SERGIO FARACO

Advogado e escritor, SÉRGIO FARACO nasceu em Alegrete/RS em 1940, filho de DÉBORAH CONCEIÇÃO e HUMBERTO ZACCARO FARACO. Reside em Porto Alegre/RS.



CRONOLOGIA

1940
A 25 de julho, às 11:00 horas da manhã, nasce Sérgio Faraco em Alegrete (RS).

1950
Conclui o Curso Primário no Instituto de Educação Oswaldo Aranha, em Alegrete.

1953
Passa a estudar em Porto Alegre, como aluno interno do Colégio Rosário.

1957
De volta a Alegrete, conclui o Curso Ginasial no Instituto de Educação Oswaldo Aranha.

1958
Serve como recruta na 12ª Companhia de Comunicações, sediada em Alegrete.

1959
Em Porto Alegre, entra para o serviço público federal (Justiça do Trabalho). Atua no quadro de basquete do Esporte Clube Cruzeiro, que disputa o certame citadino em Porto Alegre, e freqüenta o Curso Clássico no Colégio Estadual Júlio de Castilhos.

1962
É transferido para Blumenau (SC), como Secretário da Junta de Conciliação e Julgamento. Atua no quadro de basquete do Clube Olímpico, daquela cidade, disputando os Jogos Abertos de Santa Catarina. Participa, em Blumenau, Joinville e Florianópolis, de competições de motocicleta.

1963
Viaja para a União Soviética, onde freqüenta o Instituto Internacional de Ciências Sociais, em Moscou.

1964
Viaja para a Armênia, no Cáucaso, onde visita demoradamente as ruínas do antigo reino de Urartu, contemporâneo de assírios e babilônios.

1965
Retorna ao Brasil e, por causa de sua estada em Moscou, é levado à prisão pela Interpol. Em sua função pública, é transferido sucessivamente para Porto Alegre, Tubarão e Uruguaiana. Retoma os estudos regulares e conclui o Curso Clássico, prestando exames no Colégio Santana, em Santa Maria. Começa a escrever para a Gazeta de Alegrete.

1968
Casa-se em Alegrete com Ana Cybele Ferreira da Costa Milano, filha menor do poeta rio-grandense Antônio Brasil Milano.
Obs.: Os dados da família Brasil Milano estão publicados na genealogia dos descendendentes de JOÃO DE SOUSA BRASIL.

Publica seus primeiros contos no Caderno de Sábado do Correio do Povo.

1969
É transferido para Novo Hamburgo. Nasce sua primeira filha, Bianca.

1970
Publica Idolatria, contos. Em concurso estadual de contos, obtém, com três trabalhos, os três primeiros lugares.

1971
Nasce sua segunda filha, Angélica. É transferido para Porto Alegre, como Secretário da Quarta Junta de Conciliação e Julgamento da capital rio-grandense.

1974
Publica seu segundo livro, Depois da primeira morte, contos.

1975
Seu relato "Travessia" é incluído na antologia Os melhores contos brasileiros de 1974. Freqüenta o Curso de Direito, por exigência da função que exerce no Poder Judiciário.

1978
No Rio de Janeiro, publica seu terceiro livro, Hombre, contos.

Publica Urartu, história antiga do Oriente Próximo, Porto Alegre: UFRGS & IEL (esgotado).

1980
No Rio de Janeiro, publica uma biografia de Tiradentes: a alguma verdade (ainda que tardia, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980 (esgotado).

Conclui o Curso de Direito, em Canoas, na Faculdade de Direito do Instituto Ritter dos Reis. Nasce seu terceiro filho, Bruno.

1982
Traduz, do uruguaio Mario Arregui, Cavalos do amanhecer.

1983
De parceria com Blásio Hickmann, publica um dicionário de autores rio-grandenses contemporâneos, Porto Alegre: Prefeitura Municipal (esgotado).

1984
No Rio de Janeiro, aparece seu quarto livro de contos, Manilha de espadas.

1985
Traduz, de Mario Arregui, A cidade silenciosa, contos; do argentino Mempo Giardinelli, Luna caliente/ Três noites de paixão, novela; do venezuelano Eugenio Montejo, O poeta sem rio, poesia.

1986
Traduz, de Mempo Giardinelli, O céu em minhas mãos.

Publica seu quinto livro de contos, a antologia Noite de matar um homem.

O Instituto Estadual do Livro edita o fascículo Sérgio Faraco, que focaliza a vida e a obra do autor.

1987
Publica os livros Doce paraíso e A dama do Bar Nevada, ambos de contos.

Traduz A revolução de bicicleta, de Mempo Giardinelli.

1988
Recebe o Prêmio Galeão Coutinho, da União Brasileira de Escritores, conferido ao melhor livro de contos publicado no Brasil no ano anterior (pelo seu A dama do Bar Nevada).

Publica seu primeiro livro no exterior, Noche de matar un hombre, no Uruguai.

1990
Publica O chafariz dos turcos, crônicas.

No Uruguai, são reunidas em livro as cartas que trocou com o escritor Mario Arregui, falecido em 1985: Mario Arregui & Sergio Faraco: Correspondencia.

Publica O processo dos inconfidentes: verdade ou versão, ensaios, Petrópolis: Vozes (esgotado).

1991
Publica seu sétimo livro de contos, Majestic Hotel.

Traduz A longa viagem de prazer, contos do uruguaio Juan José Morosoli, e A história de Naná, do também uruguaio Carlos Maggi.

Organiza e traduz, de parceria com Aldyr Schlee, a antologia de contos Para sempre Uruguai.

1992
Em Montevidéu, publica-se a segunda edição de Noche de matar un hombre.

Traduz: Contos do país dos gaúchos, de Julián Murguía, Os demônios de Pilar Ramírez, de Jesús Moraes, e Bernabé, Bernabé!, de Tomás de Mattos, autores uruguaios, e Made in Buenavista, do argentino José Gabriel Ceballos.

Em Alegrete, inaugura-se na Escola Estadual Tancredo de Almeida Neves a Biblioteca Sergio Faraco.

1993
Publica seu segundo livro de crônicas, A lua com sede.
Traduz A menina que perdi no circo, da paraguaia Raquel Saguier, e O amigo que veio do sul, de Julián Murguía.

1994
Pelas crônicas de A lua com sede, recebe o Prêmio Henrique Bertaso, conferido pela Câmara Rio-Grandense do Livro, Clube dos Editores do Rio Grande do Sul e Associação Gaúcha de Escritores, atribuído ao melhor livro de crônicas do ano.

Publica, como organizador, A cidade de perfil, crônicas de diversos autores.

Traduz Caballero, do paraguaio Guido Rodríguez Alcalá, Vozes da selva, do uruguaio Horacio Quiroga, e A guerra das formigas, de Julián Murguía.

1995
Recebe o Prêmio Açorianos de Literatura - categoria Crônicas, instituído pela Prefeitura Municipal de Porto Alegre/RS, pela organização da coletânea A cidade de perfil.

Publica seu oitavo livro de ficção, reunindo todos os contos que escreveu: Contos completos.

1996
Pelo livro Contos completos, recebe novamente o Prêmio Açorianos de Literatura - categoria Contos, instituído pela Prefeitura Municipal de Porto Alegre/RS.

Traduz Noturnos e outros poemas, da uruguaia Idea Vilariño, e publica, como organizador, o volume Contos brasileiros, de diversos autores.

1997
Traduz Armadilha mortal, do argentino Roberto Arlt.
Organiza os volumes Livro dos sonetos, de diversos autores,Livro das cortesãs, de diversos autores, Livro dos bichos, de diversos autores, I-juca- pirama, de Gonçalves Dias, A mensageira das violetas, de Florbela Espanca, Antologia poética, de Mario Quintana, Sonetos para amar o amor, de Luís de Camões, e O dinheiro, ensaio de Olavo Bilac.

1998
Traduz Contos italianos, de Máximo Gorki.
Organiza: Todos os sonetos, de Augusto dos Anjos, Amor ao Brasil, do Visconde de Taunay, Marília de Dirceu, de Tomás Antônio Gonzaga, Livro dos desaforos, de diversos autores, Livro do corpo, de diversos autores, e Shakespeare de A a Z, uma seleção das frases lapidares de William Shakespeare.

Publica Dançar tango em Porto Alegre, coletânea de contos, e Gregos & Gringos, coletânea de crônicas, ambos em edição de bolso.

1999
É indicado como um dos "50 melhores contistas dos 500 anos do Brasil" em enquete do Jornal de Letras (Rio de Janeiro (6):10, fevereiro de 1999), dirigido por Arnaldo Niskier e Antonio Olinto.

Traduz Uma estação de amor e Passado amor, novelas de Horacio Quiroga, São Manuel Bueno, mártir, de Miguel de Unamuno, e De pernas pro ar: a escola do mundo ao avesso, de Eduardo Galeano.

Organiza as coletâneas As árvores e seus cantores, de diversos autores, Decálogo do perfeito contista, de Horacio Quiroga e outros e As primaveras, de Casimiro de Abreu.

Recebe o Prêmio Nacional de Ficção, atribuído pela Academia Brasileira de Letras à coletânea Dançar tango em Porto Alegre como a melhor obra de ficção publicada no Brasil em 1998.

Em enquete promovida pela revista Aplauso (número 11), de Porto Alegre, entre críticos literários e professores de literatura, é escolhido como o quinto dos cinco nomes da literatura rio-grandense de todos os tempos, depois de Érico Veríssimo, Simões Lopes Neto, Dyonélio Machado e Mario Quintana.

2000
Um de seus contos, "Idolatria", é escolhido como um de Os cem melhores contos brasileiros do século, coletânea publicada no Rio de Janeiro pela Editora Objetiva.

Publica Viva o Alegrete!, coletânea de crônicas sobre sua cidade natal, em edição fora de comércio, e Rondas de escárnio e loucura, volume de contos, que recebe o troféu Destaque Literário (Obra de Ficção) da 46ª Feira do Livro de Porto Alegre (Juri Oficial), atribuído pela Rede Gaúcha SAT/RBS Rádio e Rádio CBN 1340.

Em outubro, recebe da Prefeitura de Alegrete a Comenda do Mérito Oswaldo Aranha.

2001
Publica, agora em edição comercial, as crônicas de Viva o Alegrete.

Recebe novamente o Prêmio Açorianos de Literatura - categoria Contos, instituído pela Prefeitura Municipal de Porto Alegre/RS, pelo livro Rondas de escárnio e loucura.

Publica, de parceria com o ex-piloto de competição Hugo Almeida, o manual O automóvel: prazer em conhecê-lo, cuja edição rapidamente se esgota.

2002
Recebe da Editora Nova Prova o troféu Escritor Homenageado.

Publica seu livro de memórias, Lágrimas na chuva: uma aventura na URSS.

Traduz O teatro do bem e do mal, de Eduardo Galeano.

Recebe o troféu Destaque CGTEE/Correio Povo Melhor Sessão de Autógrafos da 48ª Feira do Livro de Porto Alegre, alusivo ao lançamento de Lágrimas na chuva.

2003
O seu livro Lágrimas na chuva é indicado para o Prêmio Livro do Ano (Não-Ficção) da Associação Gaúcha de Escritores, o qual também foi indicado como Livro do Ano pelo jornal Zero Hora, em sua retrospectiva de 2002, e eleito pelos internautas, no site ClicRBS, como o melhor livro rio-grandense publicado no ano anterior.

Uma estadia no inferno russo - comentário de Fabrício Carpinejar (poeta e escritor gaúcho) sobre o livro de memórias de Faraco.

Lágrimas na chuva, eleito o melhor livro de 2002 pelo jornal Zero Hora, é um breviário doloroso de dois anos (1963-1965) de Sergio Faraco na União Soviética, onde cursou o Instituto Internacional de Ciências Sociais, de Moscou. Poderia ser catalogada como uma curiosidade o fato de um dos melhores contistas brasileiros, autor de Rondas de escárnio e loucura, se propor a fazer uma biografia. Mas não foi uma extravagância. A obra demorou trinta e cinco anos para ser externada. O escritor relutou em transpor suas experiências, ensaiou o início várias vezes, até que aceitou publicar capítulos semanais no jornal A Notícia, de São Luís Gonzaga.
O compromisso semanal o obrigou a disciplinar as recordações. A demora também ganhou um maior sentido com a frase de personagem de Juan José Morosoli, que reluz como epígrafe na narrativa: "as viagens só começam depois que a gente volta". Na literatura, os desembarques demoram a acontecer. Volta-se o corpo, mas não as bagagens. O livro retrata o perfeito caso de extravio de pertences.

Faraco é filho da serenidade e não faz outra coisa senão deixar a narração a cargo dos próprios acontecimentos. Ele torna-se um espectador silencioso de seu percurso. Tudo é posto no devido lugar, cada fraseado, sem excessos literários, fluxo desordenado de consciência e achaques de estilo. Conta-se o que se ouviu, ainda que os pensamentos queiram opinar. A escrita fecha a letra em linha seca e reta, impiedosa como cortes de estilete em papel grosso. Os riscos ao drama folhetinesco eram enormes. A história oferecia elementos para chorar ritmado. O que se encontra é a maturidade objetiva e a contenção de quem não faz juízos morais ou recrimina culpados (e motivos não faltavam para isso). O enredo mostra o convite aceito de um jovem escritor, aos 24 anos, para estudar na União Soviética, em 1963. A provável aventura desemboca em uma tragédia. Simpatizante do comunismo, o rapaz está disposto a conhecer o mundo e juntar currículo, atendendo a avidez de seu futuro em aberto. A viagem acontece no momento errado do jeito errado. Lá chegando, no frio russo, entre o romance com Nina e o aprendizado áspero da língua, descobre que o regime não admite nenhum desvio e discordância. Ocorre o aniquilamento da individualidade em nome de uma hipnose coletiva. A ironia é que o protagonista passa a ser denunciado pelos colegas brasileiros e termina em uma clínica psiquiátrica para correção de comportamento. Voltar ao Brasil é quase impossível, já que começava um regime militar no país e ele carregava o antecedente de uma viagem à URSS. Estava definitivamente exilado entre dois mundos, sendo que num deles seria visto como comunista e no outro, como anti-comunista. Nenhuma das paragens o permitia existir.

Apesar da ênfase memorialística, Lágrimas na chuva (o título é pop, inspirado em frase do filme Blade Runner) estabelece uma carga extra de fabulação e tensão ficcional. São confissões generosas, que não levam à amargura, e afirmativas, apesar do contexto de trevas e solidão. Revelam um alto grau de compreensão dos limites. Servem também como alerta ao totalitarismo que cresce na covardia moral individual. Talvez seja um livro feito para a memória, não da memória. Não é de se estranhar que grandes romances no país, como bem observou Luís Augusto Fischer, tenham essa ligação uterina com a evocação das lembranças, seja contemporaneamente com Carlos Heitor Cony (Quase memória), seja em outras eras com Raul Pompéia (O Ateneu). O visionário memorialista mineiro, Pedro Nava, completou o quebra-cabeça sobre as diferenças entre o vivido e o inventado. A peça que faltava está em seu terceiro volume autobiográfico, intitulado Chão de ferro: "Que é a verdade? É com essa pergunta que entro nesta fase de minhas memórias, fase tão irreal e mágica e adolescente como se tivesse sido inventada e não vivida. Se eu fosse historiador, tudo se resolveria. Se ficcionista, também. A questão é que o memorialista é a forma anfíbia dos dois e ora tem de palmilhar as securas desérticas da verdade, ora nadar nas possibilidades oceânicas de sua interpretação". Nesse sentido, Lágrimas na chuva é um romance real. O que vale é o impacto psicológico que proporciona. Se a emoção não serve ao historiador, ao ficcionista é tudo. Faraco fez ficção da realidade. O tempo virou engenho da memória. O escritor encontrou a sua verdade, diferente de todas as outras verdades e, portanto, tornou possível e suportável a vida, que nunca dá mesmo maiores explicações.

Tem seus contos gravados em CD, com narração de Vergara Marques, em edição da Coleção Palavra, coordenada por Waldemar Torres.

Traduz A galinha degolada e outros contos & Heroísmos: biografias exemplares, de Horacio Quiroga, e organiza O livro de Cesário Verde, do poeta português Cesário Verde.

Recebe o Prêmio Erico Veríssimo, conferido pela Câmara Municipal de Porto Alegre, pelo conjunto da obra.

Reedita-se sua tradução dos contos do uruguaio Mario Arregui, Cavalos do amanhecer.

A partir de fevereiro, passa a publicar crônicas quinzenais no Segundo Caderno do jornal Zero Hora, de Porto Alegre.

Participa da antologia 35 melhores contos do Rio Grande do Sul, Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro.

2004
Em 2004, publica a a reedição ampliada de Contos completos é distinguida com o Prêmio Livro do Ano no evento O Sul e os Livros, patrocinado pelo jornal O Sul, TV Pampa e Supermercados Nacional.
No mesmo evento, é agraciada como o Destaque do Ano a coletânea bilíngüe Dall’altra sponda/Da outra margem, em que participa, ao lado de Armindo Trevisan e José Clemente Pozenato.

Seu conto "Idolatria", incluído na antologia Os cem melhores contos brasileiros do século, organizada por Ítalo Moriconi, é interpretado pela atriz Marília Pêra no programa Contos da Meia-Noite, da TV Cultura de São Paulo.

2005
Publica o livro de crônicas Histórias dentro da história, Porto Alegre: L&PM.

Participa da antologia Contos para ler em viagem, Rio de Janeiro: Record.

Publica, em parceria com Paulo Dirceu Dias, o manual Snooker: tudo sobre a sinuca, Porto Alegre: L&PM.

2006
Participa da antologia 22 contistas em campo, Rio de Janeiro: Ediouro.

Participa da antologia Gente Vida, Porto Alegre: Nova Prova.

Em setembro, publica O crepúsculo da arrogância: RMS Titanic minuto a minuto, Porto Alegre: L&PM.

Em dezembro, ocorre o lançamento do curta-metragem gaúcho "Adeus à garoa", do diretor Mário Nascimento, baseado no seu conto homônimo.

2007
Em novembro ganha o Prêmio Fato Literário 2007 - categoria Personalidade, atribuído pelo Grupo RBS de Comunicações, em parceria com o Banrisul e o Governo do Estado.
Essa é uma premiação anual destinada a premiar pessoas e iniciativas que tenham marcado o cenário da literatura no Rio Grande do Sul. O júri oficial, formado por personalidades da cultura no Estado (escritores, editores, professores e outros membros da comunidade cultural), escolheu Faraco dentre seis finalistas. O escritor mostrou o quanto é popular através da votação obtida. Dos 90 votos do júri oficial, o contista alegretense obteve 72 e foi bastante aplaudido na cerimônia, realizada no Clube do Comércio.


Sérgio Faraco

Ao agradecer o prêmio Fato Literário, o escritor resumiu a seriedade com que encara o ofício: "Um reconhecimento como este não faz com que alguém escreva melhor, mas estimula esse alguém a alcançar a última fronteira de sua capacidade”.

Segundo o Caderno de Cultura de Zero Hora, Faraco dedica semanas, meses e até anos à escritura e a reescritura de cada texto. Ele justifica: “Persigo a tradução daquilo que me levou a escrever, em termos tão naturais e convincentes que, pronto o texto, o leitor possa sentir, com verossimilhança, tudo o que eu senti”.

- Não teme o risco de, ao burilar tanto o texto, perder a fluidez mais natural?, perguntou o repórter Eduardo Veras.
- "Não, eu trabalho justamente para conseguir essa fluidez, essa naturalidade. Já dizia Quintana, com muita sabedoria, que na literatura há uma grande diferença entre o espontâneo e o natural. O espontâneo é aquilo que jorra e, no mais das vezes, é mero desabafo, mera expressão sentimental, e então é o cinzel que vai elevá-lo à naturalidade, que é um outro nome da expressão literária".

Também em novembro, é agraciado com o Livro do Ano - Categoria Não-Ficção, da Associação Gaúcha de Escritores, pelo seu impactante relato sobre o naufrágio do Titanic, no livro O crepúsculo da arrogância.

Em 2007, além das duas premiações, Faraco assinou contrato com a Rede Globo de Televisão para a realização de uma microssérie baseada no seu conto Dançar tango em Porto Alegre, com direção de Luiz Fernando Carvalho, dentro do projeto Quadrante.

2008
Em 2008, recebe a Medalha Cidade de Porto Alegre, concedida pela Prefeitura Municipal. Em outubro, publica o livro de crônicas O Pão e a Esfinge, Porto Alegre: L&PM. Na noite de lançamento, autografa também Quintana e Eu (crônicas sobre Quintana e correspondência e as novas edições ampliadas e ilustradas dos

Em novembro, com seu conto Majestic HoteL participa da antologia Os melhores contos da América Latina (editora Agir), organizado pelo escritor gaúcho Flávio Moreira da Costa. O contista Sergio Faraco é um dos poucos brasileiros contemporâneos escolhidos por Moreira da Costa para a antologia.

2009
Em junho, publica LIVRO DOS POEMAS, Porto Alegre: L&PM. Inclui Camões, Casimiro de Abreu, Olavo Bilac, Fernando Pessoa, Basílio da Gama, Raimundo Correa, Bocage, Augusto dos Anjos, Florbela Espanca, Mario Quintana, Machado de Assis e muitos outros.

O escritor debruçou-se sobre os mais belos versos escritos por poetas brasileiros e portugueses e realizou uma seleção especial que agora é publicada em um único volume da Série Ouro da L&PM: o Livro dos poemas. Uma antologia rara e primorosa que reúne cinco publicações anteriores pela Coleção L&PM Pocket e já esgotadas: Livro dos sonetos, Livro do corpo, Livro dos desaforos, Livro das cortesãs e Livro dos bichos. Todos foram sucesso; só o Livro do sonetos vendeu 20 mil exemplares.

Na primeira parte do Livro dos poemas, autores de diversas gerações dão voz a sonetos de sensibilidade incomum. O que se segue são escritos que, agrupados em coletâneas temáticas, trazem as mais importantes composições poéticas sobre o fascínio pelo corpo feminino; uma compilação de poesia satírica que mostra a língua afiada dos escritores; um olhar exacerbado sobre as cortesãs que fizeram a loucura dos homens e textos que mostram o amor incondicional pelos bichos. Reunidos em um só volume, estes poemas são uma rica fonte de inspiração.

Em agosto, organiza, junto com sua agente literária Vera Moreira, o livro Decálogo do perfeito contista, de Horacio Quiroga (Porto Alegre: L&PM), comentado por 20 escritores e intelectuais brasileiros.

Grande conhecedor da obra do escritor Horacio Quiroga, Faraco traduziu diversos títulos do contista uruguaio. Em 1927, quando pela primeira vez foi publicado o Decálogo del perfecto cuentista, na revista Babel, de Buenos Aires, Quiroga (1878-1937) já havia talhado, a golpes certeiros e minuciosos, alguns de seus lapidares contos: "O travesseiro de plumas", de 1907, e "A galinha degolada", de 1925, entre eles. Era, portanto, quase entrado nos cinquenta anos e respeitado pelos seus pares rio-platenses e outros contemporâneos, como Borges, Juan José Morosoli, Leopoldo Lugones e Juan Carlos Onetti.
Visando abarcar ambos aspectos dos mandamentos do perfeito contista idealizados por Quiroga – o aspecto aplicável à literatura do próprio autor, bem como o aspecto historiográfico –, Faraco e Vera reuniram escritores e intelectuais brasileiros para debater cada um dos preceitos. O resultado, mais do que um livro de crítica, é uma obra que apresenta o grande gênio narrativo de Horacio Quiroga em uma versão debatida e enriquecida para o século XXI.

Em 2009, seu conto Guerras greco-pérsicas integra a antologia Os melhores contos brasileiros de todos os tempos, organizada por Flávio Moreira da Costa.

Seus contos foram publicados nos seguintes países: Alemanha, Argentina, Bulgária, Chile, Colômbia, Cuba, Estados Unidos, Luxemburgo, Paraguai, Portugal, Uruguai e Venezuela. Reside em Porto Alegre.

A página oficial do escritor pode ser visitada clicando-se aqui.

Entrevista com o escritor no programa "Autografando", da TV-FEEVALE (Novo Hamburgo-RS), em outubro/2008 pode ser vista clicando aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=o2SitYa0hWQ&feature=related - parte 1
http://www.youtube.com/watch?v=n7OnipMv6rE&feature=related - parte 2
http://www.youtube.com/watch?v=KpeZbFTwihg&feature=related - parte 3
http://www.youtube.com/watch?v=Qd6UZBCpLbc&feature=related - parte 4





Abaixo, sinopse de alguns livros do autor em que há contos/crônicas sobre ALEGRETE:

Capa do livro Viva o Alegrete, de Sérgio Faraco.

VIVA O ALEGRETE - LPM Editora.
Alegrete é emblemática no Rio Grande do Sul, como uma cidade da região da fronteira, palco de conflitos, combates de revoluções, berço de poetas (Mário Quintana), estadistas (Oswaldo Aranha), políticos e outras tantas personalidades de destaque. Sergio Faraco nasceu e cresceu no Alegrete. E este livro é uma espécie de homenagem-catarse. O pretexto é Alegrete, um pano de fundo carregado de reminiscências. O produto final é um banquete para os leitores. E um banquete dos bons, onde o prato de resistência é a melhor literatura que pode ser servida na praça. A fantasia se confunde com a realidade na mágica tecitura destes contos/crônicas. Viva o Alegrete é um acerto de contas com a memória. Personagens inesquecíveis fazem rir e emocionam no exercício inspirado de um dos grandes escritores brasileiros.

Capa do livro Dançar Tango em Porto Alegre, de Sérgio Faraco.

DANÇAR TANGO EM PORTO ALEGRE - LPM Editora.
Nesta premiada coletânea de contos, o leitor encontrará condensado o universo ficcional de Sergio Faraco – um dos maiores contistas brasileiros vivos. Obra de um autor-artesão que preza a palavra exata, a tensão contida e, sobretudo, os dramas internos do indivíduo, Dançar Tango em Porto Alegre mostra não pérolas, mas gemas cuidadosamente l apidadas da narrativa curta brasileira contemporânea, concentradas em três temas prediletos do autor. Primeiro, contos desenvolvidos na paisagem rural fronteiriça do Rio Grande do Sul, onde os protagonistas debatem-se intimamente entre, de um lado, a tentativa de reter valores ancestrais e o próprio passado que se esvai e, do outro, a submissão à modernização e à passagem do tempo; em segundo lugar, narrativas sobre o trespassar da inocência infantil por fortes experiências emocionais e de iniciação sexual; e, por último, contos sobre o indivíduo que, melancólico e solitário, não se adapta ao espaço urbano.

O resultado de tal visão de mundo combinada com a exigência artística de Faraco são contos que transmitem a sensação de conterem tudo que havia a ser dito, e de não dizerem nada que não seja absolutamente necessário e vital. Dançar Tango em Porto Alegre recebeu da Academia Brasileira de Letras o Prêmio Nacional de Ficção.



Contos Completos de Sérgio Faraco

Sérgio de Castro Pinto
Poeta, ensaísta e Professor da Universidade Federal da Paraíba

("Jornal da Paraíba", 30 de janeiro de 2005)

Queixando-se, ultimamente, de que escreve pouco, Sérgio Faraco já manifestou, inclusive, o desejo de abandonar a literatura. E isso como se tal procedimento fosse decorrente de uma vontade unilateral; como se dependesse dele, exclusivamente dele, essa iniciativa, quando, em algumas circunstâncias, os textos mais se escrevem do que são escritos. Tanto que o propósito de abdicar da condição de ficcionista o situou ainda mais no epicentro da criação literária. Daí o recentíssimo e antológico "O Prisioneiro de Gaspra” – conto incorporado a este volume – preconizar, quem sabe, uma nova etapa a ser cumprida pelo autor gaúcho, uma vez que aponta para um outro veio até então inexplorado por ele: o realismo-mágico, fantástico, ou que outro nome se dê a textos cuja função consiste em, aparentemente, transgredir ao máximo a realidade.

Conquanto breves, os contos de Faraco são frutos de uma maturação cuja intensidade pode ser revelada em frases e períodos que possuem uma força poética incomum entre os cultores desse gênero literário. Eis um exemplo; este, inclusive, com ressonâncias do alumbramento bandeiriano: “Ai, as nádegas da prima Nely, como duas metades de uma rósea melancia! Ai, as tetas da prima Nely, casal de rolinhas com bicos de goiaba! E aquele triângulo sombrio no vértice das pernas, misterioso, dando calafrios... Era a primeira vez que via uma mulher nua e jamais me passara pela cabeça que elas pudessem ser tão lindas, a ponto de dar vontade de chorar”.

E mais este que, tomando uma expressão no sentido próprio quando quem a utilizou, certamente, o fez no sentido figurado, apóia-se na lógica infantil ou naquilo que Bérgson convencionou chamar de “comicidade das palavras”: “Esse guri vai longe, diziam, sem apontar em que direção”.

E, para não ser enfadonho, este último regido pelo non-sense: “(...) o vinho escuro – este, nos beiços de minha avó, era como sangue que vertesse para dentro”.

Fosse um narrador inexperiente, o desses contos teria tudo para comprometê-los na sua unidade, na medida em que a atmosfera poética de que se revestem soaria como uma excrescência. Aí, então, caso privilegiasse o acessório em detrimento do principal, estaria negligenciando a sábia lição de Tchekov segundo a qual – cito-a de memória – a espingarda, simplesmente, deveria ser excluída do conto quando nele não possuísse uma função definida.

Pois bem. Em “Contos completos”, recém-lançado pela L&PM Editora, o narrador enfoca três núcleos temáticos distintos, para tanto lançando mão de suas faculdades histriônicas. E isso para um melhor rendimento quer dos episódios circunscritos à zona fronteiriça do Rio Grande do Sul, quer dos que compõem o mundo epifânico das crianças e dos adolescentes, quer, por último, dos que tratam da via-crúcis do homem na cidade grande. No geral, são textos que enfocam várias situações-limite nas quais Faraco, como poucos, sabe manter uma perfeita sintonia entre “duração e intensidade”, já que a economia de palavras, a concentração e a síntese, contribuem, de forma decisiva, para “adequar o ritmo da narrativa ao ritmo dos acontecimentos”.

Por último, apenas uma pergunta: “Contos completos”? Não, se considerarmos que Faraco é autor de uma obra ainda em progresso. Sim, porém, se o julgarmos – como de fato ele o é – um ficcionista cujos contos, na sua grande maioria, são acabados, perfeitos, completos.



Ainda sobre os "Contos Completos" de Sérgio Faraco.

Emanuel Mattos*

A respeito de seu livro "Contos Completos”, Miguel Sanches Neto escreveu em O Estado de S.Paulo: "É o momento de consolidação de uma vocação vigorosa. Faraco conseguiu dar a esse inventário uma unidade invejável, demonstrando que suas histórias, jamais frutos do acaso, estão estruturadas a partir de uma visão de mundo bem delineada e coerente".

O livro é dividido em três partes. Na primeira, com 14 contos, estão as narrativas que se passam em um outro tempo, na zona fronteiriça (Faraco nasceu dia 25/7/1940, em Alegrete) representada pela linguagem de seus habitantes e sua maneira de ver o mundo.

Os 17 contos da segunda parte “remetem também a um tempo mítico, já não mais ligado a um espaço de exceção. São histórias que focalizam a infância, seus dramas e valores em saudável desarmonia como modus vivendi dos adultos”.

A terceira parte contém 29 dos 60 contos e “coloca em cena o homem na cidade grande, tentando ludibriar sua solidão. O contista se dedica a essa fauna que, perdida no abismo entre o passado e o presente, procura compensar o sentimento da incompletude através da amizade e principalmente da relação sexual”.

“São esses três tempos que Sérgio Faraco nos apresenta em narrativas que primam pela clareza, pela concisão e pelo poder de arrebatamento do leitor”, finaliza o texto de Sanches Neto, na apresentação de “Contos Completos”, da L&PM Editores.

Leia essa obra magnífica porque, ao final, das duas uma: ou você aprende a escrever de verdade ou se torna um excelente leitor.

(*) Fonte: Blog do Emanuel.



Crônicas sobre Alegrete

Na crônica abaixo - Lua com sede - Sérgio Faraco evoca seu avô, Brás Faraco, imigrante italiano, que viveu em Alegrete no início do século XX.

Sobre este texto, disse Virgínia de Almeida Pires do Rosário - Professora de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, em "A Palavra Escrita em Alegrete, 1845-1995", publicação do governo municipal de Alegrete, gestão 93/96, em agosto de 1995: "Através de peculiaridades da personalidade do avô e de seu trabalho, Sérgio rememora a infância, e seu texto culmina com o ludismo poético em que se envolvem adulto e criança diante da lua que viera beber no poço da casa".


A LUA COM SEDE

Sérgio Faraco

Sobrado que pertenceu a Brás Faraco, na rua Gal. Sampaio (foto atual).

Na troca do século, meu futuro avô trocou a Itália pelo Brasil. Deixou Lauria, pequena cidade ao sul de Nápolis, entre a Basilicata e a Calábria, e veio dar no Alegrete com sua jovem mulher e a esperança de prosperidade e paz no Novo Mundo. E pôs-se a trabalhar. Fez uma família numerosa, um grande sobrado de oito quartos e uma fábrica de massas que chegou a ter noventa empregados, além de uma padaria e um armazém de secos e molhados. Orgulhava-se de ter sido cônsul da Itália. Faleceu nos primeiros anos cinqüenta, e os alegretenses, num preito ao trabalho, deram seu nome a uma avenida.

Foto atual do sobrado que pertenceu a Brás Faraco. Na parte superior, ficava a residência da família; na parte térrea, inicialmente funcionava a alfaiataria e depois, o escritório da firma Faraco.

O casal de italianos Brás e Francisca Faraco (Biagio e Francesca Maria)

Era um italiano baixo e robusto, de olhar vivo e inteligente, que se vestia com esmerado gosto: terno, colete, gravata e o indefectível relógio de bolso com corrente, isso sem falar na bengala com castão de prata. Era afável no trato, mas de uma afabilidade que, inspirando confiança, também inspirava respeito. Meu pai e seus onze irmãos o chamavam de "papai", com senhoria, e nós, os miúdos, de "vovô" Faraco - fazia parte do respeito não dizer o prenome. Que me lembre, só na adolescência vim a saber que se chamava Brás.

Sua "patria potestas" irradiava-se em todas as direções e alturas: no fim do ano letivo, os netos eram levados ao seu gabinete no sobrado para mostrar o boletim e ouvir os comentários pertinentes. Em certo ano ele me deu um abraço e vinte mil réis. De outros boletins, não me recordo e talvez nem me convenha

Vovô costumava, à tardinha, visitar o pátio da fábrica, que limitava com o do sobrado e outros pátios do domus. Sentava nalgum lugar e ali ficava, como um poeta ou um filósofo, o queixo apoiado na bengala. Muitas vezes eu os espiava, esperando que, como os poetas e os filósofos, de repente se acordasse e fizessse algo inusitado. Mas ele não fazia nada. Sentava, pensava e ia embora.

Uma noite de verão o vi no pátio já bem tarde. A lua, assoleada, dessorava sobre nossas cabeças, e me escondi atrás de uma mureta, a vigiá-lo. Ele andava de um lado para outro, abanando-se com uma pantalha, e a cada tanto ia olhar o velho poço do sobrado. Desconfiei: alguma coisa estaria tramando aquele vovô, na tórrida noite alegretense. Fazia eu mil conjeturas quando, levando um susto, vi que me olhava. " Vem cá", ele disse. Não me movi, paralisado, ele insistiu: " Anda logo". Pulei a mureta e me aproximei do poço, cheio de curiosidade e medo. Ele me segurou pelos ombros, fazendo com que me debruçasse no bocal, e senti no rosto, nos olhos, o frescor de um clarão leitoso: era a lua boiando lá no fundo! "A pobrezinha está com sede", ele disse, e por um momento - porque assim dizia o vovô - tive a maravilhosa certeza de que ela descera lá do céu para beber em nosso poço.

Sobrado que pertenceu a Brás Faraco, na rua General Sampaio (1920).

Sobrado da família de Brás Faraco, na década de 1920.

Na parte térrea, funcionava a alfaiataria. No prédio ao lado, funcionava uma padaria e uma fábrica de massas ("A Industrial"). Na parte da frente, as vendas; na parte de trás, até quase a outra quadra, os fornos e as máquinas da fábrica de massa. Mais tarde, virou ferragem. No outro lado da rua, existia o armazém de secos e molhados, onde também veio a funcionar a ferragem. A Ferragem Faraco existe até hoje, agora sob a direção de um bisneto de Brás (José Lúcio Faraco).

A frota de carroças era utilizada para distribuição de pães e bolachinhas nos bairros mais distantes do centro da cidade.








SALÃO GRENÁ

Sérgio Faraco

Entre os irmãos de meu pai, meu preferido era Tio José, mas custei um pouco a descobrir esse sentimento.

Foto atual da antiga firma Faraco & Cia. Ltda., à rua Gal. Sampaio, na parte térrea do antigo sobrado da 
família de Brás Faraco. Hoje ali funciona a Ferragem Faraco, sob a direção de José Lúcio Faraco, neto de José Faraco.

Ele, meu pai e outros irmãos eram sócios em nossa velha firma de Alegrete, que antes pertencera a meu avô calabrês e dentro de alguns anos, já na quarta geração americana dos Faraco, vai comemorar seu centenário (foto).

Um percurso tal, oceânico, pressupõe certa harmonia entre a irmandade que ocupou a ponte de comando, mas nem sempre foi assim. Nos anos cinqüenta as relações societárias eram difíceis e o pivô das desavenças, em regra, era Tio José. Diziam os outros que ele travava a expansão dos negócios. Diziam também que conturbava reuniões importantes com suas digressões. Um terceiro motivo era que Tio José ia trabalhar de terno e gravata e até os empregados pensavam que ele era o big boss de Faraco & Cia. Ltda.

Essas dissensões, que preocupavam a famiglia, fizeram com que me interessasse por Tio José. Que homem era aquele, para ser assim tão comentado?

Passei a visitá-lo no escritório e a ouvir suas histórias, que de fato eram compridas e algumas até nem tinham fim ou terminavam no início de outra história. E comecei a simpatizar com aquele tio, menos pelos casos que contava - só o da viagem a Buenos Aires ouvi um ror de vezes-, mais pelo seu jeito calmo de contar, com intervalos, divagações, tergiversações, esquecimentos, o que fazia com que cada versão diferisse um pouco da anterior. Achava que Tio José devia ser romancista. Simpatizava, sobretudo, com seu sossego peculiar. Com qualquer tempo Tio José era Tio José. Às vezes explodia um conflito na firma. Eu corria ao escritório e encontrava Tio José na mansidão de sempre, com seu elegante terno cinza, colete, gravata e sapatos do Dr. Scholl. Ao me ver, apontava a cadeira de palhinha. Já te contei o caso de Buenos Aires? Não, eu respondia. E se porventura, no meio do caso, punha-se a criticar os sócios, não parava de conferir as pilhas de dinheiro miúdo nem alterava o tom de voz, era como se estivesse a narrar mais um lance da aventura portenha.

Clube Casino Alegretense, defronte à praça principal.

Todas as noites eu ia ao Clube Cassino (foto) jogar sinuca, e Tio José, que já não dispensava minha companhia, habituou-se a me esperar no saguão. Com o tempo perdeu o receio do salão de jogos, assistia às partidas e ao final anunciava: "Vou te levar em casa". Era um trajeto de cinco minutos que fazíamos em cinqüenta ou mais, isso sem contar o tempo que ficávamos no portão. E sempre as mesmas histórias, sempre o caso argentino, que ele misturava com outros e a cada dia se tornava mais complexo e indecifrável.

Nessa época eu tinha 15 para 16 anos e Tio José não se dava conta disso. Creio que, para ele, eu não era um rapazola, tampouco um sobrinho, era o amigo que decerto não tinha, bom de ouvido e com tempo de sobra para bebericar o vinho suave de suas melopéicas odisséias.

As semanas e os meses foram passando e passei eu, no rema-rema cotidiano, do salão de jogos ao salão de bailes. Tive minha primeira namorada e a novidade complicou os programas noturnos do meu tio. Já não me achava facilmente. Em certos dias, tarde da noite, eu ainda aparecia no clube, e Djalma, o garçom, avisava que ele andara a perguntar por mim. Uma vez, confesso, fugi dele, mas foi por causa de um compromisso amoroso - que constitui, na jurisprudência do poeta Luiz de Miranda, motivo de força maior. Uma outra vez quis fugir também, mas não consegui.

Sede da 12ª Companhia de Comunicações, em Alegrete, onde o escritor foi recruta.

Foi no verão de 58. Uma noite calorosa e eu de sentinela na guarita do quartel (foto) . Nessa noite havia um grande baile no Clube CaSsino, com uma orquestra de Porto Alegre. E eu de sentinela. Como o inimigo paraguaio não aparecia, considerei uma desfaçatez permanecer ali, em pé na escuridão, armado até os dentes para fazer guerra aos mosquitos que vinham da Hidráulica. Escondi o fuzil na guarita. No dormitório às escuras vesti a farda de passeio. E fugi, empreendendo uma corrida maluca pelas ruas da cidade para avisar minha Julieta que seu Romeu estava a postos. Perder um baile, naquele tempo, era pior do que perder a liberdade.

A meio caminho, na praça, encontrei Tio José. Dizer que tinha pressa não bastava, não ouviria. Cheguei a aventar a hipótese de sair disparando praça afora, mas seria uma molecagem tão grande quanto a fuga do quartel. O quartel merecia, Tio José não. Então me contive ali no banco e, depois de ouvi-lo um pouco, usei o único argumento que geralmente ele acatava - é tarde, vou pra casa -, embora soubesse que iria me acompanhar até o portão.

Atravessei a praça murcho como um condenado. O som da orquestra invadia o centro da cidade, o baile tinha começado. E caminhávamos, Tio José e eu, parando em todas as esquinas, debaixo de todas as marquises e de todos os letreiros luminosos, onde nos atacavam, frenéticos, bichos de luz desgovernados. Paramos outro tanto no portão e quando ele foi embora passava da meia-noite.

Casa da família de Sérgio Faraco, à rua Gal. Sampaio, a poucos metros onde era a firma Faraco & Cia. Ltda.

Nossa casa em Alegrete tem uma área com sacada de balaústres que é uma espécie de vestíbulo (foto). Subi as escadas e me deitei no piso. Quando Tio José se afastou, levantei-me e fiquei a vigiar seus passos na rua silenciosa e mal-iluminada, até que o perdi de vista na esquina do armarinho. Dei cinco minutos para que chegasse em casa e lancei-me a correr, receoso de que minha bela estivesse adormecida. Ao dobrar a esquina senti faltar o chão. Tio José estava ali, sob o letreiro d' A Incendiária. Tinha recrutado nova audiência para inaugurar a madrugada.

Epa, estranhou, e já se despediu do outro. Me encostei na parede, esbaforido e com uma ardência no peito, como se o incêndio dos preços do armarinho tivesse alcançado meu coração. "Esqueci a carteira no clube", gritei, em desespero. Era uma desculpa esfarrapada, mas Tio José, acostumado a contar dinheiro e conhecedor das dificuldades de fechar o caixa, alvoroçou-se: "Corre, corre", ele mandou.

Tive a sensação de que alguém levantara o cutelo de meu pescoço, mas, para minha surpresa, não corri. Estava preso ao chão. Iria a outros bailes na minha vida, pensava, mas talvez não tivesse - como não os tive - outros encontros mais com Tio José. Compreendi que o amava, que um dia sentiria falta dele e que aquela noite, afinal, não era de love´s labour´s lost. E fomos ao clube procurar uma carteira inexistente, e tomamos calmamente um guaraná na copa, e passava da uma, eram quase duas, quando nos despedimos na porta de sua casa.

Ao longe eu ouvia a orquestra e a voz sentida de seu crooner. "No salão grená / paira pelo ar / nota esmaecida..." Tirei o casquete, enfiando-o no bolso da calça, desabotoei a túnica e comecei a voltar para o quartel, onde me esperavam trinta dias de prisão.





VIVA O ALEGRETE

Sérgio Faraco

Robert Louis Stevenson, no prefácio de O morgado de Ballantrae, afirma ter cometido dois erros em sua vida. Um, ter deixado a terra natal. Outro, ter voltado.

Os escritores, em regra, mantêm uma relação problemática com o lugar onde nasceram. Mario Quintana não era uma exceção. Houve um tempo em que, no seu coração, desgostar do pago era o sentimento dominante. "Em Alegrete, quem não é fazendeiro é boi", declarou numa entrevista, em seus primeiros anos de poeta.

O agressivo trouvoílle, na época, não teve grande repercussão, pois Quintana ainda não era considerado um grande poeta. Mais tarde, quando já se tornara nacionalmente conhecido, um jornal de Porto Alegre reproduziu a infeliz entrevista. Foi quanto bastou para arder na ex-Capital Farroupilha a chama da revolução, e um monumento em sua homenagem, na praça, amanheceu coberto de tinta.

Nos anos setenta, o poeta e a cidade se reconciliaram e foi dado seu nome à biblioteca de importante estabelecimento de ensino. Quanto ao monumento, continua na praça, ostentando mais um trouvoílle desse mestre da ironia e do sarcasmo: "Um engano em bronze é um engano eterno".

Sem querer me gabar, sempre tive as melhores relações com a cidade, mas dormimos em camas separadas, como os casais modernos, por causa do ronco e das cotoveladas. Ao contrário de Stevenson, contabilizo dois acertos em minha vida. Um, ter deixado a cidade natal. Outro, não ter voltado. A distância, como se sabe, é um incentivo para o amor, e ninguém fica reclamando do cabelo na pia, da pasta de dente sem tampa, da toalha molhada, essas pequenas coisas que, pouco a pouco, vão destruindo os casamentos.

Sou franco, já se vê, ainda que possa ser malcompreendido. E sou fiel: em caso de guerra contra Uruguaiana, eu me alistaria, certamente, nas Forças Armadas de Alegrete.

Humberto Faraco, pai do escritor Sérgio Faraco.

Meu pai, que é meu pai e tido por todos como um cidadão exemplar, não há de inspirar igual confiança. Com mais de oitenta anos, precisou submeter-se a uma delicada operação. No corredor de acesso ao bloco cirúrgico, vendo-me e aos meus irmãos, quis deixar uma mensagem para o caso de não resistir à folia dos bisturis. Na maca, ergueu o punho e gritou:
- Viva o Alegrete!

Ali estava um espião querendo fazer média. Em Alegrete, todo mundo sabe que ele nasceu em Uruguaiana.


Humberto Faraco, pai do escritor.








VITÓRIA DE UM DIA

Sérgio Faraco

Colégio Divino Coração - Alegrete/RS (2005).

Tinha eu seis anos, minha irmã quatro. Não sei por que ela foi junto, o Colégio Divino Coração (foto), um semi-internato de Alegrete, não tinha jardim de infância. Ficamos na mesma sala, eu sentado e ela de pé ao lado, estava com medo das freiras e não queria se afastar de mim. Naquele tempo – 1946 – as mães não tinham o costume de fazer companhia aos filhos no primeiro dia de aula.

Em dado momento ela começou a chorar e a retiraram da sala. E como no pátio chorava mais ainda, a mim me retiraram também, para acalmá-la. Assim foi-se a manhã.

No almoço ela não quis comer e a deixaram de castigo, até que limpasse o prato. Antes do estudo da tarde, subi à janela do refeitório para vê-la. Choramingava e estava com soluço. E não comera nada.

Sérgio e sua irmã Rita Faraco, nos anos 40.

O nome dela era Rita e a chamávamos Itinha. “Come Itinha”, eu disse, “se tu come elas te soltam”. Ela me olhava fazendo beiço e logo vinha o hic do soluço. “Então vem cá”, tornei. Tinha resolvido salvá-la do castigo e nos salvar daquele dia cinzento sem mãe e sem brinquedos.

Do peitoril, puxei-a para cima e logo estávamos no pátio. Ajudei-a a escalar o portão da rua e a montar em sua travessa superior. Passei eu ao outro lado e, abraçando-lhe as perninhas, trouxe-a para o chão.
Era o fim do pesadelo.
Não, não ainda.

Começamos a correr, mas, na esquina, ela caiu e machucou o joelho. “Corre, Itinha”, eu suplicava. Acabara de avistar uma freira em nosso encalço. “Corre, Itinha, corre”, e vendo que não conseguia, que mancava, fiz com que subisse em minha garupa. Ou corri mais do que a freira, ou a freira, constrangida, desistiu da perseguição: quadras adiante entrávamos em casa, eu, mal podendo respirar, mas triunfante, e ela dando gritinhos de satisfação.

A vitória durou pouco, só um dia. Mas que ganhamos, ganhamos.


Nota da webmaster:
Rita Faraco (março/2006). A irmã do escritor, RITA FARACO, protagonista da história acima, também nascida em Alegrete, mora em Brasília/DF há vários anos, onde formou-se em Direito e trabalha no Ministério Público do Distrito Federal (Procuradora Titular da 8ª Procuradoria de Justiça Criminal). Casou-se com Indio Brasil de Freitas, militar, é mãe de cinco filhos* e de vários netos, e é a criadora e administradora do site da Família Faraco de Alegrete.

(*) O primogênito de RITA é o talentoso músico MÁRCIO FARACO (violonista, compositor, arranjador e cantor), nascido em Alegrete em 1963 e radicado em Paris, que vem alcançando o reconhecimento mundial como uma das personalidades mais originais e inovadoras da nova música popular brasileira.
Informações sobre o trabalho de Márcio Faraco podem ser obtidas em: http://www.vo-music.com/marcio_faraco/home.html





O arco da praça de Alegrete (fotos), que levou o escritor Sérgio Faraco a brindar seus leitores com o seu humor inteligente na crônica abaixo, é o Monumento ao Expedicionário, uma homenagem do poder público municipal aos pracinhas brasileiros que tombaram na II Guerra Mundial, na Itália (Força Expedicionária Brasileira).

O LIMITE DA TEMPERANÇA

Sérgio Faraco

ALEGRETE, como é da tradição dos últimos séculos da história diplomática, é um país que mantém laços de amizade, comércio equilibrado e mútuo respeito com todas as nações do mundo, inclusive o Brasil, com o qual jamais tivemos, os alegretenses, questões de fronteira e tampouco atritos futebolísticos, como os argentinos, mesmo porque nossa modalidade esportiva de maior prestígio é o Truco. Ademais, costumamos manter sábia distância dos conflitos que varrem o planeta. Não é em vão que, nos corredores da ONU, Alegrete tem sido chamada a Suíça do Ibirapuitã.

Monumento ao Expedicionário, na praça de Alegrete.

Nossa temperança, contudo, tem limites.

Aos fatos.

Em 1806, Napoleão Bonaparte decretou a construção de um canhestro "arco do triunfo", em homenagem ao exército francês. A obra foi finalizada em 1836 e, desde então, vem sendo reproduzida em estampa, cartão-postal, pôster e, ultimamente, na Internet, como obra-prima da arquitetura nacional, sendo um dos destaques do roteiro turístico parisiense e, por isso, um dos esteios do tesouro francês.

Em Alegrete, estamos a estudar a via adequada à ação indenizatória. Temos à mão provas bastantes de que o arco francês, situado na hoje Praça Charles de Gaulle, com seus 49 m de altura, é cópia ilícita do monumento levantado na praça principal de Alegrete. Para abrandar a descarada semelhança, um administrador local pró-gálico mandou dar uma demão de amarelo-cocô na luminosa mica que reveste suas paredes, mas colecionamos fotos da antiga suntuosidade, que instruem o arrazoado em preparo e hão de encorpar nossos considerandos.

A única diferença é que nosso arco foi dignificado no frontão por um verso romano: "Dulce et decorum est pro patria mori". É o 13º da Parte 2 do Livro III das Odes de Horácio, inscrito no monumento, aliás, por sugestão do próprio.

Arco da praça de Alegrete (Monumento 
ao Expedicionário)

A frase, o borra-botas napoleônico não copiou, mas nem ela escapou à sanha dos que desejam o arco do próximo. Nos Estados Unidos, foi gravada na fachada do Memorial Amphiteater, no Arlington National Cemetery, em Washington, e, em Portugal, nos sabres dos cadetes da Academia Militar.

Também estamos equacionando esses dois casos, e em juízo, na condição de litisconsorte ou como prepostos do poeta, não permitiremos que venha a restar “impago” o preço da inveja.

Chega de abuso!





Abaixo, transcreve-se um pequeno causo (*) relacionado ao tema da crônica acima.


O ARCO DO TRIUNFO DA PRAÇA

Flávio Bisch Fabres

Conta-se que, certa feita, um forasteiro ao visitar nossa praça, perguntou a um alegretense, um daqueles típicos alegretenses - bombachudo, alpargatas puídas e palheiro nos beiços - o significado da citação latina do nosso arco do triunfo: "Dulce et decorum est pro patria mori" (É doce e digno morrer pela pátria).

O gauchão parou, olhou, pensou, pensou e lascou:
- Bueno, ermão, dando uma campereada na memória me lembro que o finado meu pai me contou que aquilo quer dizer "prá não pisá nos capim"...

(*) Causo
"(...) A charla, o contar de "causos", a pequena história em narrativa lenta, precisa e cadenciada, sem negaças ou volteios, é uma das mais fecundas expressões da cultura popular no Rio Grande do Sul. Através do tempo, foi o gaúcho aos poucos tecendo... de geração em geração, essa sua maneira original e única de contar pequenos episódios da existência, sempre com um toque de fino sarcasmo. O causo é a nossa liturgia do inusitado. É o culto galponeiro a uma das mais ricas ramificações da nossa tradição oral: a história curta e extraordinária."

José Fogaça, compositor gaúcho e homem público.
No prefácio do livro de Luiz Coronel - "O Cachorro Azul" - Causos gaúchos e relatos interioranos. Trilogia do Humor Pampeano.
P.Alegre: Ed. Mecenas, 2003, 1ª edição.



CIVILIZAÇÕES DESAPARECIDAS

Sérgio Faraco

Crônica publicada no jornal Zero Hora (P.Alegre), em 09-04-2008.

Alegrete - vista áerea

No século passado, em Alegrete, deixavam a cidade para estudar na capital tão-só os rebentos de famílias abonadas. E não eram muitos, a maioria preferia trabalhar com o pai na estância ou em algum comércio rentável. Meu avô, que tinha 11 filhos, mandou estudar em Porto Alegre apenas um. E justificava: "Era o único burro".

A cidade era rica, e os ricos da cidade eram os estancieiros, que viviam a la gordacha em seus palacetes. E como eram raros os desertores, mais raros os que morriam e muitos os que nasciam - fornicava-se como manda o figurino - , a população sempre aumentava.

Com o passar dos anos, os estancieiros começaram a empobrecer, apertados por dívidas bancárias, e alguns se suicidaram. E Alegrete, que sempre dependera da pecuária e até já possuíra o maior rebanho bovino do Brasil, empobreceu também. Sem indústrias e com um comércio que regrediu à meia-pataca, não pôde oferecer alternativas à mão-de-obra ociosa, que acelerou a debandada. Acrescente-se outro deletério fenômeno: por causa das novelas, os casais negligenciaram a fornicação.

Em 2000, Alegrete possuía 84.338 habitantes. Quando foram contar sete anos depois, tinha mirrados 78.188.

Desertaram 6.150!

Um exército!

Alguns rumaram para o Além, outros para o Mato Grosso e um batalhão, claro, para Porto Alegre. Juntando-se as deserções deste século com as do precedente, chega-se à conclusão de que a diáspora alegretense, resguardadas as proporções, emparelha com a judaica e a armênia.

São números preocupantes, que antecipam desastres e me levaram a encomendar a renomado geógrafo uma projeção demográfica.

É científico: se os fujões não forem contidos, inclusive os do Além, Alegrete vai sumir em 2096, quando o último qüera tomar a BR com seu pingo e a mala-de-garupa. E vejam só, pela mesma projeção terão sumido antes Itaqui, em 2082, e Santana do Livramento, em 2086.

Que grande pena.

Alegrete, portanto, tem 88 anos de agonia, e no fim deste século os alegretenses entraremos para a história como os troianos, isto é, mais uma civilização desaparecida. Mas, aleluia, a cidade sempre será lembrada nos versos do Canto Alegretense, como Tróia na Ilíada.





JEFF

Sérgio Faraco

Crônica publicada no jornal Zero Hora (P.Alegre), em 31-01-2007.

A guerra de Alegrete contra Uruguaiana, nos últimos anos 50, era mais intensa do que hoje. Com a inauguração da ponte internacional, um orgulho para os uruguaianenses, inaugurava-se também o contrabando de farinha, mas aos alegretenses não nos bastava chamar os vizinhos de "farinheiros". Sempre que possível, e mesmo se não o era, queríamos briga. Os clubes de futebol da terra de Luiz de Miranda e Tabajara Ruas, Sá Viana, Uruguaiana e Ferro Carril, eram odiados, e quando vinham jogar em Alegrete, geralmente havia menos jogo do que sururu, porque também era regra ganharem de nosso Guarany. Essas cenas eram reeditadas quando um uruguaianense se atrevia a participar de nossa vida social.

Às vésperas de um grande baile no Clube Cassino, soubemos que um grupamento inimigo estava na cidade. E nos preparamos: no fim da festa, farinheiro que cruzasse a porta da frente seria recepcionado na escadaria por um corredor polonês.

E assim foi.

Geme a orquestra os derradeiros acordes no salão, o corredor já está formado aqui na rua. Somos uns 30 para enfrentar heroicamente meia dúzia de farinheiros. Esperamos e esperamos e eles não vêm, e quanto mais se demoram, mais resolutos nos tornamos, dispostos a lhes aplicar uma surra tão gratuita quanto memorável. Um dos nossos grita:

- Vai sair ou não, seu cagalhão?

E vá risada.

Nisso, um deles aparece à porta: guri alto, cujo apelido é Jeff, por ser muito parecido com o ator Jeff Chandler. Pára no umbral, fita-nos com um olhar que é um misto de zombaria e desafio, e imagina tu a nossa perplexidade quando ele começa a descer a escadaria. E nenhum de nós reage, cada qual esperando que o próximo o faça. Mas ninguém o faz e, suprema humilhação, Jeff alcança o fim do corredor, atravessa a rua e senta-se sozinho num banco da praça. Lentamente, em silêncio, vamos desfazendo a formação bélica, enquanto os outros farinheiros deixam o clube sem ser molestados. Não os olhamos e sim para Jeff lá no banco, com as pernas cruzadas.

Fim.

Nada mais acontece.

A impressão que me causou aquele moço foi tão marcante que, passados mais de quarenta anos, não lhe esqueci o rosto e tampouco o apelido. Há pouco, soube que se chamava José Roque Menezes. Soube também que, em 6 de novembro de 1998, foi assassinado na praça central de Uruguaiana, decerto por alguém que terá considerado insuportável sua valentia. Segundo me contaram, foi assassinado à traição, pelas costas.

Só podia.



Num baile de carnaval no Clube Casino Alegretense no final dos anos 50,
Jeff é o rapaz alto, que está em primeiro plano na foto, à esquerda.





Marília Cechella (07-01-2006).

Esta página foi desenvolvida pela alegretense Marília Cechella, criadora e administradora do site da genealogia da Família Souza Brasil, como uma forma de homenagear o premiado escritor do Alegrete - Sérgio Faraco.

MARÍLIA é filha de Márcio Brasil dos Santos e Percília ("Moza") Lautert de Souza, neta de Fernanda da Silva Brasil (dos Santos, após o casamento), bisneta de Francisco de Souza Brasil, trineta de João de Sousa Brasil, tetraneta de José de Sousa Brasil (Filho), pentaneta de José de Sousa Brasil (o primeiro ancestral a imigrar para o sul do Brasil, vindo dos Açores/Portugal), hexaneta de Matheus de Sousa Brasil e provável dodecaneta do genearca Pero Luís de Sousa do Brasil. Seus fragmentos biográficos podem ser lidos aqui (página da 4ª geração dos descendentes de João de Souza Brasil).

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Última atualização em 16-10-2009.

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