VISITANTES ILUSTRES - DR. ASSIS BRAZIL

"Chegou ante-ontem a esta cidade o ilustre ministro da República dos Estados Unidos do Brazil..." . Assim se iniciava uma notícia de primeira página no Correio da Estremadura de 10 de Abril de 1897, semanário editado em Santarém. Hoje nada nos podia surpreender pois os visitantes estrangeiros quase fazem fila de espera e, no que respeita ao Brasil muitos até passam despercebidos. Mas, nessa época vivíamos sob o regime de monarquia constitucional, caracterizado por algum autoritarismo e perseguições e, a visita de um ministro republicano – o Brasil tornara-se república em 1889 – a uma pacata região agrícola com a capital em Santarém, já poderá trazer alguma surpresa. Os portugueses são muitas vezes caracterizados pelos seus brandos costumes e também pela sua simpatia e hospitalidade, logo não será esta a principal questão a pôr: qualquer visitante ilustre seria recebido com pompa e circunstância por qualquer edilidade nacional. Assim, na continuidade da notícia, esperaríamos que tão alta individualidade fosse esperado de igual forma que outros tantos que em Santarém fizeram escala: no mínimo o presidente da Câmara Municipal, se não o Governador Civil e o senhor Bispo, animados por Banda de Música e alguns foguetes. Porém "os ilustres viajantes saíram na estação do caminho de ferro desta cidade e dirigiram-se depois, em bicicletas, para a Lezíria da Palmeira ...".

Surpreendente! Ministro da República do Brasil... chegado a Santarém... no tempo dos "reis"... de bicicleta... a passear na Lezíria do Tejo... Nada do que se podia pensar, aconteceu. Quem os esperava não nos foi dado a conhecer. Na Lezíria da Palmeira "foi oferecido um "lunch" pelo nosso amigo sr. José Malhou que andou mostrando ao sr. Assis Brasil as suas plantações de vinha e o lindíssimo vale do Tejo..." e, no mesmo dia, "visitou a coudelaria do sr. Conde de Sobral", ficando ainda prometido uma visita à Escola d´Agricultura Prática de Santarém.

Podíamos acreditar que não passava de uma visita com interesses económicos, sabendo que Joaquim Francisco Assis Brasil era gaúcho do rio Grande do Sul, com interesse na criação de gado e diversificação dos produtos agrícolas com os quais pretendia desenvolver modelos de desenvolvimento agrícola e pecuário que rentabilizasse os solos do seu país, cujo futuro esperançoso pertencia a um povo que dava os primeiros passos no caminho da república e da democracia.

Atentamente perscrutamos os dois indivíduos que o receberam: O Conde de Sobral era distinto representante do liberalismo português, agraciado na altura pelo Marquês Sá da Bandeira; José Malhou que se distinguiu nesta visita como anfitrião, não seria mais do que um simples lavrador de Alpiarça se o seu nome não ficasse inscrito nos jornais republicanos do distrito de Santarém. Republicano de primeira linha, participou em todos os movimentos de propaganda desta região contra os abusos da monarquia, assumindo papel preponderante na aprovação de uma moção "do Povo de Alpiarça" de 1908, que acusava o governo e ministros de Franco de traição e abuso de poder ao lado de José Relvas, João Chagas e D. Luís Morotte.

Uma visita de cortesia entre republicanos, entre pessoas do mesmo ideário, fará agora mais sentido. A experiência republicana do Brasil e a ilustração de um doutrinário com obra feita poderia criar laços de entreajuda, proporcionar trocas ideológicas, lançar pontes de entendimento quando nos separavam regimes díspares. Preparariam, de alguma maneira, estabelecer as bases para que a República se tornasse possível em Portugal?

Como aprofundar o conhecimento deste homem que discretamente e informalmente visitou os campos de Santarém? Ocorreu-nos a embaixada do Brasil. Um diplomata brasileiro em Portugal, no fim do século XIX, deveria ser conhecido. No entanto, contactado o gabinete de relações públicas desta embaixada não nos foi possível ter qualquer indicação. Mas, a disponibilidade da Dra. Adriana resultou numa resposta de grande interesse, no espaço breve de uma meia hora. Assis Brasil era um nome de uma organização brasileira com página na Internet. Eureka! As novas tecnologias podem mesmo aproximar os povos, o longe tornar perto, atravessar oceanos e construir pontes onde a comunicação facilita o conhecimento e este permite o relacionamento entre diferentes culturas. De Santarém consultei essa página e qual não foi o meu espanto quando, no estudo genealógico da família de Assis Brasil, encontrei como primeiro ascendente que utilizou a palavra Brasil: Pedro Luiz de Souza, natural de Santarém, Portugal, nascido na segunda metade do século XVII, tendo obtido do Rei o senhorio do Monte Brasil, localizado em Angra do Heroísmo, ilha Terceira, Açores, e que ficou conhecido como Pedro Luiz do Brasil. Fechava-se o círculo. Joaquim Francisco de Assis Brasil voltara ao local de origem da família e eu sentia-me com ele identificada.

Não resisti e escrevi a António Carlos de Assis Brasil, seu trineto. Aí, foi-me facultada mais alguma informação: D. Lydia Assis Brasil encontrava-se a viver em Pedras Altas, lugar escolhido pelo seu bisavô para construir o Castelo e aí experimentar um modelo de fazenda que, em seu entender poderia ser seguido por outras regiões agrícolas do Brasil. Sobre a sua vida e obra era indispensável ler três grossos volumes da autoria do Ministro da Justiça, Paulo Brossard. Foram facultados os endereços e números de telefone e, se o correio electrónico é um óptimo meio de comunicação, o telefone e o rádio continuam a sê-lo também – Telefonei ao Ministro referido, que se prontificou a mandar-me um dos volumes que tinha em seu poder e a indicar a existência de todos os que estavam na Biblioteca Nacional, em Lisboa, a quem tinha oferecido em 1998; à D. Lydia, que se encontra em Pedras Altas, quatrocentos quilómetros para o interior de Porto Alegre, a chamada telefónica teve que ser via rádio. Do outro lado da linha encontrei uma senhora dedicada àquele espaço que obteve por herança e que a família de J. F. Assis Brasil persiste em preservar. Entusiasmada pelo meu contacto "ninguém utilizou ainda o espólio de Pedras Altas" para um estudo mais profundo de um homem cuja vida política se inicia com a geração de 70, em São Paulo. A sua primeira obra doutrinária, A República Federal, data de 1881. Morreu em 1938, em Pedras Altas, lugar que escolheu para descansar das lutas políticas pela liberdade, igualdade, democracia, justiça social, entre outros princípios republicanos que defendeu com convicção e coragem de quem acredita num mundo melhor para todos.

Joaquim Francisco de Assis Brasil, nascido em 29 de Julho de 1857, na Estância de S. Gonçalo, Município de São Gabriel, no Estado de Rio Grande do Sul. Seus pais, naturais de Rio Pardo, descendiam de emigrantes que partiram dos Açores e se estabeleceram no Brasil e, principalmente, no Rio Grande do Sul.

Artigo da professora Luísa Barbosa, residente em Santarém, Portugal, baseado em dados coletados para a sua tese de mestrado "O Ideário Republicano nas relações Brasil / Portugal (1880 - 1891)"