"Encontro de Escritas é uma página literária de divulgação da língua portuguesa, poesia, contos e que apresenta lista de discussão. É mantida pelo escritor e poeta angolano José Félix. O texto a seguir foi apresentado a Encontro das Escritas pelo poeta brasileiro Antônio Mariano de Lima em outubro de 2000. "
PELEJAS DE ASSIS BRASIL PARA
LANÇAR A ANTOLOGIA DA PARAÍBA
por Antônio Mariano de Lima
Assis Brasil, escritor piauiense radicado no Rio de Janeiro, ensaísta e romancista, com dezenas de livros publicados, tomou para si o desafio de mapear a poesia brasileira nos últimos cem anos por estados. A iniciativa de fazer um panorama do que foi produzido no século XX em cada unidade da federação é uma contribuição preciosa aos estudiosos da poesia nacional. É a mais completa e a única (me corrijam o possível equívoco) de que tivemos notícia neste sentido. Os critérios de inclusão passam primeiramente pelo fato de o poeta ter vivido neste século e em segunda (mas não menos importante) instância a contribuição estética à poesia regional e nacional.
Assim, tomando como exemplo o caso de Sousândrade, no Maranhão, temos poetas que nasceram em 1833 e faleceram em 1902. Da mesma forma, também temos poetas, caso de Iracema Macedo, no Rio grande do Norte, que nasceram em 1970. Os livros são publicados e distribuídos pela Imago Editora mas precisam da parceria dos estados na condição de co-editores para o suporte financeiro. As obras são compostas de uma introdução histórica e estética sobre o movimento poético do estado em questão e antes de cada mostra de poemas há uma apreciação de AB situando aquele poeta no determinado contexto. De bom material e tratamento gráfico, medindo 17 centímetros de largura por 23 de comprimento, capa em policromia, com uma média de 300 páginas, os livros se fazem acompanhar também, ao final, do registro das obras dos autores antologiados e a bibliografia geral a que Assis Brasil teve acesso para realizar aquele trabalho. Tendo o primeiro projeto vindo à luz (A poesia Maranhense no Século XX) em 1994, já foram publicadas as antologias de 11 estados, conforme catálogo online da editora (2000).
O autor tem encontrado inúmeras resistências Brasil afora para levar a cabo este projeto. Desde a insensibilidade dos dirigentes até o boicote por parte dos medalhões locais (às vezes de ciúme declarado) que exigem a submissão de seu crivo. Entre os trabalhos prontos para impressão, a antologia da Paraíba (a de Pernambuco encontra problemas similares), entretanto, parece ser talvez a de publicação mais difícil.
Assis Brasil anda mantendo contatos, até agora sem efeito, há pelo menos cinco anos a este respeito com pessoas influentes na cultura paraibana que vão desde o poeta Sérgio de Castro Pinto a Damião Ramos Cavalcanti.
A negativa é sempre vinculada às mesmas dificuldades orçamentárias. A última carta que recebi de Assis Brasil, datada 25 de janeiro de 1999, dando os devidos nomes, trazia-me o seguinte quadro a respeito do projeto A Poesia Paraibana no Século XX:
"Já saíram dez antologias; aprontei os originais da Antologia da Paraíba, mas coloquei na geladeira... Luiz Augusto Crispim (à época subsecretário de cultura) descartou a coisa, diz que não tem verba. O Otávio Sitônio, que parece é amigo dele, também silenciou depois que lhe fiz nova proposta de co-edição. O Saulo Mendonça faz meses que me prometeu mandar projeto de incentivos fiscais mas silenciou também. Sérgio de Castro também silenciou. O fato: se alguém, aí na terra, não se virar, cavar a coisa – agora precisa sair do próprio umbigo... senão a coisa vai ser muito protelada. Tudo bem vou em frente, já estou organizando a antologia de Santa Catarina, com perspectivas de sair logo. Deve sair agora a da Bahia. As notícias sobre a nossa Antologia são essas. Alguma sugestão?"
Em nossa correspondência, sugeria-lhe eu várias outras alternativas, dava-lhe nomes e contatos de autoridades, (Sub) Secretaria de Educação e Cultura, UFPB, Funjope, Fundação Espaço Cultural (entidade com quem tenta negociar atualmente e não sei, não...) e torna AB a manter suas tentativas e encontrar portas fechadas.
As razões das dificuldades, além dos entraves burocráticos e outros mais subjetivos, se confundem também obstáculos que vão desde acusações de ser o projeto caça-níquel (porque Assis Brasil com todos os seus direitos não trabalha de graça, a exemplo de outros quixotes) até a discussão dos critérios de inclusão, de que o autor, com sua segurança, não abre mão. Geralmente após a publicação, acompanham-se polêmicas nos jornais, com suas réplicas e tréplicas, como foi o caso recente do Estado de Goiás, com o presidente da UBE à época, Luiz de Aquino, que ficou de fora. Contestando entre outras coisas, os valores, De Aquino diz que com o importância cobrada aos Estados (R$ 25.0000,00, aproximadamente) ele faria pelo menos 15 livros similares. Sem querer tirar ou dar razão ao amigo poeta com quem mantenho vez ou outra correspondência via internet, pela dimensão do projeto, não parece tão caro. O preço de capa dos livros varia ente 22 e 28 reais. São impressos 2 mil exemplares, metade dos quais fica com a instituição co-editora. A outra, a Imago distribui nacionalmente e presta contas pagando direitos autorais do que for vendido. Não é caro, amigo, se levarmos em conta que é um trabalho que ficará. Que são 25 mil reais perto dos quase um milhão que o Governo do Estado e a Prefeitura da Capital desembolsaram recentemente para as escolas de Samba do Rio de Janeiro cantarem temas relativos à história da Paraíba? Sem querer desprezar o retorno principalmente turístico que tivemos com a iniciativa, possivelmente em duas décadas poucos se lembrarão disso. E para a literatura, que são vinte anos? É o ainda agora na memória fresca dos registros.
Tenho falado para Assis Brasil da necessidade de se ouvir a comunidade literária paraibana pensante a propósito do projeto e seus critérios. (Como vai a comunidade literária paraibana?, diz ele me gozando quando nos telefonamos). Ninguém é obrigado a abrir mão de suas convicções pessoais, mas é preciso ouvir. Sem desprezar a pesquisa do autor, que nem sempre vem aos estados e conta com colaboradores (como embora modestamente o fui), não se pode fechar os olhos às sugestões de pessoas como Hildeberto Barbosa Filho, Sérgio de Castro Pinto, Ângela Bezerra de Castro, João Batista de Brito ou até jovens poetas como André Ricardo Aguiar e Linaldo Guedes, Socorro Leadebal (e por que não eu?). Não seria demais uma viagem até o nosso Estado, uma palestra, uma exposição da obra, esclarecimentos a um auditório que tem interesse em discutir com o autor inclusões e exclusões. Este impasse ao meu ver, no nosso particular (Brasil afora não deve ser diferente), é o primeiro a ser resolvido para que ganhe simpatia e possa a causa ser abraçada sem reservas. Mais do que de Assis Brasil, A Poesia Paraibana no Século XX precisa ser a nossa antologia.
Antônio Mariano de Lima