A POESIA EM PÂNICO

in jornal A Tarde,
Rio de Janeiro, 22-05-1999

O escritor piauiense Assis Brasil vem cumprindo uma tarefa goliesca desde 1994, quando lançou a primeira antologia de uma série, A poesia maranhense no século XX, já agora (1999) com mais 10 antologias publicadas na Coleção: Piauí, Ceará, Goiás, Rio de Janeiro, RioGrande do Norte, Minas Gerais, Amazonas, Sergipe, Espírito Santo e Bahia. A referência a Golias é para fazer o paralelo com um David difuso e anti-bíblico que tem ameaçado o projeto do escritor ou seja, a indiferença da mídia, além de outra mais funda, a do mercado, para com o escritor, de modo geral, que não é tratado com a mínima dignidade. Mas Assis Brasil vai em frente, lembrando que, até agora, com 11 antologias editadas, com merecidos aplausos de um desvão da crítica, o projeto de mapeamento da poesia brasileira não mereceu uma única linha dos jornais de São Paulo...

Assis Brasil é um dos mais prolíficos e prestigiosos escritores da literatura brasileira atual. Crítico, dramaturgo, ficcionista e antologista, começou muito cedo no Jornal do Brasil, cujo suplemento dominical acompanhava a atualidade literária e artística internacional e difundia o melhor das vanguardas brasileiras. Com mais de dez títulos publicados, este batalhador das letras, em meio à pesquisa deste conjunto de antologias poéticas, achou tempo para publicar o romance O sol crucificado, que tem tido boa repercussão na crítica, e acaba de lançar mais um de sua série de romances históricos, Bandeirantes/Os comandos da morte, também pela Imago.

Na entrevista ao Cultural de A TARDE - do Rio de Janeiro, feita por fax e que reproduzimos abaixo, o escritor esclarece alguns pontos historiográficos e estéticos na organização das antologias.

Florisvaldo Mattos

A TARDE - Como surgiu a idéia de mapear a poesia brasileira do século XX e publicá-la em antologia?
ASSIS BRASIL - Em 1993 eu estava em Fortaleza, passando as férias de minha mulher (eu não tiro férias), quando recebi telefonema de um poeta maranhense me convidando para organizar uma antologia com os "melhores" poetas do Maranhão. Topei parada e fui lá fazer as pesquisas; como esse negócio de "melhor", "melhores" ia provocar polêmicas e era algo abstrato, optei por A poesia maranhense no século XX; até hoje alguns críticos não perceberam que se trata de um panorama da poesia dos estados, no que os poetas têm de representativos no século (história literária e sistema de obras), incluindo até alguns epígonos (bons) que marcaram sua época. Como sou piauiense, achei que poderia fazer a antologia de lá, a essa altura já sendo cobrado pelos conterrâneos. Como disse um crítico, com segundas intenções, depois vendí a idéia para outros estados e a coisa foi crescendo, com as dificuldades de praxe no país dos economistas, que nunca acertaram com a inflação..., somando aí os poetas umbilicais e algumas entidades públicas culturais: basta dizer que Amazonas e Minas Gerais foram co-editados fora dos estados.

A TARDE - Qual é a filosofia básica desta pesquisa e publicação?
ASSIS BRASIL - Algo já está dito lá atrás. Como conheço nosso mundo literário por dentro e por fora, e como sei que a nossa literatura é feita em "guetos" culturais estanques - incluindo Rio e São Paulo -, o prejudicado foi sempre o escritor, mortos, semi-mortos ou vivos: daí que sempre - com sacrifício da minha própria obra, como agora - procurei dar espaço aos escritores, principalmente os mais novos, através de dicionários, hitórias literárias, ensaios e, agora antologias. E sempre destaquei os escritores enclausurados na província; basta pegar o meu Dicionário prático de literatura brasileira. As antologias, pois as antologias são mais um espaço para suprir a lacuna. A "filosofia básica"? A divulgação, pois as antologias estão sendo distribuídas em todo o Brasil, e com as dificuldades de praxe. Poesia em tempo de crise? Perguntou Otávio Paz. Sim, para sensibilizar o homem e torná-lo melhor. Um crítico, que dirigiu um Suplemento de grande jornal, me perguntou há pouco por que eu estava fazendo as antologias... Pergunte ao Oscar Niemeyer, respondi. Sabemos o que ele respondeu naquela CPI sobre os gastos da construção de Brasilia, quando lhe perguntarm como conseguir viver viajando para a Europa...

A TARDE - Quais são os critérios para a inclusão de um poeta?
ASSIS BRASIL - Os critérios não são bem individuais, como já está dito atrás: aquele sistema de obras foi a melhor coisa que um crítico (Antônio Cândido) intuiu sobre a história literária. Você não pode medir a linguagem literária. Quando eu estava no ginásio perguntei ao professor de português o que era a literatura. Eu nunca me esqueci da resposta, citando o Marques da Cruz, um autor de livro didático: "é um conjunto de conhecimentos, falados ou escritos, que despertam o sentimento do belo e a perfeição da forma". O difícil é você medir isso depois da dessacralização da poesia... Um outro professor, mais tarde, à mesma pergunta, me disse: "Quanto mais o escritor sai da norma da língua, mais ele está fazendo literatura". E o coloquialismo de 22? E o chulo de certa poesia da década de 70 em alguns estados? Os críticos de hoje - é só observar - quando comentam livro de poesia - crítico, não resenhista - só falam sobre o assunto, sobre o tema de tal livro, nunca dizem - porque não sabem - como o poeta faz, organiza seus poemas. Todorov, que certa época estava na moda - nós já o divulgávamos em 1996 no JB - Jornal do Brasil - disse que falar de obra de arte leva à mesma desconfiança quanto às possibilidades de explicar a beleza. Então aquele método do sistema de obras, de série literária, é o melhor.

A TARDE - Como têm reagido os órgãos oficiais ao seu projeto?
ASSIS BRASIL - Também já disse algumacoisa sobre isso. É difícil convencer os presidentes de fundações, secretários de cultura e outros da importância do projeto. Alguns descartam logo a idéia sem mais papo, como no Amazonas e Minas Gerais, mas consegui as duas por outros meios; a primeira pelo próprio Ministério da Cultura, via Biblioteca Nacional, e a segunda, por um particular anônimo ... Essas coisas existem.

A TARDE - E no caso da Bahia? Foram muitos os percalços? A antologia baiana impressiona pela abrangência com poucas omissões significativas?
ASSIS BRASIL - Começando pelo fim, como já foi dito, não existem "omissões significativas". Já me perguntaram aqui no Rio por que não coloquei na antologia fluminense o Vicente Celestino... Bem, tenho álbum de recortes e cartas de cada estado antologiado ou vir a ser. No da Bahia há um artigo de Myriam Fraga, de A TARDE, de 27 de abril de 1997, com o título "Poesia brasileira no século XX". Depois de falar nas quatro antologias que já tinham saído, Maranhão, Piauí, Ceará e Goiás, ela diz: "No momento Assis Brasil, está debruçado sobre os poetas baianos e, em breve, estará pronta a antologia... Desde aí - acho que organizei logo a antologia - fiquei na gangorra atrás da Secretaria de Cultura, através da Fundação Cultural da Bahia, à procura de viabilizar a co-edição, que só agora saiu. Burocracia. Sempre disse que preciso, nos estados, de um guru local para tentar a aproximação com as entidades...Os professores, os poetas, de modo geral se omitem. Reconheço que o ataque final foi dado pelo poeta Ildásio Tavares.

A TARDE - Como tem reagido a crítica a seu projeto? Alguma repercussão da antologia baiana?
ASSIS BRASIL - Tenho álbum de recortes de cada antologia editada: as antologias circulam, são vistas, vendem. A da Bahia já está tendo boa repercussão: tenho aqui boa matéria que saiu no jornal Hoje em dia, de Belo Horizonte, e no jornal Tribuna de Petrópolis; outros artigos virão. O famigerado eixo Rio/São Paulo? Quem há de...? É que aqui no Rio tem uma "igrejinha", e outra lá. Há o caso de um poeta que processou um antologiatra (já me chamaram assim) porque ele compareceu com menos poemas do que o Aristóteles, por exemplo.

A TARDE - Como você situa a antologia baiana no contexto das demais?
ASSIS BRASIL - Como hoje tenho uma visão geral da poesia brasileira feita nos "guetos" literários, é surpreendente uma certa unidade de valores estéticos de pesquisa. Em cada estado temos aqueles poucos que, por alguma razão misteriosa, extrapolaram as fronteiras provincianas. Me arrisco a citar os baianos: Pedro Kilkerry, Sosígenes Costa, Jorge Medauar, Telmo Padilha, Florisvaldo Mattos (Eugênio Gomes por via de seu ensaio: ele é exemplo de nome emblemático do estado que, também poeta, não fica fora do sistema...), Myriam Fraga, Cyro de Mattos, Ildásio Tavares, Capinam, Antonio Brasileiro, Ruy Espinheira Filho... Quando fui lançar em Fortaleza a antologia cearense, na fala de apresentação eu esqueci de mencionar o poeta Luciano Maia, um dos "gurus" locais que tinham feito pressão para a Fundação de lá co-editar a antologia; resultado: ele ficou de mal comigo e nunca mais me mandou o seu jornal O Pão, o que é uma escatologia poética...

A TARDE - Pode-se estabelecer alguma linha evolutiva ou espinha dorsal na poesia baiana deste século?
ASSIS BRASIL - Não só na poesia baiana, mas na de outros estados. Os professores de Letras - não sei se estudam os poetas novos brasileiros - deveriam atentar para o fato de que há uma coerência estadual na evolução das formas poéticas do inteiro Brasil. Impressionante como "todo mundo" tomou conhecimento do Parnasianismo, Simbolismo no começo do século - alguns se mantiveram leais e epigônicos até ao Modernismo, mas é assim mesmo. Neo-Parnasianismo, Neo-Simbolismo, Pré-Modernismo, Modernismo - as gerações são bem demarcadas - alguns se atrasam, não querem saber das mudanças, mas mesmo assim a série literária não pode deixar alguns desses retardatários do lado de fora ou no olvido total. As décadas de 60/70, com aquela mistura de vanguarda com mimeógráfo e alternativos, repercutiu em toda parte, a despeito da mídia não tomar conhecimento de coisa alguma.. É surpreendente que a maioria dos poetas tomou conhecimentos em meio à precariedade de meios. O panorama geral das antologias estaduais marca bem isso: a poesia brasileira, de agora em diante, não ficará mais dividida, resultado dessa amostragem exemplar. E tal panorama ganha tempo para os omissos e omitidos...