"Quando fui lançar em Fortaleza a antologia cearense, na fala de apresentação eu esqueci de mencionar o poeta Luciano Maia, um dos "gurus" locais que tinham feito pressão para a Fundação de lá co-editar a antologia; resultado: ele ficou de mal comigo e nunca mais me mandou o seu jornal O Pão, o que é uma escatologia poética..."

Entrevista dada por Assis Brasil a Florisvaldo Mattos
in jornal A Tarde, Rio de Janeiro, 22-05-1999


ASSIS BRASIL, A CORAGEM E SUAS ANTOLOGIAS
por Soares Feitosa

Sapatos, ele os compra na secção infanto-juvenil, marrons e de borracha rangideira. Beirando o metro-e-meio, peso de um bode magro, assim o "gigante" piauí-cearense, o escritor Assis Brasil, hoje morando numa bela cobertura no Rio de Janeiro, um vozeirão como se medisse 2,29m de altura, cento e tantos livros publicados, e já há alguns anos "antologiando poetas" por este país afora..., e atrás dele um monte de inimigos.

Ah que baixim corajoso esse Assis Brasil! Agora mesmo, maio de 1999, ele acaba de lançar a Antologia da Bahia, e na Bahia [também!] já está jurado de morte.

O Carlos Eduardo da Rocha, o Ivan Americano da Costa, o Clóvis Lima, o Epaminondas Costa Lima, poetas da gloriosa, egrégia e excelsamente magna, venerável e veneranda Academia de Letras da Bahia; pois eles ficaram de fora! É doido esse Assis, uma injustiça! Ainda da ALB, o Oldegar Franco Vieira, condecorado hacaísta pelo Império do Sol Nascente, diretamente pelas mãos de Sua Majestade Imperial: também rejeitado o Oldegar pelo antologista Assis. Um dia, o pendão auriverde tremulou no Japão, e não era a Carla Peres saracoteando o "tchan", nem o Pelé ensebando as canelas; era o Oldegar, baiano e poeta, declamando um haicai!

Também de fora, completamente ao relento e à intempérie, o próximo acadêmico, poeta Aramis Ribeiro Costa. Com que direito esse piauiense de uma figa contesta a ALB?! Porque se o gigante Assis Brasil amanhecer soterrado por uma dessas muitas pirambelas dos morros baianos, eu, daqui do Ceará, serei um dos primeiros a dizer um bem feito, seu Assis! Bem feito, seu bichim, você é um louco!

E a Judith Grossmann?! E os velhos poetas da Baixinha [movimento parnasiano, década de 40], o Nonato Marques e o Bráulio de Abreu? E a Gerana Damulakis, e o Epaminondas, e o Carlos Eduardo da Rocha, e a Elizabeth Hazin? A Hazin não é uma das antologiadas do Pedro Lira? De que, então, vale a antologia anterior? E o Carlos Cunha, e a Aninha Franco, e o Almandande, e o Geraldo Maia, e o Carlos Verçosa, o Verçosa, o poeta mais premiado da Bahia? E o Gramacho, e a Gerana, e o Alberto Luiz Barauna, e o Geraldo Maia, e o Oldegar, e a Grossmann, e o Zeca Magalhães, e o Verçosa, e a Maria Antônia, e o Antônio Short, Almandrade, e o Clóvis Lima, e a Hazin? E a Aninha [a Franco], com seu livro premiado pela COPENE; e o Nonato Marques, e o Bráulio de Abreu, e o Epaminondas; e a Judith, esta também da COPENE? E o Geraldo Maia, e toda a turma dos poetas ditos da-praça; e mais todos os poetas ditos do grupo pórtico; e eu também, que também sou "baiano"?!

Assis, acho melhor você ir logo embora daí!

Assis prometeu, hoje, 22.05.1999, por telefone ao Jornal de Poesia que, se conseguir retornar com vida ao escritório no Rio de Janeiro, vai mandar um monte de recortes de jornal sobre o disse-que-disse das diversas antologias que andou editando até agora.

Aqui no Ceará fizeram um artigo, "poeta de mais, poesia de menos", descendo a ripa nos apaniguados do AB e nele próprio. Claro que o dono do artiguete ficara de fora da Antologia do Ceará do dito cujo AB! Bem feito, haja fogo, enxofre e muito piolho, cobras e jacarés nos cabelos desse gigante, Assis.

Em suma: tudo isto é uma beleza, uma grande festa, uma grande algazarra, o circo completo, o grande Coliseu, com direito às feras, ret-ret-ret, Nero, cristãos e gladiadores, rangindo osso pra todos os lados!

Liguei para o poeta Luis Antonio Cajazeira Ramos, um dos antologiados — e merecidamente antologiado o Cajazeira — e perguntei:

— Ô Luis, é verdade que o AB corre perigo de vida?

Ele disse:

— Corre, sim, mas é pela montanha de acarajés de pimenta com refresco de tamarindo que o "gigante" está consumindo... porque se for por desfeita dos poetas-não-saídos, tem uma imensa legião dos poetas-saídos aqui para defendê-lo, eu incluso.

E gritou:

— Viva o Assis Brasil!

O Wally, o Caetano e o Gil não estão na Antologia do AB. Porém, o Capinã está. Ou os três primeiros não são baianos, ou...

— Assis, você confirma?

E Assis Brasil:

— Não são poetas.

Sei não, seu Assis, o senhor é mesmo muito raçudo!


 Poetas da gloriosa Poesia Baiana no Século XX,  
 Assis Brasil, Antologia, 1999, Editora Imago 

Adelmo Oliveira 
Affonso Manta 
Aleilton Fonseca 
Álvaro Reis 
Anne Cerqueira 
Antônio Brasileiro 
Antônio Risério 
Artur de Sales 
Claudius Portugal 
Camilo de Jesus Lima 
Carlos Anísio Melhor 
Carlos Roberto Santos Araújo 
Carvalho Filho 
Cid Seixas 
Cyro de Mattos 
Durval de Moraes 
Elieser Cesar 
Eugênio Gomes 
Euricles de Matos 
Eurico Alves 
Fernando Batinga de Mendonça 
Fernando da Rocha Peres 
Fernando Sales 
Firmino Rocha 
Florisvaldo Mattos 
Francisco Mangabeira 
Francklin Dória 
Fred Souza Castro 
Galdino de Castro 
Godofredo Filho 
Helena Parente Cunha 
Hélio Simões 
Hermenegildo José Bastos
Iderval Miranda 
Ildásio Tavares 
Jacinta Passos 
João Carlos Teixeira Gomes 
Jehová de Carvalho 
Jorge Medauar 
José Carlos Capinan 
José de Oliveira Falcón 
José Maria Leoni 
Juraci Dórea 
Luís Antonio Cajazeira Ramos 
Luís Pimentel 
Marcos A. P. Ribeiro 
Maria da Conceição Paranhos 
Melo Morais e Filho 
Mirella Márcia 
Myriam Fraga 
Pedro Kilkerry 
Pethion de Vilar 
Pinheiro Viegas 
Raymundo Amado Gonçalves 
Roberval Pereyr 
Rubens Alves Pereira 
Ruy Espinheira Filho 
Sérgio Mattos 
Silva Dutra 
Sosígenes Costa 
Telmo Padilha 
Valdelice Soares Pinheiro 
Walker Lima 
Washington Queiroz 
Wilson Pereira de Jesus 
Wilson Rocha