútua companhia". Quando perguntada sobre quais lembranças tinha de Mario Quintana, Bruna respondeu: " Passeando com ele pelas ruas de Porto Alegre, tomando café, olhando as pessoas e imaginando o que elas pensavam ou o que faziam."

Abaixo, o último poema escrito por Bruna Lombardi para Mario Quintana.

Onde quer que você
esteja
veja que agora
em algum lugar alguém
chora
porque você foi
embora.

Eu sei que você
continua
por aí nesse universo
achando rima pra verso
com humor e
melancolia
Perplexo feito criança
diante de cada mistério
sua sutil sabedoria
nota coisas tão
pequenas
que outro não notaria

E aqueles que ficaram
por aqui, nessa
passagem,
sentem no céu esse
anjo
que você sempre escondia
e desejam boa viagem.




2006 - Ano do Centenário de Mario Quintana

"Ainda estou no primeiro impulso do balanço. Ainda não completei a volta." (M.Quintana)

Muito se falou sobre o poeta "caladão, introspectivo" - segundo ele mesmo - , durante o ano de 2006, ano em que ele chegaria ao centésimo aniversário. O "Ano do Centenário de Mario Quintana" foi instituído pelo Governo do Estado do R.G.Sul, através do Decreto n.º 43.810, de 24 de maio de 2005. Ao longo de todo o ano de 2006, a vida e obra de Mario Quintana foram lembradas em uma extensa programação de eventos culturais e muitos jornais, rádios e TVs prestaram inúmeras homenagens ao poeta.

Também em sua cidade natal, Alegrete, uma programação cultural especial foi realizada e o jornal Gazeta de Alegrete instituiu uma edição Especial sobre o seu poeta maior, na edição de 29 de julho - véspera do dia dos 100 anos de nascimento do poeta.

Transcrevemos abaixo algumas opiniões e textos sobre o poeta (recentes e antigas).

O que eles disseram...

"Quintana é um conjunto sólido e impressionante de lirismo".

"Quintana nasceu numa cidade interiorana, dessas que crescem mais em direção
à memória do que em direção ao futuro."

(Armindo Trevisan)
(Poeta gaúcho).

"Não sei de outro poeta em que o poema seja uma
consubstanciação tão perfeita entre viver e cantar,
entre sofrer vivendo e sofrer cantando".

>(Augusto Meyer)

"... descobri outro dia que o Quintana, na verdade, é um anjo disfarçado de homem.
Às vezes, quando ele se descuida ao vestir o casaco, suas asas ficam de fora.
(Ah! Como anjo seu nome não é Mario e sim Malaquias)..."


(Érico Verísssimo)

"No Ouintana's Bar,
sou assíduo cliente.
É um bar que não é bar,
é um bar diferente."


(Carlos Drummond de Andrade)

(..) "Um lirismo quase puro como o de Mario Quintana é raro em nossa poesia moderna.
Ele soube manter-se fiel ao seu gênio poético, à sua vocação lírica, quando tantos
em torno dele se esgotavam em caminhos equivocados.
Autêntico, elaborado e musical, ele tornou-se o que é, não só um dos maiores poetas brasileiros,
como também um dos grandes líricos contemporâneos - irmão inteiro dessa família
que se faz compreender em qualquer tempo e em qualquer língua".


Fausto Cunha
(crítico, ensaísta e contista pernambucano, que já publicou estudos sobre Mario Quintana).


"Quintana não é poeta regional, pois sua poesia não é localista.
Também ainda não é nacional por não ter uma recepção uniforme no país.
Prefiro dizer que Quintana é um poeta universal porque sua poesia fala a todos,
e expressa a condição humana, explorando a reflexão sobre a vida e sobre a morte.
Vejo que o relançamento de seus livros deve contribuir para a difusão do poeta no Brasil".


Tania Franco Carvalhal
(Crítica literária, organizadora da obra completa de Quintana).


"Tentou entrar para a Academia, mas por quatro vezes foi derrotado.
A imortalidade veio da admiração dos leitores".

"Mesmo revisitando formas clássicas como o soneto, Quintana manteve-se
avesso aos ornamentos fúteis, seus textos têm uma vivacidade, humor e
um tom coloquial mágico"
.

Astier Basílio
(Jornal da Paraíba, 22-10-06).


"É um poeta de excepcional delicadeza. A sua poesia se destaca por ser simples, suave e profunda".

(Antônio Callado)


Carta aberta a Quintana: "...Alguns dos teus poemas e muitos dos teus versos não precisam
estar impressos em tinta e papel: eu os carrego de cores, às vezes, brotam espontaneamente
de mim como se fossem meus. De certo modo, são meus, e hás de convir que a glória maior do poeta
é conceder essas parcerias anônimas pelo mundo...
".

Paulo Mendes Campos.
(Carta publicada no dia 30 de julho, em sua coluna na revista Manchete, nos 60 anos de Quintana).


"Ele consegue o milagre de prolongar a infância.(...) Uma nostalgia, uma faz-de-conta, um reino mágico.".
Hélio Póvoas
(Poeta e diplomata gaúcho).


"A poesia é o brinquedo das cismas. Os poetas foram crianças sós e pobres que adoravam se divertir com os próprios devaneios, substituindo com vantagens, para o desenvolvimento de sua criatividade, as programações estandardizadas dos jardins de infância e os discutíveis brinquedos pedagógicos, não obstante o primeiro impacto de sua engenhosidade. Entregue a si mesma, sua imaginação recebe e emite aladas mensagens, através do resplendor mágico que anima de gradações de arco-íris o suceder de seus dias".
Cyro Martins, em "Nota sobre Mario Quintana".
(Escritor e médico gaúcho).


"Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa condição de poema" - foi assim que ele definiu
sua poesia e, em parte, se definiu. Cultivava, sem dúvida, uma nostalgia existencial
que os críticos julgaram expressão de passadismo. A sutileza de seu humor chegava às vezes à total irreverência,
a visão lírica da aventura humana, o menino atrás da vidraça, o homem que mora dentro dele mesmo: o poeta.
(...) Foram os jovens que descobriram Quintana, já ancião mas ainda poeta"
.

(Carlos Heitor Cony)


"Mario Quintana introduziu na poesia um humor lírico, às vezes evasivo, suficiente, malicioso, inteligente. O humor que ri com seus fantasmas, de quem nunca se libertou, nem quiz libertar-se. Sua poesia desde o princípio na imagética é igual. Mudou apenas no tom mais sofrente.".

Carlos Nejar
(Poeta gaúcho, membro da Academia Brasileira de Letras).


"A imagem que se tem de Mário Quintana é a de um poeta muito querido, relativamente fácil de ler, uma espécie de anjo brincalhão da poesia. Tanto que seus poemas saltam aos olhos pela singeleza das imagens, como se saídas de um circo de objetos díspares e familiares, de intensa afetividade. Hoje, depois de tantas vezes ler e reler Quintana, me convenço de uma coisa: seus poemas de alto grau de comunicação com o leitor não prescindem também de uma qualidade ímpar, como um pacto feito por um anjo para fazer com que, mesmo na simplicidade, sua poesia não abdicasse de um refinamento. O que o coloca, mesmo contradizendo as primeiras críticas,
como dono de uma lírica só sua e com traços que não o atrasam em relação ao modernismo"
.

André Ricardo Aguiar
(Escritor paraibano, no Jornal da Paraíba, 8/8/2006 - "Quintana, aprendiz e inventor").




A HOMENAGEM DOS ESCRITORES NA COMEMORAÇÃO DOS 100 ANOS DE QUINTANA

Para marcar a data dos 100 anos do nascimento de Mário Quintana, vários jornais prestaram homenagens ao poeta, não só no Rio Grande do Sul, como em outros estados. Abaixo, alguns desses textos.


À SOMBRA DE UM IPÊ

Alcy Cheuiche*
Escritor alegretense, autor de Lord Baccarat e O Mestiço de São Borja.

Jornal Zero Hora, Porto Alegre/RS - Segundo Caderno, de 19-07-2006.

À sombra de um ipê da Praça Getúlio Vargas, em Alegrete, uma pedra expõe a famosa placa em homenagem a Mario Quintana: um engano em bronze é um engano eterno. Mas essa frase é apenas um outro dos seus Quintanares. Mario assistiu à inauguração da placa, de mãos dadas com a irmã Marieta, num longínquo entardecer de 1968.

Naquela ocasião, a pedido do prefeito Adão Houayek, coube a mim falar em nome de seus conterrâneos. E lembrei a todos de uma noite de julho de 1906, quando Alegrete recebeu a visita de Mercúrio. O mensageiro dos deuses desceu suavemente na Rua dos Cataventos, diante de uma janela iluminada pelo luar. Espiou para dentro do quarto onde dormia um menino recém-nascido. Os olhinhos azul-claros abriram-se de imediato. Mercúrio sorriu, recolheu o bebê e com ele aninhado nos braços retomou ao Olimpo.

Júpiter esperava imponente, cercado de muitos deuses. O mensageiro depositou-lhe o bebê aos pés. O deus maior correu o olhar em torno: Este menino será um grande entre os homens. Por que caminho o faremos chegar a seu destino? Marte deu um passo à frente: Pelo caminho das armas. Mercúrio discordou: O comércio é o melhor caminho. Ceres o queria agricultor, Esculápio médico. Mas a palavra final foi de Minerva: Ele já nasceu poeta.

Hermes devolveu o bebê à sua cidadezinha, antes que o primeiro galo acordasse a madrugada. E o menino Mario seguiu à risca o seu destino. Durante toda a vida dedicou-se apenas à poesia. E escreveu nos bares (e nas mansões secula­res) alguns dos mais lindos versos da Língua Portuguesa. Entre eles, recordo um dos mais carregados de esperança:

A bomba abriu um enorme buraco no telhado
por onde o céu azul sorri aos sobreviventes.

No dia 16 de maio de 1994, nós, os sobreviventes, mesmo com os olhos marejados de lágrimas, não conseguimos ignorar o céu azul de Porto Alegre. Para onde, certamente, o nosso Mario já havia partido.


(*) http://assisbrasil.org/joao/cheuiche.htm



TORRE DO SONO

Élvio Vargas*
Poeta alegretense

O poema Torre do Sono, do poeta alegretense Élvio Vargas, foi recitado pelo ator João Batista Dimmer, no dia 30 de julho de 2006, na Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre, abrindo a festa de comemoração do Centenário de nascimento do poeta Mario Quintana. Esse poema foi escrito no dia da morte do poeta.

Vai, Mário, vai assim
deslizando entre os dedos
o vento de vidro da infância.
Vai, contigo o carrilhão
da vida, escoltado
pela fúnebre orquestra dos grilos.
Vai, Mário, vai assim
carregado pela alma de cristal
da tua cidade de brinquedo.
Vai com esse jeito infinito
de quem solta moedinhas
no rastro das manhãs.
Vai para Bizâncio
lá não dormem os pássaros
nem os poemas.
Vai, poeta,
a morte é a torre do sono.


(*) http://assisbrasil.org/joao/elvio.htm



AMAR A VIDA

Paulo Sant'ana
Colunista do Jornal Zero Hora, Porto Alegre/RS, em 01-08-2006.

Completou cem anos de idade no domingo o poeta Mario Quintana. Ele se torna cada vez mais popular, sua obra de intensidade luminosamente filosófica atrai cada vez mais a curiosidade dos brasileiros, que querem saber por que nós, gaúchos, o amamos tanto.

Foi sacrificado em vida o nosso grande poeta, era desprezado pelos maiores poetas e escritores brasileiros por julgarem-no popularesco, acessível demais para os leitores, há um mito na literatura de que o autor deve por vezes manter-se hermético para seus leitores, o seu não-desvendamento total o faz respeitado.

Com Mario Quintana não havia isso, ele não procurava se tornar superior a seus leitores, não se fazendo entender por eles. Atingia com facilidade o âmago de compreensão dos leitores, ia direto na exposição carnal dos seus aforismos e versos.

Nunca ninguém como ele percebeu tanta alma e vida nos objetos e ambientes comuns, nos seus anjos e grilos, nas árvores, nas flores, nos paralelepípedos, nos cata-ventos, em qualquer recanto obscuro da cidade, nunca ninguém como ele tornou ilustres as pessoas mais anônimas, solitárias e abandonadas, as velhas gordas, os anciãos, as mães cansadas de tanto trabalho doméstico, as crianças entretidas na sua alegria delirante por desconhecerem e desprezarem o futuro.

Mario Quintana tresandava tanta poesia, que não teve tempo de casar-se. Ou sentia tanto a poesia dentro de si que bastava casar-se consigo próprio para transmiti-la. Ou quem é casado atrapalha-se tanto entre as aflições conjugais que não consegue voltar-se para a poesia.

Ninguém como Quintana encontrou tanto conteúdo nas coisas aparentemente insignificantes, em tudo que estava a seu redor apensou um brilho artesanal.

Ele era um ser perplexo diante de tudo que se movia ou estava estático, parecia viver agradecendo a Deus por ter-lhe dado olhos e ouvidos para perceber o que à vista e aos ouvidos comuns era indiferente, deu imenso valor e tornou digno o comportamento trivial das pessoas, sublimou o banal e ainda teve tempo para aprofundar ainda mais o extasiamento às estrelas, ao sol e ao luar.

Eterniza-se cada vez mais o alegretense que elegeu Porto Alegre como seu Éden, porque ninguém como ele foi tão agradecido à criação por tê-lo feito espectador basbaque dos segredos resplandecentes dos detalhes impressentidos da vida, que passam todos os dias diante dos nossos olhos cegos a tanta rutilância.

Escavava em cada cena humana de aparente vulgaridade flagrantes de fulgor cegante.

Chamou-nos à atenção de que cada manhã que surge oferece-nos a felicidade do deleite da observação, transfigurou em meiguice a brutalidade da rotina e do tédio, adornou com cores de ternura a pobreza, o trabalho e a velhice.

Fez cem anos no domingo o poeta solteirão Mario Quintana. Nunca mais vai parar de fazer aniversários, ele curte agora de mãos dadas com seu gigante irmão de poesia, o conterrâneo Lupicínio Rodrigues, o gozo máximo da eternidade.

Ambos, depois da morte, foram vendo crescer cada vez mais, como uma pirâmide em demanda do infinito, o reconhecimento póstumo de suas obras.

Ao contrário do que escreveu, Mario Quintana cada vez mais com a passagem dos tempos nunca perderá o jeito de sorrir que tinha.

Ninguém nunca teve o jeito de amar a vida que tinha Quintana, ninguém saboreou melhor a vida que ele, tragou-a com a delícia com que tragava seus cigarros.

Ah, poeta, a grande lição que nos deixaste foi a de que a melhor maneira de enfrentar a morte é amar a vida sobre todas as coisas.



UM MENINO OUVINDO ATRÁS DA PORTA

Fabrício Carpinejar
Poeta e jornalista gaúcho.

Texto publicado em 2006, na homepage do Governo do Estado do R.G.Sul (http://www.estado.rs.gov.br/marioquintana/ ).

O poeta mato-grossense Manoel de Barros é um dos escritores que herdaram essa linhagem infantil de Mario Quintana, de dizer como as coisas sonham mais do que são. Barros fala como uma criança. Quintana fala como um adulto que conta uma história para uma criança. Não reescrevia o mundo como um menino, o descrevia para o menino. Mario acreditava que o leitor era a criança, decorrendo dessa opção o uso recorrente de diminutivos. Os diminutivos dão uma noção de canção de ninar. Uma canção de ninar para a criança gritar e escapar enquanto há chance.

“Ah, sempre que se sonha alguma coisa
tem-se a idade do tempo em que a sonhamos:
Me esqueci do futuro...”

(Do livro Apontamentos de história sobrenatural)

As reticências serviam para não deixar os versos solteiros. Lúdico porque não permitia que a seriedade fosse maior do que a ternura. Bandeira o chamava de “campeão da ternura”. Ele ainda o é. Ele dorme de sapatos, enfim, liberto dos cadarços das ruas.



PASSARINHANDO INFÂNCIAS

Fabrício Carpinejar
Escritor e jornalista gaúcho.

Texto publicado na Revista Entrelivros - edição nº12, abril/2006 - na reportagem
MARIO QUINTANA UM PAR DE SAPATOS PARA A POSTERIDADE, do mesmo autor. Arte Chagas/Diário de S.Maria, publicado em 02-03-2006

Quintana não é o poeta da dúvida, mas da curiosidade confiante. Estava com um pé direito no quarto e o esquerdo na sala de estar. Em sua poesia, não interfere no mundo, assiste como um fantasma de si, que sabe um pouco mais do que os vivos. Este adicional intuitivo o fazia escutar os mortos na mesma freqüência dos despertos. "Sonhar é acordar-se para dentro".

Sua lírica é obcecada pelos sapatos. Poucos calçaram com tanto conforto um par de solas gasto e macio, a sublimar a solidão do caminhante, a esmo, sem um endereço certo para voltar. Quintana nunca se portou como um residente, porém como um hóspede (morou praticamente em hotéis e pensões), provisório e atento. A imagem do calçado reincide em diferentes fases, como a repicar - sem parar - o som dos seus passos nas ruas baldias de Alegrete.

Ele redescobriu o interior na capital gaúcha, apagou a modernidade em nome do recolhimento apaziguador da memória. Catava os becos silenciosos, as travessas vazias a cicatrizar as linhas do bonde. Sua cidade avançava para trás na linha do tempo. Quanto mais antiga, mais atual. Preferia os esconderijos atemporais, os desvãos, os sobrados. Porto Alegre bastou-lhe como uma maquete ancestral, um rascunho de mapa. Menino envelhecido que desejava atravessar o universo numa noite.

Com as reticiências simbolistas, as exclamações e os diminutivos das cantigas de roda, as comparações surrealistas, a nostalgia romântica e um vocabulário coloquial, Quintana firmou seu estilo moderno com roupas de brechó. Combinar peças antigas não é para qualquer um. Sua elegância consistia em vestir o necessário. O controle das formas reflete-se na metapoesia, na preocupação em conceituar reiteradamente o poema. Quintana, na maioria de seus títulos, discute o ofício de escritor, seja zombando da precariedade, seja revelando a alquimia de seus desejos.

Um novo paralelo para descrever o seu estilo é a de um carro antiquado com motor envenenado. Não recomendo fazer um pega com ele na sinaleira. A aparência formal é a de menos, pois seus sonetos ou heptassílabos se prendem e se moldam aos temas, e não à linguagem e a um mero exercício de estilo. Sob o escudo da ingenuidade, ele prefere verdades duras. O ar de orfandade permite a opinião ácida.

Quintana alentava a imagem de sofredor como charme e sedução, a carência funciona como isca da credibilidade. Um pessimismo entusiasmado, de aguda consciência, característico da autocrítica. Ele desabona o comportamento dos outros a partir do seu. Persuade por se incluir nos defeitos, eliminando traços de autoritarismo e de sermão. O tom infantil chama para perto, provoca intimidade, enquanto o pensamento adulto aprofunda a voz e a crença. Um vô com espírito arruaceiro de guri. Sua poética é desmerecida pelo descompromisso com as agruras da realidade. Ele levantava os ombros com desdém, a concluir que não precisava forçar o engajamento social e político. A singeleza é cativante. Poemas legíveis, diretos, comunicativos e soprados de lado como confidências. O que leva o crítico Antonio Carlos Secchin a qualificar como "uma deliciosa e enganadora sensação de que é fácil escrever poesia, poemas que aparentam fluir sem um esforço de construção, pelo clima e pela ponte de descontração".



QUINTANA E O PAI

Jayme Copstein*
Jornalista gaúcho, com atividade em jornal e rádio desde 1943. Atualmente, é comentarista de opinião da Rádio Gaúcha.

30-05-2006.

Quando fui para o Correio do Povo, em abril de 1968, coube-me a mesa confronte à de Mario Quintana. A coincidência marcou o início de longos papos descompromissados, logo transformados em amizade. Muito anos depois, quando ele fez o testamento em favor da sobrinha Helena, Antônio Carlos Ribeiro e eu fomos as testemunhas. Mario desejava manter a privacidade da decisão e nos escolheu como amigos de confiança.

As confidências trocadas naquela redação, onde muitas vezes, em domingos e feriados, éramos os dois únicos habitantes do planeta, foram muitas, inclusive sobre o período em que teve problemas de alcoolismo. Contava que na Clínica Pinel lhe haviam detectado pequena deficiência de condução elétrica no cérebro, cujos sintomas a embriaguez aliviava. Substituída a bebida por um medicamento adequado, nunca mais pôs álcool na boca.

Aí paravam as confidências sobre o alcoolismo. Havia algo, entretanto, de que ele não falava. Segundo depoimento de outras pessoas, seu comportamento, quando embriagado, era nitidamente autopunitivo. Abordava os freqüentadores dos bares com grosserias, para lhes esgotar a paciência e ser por eles agredido.

Mais lacônicas, ainda, eram suas referências ao pai que, alarmado com as “poetices”, dele quisera fazer “um homem”, mandando-o estudar no Colégio Militar. A caserna haveria de ensiná-lo.

Em vão. Eliminado do curso pelas sucessivas reprovações em matemática, Mario empregou-se na Livraria do Globo para estar perto dos livros e dos escritores. O pai o tirou de lá porque não queria filho vagabundo, zé-ninguém. A relação entre os dois tornou-se crítica.

Mario tentou sepultar conflito no silêncio que reina sobre a figura paterna em sua poesia desta fase, se é que se pode chamar assim a que vai até o tratamento e a cura do alcoolismo. Mas há evidente sentimento de culpa nas grosserias, quando embriagado, em busca de punição.

O conflito começou a ser resolvido com o apoio psicológico recebido na Pinel. Logo em seguida, o início da reconciliação com a figura paterna aparece no poema “O Velho no Espelho”:

(...) Nosso olhar – duro – interroga:
O que fizeste de mim
Eu, Pai,
Tu é que me invadiste.
Lentamente, ruga a ruga. Que importa
Eu sou ainda
aquele mesmo menino teimoso de sempre
e os teus planos enfim lá se foram por terra
mas sei que vi, um dia - a longa, a inútil guerra!- vi sorrir nesses cansados olhos
um orgulho triste.

A reconciliação torna-se definitiva, depois, em outro poema, “As mãos de meu pai”:

As tuas mãos têm grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já cor da terra
- como são belas as tuas mãos
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram da nobre cólera dos justos
Porque há nas tuas mãos, meu velho pai, essa beleza que se chama simplesmente vida.

Mas então, Mario Quintana já libertara em si a figura doce, cuja lembrança é a que todos guardamos dele.



MUITAS AFINIDADES, e assim foi.

Dulce Helfer*
Fotógrafa gaúcha

Jornal Zero Hora, Porto Alegre/RS - Caderno Cultura, de 18-02-2006.

Mario parece mais vivo do que nunca neste ano em que só se fala nele. Convivemos bastante nos últimos 10 anos de sua vida. Três a quatro vezes por semana, tomávamos cafés, acompanhados de musses. Seus originais eram lidos para mim, e muitos deles, depois de passados a limpo, me eram dados com dedicatórias carinhosas.

Mario Quintana

Não sei bem como tudo começou. Na verdade, apesar de sua idade, Mario tinha melhor memória que eu. Só sei que desde a primeira vez em que nos encontramos soubemos das afinidades que certamente alimentaríamos. Assim foi.

Naquela época, ele morava no Hotel Royal, a respeito do qual depois falou que não era jóia para viver numa caixinha. Com a mudança para o hotel da Rua André da Rocha, ficamos geograficamente mais próximos, eu costumava visitá-lo tanto no meio da tarde quanto nas madrugadas, já que os dois dormíamos tarde.

Nunca vi Mario como um velhinho. Não tenho muita noção de idade, tenho amigos de todas as idades, menos da minha. Para mim, não fazia diferença caminhar até a pracinha na esquina do hotel e passear no meu carro com ele, ou ir para a balada com outras pessoas. A lucidez, o caráter e a personalidade dele me faziam bem, num mundo com tantos chatos.

Nota da webmaster:
*Dulce Helfer é a autora de algumas imagens que ilustram estas páginas. A amizade entre ela e o poeta começou a partir de um ensaio fotográfico de Quintana realizado por Dulce para o jornal ZH. Nos anos seguintes, a fotógrafa iria retratá-lo na intimidade, em registros espontâneos. - "Eu só soube depois da morte dele que era uma de suas melhores amigas, uma das poucas pessoas que freqüentavam a casa dele" - conta Dulce (Jornal ZH - Segundo Caderno, edição de 20-04-06).



OS QUINTANAS

Luiz Antônio de Assis Brasil
Escritor gaúcho

Jornal Zero Hora, Porto Alegre/RS - Segundo Caderno, de 15-03-2006.

Sempre que penso em Quintana, me ocorrem dois sentimentos: um é pessoal e humano, quiçá triste. O outro é de natureza literária.

No plano pessoal, Quintana provocou, na década final da vida, uma unanimidade em torno de seu nome. Todos gostavam de vê-lo nas entrevistas. Com inalterada cordialidade, ele estava pronto a responder às perguntas, e, quase sempre, com uma boutade de impecável inteligência. Praticava, de caso pensado poético e lúcido, algumas ingenuidades. Ao mesmo tempo ele percebia, sagaz, que o estavam cercando num processo de degradada infantilização. O que ele dizia era logo escandido no diminutivo, o que o relegava a uma idade pueril, anódina e assexuada. Constrangedor. Essa foi uma das maiores crueldades que perpetraram contra Mario ou contra qualquer outra pessoa de idade avançada.

No plano literário, as pessoas, pelo fato de sua brilhante verve pessoal, costumam esquecer o poeta notável que era Mario Quintana, capaz de escrever a obra-prima que é Chove! ( ver abaixo). Todos querem contar suas tiradas, e eu mesmo tenho uma: voltávamos de kombi, tarde da noite, de um longínquo interior. Mario quis apear num restaurante de beira de estrada. Sentados ambos à mesa, ele encomendou ao garçom quatro salsichões e uma taça de café preto. Preocupado, perguntei-lhe se aquilo não lhe iria fazer mal. A resposta: "Não, ao contrário! Isso vai ser muito bom para me dar pesadelos". É engraçado, é bonito e conotativo. Mas isso, em nenhuma análise, poderá substituir o estudo sério de sua obra poética. Curioso constatar como há dezenas de ensaios sobre poetas de outras paragens, e nenhum ou pouquíssimos sobre ele, ensaios verdadeiros, que o estudem com o mesmo afinco com que se debruçam sobre Fernando Pessoa ou Drummond.

É o momento de repensarmos Mario sob essas perspectivas, para que se possa, enfim, recuperar o verdadeiro homem, adulto, construído de nervos e carne, e o verdadeiro poeta, feito da mais fina sensibilidade literária. Enfim: os dois Quintanas.

Chove!

Chuva
Chuva
Chuva
Vontade
Chuva
De fazer não sei bem o
que seja
Vontade de escrever
Sagesse, de Verlaine
E a tarde gris, tão viúva,
Vai derramando
perenemente as suas
lágrimas de chuva
Abundantes
Cômica
Cômica
Cômica

(Do livro Preparativos de viagem)



MÁRIO QUINTANA, ENTRE A ESSÊNCIA E A APARÊNCIA

Antonio Hohlfeldt
Doutor em Letras, Professor da PUC-RS e vice-governador do Estado do R.G.Sul.

Jornal Zero Hora, Porto Alegre/RS - Segundo Caderno, de 22-03-2006.

A o longo dos anos em que trabalhei na redação do Correio do Povo, tive a oportunidade de conviver com o poeta Mario Quintana. Quintana parecia um "lunático": muitas vezes, falava-se com ele sem que aparentemente ele prestasse atenção. De repente, como que ele "se ligava" e indagava, com voz forte, extremamente aguda, como se ouvisse mal: "Hein?", dando ao mesmo tempo uma risada.

Mario parecia distanciado da realidade imediata, mas, ao contrário, era um homem extremamente atento a tudo o que ocorria em seu redor. Não por acaso, em certo poema, defende o jornal como fonte de poesia. Na verdade, a essência da poesia de Mario Quintana foi exatamente a vida cotidiana, quase invisível - possivelmente por sua rotina - quando surpreendida por um olhar mais apurado.

Aliás, boa parte dos poemas do escritor natural de Alegrete apresenta este fenômeno: a surpresa da realidade. Tem aquele em que o poeta escreve, alta madrugada, quando uma formiga cruza todo o branco da página. E o outro em que ele imagina uma rua, com suas casas, em um determinado bairro em que nunca habitará nem visitará ou conhecerá. O melhor de todos, para mim, contudo, é um poema de sua fase madura, quando surpreende as simpáticas avozinhas repentinamente despertadas de seus sonos nas cadeiras de balanço em que se movimentavam...

Por tudo isso, a poesia de Mario Quintana PARECE ser fácil. Foi essa a imagem que o público dele captou - por causa de sua simpatia, de seu sorriso permanente, de sua bonomia - e por isso mesmo o consagrou, transformando sua poesia numa literatura de enorme popularidade, traduzida nos inúmeros poemas de sua autoria que muitos conhecemos de cor. Mas a poesia de Quintana, na verdade, é densa, profunda, é uma poesia complexa, que toca em alguns dos temas mais dificeis, contraditórios e contemporâneos: a morte, a passagem do tempo, a tensão entre a essência e a aparência.

Trecho de "CADEIRA de BALANÇO"

Que sonho sonhei
que sinto inda um gosto
de beijo apressado?

- diz uma e se espanta:
Que idade terei?
Diz outra: - Eu corria
menina em um parque...
e como saberia
o tempo que era?

Os pensamentos dela
já não têm sentido..

A morte as embala,
as avozinhas
dormem
na deserta sala
onde o relógio marca
a nenhuma hora

enquanto suas almas
vêm sonhar no tempo
o sonho vão do mundo...
e depois se acordam
na sala de sempre

na velha cadeira
em que a morte as embala...

(Trecho retirado do livro Apontamentos de História Sobrenatural)



POETA DE PLACA

Tailor Diniz
Escritor gaúcho, autor de Um Terrorista no Pampa.

Jornal Zero Hora, Porto Alegre/RS - Segundo Caderno, de 29-03-2006.

Quando me mudei para Porto Alegre, em 1982, recém-formado em Jornalismo pela UFSM, vinha de ler Na volta da esquina (RBS/ Editora Globo, 1978) e ainda persistia na minha cabeça aquela idéia de que escritores não eram seres de carne e osso como qualquer mortal. Meu primeiro emprego foi como redator da Rádio Guaíba, onde trabalhava, à noite, até de madrugada. À época, além da rádio e do Correio do Povo, também funcionava no prédio da Caldas Junior a Folha da Tarde. E o pessoal todo jantava num bar, apelidado por nós de O Maria`s Sheraton, que ficava no mesmo andar da rádio.

Certa noite, antes de começar no batente, enquanto esperava meu PF preferido no Maria´s, espaguete e carne de panela, percebi que alguém sentava ao meu lado.
- Mario! - disse a Maria, esfregando as mãos no seu inseparável pano de pratos um tanto passado do ponto.
- Uma água Princesa e uma taça de café preto.
A Maria riu, condescendente com a reincidência:
- Já lhe disse que a água é Rainha, seu Mario.
- As duas são nobres! retrucou meu vizinho de balcão, com aquela irreverência que até então eu só conhecia do papel.

Certa vez a Maria Luiza Benitez chegou à redação, correndo, e disse que o seu Mario fora atropelado ali nas proximidades, mas já havia sido socorrido. Uns tempos depois, ao retomar sua costumeira visita à Liana Milanez, a Baiana, produtora do programa Agora, e única que tinha a prerrogativa de chamá-lo simplesmente de Mario e de tocar no assunto Bruna Lombardi, ele passou pela redação, meteu a cabeça na porta e anunciou: '"Agora sou um poeta de placa!". Referia-se à placa de platina que os médicos tinham lhe colocado numa perna por causa do acidente.

Foi assim que, depois de conhecer o Mario Quintana dos livros, vim a conhecer o seu Mario, o mortal que freqüentava o Maria's e, não poucas vezes, cuspia na calçada antes de entrar no prédio e se dirigir ao elevador.



QUINTANA, O APOSTADOR

Antônio Goulart
Jornalista e pesquisador gaúcho.

Jornal Zero Hora, Porto Alegre/RS - Segundo Caderno, de 05-04-2006.

Mario Quintana foi o protótipo do sujeito desligado do futebol, aliás, de qualquer esporte. Não torcia por nenhum clube. A dupla Gre-Nal nada representava para ele. Nem mesmo os jogos de uma Copa do Mundo, que agitavam a redação do jornal onde trabalhava, interferiam no seu costumeiro cismar poético.

Há, no entanto, em sua biografia uma particularidade pouco conhecida que, de certa forma, desmente tudo isso. Sou testemunha de que o nosso poeta maior cultivou, durante anos, com meticulosa rotina, uma estreita relação com o futebol ou, mais precisamente, com a loteria esportiva, hoje chamada de loteca.

Foi na segunda metade da década de 70, quando começou a participar, todas as semanas, do concurso de apostas. Claro que jamais prestou atenção nos nomes das equipes e menos ainda entrou numa casa lotérica para preencher um volante. Anos mais tarde, Quintana chegou a tomar gosto pela loteria de números, a Loto. Mas, quanto à esportiva, descobrira uma forma mais prática e simples de fazer a sua fezinha no jogo.

Todas as quintas-feiras à noite, ao encerrar seu expediente, passava pelo setor de esportes do antigo Correio do Povo para participar do "bolão" que o editor Paulo Moura e eu organizávamos. Era o apostador mais assíduo e pontual. Chegava sempre com a cota certa na mão: uma nota de dez. As vezes, contrariando a regra, tinha que revirar os bolsos à procura do dinheiro, tirando para fora vários papéis com rabiscos, endereços, cartas amassadas, rascunhos de poemas, mil coisas.

Cuidadoso (ou desconfiado?), Quintana nunca deixava de conferir se seu nome realmente ficara anotado na lista, repetindo, invariavelmente, o mesmo alerta: "Não esqueça de colocar aí o PG (pago)!". Jamais se preocupava em dar palpite ou em saber que tipo de aposta iria ser feita. "Confio cegamente nos entendidos em futebol", costumava dizer.

Na segunda-feira, a primeira coisa que fazia ao entrar na redação era se aproximar da nossa mesa para, discretamente, perguntar: "Como é, foi desta vez que ficamos ricos?". Diante da invariável resposta negativa ou da informação de que havíamos feito apenas nove ou dez pontos, tinha sempre um consolo: 'Até que fomos bem. Da próxima vez vai dar, com certeza". Nunca me ocorreu perguntar ao poeta o que faria com a parte dele, se um dia acertássemos os 13 pontos.



NA BATALHA DAS LETRAS

Celso Gutfreind
Poeta e psiquiatra gaúcho.

Jornal Zero Hora, Porto Alegre/RS - Segundo Caderno, de 19-04-2006.

Foi na adolescência que comecei a ler Mario Quintana. Já ali fiquei impressionado com seu Esconderijos do Tempo; em seguida, procurei outros lugares de sua obra e, ainda ali, um resquício de criança vibrou escondido com o doutor Queijando e com letras que eram como pessoas. Poucos anos depois, a vida me botou na frente dele. O jornalista Sérgio Saraiva chamou dois autores jovens, Ricardo Portugal e eu, para entrevistarem o poeta. Ele completava oitenta anos, enquanto mal tínhamos saído dos vinte. Ouviu atentamente as perguntas, respondeu. com piedade e humor; ao final, chamou-nos de vergonhosamente jovens. Bem feito para nós, que nos metíamos com o ritmo da experiência. Pior para ele que, dias depois, precisou consultar na emergência do Hospital Pronto Socorro, onde eu atendia como estagiário. O feitiço do aprendiz voltava-se contra o aprendiz de feiticeiro. Ele acusou o golpe ao me reconhecer: - Mas é o vergonhoso... Depois agüentou o tirão como quem aceita a pesada moeda, não da poesia como cantava, mas da vida como vivia. Era madrugada naquele canto insone da cidade. Supliquei a um colega de plantão que atendesse a um travesti esfaqueado e fui me ocupar do poeta. Seu nariz sangrava por causa de uma pressão alta. Mediquei-o, a pressão cedeu, mas o que mais lhe interessou foi o prontuário que eu preenchia para mostrar ao médico-chefe. Pediu licença para ler e encarou as palavras epistaxe hipertensiva. Ignorou o hipertensiva, mas se agarrou à epistaxe como quem encontra um tesouro. Contou algumas histórias, conversou novamente com piedade e humor. Mas não perdeu o brilho nos olhos, diante da palavra, ao longo daquela madrugada violenta do Pronto Socorro.

Em seu Caderno H e espalhado em outros livros, há muitos poemas sobre a própria poesia. São de alto nível, mas nada mais alto do que me ensinou, sem dizer nada, na noite cheia de feridos e solitários: a poesia pode ser o milagre de uma palavra encantada no meio do desespero. E eu, espécie de doutor Queijando vergonhosamente jovem, aprendi a graça de que as letras podem ser mais ritmadas do que a vida e a morte das pessoas.

"Há bens inalienáveis, há certos momentos que, ao contrário do que pensas, fazem parte de sua vida presente e não do teu passado. E abrem-se no teu sorriso mesmo quando, deslembrado deles, estiveres sorrindo a outras coisas".

Ah, nem queiras saber o quanto deves à ingrata criatura...
A thing of beauty is a joy for ever - disse há cento e muitos anos, um poeta inglês que não conseguiu morrer.




NOSTALGIAS


José Bicca Larré*
Jornalista e escritor alegretense, cronista do Diário de Santa Maria.

Do livro Crônicas do diário (maio/2007).

Insone, com o luar inundando meu quarto pela porta da sacada, chegou-me de mansinho uma nostalgia longínqua e incontida. Eram remembranças de coisas muito antigas e indeléveis. Cenas e passagens e figuras humanas que iam se encaixando, inconsúteis e breves, esgarçadas e leves.

Minhas tias Dindinha e Raquel e meus primos Nedda e Creso moravam numa ampla casa, na face leste da grande praça central do meu Alegrete. Eram duas grandes casas geminadas. Na outra, morava a família Quintana Leães. Dona Marieta Leães era irmã do poeta Mário Quintana, que residia em Porto Alegre. Dona Marietinha, como era chamada, tinha três filhos: duas meninas e um garoto de nome Celsinho (em homenagem ao avô materno). Celsinho e Creso brincavam juntos e eram colegas de classe. Eu era suburbano, mas a eles me juntava para dias inteiros de brincadeiras no pátio enorme da casa das minhas tias.

Creso c Celsinho beiravam os doze anos e eu era um ano menor. Em 1940 vivíamos uma venturosa infância, de pura alegria, ignorantes da segunda grande guerra mundial, que estourara na Europa em 1939.

Apesar das muitas brincadeiras do pátio e da praça, já líamos bastante. Havia muitos livros em casa. Uma estante cheia. Líamos poesias e contos, aventuras, passagens históricas. Naquele ano, "tio" Mário, como Celsinho chamava, publicara seu primeiro livro de poesias em Porto Alegre. Chamava-se A Rua dos Cataventos e tinha lindos sonetos, que não deviam nada aos de Alceu Wamosy e Olavo Bilac.

Num daqueles dias, de repente, estourou a notícia que nos deixou alvorotados e curiosos. "Tio" Mário chegaria dia tal para visitar o Alegrete, sua irmã Marietinha e seus sobrinhos. E havia mais de quatro anos que, por muito envolvido com a Editora Globo e com os jornais de Porto Alegre, Mário Quintana não vinha à sua patriazinha alegretense. Em nossas duas casas geminadas, e na cidade inteira, fez-se um bulício danado. A azáfama apontava para um grande acontecimento cultural.

No dia de sua chegada à casa de dona Marieta, ficamos do lado da nossa casa, pendurados no muro que separava os dois pátios, à espera da oportunidade de enxergar Mário Quintana. Tínhamos ordens expressas de não importuná-lo, pois necessitava descansar da viagem. Mas, à tardinha, antes de aprestar-se para um encontro com os literatos da cidade, no Clube Cassino Alegretense, eis que, do outro lado do muro, surge o nosso herói, caminhando na vereda lajeada sob a grande parreira da vizinha. Mãos nas costas, cabeça baixa, passo lento, Mário Quintana devia estar pensando no que dizer à noite, no Clube, a Felisberto Coelho, Ênio Guimarães Campos, Ciro Leães, Antônio Brasil Milano, Tirteu Vianna, Breno Silveira, ao jovem e talentoso estudante Hélio Ricciardi, e outros mais...

Nessa venturosa e rósea tarde de 1940, conheci pessoalmente Mário Quintana. Ele nos convidou a pular o muro e, do outro lado, ficou nos abraçando e mimando por um tempo longo e inesquecível.


(*) http://assisbrasil.org/joao/blarre.htm



O POETA

José Carlos Queiroga*
Escritor alegretense e editor da revista Tudinha.

Revista Arquipélago (Instituto Estadual do Livro e Cia. Riograndense de Artes Gráficas - Governo do Estado do R.G.Sul) - abril/2006 nº5, p.17

Enterro igual, nem o do Doutor Romário. O rabecão no cemitério e o cortejo ainda tinha auto preso no engarrafamento frente à capela. Quilômetros! Lá nas cansadas, os últimos foram chegando, na marcha lenta própria, e os primeiros, já saindo, lenços empapados, mangas da camisa, bá!... No Pai-Nosso, o rumor tinha tantas vozes que, fosse montanha o pampa, era certa a avalanche (de neve!). Parecia um terremoto. Nas redondezas (pros lados de Uruguaiana, argh!), houve quem, de susto, perdeu a fala. “Melhor assim”, garante Don Bagayo y Balurdo, mais velho que as pedras. Quanto aos enterros, diz ele que este, “Bem contados, tinha mais veículos, mas em duração, perdia pro dos apetrechos de instalação da Termoelétrica, anos mais tarde, aquele monte de ferro pesadão (ferro sulfúreo, bem como o diabo gosta) em carros abertos, todos de macacão e capacete branco, de operário, acenando, parecia coisa eleitoral, e da grossa!”

Então que não somos só fazendeiros ou bois, como querem alguns, botando sua insídia na boca de Mário Quintana, poeta que emprestamos ao Brasil, e passarinhado, coisa rara no tipo, cada vez mais funcionário público. Botaram placa na casa onde nasceu, esquina da Gaspar com a Andradas, sobrado que servia o melhor arroz-de-leite, no Seu Garça. Anos mais tarde, os degas (mas degas, degas, de nesga, piteira, iô-iô no bolso, mentex e Mug chaveirinho) freqüentavam a porta ao lado, pelo sorvete de ameixa do Seu Romeu (assim de ameixa! Diferente, mas parecido, só o beijo-frio do Seu Zeno), antes da sessão da uma no Glória, dupla!, reservando uns pilas pro Caruncho, o cego que fazia ponto na bilheteria.

Pois, da casa do poeta, era só atravessar a rua (nos bons tempos, quando fomos capital) e, tá, dava até pra olhar as reuniões da Constituinte Farroupilha – dar uma garibada nela, quem sabe, arreganhá-la num ancho que alcançasse nosso tino democrático, para um abraço aos tapas, por que não? Pegando arrabaleros e teatinos, mesmo mulheres, pinguanchas como... Tantas, tantas, que nenhuma citamos, de modo a não injustiçar as muitas mais escanteadas (não por putas, machorras, sonsas ou secas, mas porque sim, ora! Hay espaço, por acaso?!...). Abraço ancho tipo amplexo, corpulento no sentir.


(*) http://assisbrasil.org/joao/queiroga.htm



MÁRIO QUINTANA E OS JACARANDÁS DE PORTO ALEGRE

Zélia Leal Adghirni
Jornalista e professora da Faculdade de Comunicação da UNB.

O Viajante

“Eu sempre que parti, fiquei nas gares
Olhando, triste, para mim...”

Mário Quintana, Porto Alegre 21/10/71.

Este é um verso inédito de Mário Quintana, manuscrito, com caneta Bic vermelha, no dorso de uma folha de papel com o timbre da Assembléia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul, a mim dedicado, em 1971.

Estávamos no bar do Elói, no terceiro andar do imponente prédio da Companhia Jornalística Caldas Júnior, Porto Alegre. Mário Quintana havia subido para seu tradicional lanche de fim de tarde: café preto com quindim. Era tão sagrado este ritual que nós, as estagiárias da Folha da Tarde, chamávamos o poeta de “Mário Quindim”. Adorávamos compartilhar aquele momento com nosso “colega” de jornal, sempre sorridente e falando baixinho. Quando eu lhe disse que ia embora do Brasil, Quintana me pediu um papel e rabiscou o verso acima com a seguinte dedicatória: “lembrança para a Zélia”. Guardo até hoje com orgulho aquela folhinha dobrada, relíquia exclusiva para a estagiária que nada sabia da vida. Só anos depois de ter passado por tantas gares e aeroportos, em tantos países, ao longo de 18 anos de auto-exílio para fugir da ditadura, pude compreender a verdadeira dimensão daquele verso. Ele, que quase nunca viajava e que de estrangeiro só conheceu Buenos Aires, tudo sabia do viajante que deixa sempre um pouco de si em cada partida.

Não poderia deixar de lembrar de Mário Quintana no momento em que se comemora o centenário do poeta gaúcho de Alegrete, um dos maiores do século XX, embora a Academia Brasileira de Letras nunca o tenha reconhecido entre os grandes. Foram muitas as homenagens para aquele que viveu tão discretamente num quarto de hotel em Porto Alegre (Hotel Majestic, hoje Casa de Cultura Mário Quintana) de onde saía diariamente para a redação do Correio do Povo, esquina da rua da Praia com a rua Caldas Júnior. Era o poeta no meio de nós, com toda sua magnitude e simplicidade. Roupas modestas, (não lembro de tê-lo visto de terno a gravata), andar vagaroso, parecia tímido mas jamais recusava uma conversa, embora fosse econômico nas palavras. Morríamos de curiosidade sobre a vida particular do poeta mas não tínhamos coragem de perguntar: se era casado, se tinha filhos, se tinha namorada. Então ficava aquele mistério. Um dia, um velho jornalista do Correio do Povo, amigo de Mário, disse que o poeta só tinha amores platônicos: Greta Garbo e Cecília Meirelles, com direito a fotos no quarto. Mais tarde, mais moderno, ele se apaixonaria também pela jovem Bruna Lombardi, atriz e poeta. Mas nunca o vimos passear de mãos dadas com uma mulher.

Nesta época, Quintana gostava de cigarro e de um traguinho. Depois os médicos o proibiram. “Não por virtude, se pudesse, beberia até hoje”, confessou ele ao escritor Rogério Menezes, em 1989. Mas disse que não tinha nada contra os poetas que utilizavam a bebida como fonte de inspiração: “Rimbaud, por exemplo, era um gênio que bebia. Os demais são simplesmente bêbados que escrevem”.

Foi no Correio do Povo que Mario Quintana deixou sua marca maior, o “Caderno H”, uma espécie de poesia em prosa. Ali, podíamos ler frases como estas : “A recordação é uma cadeira de balanço embalando sozinha” ou “Morte: nada de maior; simples passagem de um estado para outro – assim como quem se muda do estado do Rio Grande do Sul para Santa Catarina”.

Era outubro quando Quintana escreveu “O Viajante”, mês dos jacarandás floridos na Praça da Alfândega onde acontece a Feira do Livro de Porto Alegre. Naquele tempo era fácil encontrar por ali poetas e escritores conversando com o povo entre as barracas de livros: Érico Veríssimo, Carlos Nejar, Armindo Trevisan, e claro, o grande Mário Quintana sobre quem Érico escreveu: “Descobri um dia que o Quintana na verdade é um anjo disfarçado de homem. As vezes, quando ele se descuida ao vestir o casaco, suas asas ficam de fora (Ah!como anjo seu nome não é Mário, e sim Malaquias)".

Falo de Quintana situando-o numa época áurea de Porto Alegre. Anos 70. Época de ditadura, sim. Mas época de resistência, de muitos jornais nanicos enfrentando a repressão, como o Coojornal (umq publicação criada por uma cooperativa de jornalistas com centenas de associados) de grandes concertos no Teatro São Pedro, de Vinicius de Moraes e Elis Regina no Teatro Leopoldina (que nem existe mais). A própria Companhia Jornalística Caldas Junior, era uma grande empresa, motivo de orgulho para os gaúchos, com três jornais diários, uma rádio e uma TV.

O Rio Grande do Sul vivia esplendidamente a glória de seus ícones que vimos ruir aos poucos. Primeiro a empresa jornalística Caldas Júnior, agora a Varig. E eu que costumava dizer que os gaúchos cuidavam bem de seus cavalos e de seus aviões... Ledo engano. Lenta agonia. Os poderes públicos, que tanto se beneficiaram das páginas e das asas destes símbolos, pouco ou quase nada fizeram para impedir a ruína. Da Caldas Júnior, falida nos anos 80, sobrou o prédio e um arremedo de jornal com o mesmo título, “Correio do Povo”. De tão pálida imitação do grande jornal histórico, o tablóide atual deveria mudar de nome em respeito à memória dos antepassados. Prefiro a morte dos títulos, como a Folha da Manhã e a Folha da Tarde, que formaram uma super geração de jornalistas como Caco Barcellos, Carlos Dornelles e Rosvita Suaressig, entre outros profissionais de renome.

Os tempos são outros. Só a poesia é perene. Tive sorte de ser contemporânea do doce poeta, solitário na vida e solidário na obra. Seus versos tem o frescor da atualidade, a leveza dos pássaros, (“eles passarão, eu passarinho”), a densidade da dor e a marca da esperança (“enquanto há esperança, há vida”). Um dia Mário Quintana escreveu no “Caderno H”: “O mais triste das dedicatórias são as datas”. Nem sempre. O papelzinho na mão, datado de 21 de outubro de 1971, é a prova mais feliz e inesquecível do encontro da jovem jornalista com o grande poeta.



CEM ANOS DE MARIO QUINTANA

Sérgio de Castro Pinto*
Poeta, ensaísta e Professor da Universidade Federal da Paraíba.

Jornal O Norte Online - Paraíba, de 26-01-06.

Alguns críticos jamais perdoaram a suprema heresia de Mario Quintana estrear com um livro de sonetos - A rua dos cataventos (1940) - quando, na época, o próprio Modernismo já começava a ser questionado pelos que iriam mais tarde engrossar as fileiras da Geração de 45. Geração da qual só cronologicamente podem aproximá-lo pois, embora tenha desde sempre cultivado o soneto, o fez descontraidamente, sem pompas e sem circunspecção, "filiando-se" muito mais ao humor e à ironia de 22, do que à sisudez dessa geração do pós-guerra. Em suma, cotejando-se os seus sonetos com os da Geração de 45, Quintana poderia ser considerado o sonetista que o Modernismo não teve, conquanto tenha sido um gazeador contumaz de todas as escolas...poéticas, inclusive da "escola" modernista, da qual evitou os excessos em troca de uma dicção lírica em muito tributária do classicismo.

Daí o porquê de alguns críticos situarem-no como um epígono de movimentos poéticos desde há muito postos em disponibilidade. Quer dizer, com relação a Mario Quintana, ora ele é considerado um neo-simbolista, ora um romântico tardio, mas nunca - ou só excepcionalmente - um poeta cujo ecletismo funde e inter-relaciona a tradição com a renovação.

Por isso tudo, a sua poética situa-se longe daqui, aqui mesmo, pois tal e qual a face bifronte de Janus, ela divisa, a um só tempo, o passado e o futuro, apesar de muitos incorrerem no equívoco de julgá-la distante da modernidade. Ou seja, movidos pelo preconceito, confundem soneto com anacronismo e descartam de antemão as possibilidades do poeta não só de inová-lo formalmente, como também de assimilar uma linguagem cujo tom coloquial contrapunha-se ao discurso solene da época, principalmente ao da Geração de 45.

Já o humor e a ironia de Quintana, muito mais do que decorrentes da alegria que se estampa através do riso fácil, fundam-se e enraízam-se no riso difícil, cáustico algumas vezes, pungente outras, mas quase sempre oriundo de um aparente não-me-importismo ante as vicissitudes e agruras da vida.

Quanto aos problemas sociais, estes não adquirem contornos mais definidos em Quintana porque, na sua obra, "o social não está designado pelo poema: é o poema" . Além do mais, o sentimento do mundo de Quintana passa, necessariamente, pelo crivo de uma visão intimista da realidade, o que embarga a fatura de uma poesia de cunho meramente doutrinário. Ou seja, os jargões, as palavras de ordem, o proselitismo, não encontram guarida nos seus poemas, pois, para ele, o social extrapola os estreitos limites dos credos políticos e religiosos para abranger, em toda a sua plenitude, os atos mais comezinhos e prosaicos da existência humana.

No que diz respeito às ressonâncias surrealistas de alguns dos poemas insertos em Sapato florido e O aprendiz de feiticeiro, mais uma vez configura-se o princípio segundo o qual a sua poesia, não obstante pareça nascer de algum lugar remoto, longínquo, origina-se daqui mesmo, sobretudo quando procura fazer do estranho o familiar, do distante o próximo. Ademais, já não disse o próprio Quintana que "Quadros são janelas abertas para o outro mundo deste mundo?" Pois bem, se "Quadros são janelas abertas para o outro mundo deste mundo", seus poemas também o são, na medida em que procuram consubstanciar sensações incorpóreas, movediças, inefáveis - resgatadas daqui mesmo, do cotidiano, e devolvidas a este -, através do sortilégio e do poder transfigurador da linguagem poética.

*O texto aqui publicado pertence ao livro "Longe daqui, aqui mesmo", um ensaio sobre Mario Quintana, lançamento da Editora Unisinos (2000), Rio Grande do Sul, cuja primeira edição já foi esgotada.



MARIO QUINTANA DESCONHECIDO

Sérgio de Castro Pinto*
Poeta, ensaísta e Professor da Universidade Federal da Paraíba.

Jornal O Norte Online - Paraíba, agosto/2006.

*O texto é sobre o livro do poeta e ensaísta gaúcho Armindo Trevisan - "Mario Quintana Desconhecido", lançamento da Editora Brejo (2006).

Quem convive com um escritor nem sempre dispõe de apetrechos para a exegese de sua obra. O exercício da crítica não pode ser confundido com um mero dever de casa para cujo mister os mais qualificados seriam os familiares ou os amigos do escritor. Pois bem, que Armindo Trevisan conviveu com Mario Quintana, quase todos sabem. Sabem, inclusive, que quando Mario não reunia mais forças para cuidar da edição de sua Agenda Poética, simplesmente convocou o amigo para fazê-lo. E quem conhece o Trevisan poeta, também sabe o quanto ele, embora demarque o seu próprio espaço com relação à obra do alegretense, mostra-se tributário a ela. Que o diga a dedicatória inserta em "Mario Quintana Desconhecido", livro recentemente lançado pela Brejo Editora, de Porto Alegre: "À memória de meu querido Mestre e amigo, Mario Quintana, cujos poemas despertaram em mim a vocação poética, e que me ensinou, com seu exemplo, não só amar a Poesia, mas também a servi-la, e a torná-la um bem comum".

Nem preciso dizer que não foi a condição de amigo de Mario Quintana que propiciou a Trevisan a feitura desse belíssimo ensaio, mas antes, e sobretudo, a sua condição de ensaísta e de poeta de excelente cepa.

Tanto que, abdicando de uma linguagem empolada, pernóstica e cheia de empáfia, como em geral o é a das dissertações de mestrado e a das teses de doutoramento, Trevisan lança mão de uma linguagem essencialmente poética quer para desvelar o homem Quintana, quer para discorrer sobre o poeta, ambos, para muitos, faces de uma só moeda, inclusive para Augusto Meyer: "Não sei de outro poeta em que o poema seja uma consubstanciação tão perfeita entre viver e cantar, entre sofrer vivendo e sofrer cantando".

Quem ler "Mario Quintana Desconhecido" pode muito bem se habilitar a um delicioso passatempo: extrair, daqui e dali, frases e mais frases que, juntas ou isoladas, constituirão versos de verdadeiros poemas.

Ou, em última análise, fragmentos de poemas em prosa, como este: "Quintana nasceu numa cidade interiorana, dessas que crescem mais em direção à memória do que em direção ao futuro". Ou mais este: "A poesia necessita de um certo tato de alma". E mais este outro: "No fundo, biografias e autobiografias são elegantes máscaras com que os interessados camuflam sua verdadeira identidade".

O clima poético de "Mario Quintana Desconhecido" não traz nenhum comprometimento à argúcia do ensaio, todo ele direcionado no sentido de fornecer ao leitor uma equilibradíssima exegese da poesia desse lírico quase sempre triste de Alegrete. Exemplo, entre muitos outros? O capítulo intitulado "O Lúdico em Mario Quintana".

No mais, é agradecer ao poeta Elvio Vargas - também natural de Alegrete - a remessa do livro. E ao Armindo Trevisan, a gentil dedicatória no volume que registra magnificamente bem o centenário do poeta Mario Quintana, nascido no dia 30 de julho de 1906.



INÉDITA, ESPARSA e INACABADA
Entrevista que o poeta alegretense concedeu na década de 70 ao amigo e conterrâneo, o escritor Sergio Faraco. Na conversa, por escrito, Quintana comenta seu percurso na literatura. “Nunca evoluí. Sempre fui eu mesmo”.
Jornal Zero Hora, Porto Alegre/RS - Caderno Cultura, julho/2006.

Sergio Faraco - Escritor, autor de "Lágrimas na chuva".
Não me recordo da data em que comecei, e não cheguei a terminar, esta entrevista com Mario Quintana. Pode remontar a 1970 ou, quem sabe, a 1974, pois tenho cartas desses anos em que avisa: ”Tua encomenda está pronta". Também não me recordo por que não a terminei. Lembro-me, sim, de que a fiz aos poucos. Datilografava a pergunta numa lauda do velho Correio do Povo e, dias depois, ia buscar a resposta, manuscrita na mesma página. Nas décadas de 70 e 80, nós nos víamos com miúda freqüência, na redação. Umas poucas vezes ele me visitou na Justiça do Trabalho, então na Av. Júlio de Castilhos, onde eu era diretor de secretaria de uma junta. Pertence a este período, em que me via quase diariamente, a maioria das inúmeras cartas que me remeteu via postal. Vá entender-se o homem...
As perguntas me parecem hoje um tanto desgraciosas e ele tratou de despachá-las com uma penada. Na última, foi mais longe. Talvez eu tenha reclamado da brevidade das respostas, ou talvez tenha tocado num ponto que, para ele, era mais sensível.

Faraco - Em recente entrevista e dizendo louvar-se em tuas próprias palavras, Gilberto Mendonça Teles mencionou Augusto Meyer como tendo sido um mestre para ti. Mestre em que termos? Que importância teve a literatura dele para a tua? E a pessoa dele?
Quintana - Augusto Meyer, pela sua formação humanística, pelo seu domínio direto de três literaturas, a francesa, a inglesa, a alemã, pelo seu dom poético, pela sua cultura, foi, segundo a opinião insuspeita de Rachel de Queiroz, o mais completo intelectual de nossa geração. Por isso nós todos, inclusive eu, sempre o consideramos um mestre.

Faraco - Aquele soneto que começa assim: "Eu nada entendo da questão social. / Eu faço parte dela simplesmente...". Alguns leitores o interpretaram como uma declaração de desinteresse pelos problemas sociais de nosso tempo. Como seria a versão em prosa do que quiseste dizer?
Quintana - Nunca se pode dizer uma coisa melhor em prosa do que em verso. Os tais "leitores", pelo visto, fazem alto no fim da linha, ignorando o resto.

Faraco - Seguidamente a gente ouve alguém falar que Fulano é um poeta maior, o que implica necessariamente a existência de poetas menores. Estás de acordo com esse discernimento?
Quintana - Um poeta, para mim, não é maior nem menor, nem grande nem pequeno. Só há duas alternativas: ou ele é poeta ou não é poeta.

Faraco - Antigamente, tinhas apreço pela métrica, num preito ao parnasianismo e, quem sabe, a certas regras clássicas. Hoje, teu verso é livre, - embora se possa dizer, como Eliot, que verso algum é livre para quem deseja fazer um bom trabalho. Essa mudança teve algo a ver com o rescaldo do modernismo?
Quintana - Me lembro (note que não estou escrevendo clássico) que lá por volta de 1927 eu já fazia versos intimistas, em tom coloquial, tipo "recados de poesia”. Todo poeta consciente sabe que não há nada mais difícil do que um verso aparentemente fácil. Um soneto já traz a sua musiquinha na barriga. Mas, para fazer um poema em verso livre é preciso criar para cada um deles uma "arte poética”, é preciso equilibrar os versos, senão o poema desaba. Os versos que mais trabalho me deram foram os versos livres de O aprendiz de feiticeiro. São, por outro lado, nada cartesianos. Obedecem a associações de imagens (e não associações de idéias). O aprendiz é a minha obra predileta de Augusto Meyer, a quem aliás a dediquei, e de Carlos Drummond, que lhe dedicou um poema: Quintana's bar. Mas a libertação do verso não quer dizer a libertação do poeta. Ele tem de lutar sempre com a forma, como Jacob com o Anjo. "Eu não te largarei até que me abençoes" - diz aquele a este. Quanto ao soneto, está incluso na liberdade de expressão. Por quê, para quê, como alijá-lo? Se estreei com um livro de sonetos, A rua dos cataventos, foi exatamente por este motivo. Ele andava tão desmoralizado... De modo que ambiciosamente tentei, em A rua dos cataventos, "fazer sonetos que fossem poemas". Não houve, na sucessão de meus livros, uma evolução, como alguns críticos julgam, levados pela cronologia de sua publicação. Nunca evoluí. Sempre fui eu mesmo.



1989: O FERREIRO E A FORJA

Sérgio Faraco
Escritor alegretense - http://www.estado.rs.gov.br/marioquintana/

Sábado. Dia em que, à tarde, vou jogar sinuca com o escultor Xico Stockinger, o fotógrafo Flávio Del Mese e o pintor Nelson Jungbluth. É cedo, quem sabe faço uma visita ao poeta, que não vejo há semanas?

Encontro-o sentado à beira da cama, bem-humorado, mas se queixa da sonda vesical e da bolsa coletora presa ao flanco. Conversamos, isto é, ele fala, eu escuto. Não ouve ou finge não ouvir quando a voz não é a dele. Mostra uma pasta, o livro que está preparando para a Editora Tchê, a pedido de Sergio Napp. Quer saber o que penso do título: Um dia o cavalo vai voltar sozinho (*) . Não espera a resposta e muda de assunto:

— Em quem vais votar pra presidente?
Digo que talvez nem vote, meu título continua em Alegrete.

— Eu vou votar - garante. - No Brizola.

Na sua idade não precisaria, mas quer fazê-lo, como o cunhado Átila, que aos 99, em cadeira de rodas, foi votar para prefeito em Alegrete. Mas quer votar tão-só na eleição presidencial, em outras nem pensar.

— E o plebiscito? - pergunto. - Não vais apoiar D. Pedro?

Ah, o plebiscito, claro, tinha esquecido, e lembra também que sempre foi monarquista.

- Isabel, traz a foto do rei!

Vem a moça com um painel de fotografias. Comento que sua nova auxiliar tem nome de princesas e rainhas, não me escuta e aponta uma das fotos. Lá está ele a caçoar de alguma coisa e D. Pedro rindo.

- O secretário telefonou, perguntando se a visita podia ser às cinco. Ora, rei não pede, manda.

Conheço o painel. Há uma foto do poeta entre José Sarney e Ulysses Guimarães. Há fotos de Bruna Lombardi e Dulce Helfer, e numa outra ele comparece em não menos bela companhia: Paulo Mendes Campos, Fausto Cunha, Nélida Piñon, Lara de Lemos e Lygia Fagundes Telles. Noutra ainda, um grupo que inclui Augusto Meyer, Athos Damasceno e Moysés Vellinho.

Observo que conheci pessoalmente os dois últimos. Moysés na casa de meu tio, o médico Eduardo Faraco - uma noite dos anos 60 em que, assombrado, vi o autor de Capitania d'El-Rei despir-se de sua britânica fleuma para defender com fúria os procedimentos da ditadura militar. Damasceno, fui visitá-lo no apartamento na Praça do Portão. Já portador do mal que o mataria, conservava a proverbial elegância no trajar e a verve que lhe fez a fama de conversador espirituoso.

O poeta não presta a mínima atenção e me interrompe para contar uma anedota: moços ainda, ele e Damasceno moravam na Rua Duque e cada qual se considerava o melhor poeta da rua. Um dia reconheceu que o título pertencia ao rival. Quando Damasceno agradeceu e pôs-se a exaltar sua probidade, atalhou: "Acabo de me mudar para a Riachuelo". Dá uma gargalhada e eu quieto. Não simpatizo com suas piadinhas, sobretudo as repetidas. Uma que outra, vá lá, mas a todo instante é dose. Ele arma a carranca e, como para apagar o pequeno fracasso, grita para o corredor:

- Isabel, traz mais café!

E logo um comentário baixo, ressentido, sinal de que não apagou coisa alguma: "O homem que não ri..."

- Tu também não... quando a piada é alheia.
Finge espanto e trato de lembrá-lo. Meu sogro, o poeta Antônio Milano, certa vez o saudou assim: "Mario, filho do excelso Quintana!" Ele reagiu: "Meu pai não era excelso, era um humilde boticário". E Milano, implacável: "Não se chamava Celso? E não morreu? Então é ex-Celso".

- Ficaste de mal com ele.

Fecha a cara outra vez, mas não retruca. Estará pensando no pai e essa lembrança acende outras lembranças, que começa a desfiar com estranha saudade: um misto de afeto e zombaria. Conta que sua mãe perdeu vários filhos, uns logo após o nascimento, outros durante a gravidez, e estes, então, "morreram nadando". Agora acho graça, ele também.

- É de família - digo.

- Por quê? - na defensiva.

- Teu bisavô não morreu nadando?

Ah, é, morreu, e acrescenta:

- Holandês que se preza deve morrer no mar. Mario de Miranda Quintana que, afinal, nunca foi Miranda. Seu bisavô, o holandês Ryter, fazia contrabando de armas durante as guerras de independência do Prata e naufragou no litoral do Rio de Janeiro. Morreu nadando. Mulheres e crianças se salvaram, inclusive sua bisavó, que estava grávida. No Rio, foi acolhida por um português, Miranda, passando a viver com ele. O filho de Ryter (e futuro avô materno do poeta), ao concluir seus estudos acadêmicos, adotou o nome do padrasto.

Já está na hora em que meus parceiros se reúnem. Antes de me despedir, faço a pergunta que os escritores costumam fazer uns aos outros:

- Tens escrito?

Alcança-me um caderninho, preenchido com letra irregular, quase ilegível. As páginas estão numeradas, em seqüência a outros cadernos, e já passam de seiscentas. Como produz tanto, se mal pode mover-se? Pergunto onde está escrevendo. Na cama? Sim, na cama. Recolhe as pernas com dificuldade e vai gemendo e suspirando até recostar-se na cabeceira. "Me dá aquela pasta", pede. Coloca-a sobre as ossudas coxas e me olha, um olhar doce que, paradoxalmente, parece ter lampejos de demônio.

- Escrevo assim.

Sinto um frêmito, estou vendo o ferreiro em sua forja. Sem os gracejos reprisados, sem as habituais tolices, sem o riso metálico e forçado. Não, não sei se é isso. É alguma coisa que não identifico e me arrebata. Magrinho, sem dentes, com aqueles pulmões que a gente sabe, uma sonda na bexiga e sentadinho, com a pasta nas pernas... Quero fixar essa imagem, quero explicá-la, quero traduzi-la e não consigo. Xico, me empresta teu cinzel. Flávio, tua câmara fotográfica. Nelson, teu pincel. E o vejo fechar os olhos e me levanto sem fazer ruído, vou embora antes que os abra, antes que veja nos meus como estou comovido.

* O livro foi publicado com outro título, Velório sem defunto, e por outro editor, Roque Jacoby. (SF)



PARIS, ALEGRETE

Fernando Eichenberg
Especial/Paris.

Jornal Zero Hora - Porto Alegre/RS, Segundo Caderno, em 14 de abril/2007.


Márcio Faraco

Versos de Mario Quintana estão sendo cantados nas rádios francesas desde o início deste mês. A voz que reverbera suas rimas é a de um conterrâneo, o músico MÁRCIO FARACO, alegretense como o poeta e radicado na França desde 1991. Em seu novo CD, Invento, lançado esta semana na França, Márcio musicou o poema A Imagem Perdida, dedicado por Quintana ao escritor Sergio Faraco, tio do músico.

Na verdade, a homenagem do poeta se deu por um curioso acaso. Segundo contou o escritor ao sobrinho, um dia Quintana quis lhe mostrar um poema que havia recém-escrito. Atrasado para um compromisso, Sergio Faraco não pôde ficar para ouvir a nova criação, mas, ao chegar em casa, ligou para o poeta e pediu a sua secretária que transmitisse o recado: "Fale para ele que eu quero ouvir o poema". No telefone sem fio, a secretária resumiu a mensagem: "Olha, ele quer o poema". E assim o poema acabou generosamente dedicado a Sergio.

- O tio achou engraçado - conta Márcio, rindo, em entrevista a Zero Hora em Paris, onde mora.

Márcio enviou a música por Internet para a sobrinha e herdeira da obra do poeta, Elena Quintana, que prontamente autorizou o uso. A canção, que abre o disco, foi escolhida pela gravadora como a música para ser tocada nas rádios.

- A Elena me disse que estava muito feliz pelo fato de o Mario Quintana estar chegando na França pelas mãos de um alegretense.

Mas a presença gaúcha no CD (lançamento da Harmonia Mundi, 16,99 euros) não pára no poeta:

- A letra de Breve, uma das que mais gosto, é de autoria de outro alegretense, Augusto Vilaverde, um amigo de longa data - assinala.

Embora pouco conhecido no Brasil, inclusive no Rio Grande do Sul, MÁRCIO FARACO é sucesso de crítica e de público na Europa. Invento é seu quarto disco desde 2000. Segundo ele, foi também o mais difícil de ser finalizado, por ter trabalhado praticamente sozinho. Foram oito semanas de gravações e mixagem, na França e no Brasil.

- Acho que é o disco mais cru que fiz, em que a composição aparece mais nua. Foi um trabalho de ourives. A percussão é só um fundo, e toco três violões: a viola braguesa, ancestral da viola caipira; a craviola, um violão folk brasileiro; e o violão de náilon.

O CD tem marcha, samba, um fado brasileiro, um tipo de milonga, baladas e baião.

- É engraçado: aqui na França posso até tocar heavy metal que eles vão dizer que sou cantor de bossa nova, por causa da minha maneira intimista de cantar. Mas o CD é de MPB, e não bossa nova.

Pela primeira vez, Márcio se arrisca a cantar um música em francês, Je t'Aime et Je me Souviens, composta em parceria com o letrista Chérif Ghemmour, inspirada no romance de Juliette Gréco com Miles Davis.

- Foi uma tentativa, pois não me vejo cantando em francês. É complicado, embora tenha sido bacana. Mas sou brasileiro, minha música é brasileira. Gosto da França, mas não é o meu país.

Depois do show de lançamento do CD Invento, realizado em casa cheia no Café de la Danse, Faraco começa a turnê européia com sua banda. Entre os músicos do grupo, estão o baterista Christophe de Oliveira e o pianista Philippe Baden Powell. O primeiro é filho do também baterista Quati, que, coincidentemente, tocou junto com o pai do segundo, o compositor e violonista Baden Powell.

Antes de se despedir, Márcio manda um recado:

- Pode avisar a todo mundo lá no Rio Grande do Sul que Mario Quintana está tocando nas rádios em Paris.


Márcio Faraco

A IMAGEM PERDIDA

(Poema de Mario Quintana musicado por Márcio Faraco)

Para Sergio Faraco

Como essas coisas que não valem nada
E parecem guardadas sem motivo
Alguma folha seca... uma taça quebrada
Eu só tenho um valor estimativo...
Nos olhos que me querem é que eu vivo
Esta existência efêmera e encantada...
Um dia hão de extinguir-se e, então, mais nada
Mais nada
Refletirá meu vulto vago e esquivo...
E cerraram-se os olhos das amadas,
O meu nome fugiu de seus lábios vermelhos,
Nunca mais, de um amigo, o caloroso abraço...
E, no entretanto, em meio desta longa viagem,
Muitas vezes parei... e, nos espelhos,
Procuro em vão, minha perdida imagem!
Procuro em vão, minha perdida imagem!


Para escutar as músicas A Imagem Perdida e Breve, clicar AQUI.

Nota da Webmaster:
Informações detalhadas sobre o trabalho musical de MÁRCIO FARACO podem ser obtidas no seu site oficial (http://www.marciofaraco.com) ou AQUI.
Informações sobre o trabalho artístico com mosaicos de ANTÔNIO AUGUSTO (Guto) VILAVERDE podem ser obtidas na sua homepage ou clicando AQUI.



ENTRE O CÉU E O GUAÍBA

Ana Ângela Farias
Jornalista gaúcha e professora universitária na FEEVALE-RS.

Jornal O POVO - Fortaleza/CE, Caderno Vida & Arte e Cultura, em 29 julho/2006.

Mario Quintana levava seu casamento com Porto Alegre a sério. Para ela, escreveu poemas, sendo o mais expressivo aquele que estabelece metáfora entre a cidade e o corpo de uma mulher. Em O mapa, mostra o quanto Porto Alegre mexe com o seu imaginário e o quanto a ama ao ponto de lamentar os lugares que não conheceu. Ele a desejava por inteiro, mesmo que não escondesse preferência pelo centro.

Diferente de Fortaleza hoje, o centro de Porto Alegre é um foco vivo da cidade. Por lá funciona um comércio agitado, há lojas, livrarias, cafés, centros culturais, cinemas, mini-shoppings. Para morar, os hotéis e uma ala residencial respeitável. Há também muita história através de construções antigas, boa parte delas em bom estado de conservação.

Para completar, tem também o Guaíba, espelho d'água da cidade. Pois o centro de Porto Alegre fica à beira desse lago que já foi chamado de rio e que rende espetáculos visuais através dos crepúsculos que acontecem ali. Para este céu, Quintana sempre rendeu homenagens poéticas. Em uma delas, uma preocupação pré-morte: "Os céus de Porto Alegre, como farei para levá-los ao céu?"



O POETA E A CIDADE

Ana Ângela Farias
Jornalista gaúcha e professora universitária da FEEVALE-RS.

Jornal O POVO - Fortaleza/CE, Caderno Vida & Arte e Cultura, em 29 julho/2006.

Mario Quintana nasceu em Alegrete. Mas foi Porto Alegre que o poeta fez seu pouso de vida, a cidade que adotou como esposa. Mario costumava andar por suas ruas como marido que percorre o corpo de sua amada.

Mario Quintana nunca viveu um casamento tradicional. Mas casou-se, por longos 75 anos, com aquela que deu guarida à maior parte de tudo o que lhe foi inspiração. Uma jovem experiente, que já contava com 147 anos de vida quando do encontro com o poeta. Uma jovem feliz, pois assim anuncia-se através de nome próprio, que leva a palavra "alegre" acompanhada de outra que descreve sua principal função na vida de Quintana: um porto.

A capital do Rio Grande do Sul conheceu seu mais famoso poeta em 1919. Quintana tinha apenas 13 anos quando ingressou no Colégio Militar de Porto Alegre. O objetivo era realizar o sonho do pai, ter um filho doutor. Mas foi lá dentro que o anseio paterno começou a sofrer um desvio sem volta. No jornalzinho da instituição, Quintana conheceu a escrita, apaixonando-se perdidamente. As palavras e a possibilidade de trabalhar com elas arrebatou o filho do alegretense Celso de Oliveira Quintana.

Mario Quintana - foto da Internet, autor desconhecido (poderá ter direitor autorais)

E foi sem volta. Estar em Porto Alegre encaminhou Quintana para o destino que ele resolveu traçar para si, o da poesia. Para isso, contou com a cumplicidade da cidade, que o recebeu inicialmente em pensões, várias delas espalhadas pelo centro da cidade e cercanias. Depois vieram os hotéis. Sendo o principal deles o Majestic (foto abaixo), onde viveu por 13 anos e que mais tarde viria a se tornar a Casa de Cultura Mario Quintana. Nunca montou casa própria, nunca fez de um determinado endereço algo de somente seu, pessoal e intransferível. Era andarilho de ruas e de moradas. Variava pousos, morador e visitante ao mesmo tempo. Talvez uma metáfora sobre a sua presença nesse mundo. Afinal, jurava Érico Veríssimo, que o poeta era anjo que nos visitava, não era desse planeta.

Pois sim. Quintana era e não era de Porto Alegre. Até porque, nascera em Alegrete, coisa de 500km até a capital gaúcha. Mas a sua parte que era da cidade, cumpria seu papel com maestria. "Andarilhava" por aí com freqüência. Como diria o amigo Armindo Trevisan, era caminhante compulsivo. Durante anos, cumprira um trajeto curioso. Pegava um bonde, descia no fim da linha e voltava a pé, rua por rua do centro da cidade. Sem pressa, pois não abria mão de visitar os diversos botecos do caminho. O preferido era o Bar Leão. Coisas do tempo em que Quintana ainda bebia.

Para alguns hábitos, cumpria fidelidade. O mesmo barbeiro por mais de 50 anos, o costume de jogar na loteria, a mania de tomar café e ler jornal sempre nos mesmos lugares. E essa prática de observar a chegada de cada uma das estações, bem precisas no Rio Grande do Sul. Para a chegada de um outono, escreveu: "E agora esse cartaz na alma da gente: ADIADOS OS SUICÍDIOS... Simplesmente. Porque é abril em Porto Alegre... E pronto!"

No início, Porto Alegre era simples para o poeta que em 1967 recebeu o título de Cidadão Honorário: "Uma cidade pequena onde todos ou quase todos se conheciam, e as diversões eram os bares, os cafés, as galerias de arte e o Theatro São Pedro". Quintana acabou acompanhando de perto todas as transformações da cidade no século passado. De cidade pequena para metrópole. De simples, para complexa.

Ele assistia a tudo das janelas que teve e nunca a perplexidade tomou o lugar da paixão. Até porque, o poeta esforçava-se para valorizar o passado que pulsava (e pulsa) por Porto Alegre. Em especial no centro da cidade, bairro que adotou como a extensão de suas moradas, os quartos de hotel. Lugares como a Praça da Alfândega eram uma espécie de "varanda da casa" para Quintana. Naqueles bancos, ele passava tardes inteiras conversando com a atriz Bruna Lombardi, uma de suas musas. Por ali também participava anualmente da Feira do Livro de Porto Alegre, evento onde sempre atuava enquanto celebridade. Todos queriam ficar perto do poeta, fazer foto, conseguir um autógrafo.

Mario Quintana - foto da Internet, autor desconhecido (poderá ter direitor autorais)

O cara era um sucesso. Lá pela década de 80, certa vez afirmou para um jornalista que o entrevistava: "Eu tô na moda". E tava mesmo. Seu espetáculo surgia nos seus escritos; seu palco nas ruas do centro da cidade. A este último dedicou acima de tudo um olhar sempre nostálgico. Vociferava contra os arranha-céus que invadiam a cidade: "O problema da arquitetura moderna é que ela não constrói casas antigas".

Para viver, Quintana não desejava novidades. Pelo contrário, cultivava o passado como a um parceiro permanente de viagem. Do mesmo modo simples, não via necessidade em morar em amplos espaços. A uma amiga que se impressionou com o tamanho do quarto onde morava prestes a completar 80 anos (cedido pelo jogador e comentarista esportivo Falcão), explicou: "Eu moro em mim mesmo. Não faz mal que o quarto seja pequeno. É bom, assim tenho menos lugares para perder as minhas coisas".

A argumentação não convenceu a moça, contratada para registrar em fotografia o Quintana do alto de seus 80 anos. Em negociação com os patrocinadores de seu projeto, descolou o que os gaúchos chamariam de "barbada": uma morada mais ampla em um apart-hotel, no centro de Porto Alegre, de graça, até a morte do poeta. No começo, ele titubeou, mas ao conhecer o espaço, encantou-se: "Tem até cozinha", afirmou surpreso e feliz.

Foi este hotel, o Residence, o último de Quintana. Seu quarto está fielmente reconstruído em uma sala do Centro Cultural que leva seu nome. E ao conferir o endereço do local, me surpreendo. Antes de me tornar moradora da cidade, certa vez aportei por lá. Descobri que tenho pelo menos algo que me liga à vida desse anjo da poesia brasileira. Amém.

Cúpula do antigo Hotel Majestic, hoje Centro Cultural Mário Quintana
(Foto: Izaías Mattos)



PARA SEMPRE NO CORAÇÃO
As homenagens de Porto Alegre a seus artistas.

Márcio Pinheiro
Trechos retirados do texto publicado no jornal Zero Hora, de Porto Alegre/RS - Segundo Caderno, de 25-03-2006.

Os artistas, músicos, escritores, poetas que escreveram, cantaram e retrataram Porto Alegre passaram a fazer parte da paisagem da cidade. O tempo e a obra fizeram com que eles se transformassem em ruas, teatros, centros culturais, cinematecas e auditórios.

As homenagens - poucas em vida, a maioria póstuma - fizeram com que artistas de fases, estilos e propostas diferentes ganhassem uma identidade comum.

Antigo Hotel Magestic, hoje Centro Cultural Mario Quintana - foto: Júlio Cordeiro, 13-09-2002

(...) Érico Verissimo e Mario Quintana, provavelmente os dois maiores nomes da cultura gaúcha, são exaustivamente lembrados, dando nome a dezenas de bibliotecas. O primeiro ainda é lembrado por dar nome a uma das avenidas mais conhecidas da cidade. E Mario Quintana batizou, ainda em vida, um dos mais importantes centros culturais da cidade. Essa homenagem foi feita em 1990 quando o prédio do originalmente Hotel Majestic (foto), lar de Quintana durante 1968 e 1982, foi tombado e passou a ser um centro cultural.

É o melhor exemplo de um relacionamento de amor de um poeta com a sua cidade. "Porto-alegrense" de Alegrete, onde nasceu em 1906, Mario Quintana veio para a capital gaúcha com 13 anos. Viveu em Porto Alegre quase toda a vida. Conhecia a cidade, circulava pelas ruas, pelos bares e pelos cafés e ridicularizava os que saíam do Sul para morar no Rio de Janeiro dizendo que isso, sim, era provinciano. A partir dos anos 80, já respeitado com um nome de primeira grandeza da poesia brasileira, passou a ser constantemente homenageado por universidades, bibliotecas e câmaras de vereadores de todo o Estado. Quintana morreu em Porto Alegre em maio de 1994.

O antigo hotel Majestic é localizado na Rua da Praia, no centro de Porto Alegre, e é um local que serve de abrigo para as mais variadas homenagens. Lá convivem nomes da história recente da cidade, como o jornalista Paulo Amorim (que dá nome à sala de cinema) e Carlos Carvalho (sala de teatro no 2° andar), com pioneiros da cultura gaúcha, como Eduardo Hirtz (outra sala de cinema) e Sotero Cosme, desenhista e caricaturista da primeira metade do século passado (galeria no 6° andar). Convivem também porto-alegrenses legítimos, como o poeta Augusto Meyer e o pianista Armando Albuquerque, com pessoas que vieram de longe, como o argentino Maurício Rosenblatt, o espanhol Fernando Corona, o alemão Bruno Kiefer e o austríaco Xico Stockinger. Artistas que fizeram da cidade o seu mundo.



Seus poemas...

Aqui estão seus versos - que é como ele se mostrava melhor (" Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão").

"Mario Quintana é o mais simples dos poetas brasileiros do século XX, e um dos mais difíceis. Dá a impressão de dizer as coisas mais comuns, as coisas que todo o mundo imagina que é capaz de dizer. Só que Quintana as diz como ninguém é capaz de dizê-las. Usa uma música verbal e um ritmo tão fino que não se percebe. A sua poesia é endovenosa. Quando o indivíduo nota, a poesia já entrou nele, penetrando-lhe o coração e a mente. É poeta tão simples que sua genialidade só é descoberta - como a luz das estrelas - muitos anos depois de ter brilhado!" (Armindo Trevisan, poeta e ensaísta gaúcho).

POEMA
O Poema
essa estranha máscara
mais verdadeira
do que a própria face...

Mario Quintana

DO AMOROSO ESQUECIMENTO
Eu, agora - que desfecho!
Já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci? Mario Quintana

DAS UTOPIAS

Se as coisas são inatingíveis... ora!
não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
a mágica presença das estrelas!




Mario Quintana na rua da Praia, no centro de Porto Alegre.

BILHETE
Se tu me amas,
ama-me baixinho.
Não o grites de cima dos telhados,
deixa em paz os passarinhos.
Deixa em paz a mim!
Se me queres, enfim,
tem de ser bem devagarinho, amada,
que a vida é breve,
e o amor mais breve ainda.

DA REALIDADE
O sumo bem só no ideal perdura...
Ah! quanta vez a vida nos revela
Que a "saudade da amada criatura"
É bem melhor do que a presença dela.

DA DISCRETA ALEGRIA
Longe do mundo vão, goza o feliz minuto
Que arrebataste às horas distraídas.
Maior prazer não é roubar um fruto
Mas sim saboreá-lo às escondidas.



DO ESTILO
Fere leve a frase... E esquece... Nada
convém que se repita...
Só em linguagem amorosa agrada
a mesma coisa cem mil vezes dita.


Mario Quintana

O AUTO-RETRATO
No retrato que me faço
- traço a traço -
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...


Às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...

INSCRIÇÃO PARA UMA LAREIRA
A vida é um incêndio: nela
dançamos, salamandras mágicas
Que importa restarem cinzas
se a chama foi bela e alta?
Em meio aos toros que desabam,
cantaremos a canção das chamas!
Cantemos a canção da vida,
na própria luz consumida...

QUEM AMA INVENTA
Quem ama inventa as coisas a que ama...
Talvez chegaste quando eu te sonhava.
Então de súbito acendeu-se a chama!
Era a brasa dormida que acordava...
E era um revôo sobre a ruinaria,
No ar atônito bimbalhavam sinos,
Tangidos por uns anjos peregrinos
Cujo dom é fazer ressureições...
Um ritmo divino? Oh! Simplesmente
O palpitar de nossos corações
Batendo juntos e festivamente
Ou sozinho num ritmo tristonho...
Ó! meu pobre, meu grande amor distante,
Nem sabes tu o bem que faz à gente
Haver sonhado... e ter vivido o sonho!




Barco de papel (foto obtida na Internet)

ESCREVI UM POEMA TRISTE
Eu escrevi um poema triste
E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza...
Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel...
                                                                    Eu fico, junto à correnteza,
                                                                    Olhando as horas tão breves...
                                                                    E das cartas que me escreves
                                                                    Faço barcos de papel!



DA INQUIETA ESPERANÇA
Bem sabes Tu, Senhor, que o bem melhor é aquele
Que não passa, talvez, de um desejo ilusório.
Nunca me dê o Céu... quero é sonhar com ele
Na inquietação feliz do Purgatório.



Mario Quintana (foto: site clicRBS)

AMAR
Amar: fechei os olhos para não te ver
e a minha boca para não dizer...
E dos meus olhos fechados desceram lágrimas que não enxuguei,
e da minha boca fechada nasceram sussurros
                                   e palavras mudas que te dediquei...



SEISCENTOS E SESSENTA E SEIS
A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são 6 horas: há tempo...
Quando se vê, já é 6ªfeira...
Quando se vê, passaram 60 anos...
Agora, é tarde demais para ser reprovado...
E se me dessem - um dia - uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio.
seguia sempre, sempre em frente...
E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.

Nota da Webmaster:
O poema acima Seiscentos e Sessenta e Seis tem circulado na Internet de forma modificada e com o título de O Tempo" ou A Vida, ambos errados. Os versos originais de Quintana param em "E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas". Entretanto, alguns enxertos, com variações, têm sido feitos após o último verso, por alguém que julgou que os adendos cairiam bem para "completar" a idéia do poeta ou, talvez, que o texto ficaria mais tocante com alguns acréscimos no final, tais como: "Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida/ E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo./ Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz./ A única falta que terá, será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará."

Algumas pessoas que têm respeito pela propriedade intelectual vêm tentando amenizar essa praga que assola a Internet: a modificação da versão original dos autores ou, ainda, ignorar a autoria de alguns textos ou atribuí-los erroneamente a outros. O trabalho deles pode ser conferido em:
- Blog de Emílio Pacheco (Falsos Quintanas):
http://emiliopacheco.blogspot.com/2006/07/os-falsos-quintanas.html

- Blog de Vanessa Lampert (Autor Desconhecido):
http://www.autordesconhecido.blogger.com.br/

- Comunidade O Verdadeiro Mario Quintana (Orkut):
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=10500659



VELHOS CAMARADAS
Gadea, Lubicheck, Sebastião, Lobo Alvim
Ah, meus velhos camaradas
Aonde foram vocês?
Onde é que estão aquelas nossas ideais noitadas?
Fiquei sozinho
Mas não reio não
Estejam nossas almas
Separadas
Às vezes sinto aqui
Nessas calçadas
O passo amigo de vocês
E então não me constranjo
De sentir-me alegre
De amar a vida assim
Por mais que ela nos minta
E no meu romantismo vagabundo
Eu sei que nesses céus de Porto Alegre
É para nós que ainda São Pedro pinta
Os mais belos crepúsculos do mundo.


Mário Quintana, 1985 (Foto de Avani Stein-Folha Imagem.

SAUDADE
Na solidão na penumbra do amanhecer.
Via você na noite, nas estrelas, nos planetas,
nos mares, no brilho do sol e no anoitecer.

Via você no ontem , no hoje, no amanhã...
Mas não via você no momento.
Que saudade...

DA SAUDADE
A saudade que dói mais fundo
- e irremediavelmente -
é a saudade que temos de nós.

Mario Quintana - foto da Internet, autor desconhecido (poderá ter direito autorais)

BOLA DE CRISTAL
A praça, o coreto, o quiosque,
as primeiras leituras, os primeiros versos
e aquelas paixões sem fim...
Todo um mundo submerso,
com suas vozes, seus passos, seus silêncios
- ai que saudade de mim!

Deixo-te, pobre menino, aí sozinho...
Que bom que nunca me viste
Como te estou vendo agora
- e é melhor que seja assim...
Deixo-te
com os teus sonhos de outrora,
os teus livros queridos
e aquelas paixões sem fim!
E a praça... o coreto... o quiosque
onde comprava revistas...
Sonha, menino triste...
Sonha...
- só o teu sonho é que existe.

RECORDO AINDA
Recordo ainda... e nada mais me importa...
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta...

Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança...

Estrada afora após segui... Mas, aí,
Embora idade e senso eu aparente
Não vos iludais o velho que aqui vai:

Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino... acreditai!...
Que envelheceu, um dia, de repente!...

CANÇÃO PARA UMA VALSA LENTA
Minha vida não foi um romance...
Nunca tive até hoje um segredo.
Se me amas, não digas, que morro
De surpresa... de encanto... de medo...

Minha vida não foi um romance,
Minha vida passou por passar.
Se me amas, não finjas, que vivo
Esperando um amor para amar.

(...)
Glória a ti que me enches a vida
De surpresa, de encanto, de medo!

CANÇÃO DO DIA DE SEMPRE
Tão bom viver dia a dia...
A vida assim jamais cansa...
Viver tão só de momentos
Como essas nuvens do céu...
E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...
E a rosa louca dos ventos
presa à copa do chapéu.
Nunca dês um nome a um rio:
sempre é outro rio a passar.
Nada jamais continua,
tudo vai recomeçar!
E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...

O QUE O VENTO NÃO LEVOU
No fim tu hás de ver que as coisas mais leves
são as únicas que o vento não conseguiu levar:
um estribilho antigo
um carinho no momento preciso
o folhear de um livro de poemas
o cheiro que tinha um dia o próprio vento...

HORA DE DORMIR DE NOVO
Eu estava dormindo e me acordaram
E me encontrei, assim, num mundo estranho e louco...
E quando eu começava a compreendê-lo
Um pouco,
Já eram horas de dormir de novo!

Outros versos...

Sobre os nossos retratos
"O pior dos nossos retratos é que vão ficando cada dia mais jovens do que a gente.../ E chega um dia em que parece que são nossos filhos.../ E a gente os olha saudosamente, como se houvessem morrido há muitos anos, em plena mocidade... os pobres diabos!"

Viver
"Vovô ganhou mais um dia. / Sentado na copa, de pijama e chinelas, / enrola o primeiro cigarro e espera o gostoso café com leite. / Lili, matinal como um passarinho, também espera o café com leite. / Tal qual vovô. / Pois só as crianças e os velhos conhecem a volúpia de viver / dia a dia, hora a hora, e suas esperas e desejos / nunca se estendem além de cinco minutos..."

O Milagre
"Dias maravilhosos em que os jornais vêm cheios de poesia... / e do lábio do amigo brotam palavras e eterno encanto... / Dias mágicos... / Em que os burgueses espiam, / Através das vidraças dos escritórios, / A graça gratuita das nuvens..."

Do sabor das coisas
"Por mais raro que seja, ou mais antigo, / Só um vinho é deveras excelente: / Aquele que tu bebes calmamente / Com o teu mais velho e silencioso amigo..."

Pequeno poema de após a chuva
"Frescor agradecido de capim molhado / Como alguém que chorou / E depois sentiu uma grande, uma quase envergonhada alegria / Por ter a vida / Continuado..."

Música
"O que mais me comove em música / São estas notas soltas / pobres notas únicas - / Que do teclado arranca o afinador de pianos."

Sobre o sofrimento
"Se eu pudesse, pegava a dor,/ colocava a dor dentro de um envelope / e devolvia ao remetente... "

Seu lirismo
"A vida é louca, o mundo é triste:/ Vale a pena matar-se por isso? Nem por ninguém!/ Só se deve morrer de puro amor..."

Sobre ser poeta
- Eu amo o mundo! Eu detesto o mundo! Eu creio em Deus! Deus é um absurdo! Eu vou me matar! Eu quero viver!
- Você é louco?
- Não, sou poeta.

O desejo do menino
"Um menino queria ser médico. / Outro queria ser advogado / e um outro pirata./ Eu sempre quis ser /uma coisa mais louca / queria ser eu mesmo."

Sobre seus versos
"Nunca ninguém sabe se estou louco para rir ou para chorar. / Por isso o meu verso tem esse quase imperceptível tremor..."

Canção dos romances perdidos
"E esta minha ternura, / Meu Deus, / Oh! Toda esta minha ternura inútil, desaproveitada!..."

Dos nossos males
"A nós bastem nossos próprios ais, / Que a ninguém sua cruz é pequenina. / Por pior que seja a situação da China, / Os nossos calos doem muito mais..."

Trova
"Coração que bate-bate... / Antes deixes de bater! / Só num relógio é que as horas / Vão passando sem sofrer."



Suas frases, seus pensamentos... Mário Quintana

"É preciso escrever um poema várias vezes para dar a impressão de que ele foi escrito pela primeira vez".

"Um bom poema é aquele que nos dá a impressão de que está lendo a gente ... e não a gente a ele!"

"A criança que brinca e o poeta que faz um poema estão ambos na mesma idade mágica".

"O que mata um jardim é esse olhar vazio de quem passa por eles passa indiferente".

"Nunca dê-me, Senhor, o Céu. Quero é sonhar com ele no calor do Purgatório..."

"Ainda estou no primeiro impulso do balanço. Ainda não completei a volta".

"Os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não lêem."

"O sorriso enriquece os recebedores sem empobrecer os doadores".

“A recordação é uma cadeira de balanço embalando sozinha.”

"A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer".

"A alma é essa coisa que nos pergunta se a alma existe."

"Tão bom morrer de amor! e continuar vivendo..."

"O amor é quando a gente mora um no outro."

"A maior dor do vento é não ser colorido."

"Sonhar é acordar-se para dentro."

"... eu te amo a perder de vista..."

"Amar é mudar a alma de casa."


Remissão
"Naquele dia fazia um azul tão límpido, meu Deus, que eu me sentia perdoado para sempre não sei de quê."

O tempo
"Para sempre é muito tempo. O tempo não pára! Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo..."

A Voz
"Ser poeta não é dizer grandes coisas, mas ter uma voz reconhecível dentre todas as outras."

Revelação
"Durante as belas noites de tempestade, os relâmpagos tiram radiografias da paisagem".

As Indagações
"A resposta certa, não importa nada: o essencial é que as perguntas estejam certas."

Dupla Delícia
"O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado."

Loteria
"A loteria - ou o jogo do bicho, seu filho natural jamais engana. Porque a gente não compra bilhete: compra esperança."

Mário Quintana (Imagem da Internet - Site ClicRBS)

Sobre si mesmo
“Dizem que sou tímido. Nada disso! Sou é caladão, introspectivo. Não sei por que sujeitam os introvertidos a tratamentos.”

Incineração
"Fumar é um jeito discreto de ir queimando as ilusões perdidas. Daí esse ar aliviado e triste dos fumantes solitários. Vocês ainda não repararam que ninguém fuma sorrindo?"

Sobre as viagens
"O que estraga as viagens, agora, é o seu rápido destino: de repente já estás em Pequim... Benditos, mil vezes benditos aqueles carrosséis que ensinaram aos meninos de meu tempo a pura alegria de viajar!"

Sobre o Ano Novo
"Bendito quem inventou o belo truque do calendário, pois o bom da segunda-feira, do dia 1º do mês e de cada Ano Novo é que nos dão a impressão de que a vida não continua, mas apenas recomeça..."

Arte de fumar
"Desconfia dos que não fumam: esses não têm vida interior, não têm sentimentos. O cigarro é uma maneira disfarçada de suspirar..."

A Leitura Interrompida
"A nossa vida nunca chega ao fim. Isto é, nunca termina ..."

Sobre seu percurso na literatura
"Nunca evoluí. Sempre fui eu mesmo."

Impasse
"A maioria das gentes vive de convicções e não de idéias. É uma sorte. O homem de idéias pode por isso mesmo vir a abandoná-las honestamente por outras, mas o homem de convicções, nunca! O que não deixa de ser um azar. Pois sendo as mesmas inabaláveis convicções que movem este mundo, o resultado é esse eterno desconcerto."



Poemas em prosa...

Estos poemas em prosa de Mario Quintana não são uma distorção da realidade, nem um engenhoso jogo de semelhanças e analogias. São apontamentos de ternura, que convertem em poema lírico a profunda observação dos muitos fatos simples que a vida oferece.

(...) "O poeta faz uso da “prosa poética”, que, como o nome indica, é um gênero limítrofe entre as duas formas de expressão. Em um só verso, em uma pequena historieta ou ainda em breves reflexões, Quintana comprova sua inclinação para o coloquial, para a palavra liberta de medidas, traços que identificarão para sempre sua produção. No conjunto da obra de Quintana, é este (Sapato Florido) um livro singular no qual se exprime um particular entendimento dos fatos, dos costumes e uma intuitiva compreensão dos homens e da vida." (Tania Franco Carvalhal, que foi uma das maiores especialistas na obra de Quintana).

Da paginação
Os livros de poemas devem ter margens largas e muitas páginas em branco e suficientes claros nas páginas impressas, para que as crianças possam enchê-los de desenhos - gatos, homens, aviões, casas, chaminés, árvores, luas, pontes, automóveis, cachorros, cavalos, bois, tranças, estrelas - que passarão também a fazer parte dos poemas..." (em "Sapato Florido").

O Estranho Caso de Mister Wong
Além do controlado Dr. Jekyll e do desrecalcado Mister Hyde, há também um chinês dentro de nós: Mister Wong. Nem bom, nem mau: gratuito. Entremos, por exemplo, neste teatro. Tomemos este camarote. Pois bem, enquanto o Dr. Jekyll, muito compenetrado, é todo ouvidos, e Mister Hyde arrisca um olho e a alma no decote da senhora vizinha, o nosso Mister Wong, descansadamente, põe-se a contar carecas na platéia... Outros exemplos? Procure-os o senhor em si mesmo, agora mesmo. Não perca tempo. Cultive o seu Mister Wong.

Triste época
"Em nossa triste época de igualitarismo e vulgaridade, as únicas criaturas que mereceriam entrar numa história de fadas são os mestre-cucas, com os seus invejáveis gorros brancos, e os porteiros dos grandes hotéis, com os seus alamares, os seus ademanes, a sua indiscutida majestade."



Suas idéias...

"Na música de Mahler, como na minha poesia, há uma inquietação terrível, aqueles motivos que nunca chegam a uma solução... Mas, pelo menos, acho que expressamos a nossa angústia. Ele na sua música, eu na minha poesia... E, ao escrever, estou mais perguntando do que respondendo. Nunca cheguei a uma resposta..., felizmente. Porque se chegasse a uma certeza... sobre a poesia ou outras coisas... estaria morto."

Mário não gostava de escrever em prosa. Assim expressou-se ao iniciar uma carta-resposta a um jovem escritor:
“Meu caro poeta,
Por um lado foi bom que me tivesses pedido resposta urgente, senão eu jamais escreveria sobre o assunto desta, pois não possuo o dom discursivo e expositivo, vindo daí a dificuldade que sempre tive de escrever em prosa. A prosa não tem margens, nunca se sabe quando, como e onde parar. O poema, não; descreve uma parábola traçada pelo próprio impulso (ritmo).”

"Sempre me pareceu que um poema era algo assim como um passarinho engaiolado. E que, para apanhá-lo vivo, era preciso um meticuloso cuidado que nem todos têm. Poema não se pega a tiro. Nem a laço. Nem a grito. Não, o grito é o que mais o mata. É preciso esperá-lo com paciência e silenciosamente como um gato.
Ora, pensava eu tudo isso e o céu também, quando topo com uns versos de Raymond Queneau, que confirmam muito a minha cinegética transcendental. Eis por que aqui os traduzo, ou os adapto, e os adoto, sem data venia:
Meu Deus, que vontade me deu de escrever um poeminho.../ Olha, agora mesmo vai passando um! / Pst pst pst / vem para cá para que te enfie / na fileira de meus outros poemas / vem cá para que eu te entube / nos comprimidos de minhas obras completas / vem cá para que eu te empoete / para que eu te enrime / para que eu te enritme / para que eu te enlire / para que eu te empégase / para que eu te enverse / para que eu te emprose / vem cá... / Vaca! / Escafedeu-se.[*]

[*] Poema original de Raymond Queneau: “Bon dieu de bon dieu que j’ai envie d’écrire un petit poème / Tiens en voilà justement un qui passe / Petit petit petit / Viens que je t’enfile / Sur le fil du collier de mes autres poèmes / viens ici que je t’entube / dans le comprimé de mes œuvres complètes / viens ici que je t’enpapouète / et que je t’ennuie / et que je t’enrythme / et que 1e t’enlyre / et que je t’enpegase / et que je t’enverse et que je t’enprose / la vache / il a foutu le camp.



Sua ironia, seu sarcasmo... Mario Quintana

"A sutileza de seu humor chegava às vezes à total irreverência" (Carlos Heitor Cony).

"Sua personalidade magnética produzia, de modo perdulário, poesia falada. Em qualquer encontro com amigos, surgiam anedotas e provérbios exemplares. Era frasista inveterado, da linhagem de Otto Lara Resende, alguém precisava sair atrás dele anotando. Desconcertava com o raciocínio analógico, virando o senso comum de ponta-cabeça. Em seu espelho mágico, os leitores saíam transfigurados: "Sorri com tranqüilidade / Quando alguém te calunia. / Quem sabe o que não seria / Se ele dissesse a verdade..."(Fabrício Carpinejar - Revista Entrelivros - edição nº12, abril/2006).

"Domingo que vem, Mario Quintana faria cem anos. Um poeta superlativo, que de franzino só tinha a aparência. Mas houve quem tentasse fazê-lo parecer menor do que era. É sabido que certa vez um figurão disse a ele: "Gostei muito dos seus versinhos", no que Quintana rebateu: "Obrigado pela sua opiniãozinha" (Martha Medeiros - coluna na Zero Hora, em 26-07-2006).

O Trágico Dilema
Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro.

Ressalva
Poesia não é a gente tentar em vão trepar pelas paredes, como se vê em tanto louco aí: poesia é trepar mesmo pelas paredes.

Urbanística
Como seriam belas as estátuas eqüestres se constassem apenas os cavalos!

Esporte
O único esporte que pratico é a luta livre com o meu Anjo da Guarda.

Epígrafe
As únicas coisas eternas são as nuvens...

Exame de Consciência
Se eu amo o meu semelhante? Sim. Mas onde encontrar o meu semelhante?

Velhice
Velhice é quando um dia as moças começam a nos tratar com respeito e os rapazes sem respeito nenhum.

Estatística
De cada dois gambás (bêbados) que a gente encontra, um é porque não tem mulher e o outro é porque tem.

Animais domésticos
O mais feroz dos animais domésticos é o relógio de parede. Conheço um que já devorou três gerações da minha família.

Sobre os arranha-céus
Não gosto da arquitetura nova. Porque a arquitetura nova não faz casas velhas... Não riam, por favor, que o poema é triste.

A Carta
Quando completei quinze anos, meu compenetrado padrinho me escreveu uma carta muito, muito séria: tinha até ponto-e-vírgula! Nunca fiquei tão impressionado na minha vida.

Sobre as nossas esperanças
O futuro é uma espécie de banco, ao qual vamos remetendo, um por um, os cheques de nossas esperanças. Ora! Não é possível que todos os cheques sejam sem fundo.

Dos Leitores
Há leitores que acham bom o que a gente escreve. Há outros que sempre acham que poderia ser melhor. Mas, na verdade, até hoje não pude saber qual das duas espécies irrita mais.

Astronomia
Dizem os astrólogos que Saturno é taciturno. Mas só se for para rimar... Com seus multicoloridos anéis, ele é, dentre os seus pobres irmãos do sistema solar, o único planeta que faz bambolê.

Horror
"Com os seus OO de espanto, seus RR guturais, seu hirto H, HORROR é uma palavra de cabelos em pé, assustada da própria significação."

O provérbio
"O seguro morreu de guarda-chuva."

A grande surpresa
Mas que susto não irão levar essas velhas carolas se Deus existe mesmo...

A esperança
Não, o provérbio não está bem certo. O raio é que enquanto há esperança, há vida.
Jamais foi encontrado no bolso de um suicida, um bilhete de loteria que estivesse para correr no dia seguinte.

"Cada pessoa pensa como pode..."

"O tempo é a insônia da eternidade."

"A hortênsia é a couve-flor pintada de azul..."

"O mais triste das dedicatórias são as datas."

"Enforcar-se é levar o nó na garganta a sério demais."

"O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso."

"Quem bebe por desgosto é um cretino: só se deve beber por gosto."

"O ideal é a gente nascer doentinho e envelhecer cada vez com mais saúde."

"O ruim dos filmes de Far West é que os tiroteios acordam a gente no melhor do sono."

"Estou nessa idade em que o juiz consulta o relógio e as arquibancadas já vão se esvaziando..."

"Sempre me senti isolado nessas reuniões sociais: o excesso de gente impede de ver as pessoas..."

"Não importa saber se a gente acredita em Deus: o importante é saber se Deus acredita na gente..."

"Esses que puxam conversa sobre se chove ou não chove – não poderão ir para o Céu! Lá faz sempre bom tempo..."

"Se alguém te perguntar o que quiseste dizer com um poema, pergunta-lhe o que Deus quis dizer com este mundo..."


Suas obras...

Em português:
- A Rua dos Cataventos (1940)
- Canções (1946)
- Sapato Florido (1948)
- O Batalhão de Letras (1948)
- O Aprendiz de Feiticeiro (1950)
- Espelho Mágico (1951)
- Inéditos e Esparsos (1953)
- Poesias (1962)
- Antologia Poética (1966)
- Pé de Pilão (1968)
- Do Caderno H (1973)
- Pé de Pilão (1975) - literatura infanto-juvenil
- Apontamentos de História Sobrenatural (1976)
- Quintanares (1976) - edição especial para a MPM Propaganda.
- A Vaca e o Hipogrifo (1977)
- Prosa e Verso (1978)
- Na Volta da Esquina (1979)
- Esconderijos do Tempo (1980)
- Nova Antologia Poética (1981)
- Mário Quintana (1982)
- Lili Inventa o Mundo (1983)
- Os melhores poemas de Mário Quintana (1983)
- Nariz de Vidro (1984)
- O Sapo Amarelo (1984) - literatura infanto-juvenil
- 80 Anos de Poesia (1985)
- Baú de espantos ((1986) - Da Preguiça como Método de Trabalho (1987)
- Preparativos de Viagem (1987)
- Porta Giratória (1988)
- A Cor do Invisível (1989)
- Velório sem Defunto (1990)
- A Rua dos Cataventos (1992) - reedição para os 50 anos da 1a. publicação.
- Sapato Furado (1994)
- Mario Quintana - Poesia completa (2005)

Em espanhol:
- Objetos Perdidos y Otros Poemas (1979)

Em inglês:
- Chew me up slowly (1978)

Antologias:
- Poesias (1962)
- Antologia Poética (1966)
- Prosa e Verso (1978)
- Nova Antologia Poética (1981)

Discos:
- Antologia Poética de Mário Quintana - Gravadora Polygram (1983)

Música:
- Recital Canto Coral Quintanares (1993) - treze poemas musicados pelo maestro Gil de Rocca Sales.
- Cantando o Imaginário do Poeta (1994) - Coral Casa de Mário Quintana - poemas musicados pelo maestro Adroaldo Cauduro.

Teatro:
- Lili Inventa o Mundo (1993) - montagem de Dilmar Messias.

Sobre o autor:
- Quintana dos 8 aos 80 (1985)





Marília Santos Cechella (07-01-2006).

Esta página foi desenvolvida pela alegretense Marília Cechella, criadora e administradora do site da genealogia da Família Souza Brasil, como uma forma de homenagear o Poeta maior do Alegrete - Mário Quintana, o poeta que emprestamos ao Brasil, como disse o escritor alegretense José Queiroga.

MARÍLIA é filha de Márcio Brasil dos Santos e Percília ("Moza") Lautert de Souza, neta de Fernanda da Silva Brasil (dos Santos, após o casamento), bisneta de Francisco de Souza Brasil, trineta de João de Sousa Brasil, tetraneta de José de Sousa Brasil (Filho), pentaneta de José de Sousa Brasil (o primeiro ancestral a imigrar para o sul do Brasil, vindo dos Açores/Portugal), hexaneta de Matheus de Sousa Brasil e provável dodecaneta do genearca Pero Luís de Sousa do Brasil. Seus fragmentos biográficos podem ser lidos aqui (página da 4ª geração dos descendentes de João de Souza Brasil, com seu nome de solteira - Marília Souza Santos).

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