LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL

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Nesta página estão reunidos alguns comentários, entrevistas, currículo, resumos e críticas de obras, bem como dados acadêmicos do escritor gaúcho LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL.


ENTREVISTA COM JOSÉ PINHEIRO TORRES

José Pinheiro Torres - Começando pelo princípio: como foi sua formação?
Luiz Antonio de Assis Brasil - Pensando em formação escolar, esta foi de excelente qualidade. Estudei com os jesuítas, que possuem um colégio centenário em Porto Alegre. Os padres da Companhia estimulavam os estudos clássicos, a filosofia e a língua portuguesa. Já na adolescência eu lia Cervantes, Chateaubriand e Milton no original - e isso não é vantagem alguma, porque todos os colegas faziam o mesmo. Creio que esse foi o grande impulso para a literatura, embora em casa o ambiente não fosse estranho às letras. Tive a oportunidade, também, de estudar música: aprendi violoncelo e fui músico da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. Todo esse conjunto de fatores, creio, já preparava o futuro romancista. Esquecia de dizer: tomei aulas de aquarela, mas não passei das garrafas e das maçãs.

JPT - Falando sobre a Orquestra Sinfônica: como foi a experiência?
LAAB - Foram quinze anos dedicados à Orquestra da minha cidade; uma experiência importante, por vários motivos. Em primeiro lugar, pela consciência de que, em uma orquestra, o músico é um executante no sentido próprio do termo. A emoção e a paixão são do maestro e do compositor. Em segundo lugar, enquanto experiência social, esta é riquíssima. Vive-se, na orquestra, um ambiente bastante neurótico, porque se trata de um pequeno grupo no qual há muita competição em torno dos postos. Postos melhores significam salários maiores, e a partir desse fato se estabelece uma pesada hierarquia dentro da orquestra. E eu vivi esse clima durante a ditadura militar, quando havia enorme verticalização do poder. As coisas eram bem mais graves do que se pensa.

JPT - E isso deu livro?
LAAB - Deu: "O homem amoroso", uma novelinha.

JPT- O senhor então abandonou a música?
LAAB - Jamais. Posso não praticar meu instrumento, mas hoje sou mais músico do que antes: não tenho mais, sobre mim, a tirania das notas musicais.

JPT- Quais as leituras ou autores que mais o influenciaram?
LAAB - O primeiro romance que li por inteiro foi A relíquia, de Eça de Queirós. Só descansei quando não havia mais nada para ler desse autor. Depois, foi a vez de Flaubert, naturalmente com Mme. Bovary. E depois vieram Machado de Assis e Erico Verissimo. Em seguida, Balzac, Stendhal e Zola. Dentre os modernos e contemporâneos, estão Thomas Mann, Faulkner, Hemingway, Gide, Julien Green, Cortázar, Carpentier, García Márquez, Vargas Llosa, Saramago, Günter Grass, Pascal Quignard. Antes que essa relação se transforme numa lista telefônica, resta-me dizer que li e leio muito, e de modo assistemático, guiando-me pelo instinto ou pela sugestão de pessoas a quem respeito. Não me considero particularmente influenciado por nenhum destes, mas por todos em geral; se fosse imprescindível responder à pergunta, diria que Eça ainda está no cimo desse panteão particular: com ele aprendi, ou penso ter aprendido, como se estrutura um romance e como se desenvolve uma personagem.

JPT- O que pensa da literatura chamada pós-moderna?
LAAB - Não acho nada, pois se trata de um momento estético e, como tal deve ser entendido. Particularmente, minha sensibilidade não chega a perceber como, em certo viés da pós-modernide, se construa um romance sem conflitos, conflitos sem personagens, personagens sem drama. Mas o futuro é que poderá estabelecer um juízo mais razoável.

JPT- Quando começou a escrever "profissionalmente"?
LAAB - Em 1974 tive uma doença gravíssima, que implicou e internamento hospital, cirurgia, risco de vida, etc. Na convalescença comecei a escrever aquilo que seria meu primeiro livro, Um quarto de légua em quadro. Não tinha idéia do que se tratava. Minha intenção original era escrever uma obra histórica sobre o povoamento açoriano no Rio Grande do Sul. Pois virou romance, e desde aí não parei mais.

JPT- Por que Açores?
LAAB - Explico: sou descendente de açorianos por parte de pai e de mãe. Assim, o que era um interesse genealógico acabou em interesse pelos Açores, minha segunda pátria, e onde tenho excelentes e fraternais amigos. Já dei aulas de Literatura Brasileira na Universidade dos Açores e lá fiz uma investigação de pós-doutorado.

JPT- A propósito: e a carreira acadêmica?
LAAB - Encontrei-me no trabalho universitário. Tenho, ali, a possibilidade de conviver, de maneira mais palpável, com a literatura e seus autores. Não poderia fazer outra coisa. À parte disso, minha Universidade me propicia ministrar a Oficina de Criação Literária, que teve início em 1985 e que segue até hoje. Orgulho-me de meus ex-alunos, que por ali passaram, e que hoje são escritores reconhecidos pela crítica e pelo público.

JPT- Mas voltando para sua produção: como é seu método de trabalho?
LAAB - Como sou - bom ou mau - romancista, sinto necessidade de um planejamento prévio da obra. Sem planejamento não poderia escrever.

JPT- Isso não tolhe a imaginação?
LAAB - Não, pois o verdadeiro momento de criar á quando se tem a idéia. Depois, é trabalhar a idéia, de modo que se apresente lógica, pois no romance vige o princípio de causa e efeito. O que importa, entretanto, é o resultado final, isto é, se o livro é bom ou ruim. O modo como o romance foi escrito é algo que pertence ao domínio privado do autor.

JPT- O senhor reescreve muitas vezes?
LAAB - No passado, sim; hoje, com o uso permanente do computador, posso refazer à medida em que escrevo; mas a intervalos imprimo uma versão, para testemunho e registro.

JPT- Acha importante a técnica?
LAAB - Técnica literária - eis um sintagma diabolizado em certos meios cultos: é como se a literatura derivasse apenas da inspiração (sabe-se lá o que é isso), ou que a técnica fosse algo menor, própria dos obreiros manuais, dos carpinteiros e alfaiates. A verdade é outra: qualquer arte possui sua técnica. Tinham razão os arquitetos das catedrais góticas: ars sine scientia nihil est. Entendo a técnica literária como a soma das condições necessárias à escrita. É o senso de medida na frase, sua musicalidade, a perfeita construção do diálogo, a eficiência descritiva e narrativa e, em especial, a idéia de proporção da peça inteira, de modo que suas partes dialoguem com a necessária harmonia compositiva. Técnica também é não atrapalhar-se com as palavras; ao contrário, é fazer com que trabalhem a nosso favor. Técnica é entender o axioma: o que se corta, ganha-se - os leitores, aliviados, agradecerão essa higiênica providência. Técnica é saber que não se escreve para desabafar, mas para construir uma realidade estética autônoma, a ser fruída pelos leitores. Dominar a técnica é escrever de tal maneira que o leitor queira saber o que virá no capítulo seguinte. É, por isso, dizer algo novo a cada frase.

JPT- Então a técnica pode ser aprendida?
LAAB - A técnica literária - assim com a técnica da pintura, da arquitetura, da música, etc., - pode ser conquistada num curso à semelhança dos laboratórios do texto (no Brasil, "oficinas"). Os laboratórios são uma experiência consagrada no mundo inteiro, e vêm obtendo crescente aceitação desde que foram criados nos Estado Unidos, a partir da década de 40 do século passado. Grande escritores saíram dali, e agora lembro Raymond Carver. O curioso, nesse sarau polêmico, é que não se discute a utilidade, por exemplo, de uma academia de dança. Pensado na raiz desses preconceitos e equívocos, percebe-se, subjacente, uma atitude algo elitista, algo reacionária, algo romântica, algo ingênua, que leva alguns autores a acreditarem apenas no talento, algo problemático, por dividir as pessoas entre talentosas e não-talentosas, partição inaceitável num mundo que se esforça para, sem discriminações, assimilar e a integrar as diferenças e as minorias. A propósito, há um interessante livro de Beth Joselow, chamado, muito significativamente, de Writing without the muse. (1995). Evoco, para ilustrar, a célebre crítica que Machado de Assis escreveu a O primo Basílio, na revista O Cruzeiro, em 16 de abril de 1878. Ali, pela primeira vez, foi dita em português, a expressão "oficina literária". A certo instante do texto - na verdade, uma desanda geral no colega português - diz Machado: "[Eça de Queirós] transpôs ainda há pouco as portas da oficina literária..." Por evidente não está a referir-se a esse fenômeno atual, mas alerta para a existência de uma técnica e para a necessidade de um aprendizado dessa técnica. E nem Machado furtou-se a isso.

JPT- Quais suas relações com a crítica?
LAAB - Temos de distinguir: de um lado há a verdadeira crítica, que é uma peça de reflexão embasada num referencial estético-teórico, a qual analisa a obra mediante critérios ponderáveis e universalmente reconhecíveis; de outro lado, há a opinião, fruto muitas vezes da efemeridade do gosto, quando não de sentimentos derivados do compadrio ou, ao contrário, do preconceito. Recomendo ao escritor que leia a ambas; quanto à primeira, aprenderá bastante sobre a arte literária, o que poderá ajudá-lo a escrever melhor; quanto à segunda, acho-a ainda mais interessante, pois aprenderá, e muito, sobre a natureza humana - que é, afinal, a matéria-prima da Literatura.

JPT- Dentre sua obra, a algum romance de que o senhor goste mais? LAAB - Isso é o mesmo que perguntar a um pai de qual filho gosta mais; mas para não fugir à pergunta: As virtudes da casa é o romance que melhores lembranças me traz da época de sua escrita. Não sei se é o melhor, literariamente falando, mas é certo pertence ao inventário das minhas obras inesquecíveis.

JPT- Passando ao cinema. O senhor tem várias obras que passaram ao cinema ou estão em fase de passar. Como o senhor vê esse fato?
LAAB - Com muita naturalidade. Se há algum mérito nisso, ele se restringe à circunstância de eu manter-me fiel a uma idéia: toda a narrativa deve possuir episódios, coisas acontecendo. Isso é cinema. Todo o romance deve despertar no leitor aquela pergunta sôfrega: "E agora? O que vai acontecer?". E é isso que se espera de um filme. Não me considero um purista quanto à fidelidade do filme ao livro. São duas modalidades diversas de narrativa. Se o romance pode ter maior liberdade em explorar as personagens e suas tramas, abrindo espaços para a reflexão, já o cinema deve ficar no "osso da história", pois é preciso compactar em hora e meia todo um universo narrativo. Sempre dei ilimitado poder aos adaptadores ou diretores dos filmes baseados em meus livros. Tal como no romance, importa é que seja um bom filme.

JPT- Alguns críticos acham que o senhor pratica o romance histórico. Concorda com isso?
LAAB - O romance histórico tradicional, ao estilo de Scott e Herculano, não se pratica mais; pelo menos, se pratica pouco - e de má qualidade. No denominado "novo romance histórico" - que Linda Hutcheon chama de "metaficção historiográfica" -, a história é sempre pretexto, e é deformada, reinterpretada, discutida e, até, criada. Imagino ter feito, e com certa freqüência, essa segunda modalidade, com recurso à paródia, ao pastiche e, uma ou duas vezes, ao plágio burlesco. Penso, contudo, que é um capítulo encerrado em meu trabalho. Hoje me preocupa, mais que tudo, a ficção. Mesmo que os plots estejam situados num tempo pretérito, isso é apenas uma opção do escritor: o passado me dá maior liberdade criadora, e as emoções e paixões me parecem mais autênticas.

JPT- Valesca de Assis, sua esposa, também é escritora, e premiada, com três romances publicados. Há interação em família?
LAAB - No plano afetivo e emocional, a mais completa interação; no plano literário costumamos a separar as coisas. Contudo, jamais publico algo sem que a Valesca tenha lido previamente. Suas observações são valiosíssimas e, às vezes, decisivas. Se consegui algo em minha trajetória de escritor, devo a esta mulher brilhante a ao mesmo tempo modesta, que me dá um sentido à vida e ao que escrevo. Creio que isso diz tudo.

(Texto publicado em http://www.paginadogaucho.com.br/laab/bio.htm)


A TEIA SILENCIOSA DO ROMANCE

Patrono da 43ª Feira do Livro, Assis Brasil
revela como escreve os seus livros


O escritor LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL, 52 anos, patrono da 43ª Feira do Livro de Porto Alegre, é metódico até no sono. Dorme regularmente cinco horas por dia. Às 4h já circula pelo amplo apartamento da Avenida Lavras, no bairro Petrópolis, entre livros e troféus de caça. Compartilha com a maioria de seus colegas de ofício, e com os romancistas em particular, a preferência pelo trabalho matutino. Sua mulher, Valesca, vai encontrá-lo horas depois sentado em frente ao microcomputador, empenhado numa luta particular e silenciosa para pôr em prática a divisa que tomou emprestada aos romanos: nulum die sine linea - nenhum dia sem (escrever) uma linha.

Sua atividade literária obedece a uma disciplina semelhante à do repouso. Ao contrário do que seus 13 romances publicados possam sugerir, Assis Brasil não é adepto das jornadas extenuantes de trabalho. Escreve, no máximo, por três horas diárias. Quando esse intervalo de tempo é ultrapassado, ele sabe que não ficará satisfeito com o resultado. "Preciso encontrar pessoas, sair", explica. O sono breve e o hábito de escrever de madrugada proporcionam ao artista um dia relativamente longo. "É um privilégio", admite.

Ao desligar o computador, Assis Brasil mostra outra habilidade: a de se desdobrar em múltiplos afazeres. Ele pode se dirigir ao Instituto de Lingüística e Literatura da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), onde é professor. É capaz de se deslocar à Casa de Cultura Mário Quintana para uma reunião do Conselho Estadual de Cultura, do qual é membro titular. É possível vê-lo caminhar pelas ruas de Petrópolis, como em outros tempos fazia Érico Veríssimo. Em todas essas atividades, será o mesmo homem sereno que encara pela manhã a tela branca do computador.

Sua rotina, porém, pode sofrer um abalo repentino. É o momento em que o escritor começa a dar forma a um novo livro. "Tudo parte de uma idéia grandiosa, transcendental, nova e transformadora", descreve. "Todo livro nasce como se fosse minha obra definitiva." Aos poucos o escritor começa a impor limites a seu sonho. "Sou obrigado a fixar tempo, espaço, estrutura, personagens." Em seguida, faz um resumo do futuro romance, com cerca de 15 páginas, onde procura estabelecer a coerência narrativa, a divisão em capítulos e até mesmo o número de páginas de sua obra. Gosta também de produzir linhas de tempo e quadros para orientar o seu trabalho.

O próximo passo é escrever. Ele costuma comparar sua técnica à dos diretores de cinema, que não precisam filmar de acordo com a tecnologia interna de suas obras. "Escrevo a cena que me dá mais gosto no momento", afirma. No caso dos romances históricos, a passagem que o estimula é, invariavelmente, a que acabou de estudar.

Obras com planejamento detalhado

Luiz Antonio de Assis Brasil garante não ter inclinação para a pesquisa exaustiva. "Eu quero fazer ficção, e não História ou Sociologia", explica. O planejamento detalhado coloca-o a salvo dos bloqueios que acomentem outros escritores. "O momento da criação é aquele no qual eu concebo o romance. O resto é trabalho", define. Seus únicos livros produzidos sem roteiro preliminar - "de uma maneira anárquica" - foram as obras de estréia Um Quarto de Légua em Quadro (1976) e A Prole do Corvo (1978). Esses são, coincidentemente, os livros de que menos gosta.

"Não considero Um Quarto de Lágua em Quadro propriamente literatura", afirma. O romance havia sido imaginado como um livro de história sobre a colonização açoriana, foi publicado quase por acaso e sua acolhida surpreendeu a todos, a começar pelo autor. "Se é verdade que eu planejei muito meus romances, é também verdade que planejei pouco minha carreira", reflete.

O gosto pelo ensino e a intimidade com a técnica de escrever conduziram Assis Brasil à tarefa de formação de escritores. "Ser professor, revelar coisas desconhecidas aos outros, é para mim uma vocação, e não um emprego", diz. Ele mantém uma oficina literária no Curso de Pós-graduação do Instituto de Lingüística e Literatura da PUCRS.

Seu trabalho junto aos alunos se baseia na convicção de que há soluções técnicas que podem ser transmitidas de um escritor para outro. "Eu tive que aprender por mim mesmo, por exemplo, que o diálogo deve se resumir ao essencial numa narrativa", afirma. Os novos talentos da literatura virão, em sua opinião, das oficinas literárias. "Essa tendência já existe na Europa e nos Estados Unidos", revela.

(Artigo publicado na REVISTA ZH, 2º Caderno, Porto Alegre, 02-11-1997, pag. 4)


AFINIDADES LITERÁRIAS

ENTREVISTA

REVISTA ZH- Qual é o seu livro inesquecível?
LAAB - Os Maias, de Eça de Queirós.

R ZH- Quais os versos que o senhor nunca conseguiu esquecer?
LAAB - "Tenho idéias e razões / Conheço a cor dos argumentos / Mas não chego aos corações" (Fernando Pessoa)

R ZH - Qual o seu herói de ficçãp preferido?
LAAB - Artur Corvelo, de A Capital, romance de Eça de Queirós.

R ZH - Qual sua heroína preferida?
LAAB - Jane Eyre, do romance homônimo de Charlotte Brontë.

R ZH - Quais as palavras ou a frase que o senhor mais repete?
LAAB - Um romance não se escreve com idéias, e sim com palavras.

R ZH - Qual a qualidade que mais o impressionou em um personagem?
LAAB - A dignidade de Ana Terra

R ZH - Qual o defeito que mais lhe marcou em um personagem?
LAAB - As dúvidas de Bentinho.

R ZH - A vida de qual autor o senhor gostaria de imitar?
LAAB - Johann Wolfgang Goethe.

R ZH - A morte de qual personagem o senhor gostaria de ter?
LAAB - Dom Quixote.

R ZH - Qual a sua maior obssessão de leitor?
LAAB - Descobrir os meandros da criação do texto que estou lendo.

R ZH - Qual é o seu lema como escritor?
LAAB - O provérbio latino Nulum die sine linea - nenhum dia sem escrever uma linha.

R ZH - Qual é o seu lema como leitor?
LAAB - O bom romance é aquele cujo final não importa.

R ZH - Com qual personagem de livro o senhor mais se identifica?
LAAB - Carlos de Maia, de Os Maias.

(Entrevista à Revista ZH, 2º Caderno, Porto Alegre, 02-11-1997, pag. 5)


CONSELHOS PARA OS NOVOS

PRECIOSOS CONSELHOS DE LUIZ ANTONIO PARA NOVOS ESCRITORES

1 - Ouvir os outros antes de publicar.
2 - Ler de tudo, e não apenas o gênero que pratica.
3 - Possuir um conhecimento relativamente sólido de todas as áreas do saber humano.
4 - Preocupar-se com a qualidade do texto, e não apenas com a história que conta.
5 - Ser solidário com os colegas de escrita. Ler o que lhe é proposto.
6 - Escrever sempre, todos os dias.

(Publicado na Revista ZH, Porto Alegre, 02-11-1997, pag. 5)


A OBRA DE LUIZ ANTONIO E A CRÍTICA

UM QUARTO DE LÉGUA EM QUADRO
Movimento, 1976 - em 6ª edição

Situado no período de 1752-1753, primórdios do povoamento açoriano do Rio Grande do Sul, esse romance, escrito em forma de diário pelo médico Gaspar de Fróis, discute as raízes e a gênese do nosso povo. Em Um quarto de légua em quadro, o drama pessoal de Gaspar se funde ao drama coletivo; sem o desejar, o médico torna-se cúmplice e partícipe de fatos que nunca desejou houvessem acontecido. Obra de estréia, esse romance viria estabelecer o caminho estético do autor.

UM LIBERAL À DERIVA
Flávio Aguiar*
Jornal Movimento, São Paulo.

Um quarto de légua em quadro é a história de um suicídio brando, de uma desistência. Gaspar de Fróis, médico com alma de artista, vem da Ilha Terceira do Arquipélago dos Açores para o Brasil em meados do século XVIII, participar da "grande empresa" da colonização. Portugal celebrava o Tratado de Madri coma Espanha (1750), pelo qual entregava a esta a Colônia do Sacramento, junto ao Rio da Prata, e recebia em troca o próspero Território das Missões, rico em gado, ervais e terras férteis. Para consolidar a manobra, estendia a colonização em direção ao Sul: estenderam-se em linha, Desterro (hoje Florianópolis, Laguna, Porto do Rio Grande, e já varando a Lagoa dos Patos, para adentrar o então chamado Continente, Porto dos Casais (hoje Porto Alegre). Nesta trilha, cujo objetivo era penetrar a terra até as distantes e legendárias Missões, vem Gaspar de Fróis, para se desencantar com o tal projeto e consigo mesmo, por se ver conivente com o qualifica de "atrocidades cometidas contra os colonos.

O romance é seu diário, escrito até o ponto em que desaparece do mapa, tomando destino ignorado. Seus cadernos são, a seguir, editados por contemporâneos seus. Como encarar o gesto do médico de sensibilidade fina e fidalga - como ele mesmo quer ter? Como uma desistência passível de críticas? Mas no terreno do literário - do romanesco, no caso particular - nem tudo pode ser tomado rigorosamente ao pé da letra, nem os julgamentos morais podem ser exclusividade no comando do juízo crítico. Gaspar de Fróis se afasta da sua história para nos deixar, em contrapartida, uma vigorosa denúncia da reificação humana. Esse gesto de distanciamento é acentuado pela grafia do livro. O diário do médico é escrito em grafia moderna, enquanto as notas dos contemporâneos que lhe são apensas vêm em grafia daquela época, dos mil setecentos e tantos. O contraste acentua o jogo do discurso literário ao longo do tempo histórico: qualquer analogia com o presente fica por conta do leitos, mas não é mera coincidência.

O que se pode dizer é que o ato de narrar serve de catarse para um drama sem resposta: o da consciência individual, aguda mais impotente enquanto individual, diante da tragédia coletiva. Gaspar de Fróis revela mais de um parentesco com o pensamento liberal - não no terreno econômico propriamente, que o médico não chega a discutir - mas sim no fato de se aferrar, como única coisa segura e certa no oceano de contradições, em seus princípios pessoais, em sua crença implícita num Estado coerente que organizasse, quem sabe, um dia, aquela confusão em que se metera. Essa crença vai sendo golpeada sem dó nem piedade; seu diário é o diário de um dilaceramento; o narrador se divide em dois, um que procura pensar a ordem na confusão e outro que manifesta continuamente debaixo do primeiro, a desordem diabólica de tudo.

O primeiro é o fidalgo que olha com repugnância o quadro das misérias alheias e se escandaliza com elas, manifestando suas preocupações diante das autoridades constituídas. O segundo revela sempre capítulos insuspeitos dessa tragédia toda, manifestando não mais a fidalga repugnância, mas sim o declarado horror diante de fatos como a descoberta que os fogos fátuos que corriam à noite em volta de uma certa casa de fazendo das redondezas eram provenientes da putrefação de vinte e três índios ali massacrados. O escritor não reclama diante das autoridades constituídas: ali mesmo vomita o café da manhã. Essa cisão entre o narrador e a narração - quando não manifesta fragmentação - não confundir com a fragmentação do discurso literário em flashes, instantâneos, ou seja lá o que for - aponta para uma profunda crise de e no romance brasileiro. Uma das pontas dessa crise se mostra neste Um quarto de légua em quadro: a crise da consciência liberal diante de uma progressiva deformação da realidade.

Os invasores internos

O epicentro deste drama, no caso do romance que ora se trata, está na história da formação da propriedade da terra no Sul do País. É uma história de ocupação de terras, e de uma ocupação conflituada. Os conflitos medram não apenas contra os inimigos externos - o espanhol, índios em bando ou organizados nas Missões. Eles medram internamente (e isso é que balança mais o coreto da consciência de Gaspar de Fróis) entre os destinados à pequena e à grande propriedade.

A ocupação das terras abria frente para dois tipos de proprietário. Primeiro o grande, em geral um militar português, transformado em estancieiro, dono de terras, escravos, gado e comandante de homens meio peões, meio soldados. Segundo o pequeno proprietário - que vinha dos Açores em busca do seu prometido um quarto de légua em quadro e da sua sobrevivência. Era menos poderoso do que o primeiro, mas igualmente necessário à ocupação da terra. Entre esses dois fogos a Coroa de Portugal tratava de executar a demarcação - vale dizer, fixar as fronteiras com a Espanha e expulsar os índios do território missioneiro.no jogo de empurra-empurra entre aqueles dois tipos de proprietários, dava para adivinhar quem ficava com as piores terras, levando chumbo se invadia a vastidão alheia. Esse processo, e seu papel nele, é que leva o Doutor Gaspar ao desespero (1).

Os conflitos internos do médico-narrador possuem duas frentes básicas: sua relação com o poder e a sua impossibilidade de uma relação amorosa conseqüente (primeiro) e de qualquer relação amorosa (depois). A convivência com o poder se dá em dois pontos: na análise a um tempo apaixonada e desapiedada que Gaspar de Fróis faz de Gomes Freire de Andrade, personagem histórico, comandante da demarcação, a mais alta autoridade portuguesa naquelas paragens ermas e geladas dos confins de um país que ainda não havia. Veja-se o diálogo: ...Mas não foi só isso, general. Me amargurava vendo os colonos padecendo. - E daí: Que poderia o senhor fazer? Deixe esses assuntos para nós, administradores. Tudo obedece a uma larga idealização, que, com o tempo, dará os frutos desejáveis. Uma ou outra morte ocasional não modificará os planos. É como uma grande obra, em cujo cimento deve entrar um pouco de sangue, para ser mais sólida. - Intrigante homem. Contraditório, humano, desumano, tal como provavelmente deve ser um homem.

Segundo, na constante dismistificação que faz no discurso deste mesmo poder - seja através do recolhimento das palavras submissas ou candentes dos colonos, seja na descrição de fatos paralelos, como a mascarada que os soldados portugueses organizam quando de um dos encontros entre Gomes Freire e os demarcadores espanhóis, que termina valendo como uma verdadeira outra face daquele poder, as caras esfarinhadas sustentavam olhos exageradamente pronunciados, saindo das órbitas, os dentes faltando (...).

Mas como o médico Gaspar de Fróis participa do poder, ainda que suas condições concretas de trabalho sejam intoleráveis para a razão. De que lhe serve a formação intelectual? Ele mesmo dá a pista, durante aquela mascarada: Quem me assegura que, se não tiver o poder de controlar-me que me foi ensinado, não estaria também participando daquela fantasmagoria, encenando alguém que não sou, apenas para ter, por uns momentos, a ilusão de não estar com os pés na terra?

Gaspar aprende a se controlar na vida real e extravasar no papel. Introjeta a seu modo e elaborado em contradições de ordem psicológica o conflito que presencia e de que é, no mínimo, espectador privilegiado, senão um dos principais atores. O médico fica sem condições de expressá-lo por inteiro, mesmo que seja em palavras, pois sua linguagem se distancia da ação. Ele o corrói por dentro e acaba por tornar-lhe impossível qualquer vida sentimental. O sentimento adquire as cores do poder - portanto, para esse eu dividido, de coisa culposa e culpável. Assim se esvai a única oportunidade amorosa que tem, o desejo de e por Dona Maria das Graças, a mulher do tenente Covas, da Guarnição do Porto do Rio Grande, e que depois de se entregar a ele por uma noite quer conversar sobre os motivos que o levaram a isso. Resposta do médico fidalgo, cortando o diálogo: Ora, conversar! Se quisesse ir para a cama, que viesse. Entrei no presídio a galope solto. Rilhando os dentes.

Um quarto de légua em quadro é um romance de estréia - de merecida estréia. Basicamente porque nos fala daquela outra História, sempre escondida por trás dos panegíricos e apologias dos manuais oficiosos. E o faz com sobriedade e ironia, qualidades em geral raras numa estréia.

Nota:
(1) Convém ressaltar o valor de reconstituição história que tem o livro, buscando compilar não apenas a grandiloqüência, mas o quotidiano da vida passada. Por exemplo: estamos acostumados a uma visão hollywoodiana do tempo das caravelas, onde estas mais se parecem a apartamentos de Beverly Hills do que aos reais navios d´el Rei. Estes eram sujos, pequenos, perigosos, verdadeiros focos de doenças, de cubículos e porões infectos que às vezes faziam de hospital (!). Era freqüente a falta de água; uma chuvarada poderia ser uma bênção para a sede ou uma desgraça para o navio. Um camarote - coisas reservadas para os altos dignitários - era um cubículo de pouco mais de metro quadrado. No convés às vezes era necessário dormir junto da futura alimentação - galinhas, porcos. E ressalte-se que o horror dos porões só atingiu seu pleno desenvolvimento durante o tráfico negreiro. Consulta obrigatória para quem quiser saber o que era uma viagem dessas: Viagem às missões, do Pe. Antônio Sepp, editado pela Universidade de São Paulo e Livraria Martins Editora.

Data: 14 de fevereiro de 1977, p. 16.

* Flávio Aguiar é ensaísta, crítico e professor da Universidade de São Paulo.


A PROLE DO CORVO
Movimento, 1978 - em 6ª edição

Painel do que foi o último ano da Guerra dos Farrapos, pondo a nu fatos não revelados, e recriando um universo caótico, de guerra, de paz e de ódio, num romance em que a grande personagem é a intolerância humana. Em A prole do corvo, as personagens centrais resultam num elenco representativo de seu tempo: Chicão Paiva - o estancieiro de Santa Flora - o soldado Cássio, Laurita e a personagem-eixo, Filhinho. O pano de fundo e, conseqüentemente, a atmosfera em que se desencadeia a ação, é a Guerra dos Farrapos (1835-1845), sobre a qual o autor lança uma luz, reveladora de traços obscurecidos de suas mais importantes personagens.

Perpassa, por todo o romance, a dor, o desencanto e a amargura daqueles que ingenuamente não se engajaram no movimento revolucionário e que desconhecem os esquemas de interesses econômicos que sustentam todas as guerras, tanto as de hoje como as de ontem.

A PROLE DO CORVO DE ASSIS BRASIL
Tarso Fernando Genro*
Correio do Povo
, Porto Alegre.

O novo livro de Assis Brasil (A prole do corvo - Porto Alegre: Movimento, 1978) aponta-o com um regionalista de fôlego e justifica-o como escritor. À semelhança do Um quarto de légua em quadro, Luiz Antonio de Assis Brasil trabalha sobre o movimento histórico real, através de suas situações típicas. Se no Um quarto de légua em quadro o conjunto ficcional existia sobre situações particulares de grupos humanos, e o personagem principal, Dr. Gaspar, tinha atrás de si uma imensa aquarela quase épica, nesse romance os personagens são mais intensos do que as situações históricas típicas, assimilando-as, e tornando o livro, por isso, menos história e mais romance.

A síntese que encerra os personagens é apurada socialmente, isto é, o livro tem critérios de classe como nenhum outro da nossa literatura regional. A formação do latifúndio é vista muito mais em suas entranhas do que em seus gestos retóricos, e a guerra, no caso a Revolução farroupilha, se relativamente clara para as elites conflituadas - que cedo ou tarde se ajustam na Santa Paz de Ponche Verde - é um desígnio insondável para o ser miserável e explorado que as mistificações folclóricas não cansam de enevoar, como o alegre e irresponsável gaúcho.

Existe um enorme repositório de tradição para servir de matéria-prima a uma literatura regional verdadeiramente criadora. Esta veia já foi tomada por Simões Lopes Neto, Ciro Martins e outros, tão, ou menos importantes. Se Simões Lopes Neto coligiu toda a linguagem gauchesca de Ciro abriu uma outra perspectiva de classe, com o gaúcho a pé, não é possível negar que falta um acabamento da literatura regional rio-grandense. Falta uma postura sólida para informar uma verdadeira visão crítica do latifúndio que (na sua fase face positiva) já foi relatada por Erico nos primeiros volumes de O tempo e o vento. Lá está o depoimento da formação latifundiária como primeiro e historicamente necessário período dentro de uma formação social em movimento.

Luiz Antonio de Assis Brasil, ao que parece, tem todas as condições para iniciar a revisão. Não se entende a guerra, se briga nela (p. 122) é a trágica conclusão de um soldado, dita ao filho do latifundiário (cedida às forças revolucionárias de Bento Gonçalves, em troca da não-desapropriação de seus cavalos). Nessa postura, que derruba as ilusões dos liberais de hoje, que costumam construir a história sobre convenientes mitos morais, está expressa a visão do mundo do escritor: aprofundar-se no processo real, com arte, para extrair dele um pedaço reconstituído do mundo dos homens. Mas de homens que pertencem a classes sociais e que fazem as suas perplexidades e os seus terrores como dominados ou como dominadores.

Não é preciso dizer que nenhuma compreensão das delicadas divergências formais entre os adeptos do Império e os defensores da República do Piratini tinham, de ambos os lados, os verdadeiros guerreiros. Obscurecida toda racionalidade, no calor da luta, esta se dá, ao nível da equívoca compreensão das massas, entre os bons e maus. E os maus são sempre eles, os malditos, os que estupraram e mataram como simples bandidos sem lei e sem pátria. Mas, no fim, restam os ódios aparentemente inexplicáveis que vão adquirir mesmo força independente na história; ódios que vão ser sempre explorados miticamente - coragem, bravura, rigidez nas divergências entre as oligarquias que seguirão ao longo de um século e que se seguem sob novas formas.

O tecido delicado das relações familiares de onde é extraído Filhinho, personagem mais importante do romance, não é negligenciado. O quadro psicológico do latifúndio em decadência, acossado por outro latifúndio maior ainda (cujo tom principal é dado, no fundo, pelo velho fazendeiro cansado e alienado na sua condição na sua condição de opressor) não é um quadro naturalista. Brotam as neuroses e nas relações incestuosas entre Filhinho e sua irmã, ao mesmo a tempo a glória dos dominadores e as perversões de uma humanidade bloqueada pelo espaço social que a história lhe reservou.

A guerra é o elemento purificador de relações não estáveis, não só de relações de propriedade como também relações entre as pessoas. E quando se diz purificador não se usa essa expressão com qualquer conotação teológica e sim no sentido de que ela apressa as formações sociais em direção a sua forma histórica acabada. Na loucura de uma velha, porém, eis a desalienação que se gesta num lento processo tecido na bárbara existência: (p. 182) Dizem que a guerra acabou, moço. Sabe me dizer? Todos me deixaram aqui, disseram que eu não podia caminhar até a vila. Eu conheço mais do que todos as guerras! Nesses dois peitos já sugaram muitos que morreram varados de lança. Mas chorar é coisa que não faço, nem alegrar é coisa que me alegro, porque isso que parece o fim pode ser o começo de outra guerra. Pelo sim, pelo não, fico quieta no meu canto.

Mas é preciso exigir muito mais dessa nova perspectiva, mormente quando ela se abre num belo livro que é uma grande promessa de um jovem escritor. De um escritor que, na sua clareza textual e na sua honestidade estética sequer faz mínimas concessões fetichistas aos voyeurs da literatura modernosa. Trata o incesto - por exemplo - dentro do quadro social em que ele se insere - com uma dignidade só encontrada na literatura burguesa em sua fase ascencional e revolucionária. Exigir mais para impregnar a constituição da nova literatura de uma nova época, também, com uma linguagem definida por Mann, em Tonio Krüger, ou por Konrad, em Lord Jim. As bases estão aí, de Simões Lopes a Ciro Martins (que Estrada nova já registra para sempre). E também não é exigir demais de Luiz Antonio de Assis Brasil, pois o principal sintoma está evidente: Um quarto de légua em quadro é um excelente romance, e A prole do corvo é ainda melhor.

Em 3 de junho de 1978
Caderno de Sábado, p. 11

*Tarso Genro é político, advogado, poeta, ensaísta e crítico literário. Foi prefeito de Porto Alegre por duas administrações do Partido dos Trabalhadores (PT).


BACIA DAS ALMAS
L&PM, 1981 - Mercado Aberto, 1992 - em 4ª edição

Bacia das almas abrange o séc. 20, cobrindo um período que se estende até os últimos anos da década de 30. A ação transcorre na fazenda Santa Flora e em Aguaclara, sede do município do qual a figura central do relato, o Coronel Trajano, é prefeito. Ainda que por meio da corrupção e violência, Trajano desfruta do mando político. Já seu filho Gonçalo, seguidor de Plínio Salgado, fracassa em todas as iniciativas, não lhe bastando o dinheiro e a força para se assegurar do comando. É esta desigualdade que configura a versão da História sulina que subjaz no romance: a geração positivista, que foi responsável pelo exercício da autoridade e do arbítrio no Estado desde sua fundação, produz uma descendência política simultaneamente incapaz e doentia.

DE PRIMEIRA ÁGUA
Geraldo Galvão Ferraz*
Leia Livros, São Paulo.

Num país em que triste e ironicamente elege-se um anacrônico fazedor de sonetos para ser o intelectual do ano, raras são as ocasiões de colocar algum lastro no prato positivo da balança cultural e, sobretudo, da literária. Uma das oportunidades mais gratas destes últimos anos tem sido a emergência de um consistente elenco de livros e autores vindos do Rio Grande do Sul.

Cyro Martins, Josué Guimarães, Moacyr Scliar, Sérgio Caparelli, Tânia Faillace, enter outros, têm atingido um invejável nível qualitativo em sua ficção. Roberto Bittencourt Martins com seu Ibiamoré, o trem fantasma, invadiu a primeira linha do romance brasileiro (confiram, o livro é da L&PM e está distribuído em todo o País) com uma explosão de talento para imaginar e contar estórias. Luiz Antonio de Assis Brasil é um caso semelhante.

Bacia das almas, sem qualquer dúvida, é o melhor e mais bem realizado dos romances com que ele vem traçando uma saga familiar que se confunde com a trajetória histórica do próprio Rio Grande do Sul. Um quarto de légua em quadro e A prole do corvo, revelaram um escritor promissor, embora desigual; Bacia das almas já traz um autor extremamente consciente, que não se perde com a multiplicidade de fios narrativos e que consegue escapar da tradicional incompetência do escritor brasileiro em fazer as personagens falarem como gente de verdade.

A cenário principal do livro é a cidadezinha de Aguaclara, onde fica a estância Santa Flora, onde pontifica o coronel Trajano Henrique de Paiva, um misto curioso de ditador latino-americano e de déspota esclarecido à maneira, digamos, do Príncipe Fabrizio, de O Leopardo. Trajano é prefeito e estancieiro, senhor absoluto, mandante autoritário em assuntos públicos ou familiares. É uma personagem de exceção numa paisagem sonolenta e age de acordo. Como, também de acordo, o autor explora suas variadas facetas. O livro gira em torno de sua energia e seus ímpetos. O contraste com seus filhos é flagrante, e Trajano sabe disso. Trata mal o desorientado Gonçalo, que se torna, à falta de outra rebeldia, integralista fanático. É enfrentado por Luís que, casado contra sua vontade com a filha de um imigrante, tem de pagar o pesado tributo da impotência sempre que se aproxima do domínio de Trajano. O terceiro filho escapa para o deboche homossexual. Incapaz de entender as mulheres, Trajano tenta submetê-las: a amante, Cheta, pelo poder; a mulher, pelos laços do casamento; a filha Márcia, transformando-a numa réplica glacial da esposa, após a morte desta; a filha, Laura, pelo estupro.

Usando repetidos flashbacks e uma alternância vertiginosa de focos narrativos (o que dá um ritmo agilíssimo ao livros), Assis Brasil passa em revista o período de meados do século XIX (a infância de Trajano) até o advento do Estado Novo getulista (marcado pela morte do Coronel). Quando Trajano fica doente, o romance vai ganhando um tom cada vez mais surreal, e o autor usa um recurso de que é mestre - o humor. Talvez se esse fosse todo o clima do livro, Bacia das almas poderia ser uma espécie de contrapartida sulina de Galvez, o Imperador do Acre. Mas, assim como é, embora sem atingir a qualidade do livro de Márcio Souza, constitui-se em ficção de primeira água, com virtudes mais do que suficientes para permitir que se espere com grandes esperanças o próximo livro de Luiz Antonio de Assis Brasil.

Maio de 1982, p. 6

* Geraldo Galvão Ferraz é jornalista, tradutor e crítico literário.


MANHÃ TRANSFIGURADA
L&PM, 1982 - Mercado Aberto, 1992 - em 9ª edição

Temos aqui uma novela cujo eixo dramático é um triângulo amoroso surgido à sombra das torres da igreja de Viamão, a qual se torna palco de uma história trágica. Preso um sistema de valores ao qual aderiu pelos votos perpétuos, Ramiro é o pároco que, dividido entre a carne e o espírito, não consegue viabilizar para si a saída encontrada por seu sacristão, Bernardo, um homem da terra, cujo espectro de opções exclui o sentido da culpa. No terceiro vértice está Camila, a mulher que, presa em sua casa por uma ordem judicial, ocorrida na seqüência de um processo de anulação de casamento, não entende seu próprio corpo e suas emoções.

O TEMA EM SUA MATURIDADE
Antônio Hohlfeldt*
Correio do Povo,
Porto Alegre.

Não é de agora que Luiz Antonio de Assis Brasil se oc upa com amores desditosos, apaixonados e fatais. Já em Um quarto de légua em quadro, seu romance de estréia, o amor do Doutor Gaspar de Fróis era um sentimento fatal, regido pelo destino, e ele, como a mulher, simples marionetes. Posteriormente, A prole do corvo, bem como Bacia das almas, tinham, em última análise, como tema mais constante, essa mesma situação. Quem sabe o fatalismo herdado de seis maiores açorianos e que o autor concretiza em tais situações-limite. Mas é em Manhã transfigurada, que já chega a sua segunda edição, que Assis Brasil atinge, literariamente, o maior despojamento, a maior concentração, a tensão perfeita num equilíbrio constante que jamais até então realizou.

A narrativa é breve, pois se organiza em onze relativamente curtos capítulos, pouco além de cem páginas no total. Ela se distribui quase que matematicamente, cinco capítulos alternando a relação entre Camila e Bernardo, Ramiro e Camila e Bernardo, Ramiro e Camila; é o primeiro deles que dá, em última análise, a perspectiva geral da narrativa, reiterada sutilmente aqui e ali, e que é a da escrava Laurinda. Nessa organização verifica-se haver uma narrativa eminentemente feminista e, mais do que isso, fascinada com esse ponto de vista.

Dois subtemas marcam todo o texto: de um lado, a força do destino que a todos conduz. Esse tema também não é novo em Assis Brasil, e já começa reforçado na epígrafe da obra. Mas há uma grande diferença pela qual Laurinda, Camila, Bernardo e Ramiro o visualizam. Os dois homens, na verdade, enfrentam-no a descoberto, sem o menor preparo, em oposição às mulheres, que possuem uma intuitiva visão de como dominá-lo. Das duas, porém, passa-se de um maior controle por parte de Laurinda, nos primeiros capítulos, à sabedoria decisiva de Camila. No entanto, o destino acaba por impor-se a ela própria, no desfecho trágico que surpreende o leitor. Neste sentido, a perspectiva da tragédia grega é retomada com absoluta fidelidade pelo romancista, na medida em que Camila, pensando ter dominado o destino, comete sua des-medida, sendo por isso castigada. Seu castigo, porém, atinge a todos que lhe estão mais próximos. Laurinda, contudo, no parágrafo inicial do texto, recupera o domínio da situação e assim, na mesma forma que é sob a perspectiva da negra escrava que a narrativa se abre, assim também se fecha: para o povo da Vila de Viamão, a morte de Camila devolve-lhe a virtude que a denúncia do marido havia conspurcado.

Com Manhã transfigurada, Assis Brasil marca um importante ponto, não apenas em sua carreira literária, como faz avançar a literatura sul-rio-grandense em um dos temas mais reiterados. Já é lugar-comum dizer-se que até mesmo aqueles romancistas que mais pretenderam falar da épica gauchesca, terminaram por prestar homenagem ao silencioso significado da mulher em nossas inóspitas paisagens coloniais. Assis Brasil, porém, faz mais do que isso. A imagem da impotência do Sargento Miguel, marido de Camila, é mais do que metáfora: é a figura da própria impotência de uma classe acostumada a mandar, mas não a encontrar-se com seus iguais. Ou seja: é apenas sob a perspectiva da escravidão - impingida na época às mulheres - que Miguel pode ser afirmar. Na medida em que descobre, porém, a anterior liberdade de Camila, que deixara sua virgindade com um peão qualquer, a quem nem sabia mesmo o nome, sente-se o proprietário traído pela propriedade. Nada lhe resta senão denunciar a burla. Abre, simultaneamente, o caminho da real liberdade para a mulher que, afrontada, assume essa liberdade com todos seus riscos, permitindo que a narrativa, dessa forma, se dê num constante paroxismo, equilibrado entre seu próprio sentimento de vingança e a sedução, consciente ou não, de que realiza, primeiro de Bernardo, e depois de Ramiro.

Não é exatamente nova a temática assim desenvolvida. Podemos lembrar os textos de Soror Teresa, os livros de Eça de Queirós e Camilo Castelo Branco, para citarmos apenas os clássicos. O próprio José Régio desenvolve profundamente, em sua poesia, o tema que, em última análise, constitui importante subtema deste romance, que é a oposição entre Deus o diabo, a Virgem Maria (pureza) e Camila (o pecado), a oposição entre a vida (tanto a física quanto a espiritual) e a morte.

O tema em si é fascinante. Maios do que isso, porém, o escritor, dono do material, é capaz de reproduzi-lo sob linhas diversas, ampliando sua própria vida: assim, toda a narrativa multiplica-se no mínimo sob dois prismas, ora o de Camila, ora o de Bernardo ou Ramiro, quando não passa pelo agudo crivo de Laurinda. O que temos, pois, não é uma narrativa clássica, no sentido da certeza das coisas narradas, mas um texto eminentemente contemporâneo pela dubiedade e pela ambigüidade. Mais do que isso: combinando sabiamente o aspecto do destino, o narrador é capaz de criar e manter uma tensão permanente, na medida em que antecipa as ações, criando um clima de agouro e morte que se completa no contraste entre os fatos que compõem o desfecho da narrativa e o próprio título da obra. A manhã transfigurada a que se refere o título, mantém a ambigüidade, sobretudo após a leitura, pelo simples fato de ratificar o sentimento de vitória do Destino.

Maduro o suficiente para aprofundar um dos grandes desafios, que é a do artista capaz de expressar sentimentos contraditórios e mesmo opostos de várias personagens a uma só vez, Luiz Antonio de Assis Brasil ainda se dá ao luxo de, para tanto, de valer-se de uma conquista importante da linguagem cinematográfica, que é a simultaneidade de enfoques do mesmo fato. Emerge assim, por trás de paisagem constantemente nebulenta dos dias de chuva que caracterizam toda a fugidia ação romanesca, uma imagem fresca e luminosa do fazer literário que, talvez por isso mesmo, justifique ainda mais o título escolhido.

C.P, 27 de abril de 1983, p. 15.

* Antônio Holfeldt é escritor, político, jornalista, crítico literário e teatral, Doutor em Letras e professor universitário.


CAMILA
Cecília Zokner
Literatura do Continente, O Estado do Paraná,
Paraná.

Num pequeno espaço do Continente, aprisionado na praça, na igreja, no casarão da vila, irrompem as paixões. A que se origina da posse, a que se nutre da privação, a que se alimenta de si mesma. Bernardo, Ramiro. Presos à mulher que se entrega ou se oferece, tolhidos pela pobreza ou pelos votos formulados, são figuras à mercê do desejo feminino.

Presa pela lei dos homens na grande casa, Camila pode estender o seu olhar até as torres da igreja, até as árvores da praça. As paredes que a rodeiam e prendem não amuralham, no entanto, seus sentimentos e seus ímpetos. Querendo encontrar a si mesma, tomou posse do corpo e da alma de Bernardo. Seduziu aquele que viera para seduzi-la com artes que somente o instinto conduziu e, sobre ele, reinou soberana, reduzindo à nada o desprezo com que ele poderia magoá-la. Tendo-se encontrado, conhecendo-se inteira, perfeita, vibrátil, perde pelo amante o interesse, condenando-o, assim, a um vazio enlouquecido.

Volta-se, então, para Ramiro, inatingível porque submisso às leis do celibato eclesiástico. Percebe-lhe as dúvidas e quer vencê-las. Caminha para ele, ignorando, como já o fizera antes, toda e qualquer lei. E, na manhã nascida de um céu escuro e nevoento, numa vila do extremo sul do Brasil, para iluminar o ato final de uma história que se teatraliza num ambiente sagrado, palco de uma tragédia sem espectadores, se inscreve a manhã transfigurada.

Para ela avançam, sem o saber, Camila e o padre Ramiro.

Vestida de branco, coroada de flores, o rosto radiante, antecipando a entrega, Camila ousa entrar na igreja e se aproximar do altar. Verdes os paramentos, Ramiro chega para oficiar a missa. Petrificado pela surpresa, não pode impedir o punhal de Bernardo que faz Camila gritar e, lentamente, cair, afundando-se no rodado do vestido que a recebe como um cálice.

Rosto de donzela, ao atravessar a praça e entrar na igreja, já era senhora de prazeres e de dores. Ousada fora, na adolescência, entregando-se, sob o teto do pai, a um peão da estância. E, outra vez, ao seduzir o escrivão/sacristão eclesiástico que lhe fora entregar o pedido de anulação de casamento feito pelo marido que não a aceitara já mulher. Ansiou ir além e pensou o amor como o lera em versos e como o pressentira. Materializou-o no Padre Ramiro quando este, para dar-lhe consolo espiritual pelo cativeiro imposto, fora lhe bater à porta.

Do sacristão e do padre e de Camila é que se ocupará o narrador para dizer dessa manhã em que, mais uma vez ousando doidamente, Camila sai em busca do que deseja, o amor do padre Ramiro. Minuciosamente acompanha - gestos, palavras, pensamentos - a submissão a que se entregam: ciúme, dever, paixão. E o sentir e o sofrer de cada um deles não se escondem ao dono do relato que ora se fixa em Camila, ora em Bernardo, ora em Ramiro para revelar os sentimentos que se instalam, se insinuam nos corações masculinos e os anseios que florescem no corpo de Camila.

A vila apenas nominada - e suas ruas de casario baixo de porta e janela e sua praça - a alcova, a igreja deserta. Cenários que se perdem diante da expressão desse imperfeito triângulo amoroso em que domina a mulher. Os homens temem. Um, ao querer dela a posse; o outro, ao querer dela fugir. Camila, mulher no tempo dos preconceitos e leis dos homens, apenas quis viver.

A vida dos personagens inesquecíveis lhe concedeu Luiz Antonio de Assis Brasil ao publicar, em 1983, pela L&PM de Porto Alegre, Manhã transfigurada, um dos mais belos romances da ficção brasileira.

Data: 26 de maio de 1991.


TRANSGRESSÕES
Cecília Zokner
Literatura do Continente, O Estado do Paraná,
Paraná.

Um rosto bonito, visto agora de perfil por Laurinda. Parecido com um camafeu de tão branco e bem recortado, um pescoço fino amparando um queixo levemente adiantado em relação a toda a fisionomia, não de feitio a empobrecer a figura, pois ainda lhe dá um ar mais nobre, o que é complementado pela testa larga ampla, pelo nariz fino e os beiços arredondados.

Tem as faces coradas, recende a alfazema ou a benjoim Os olhos claros de pestanas longas, dentes brancos, lábios carnudos, voz cristalina. Camila, luminosa figura feminina nascida da pena de um gaúcho, Luiz Antonio de Assis Brasil.

Autor de uma trilogia, Um quarto de légua em quadro, A prole do corvo e Bacia das almas, inscrita nos campos do Rio Grande do Sul e de mais três romances, As virtudes da casa, O homem amoroso e Cães de província, ao publicar, em 1983, Manhã transfigurada, assina a sua melhor obra, uma das mais perfeitas da Literatura brasileira contemporânea.

Sua personagem forma com Luísa de O primo Basílio e com Emma de Madame Bovary a galeria das adúlteras. Como a personagem de Eça de Queirós, que cheia de medos e de remorsos morre de uma febre cerebral e como a de Gustave Flaubert que, acurralada pelas dívidas e pelo abandono dos amantes, se suicida, Camila paga, também, muito caro, a sua transgressão. Com um preço, porém, estipulado a sua revelia.

O não deixar-se morrer e o não se dar a morte, assim como o se nortear, somente, pelo seu sentir, a afastam dos caminhos de Luísa e de Emma. Ambas pertencem a um universo social definido - a pequena burguesia urbana e rural - cujas leis elas transgridem daí advindo a punição. Camila, na mais absoluta indiferença pelos valores que sustentam o mundo a que pertence, volta-se, exclusivamente para si mesma. É regida por princípios apenas esboçados - um amor filial que se põe à prova; algo de uma ambição que é, sobretudo, ingênua; uma idéia vaga do papel que deve representar como mulher casada - e que perdem o sentido diante dos conflitos que nela se instala. Repudiada pelo marido ao confessar uma experiência amorosa anterior ao casamento, mais do que a sua cólera ou o possível desprezo e a vergonha certa dos pais, o que a aterroriza é a dúvida sobre a própria feminilidade. Então, sim, é como se tudo desaparecesse para somente ela existir, feita de ânsias e urgências.

Na pequena cidade, presa entre quatro paredes, dona absoluta dos jogos de sedução, torna-se senhora daquele que lhe fora impor ordens e punições. E dele faz uso. Não é conquistada, mas conquista. Uma inusitada inversão de papéis que, não apenas a isenta de ser vítima do amor, como faz dela uma das grandes amorosas da Literatura brasileira.

O vazio amoroso que lhe impõe o marido a conduz à plena expressão que ela se concede a si mesma para desabrochar, plena de feminilidade, nos braços do amante. Uma bela história de amor onde a mulher é (quase ) soberana. Nas entrelinhas, o ritual religioso, os preconceitos, as discutíveis leis que sempre imperam para os mais fracos.

Data: 09 de junho de 1991.


SOMBRA LUMINOSA
Cecília Zokner
Literatura do Continente, O Estado do Paraná,
Paraná.

No extremo sul do Brasil, deixando ver, de suas janelas a igreja e suas torres, o casarão se ergue em frente à praça. Nele, encerrada, Dona Camila aguarda a anulação de seu casamento, solicitada pelo marido. É muito jovem, muito bela e na mesma noite de núpcias confessara ter sido amada antes.

Sem direito de sair à rua, espera a decisão canônica na grande casa rica. A seu lado apenas Laurinda que a cuidou desde menina.

Laurinda, gorda, cara lustrosa, dentes alvos. Escrava. Imagem perfeita da dedicação, gira em torno de sua senhora servindo-a com todos os cuidados. Assumindo ou submetendo-se a uma função materna que, livre da rigidez da moral estabelecida, se desdobra: ela é ama, confidente, mucama, conselheira, alcoviteira.

É por ela que a senhora chama - para vesti-la, para penteá-la, para ouvi-la e dirimir suas dúvidas, para julgar de seus méritos feminis, para costurar-lhe o vestido que deseja. É ela quem está presente na hora do choro e do riso. Para alegrar ou consolar, para cuidar e proteger a senhora, segue-lhe os passos ou os precede querendo evitar a tragédia.

Personagem cuja função romanesca direciona a narrativa de Manhã transfigurada (Mercado Aberto, 1991). Suas são as palavras que conduzem os atos de Camila no leito conjugal e fazem dela uma mulher condenável aos olhos do marido. Também suas as que a afastam da prostração a que o castigo vergonhoso a condenara. Obra sua, o vestido que deseja Camila para o que imagina ser a sua entrega maior.

No entanto, é como se Laurinda na dona apenas se refletisse. O coração lhe pesa quando a sente triste. Seus olhos se umedecem de alegria quando a vê alegre. E se preocupa e se acalma e se assusta e se amedronta diante de seus desvarios amorosos porque negra e escrava era uma pessoa só do dia, só entendendo as coisas claras e solares.

E, nada mais claro para ela do que a sua condição de serva, pessoa que não pode nem pensar, e sim ser dócil aos comandos.

E prestimosa e cumpridora e dedicada e boa e sempre risonha, Laurinda se encerra na perfeição luminosa que desdiz este ter nascido para sombra de mulher branca.

Sombra que a impede de mostrar-se inteira: quem realmente é, a quem se entregara por amor, quando pudera ser feliz nesse mundo/prisão que a proibiu de viver para si mesma.

E faz dela, silhueta que se recorta da escravidão (assim o quis seu criador Luiz Antonio de Assis Brasil?), um inacabado, um magnífico e inesquecível personagem feminino.

Data: 02 de fevereiro de 1992.


AS VIRTUDES DA CASA
Mercado Aberto, 1985 - em 5ª edição

Romance psicológico, As virtudes da casa é um estudo da alma rio-grandense dos primórdios do século 19. A trama recria a peça dramática de Ésquilo, o Agamêmnon, em pleno pampa rio-grandense do Sul. No papel-título do original grego, está o Coronel Baltazar Antão Rodrigues de Serpa, estancieiro e comandante militar, o qual vai à guerra contra Artigas; como Cliptemnestra está Micaela, sua esposa fiel até então, cuja vida se transtorna com o surgimento do estrangeiro (Egisto), na pele do naturalista francês Félicien de Clavière. Os filhos de Baltazar Antão e Micaela são Jacinto (Orestes) e Isabel (Electra). Com os atores a postos, desenvolve-se a tragédia.

A grande questão que se coloca é, ao mesmo tempo, simples e complexa: em que medida é possível condenar as ações daqueles que, vivendo no microcosmo de uma estância gaúcha, nada mais fazem do que viver suas existências em toda sua genuinidade?

A CONFIRMAÇÃO DE UM GRANDE ESCRITOR
Sergio Faraco*
Suplemento Minas,
Porto Alegre.

Depois de sua Trilogia dos mitos (Um quarto de légua em quadro, A prole do corvo, Bacia das almas) e Manhã transfigurada, bibliografia respeitável que já lhe garantia destacado lugar no moderno romance brasileiro, o gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil (Porto Alegre, 1945) convoca seus leitores para outra aventura nos domínios da ficção, com As virtudes da casa, volume de quase quatrocentas páginas. Mas vá o leitor debruçar-se no livralhão: dificilmente o larga, e se o faz, mantém o coração em suspenso, mal podendo esperar a hora de novamente abeberar-se nesse caudaloso manancial de emoções.

Em As virtudes da casa, Mercado Aberto, 1985, Porto Alegre, Luiz Antonio de Assis Brasil narra as vicissitudes da família de Baltazar Antão, Coronel de Auxiliares e titular da Estância da Fonte. Vai em meio a guerra contra os castelhanos de Artigas, e o Coronel, veterano de outras correrias a serviço do rei, não consegue e nem quer ignorar o entrevero. Arregimenta seus homens e parte para a guerra, unindo suas forças às do General Lecor.

Para a família de Baltazar Antão, Micaela, sua mulher, Jacinto e Isabel, seus filhos, também para a criadagem e a negrada, a ausência do Coronel é um transe insuportável, porque já experimentado noutras épocas. Um fato novo, porém, vem alterar essa atmosfera de respeitosa saudade. Estava prevista a chegada à estância de um naturalista francês, recomendado pelo Capitão-General do Continente de São Pedro, e a ordem do Coronel era recebê-lo com a principesca marca da hospitalidade sulina. Tendo partido o dono da casa, chega o estrangeiro, que é relativamente jovem, atraente, além de culto e possuidor de hábitos requintados. É uma nova ordem cultural que se instala na Estância da Fonte, sedutora e quase irresistível para os que vivem os costumes feudais do Continente, fechados, repressivos. A presença do francês, então, deflagra violentos processos de mudança nas relações interpessoais, fazendo aflorar todos os componentes das paixões desenfreadas, como a audácia e o medo, a credulidade e a suspeita, o desejo e a culpa, o langor e a sensualidade - o fogo da vida, que antes era mortiço como as lanternas de Isabel, e agora fulgura como as lamparinas de Micaela.

Para Jacinto e Isabel - Édipo e Eletra perdidos nos esconsos continentinos, atraídos pelo visitante e ao mesmo tempo cativos da velha ordem de cultura -, o francês é quase um Diabo; para Micaela, quase um deus, impressão nebulosa que ela vai expressar claramente num momento de desespero. No auge dos conflitos, quando se mostram as profundas brenhas da alma humana, toma corpo um ritmo narrativo onde as emoções vão porejando folha a folha, até o desfecho que se torna inevitável e que quer preservar, com alto custo e ainda que só na aparência, as virtudes da casa. Em última instância, sobrepondo-se às individualidades, o que está em jogo é a auto-suficiência do feudo, a resistência de uma casta social prestes a desaparecer e que se agarra com unhas e dentes (a energia do desespero, diz Plekhanov) às suas tipicidades mais agregadoras. Nesse particular, agiganta-se o perfil revolucionário de uma admirável mulher, disposta a tudo sacrificar em nome da sua descoberta da vida.

Aspecto que merece registro é a estrutura perfeita que articulou Assis Brasil, dividindo o romance em quatro novelas, cada uma das três correspondendo à visão que tem dos fatos um dado personagem, e adotando na última um procedimento diverso para precipitar o ajuste de contas. Essa estrutura aproxima As virtudes da casa da concepção que Lawrence Durrell deu ao Quarteto de Alexandria, com a diferença de que no livro de Assis Brasil há um encadeamento tal que o leitor, ao findar uma novela, já está envolvido pelos sucessos da seguinte.

Cabe destacar também que tais temas e estruturas se desdobram em linguagem tão elaborada quanto é natural e adequado o seu resultado, transportando o leitor, sem que o sinta e mesmo que lhe faltassem outras referências temporais, à quadra exata em que se passa o romance.

As virtudes da casa é livro que não se pode deixar de conferir, sob pena de faltar-se com a melhor literatura brasileira. É daquelas obras cuja leitura acrescenta uma porção de vida às nossas vidas e que nos torna mais possuidores de dons humanos, mais perto da compreensão da alma e de sua trajetória nos caminhos contingentes da História. Não é a revelação de um escritor, este já está pronto e é reconhecido, mas a confirmação de que Luiz Antonio de Assis Brasil é uma das mais altas vozes do romance americano. Não lhe falta nada. Ou por outra: falta apenas que a castelhanada o descubra. um inacabado, um magnífico e inesquecível personagem feminino.

22 de junho de 1985, p. 10


O OLHAR DE ISABEL
Cecília Zokner
Literatura do Continente, O Estado do Paraná,
Paraná.

"O autor escreve brilhantemente, tanto no que se refere à elegância da frase quanto nas notações narrativas e no desenho dos caracteres; soube estruturar solidamente a intriga no desenvolvimento dos episódios e no harmonioso equilíbrio dos focos narrativos; inseriu o drama psicológico num largo contexto de história e paisagem, costumes e tipos de civilização". Assim é definido por Wilson Martins As virtudes da casa, um dos mais belos romances da literatura brasileira.

Publicado no ano de 1985, em Porto Alegre, é o quinto livro de Luiz Antonio de Assis Brasil que nele reafirma a maestria de romancista já revelada em Manhã transfigurada e que emerge, fascinante, em cada seqüência de As virtudes da casa.

Os seis primeiros capítulos tecem o encontro de Isabel com Félicien, naturalista francês chegado ao extremo sul do país em busca de borboletas e plantas.

Filha do dono da fazenda que hospeda o forasteiro, obediente ao pai que partira para a guerra - "Para o francês, o melhor" - ela se esmera como anfitriã.

E o bastante foi o anúncio de sua chegada para se deixar envolver por emoções novas. No serão habitual em que borda as peças de seu enxoval, não se concentra nos pontos, o pensamento querendo se libertar das imagens repetidas a cada noite: o noivo, o casamento, a vida que levaria. Interrompe o bordado e seu olhar se desprende da agulha, da linha, do risco. Quando segue as tábuas do chão até encontrar o relógio e subir por ele até o vidro e se ver refletida mal sabe que estava a romper com o ritual da casa.

Assim como nessa noite que precede a chegada do forasteiro infringe algo ao interromper o bordado e se contemplar com ousadia, aos poucos, irá erguendo, cada vez mais o olhar.

No encontro com Félicien não ousa fitar-lhe o rosto e apenas pousa os olhos na lapela da casaca, nos botões. Somente tem a coragem de erguer os olhos quando pensa que o pai poderia se agastar se não tratasse bem de seu hóspede.

Devagar, fita a lapela, a gravata, a camisa e, só então, o rosto. Muito rápido, o suficiente para perceber os olhos azuis no rosto cor de ouro, cor de mel e, os torna a voltar para o chão. E, logo, é vencida pela tentação de encarar outra vez o visitante e poder olhar o nariz, os bigodes, a boca.

E, escutando as descrições e as razões vai perdendo o medo de olhar para o seu rosto embora evite buscar-lhe os olhos. Depois os passeios, as confidências, os gestos contidos aproximando-a do forasteiro numa sucessão emocionada de riscos que a impede de toda reflexão. Mas a repentina advertência - da mãe, do irmão, da escrava? - faz com que retorne à razão e ser ela mesma, submissa ao ritual da casa. "Pois quem era para dar-se ao desfrute de estar assim pretendendo magoar a todos na estância com seus desatinos?" As certezas estavam ali: Tomás, seu casamento se aproximando, o enxoval não terminado, a volta do pai quando a guerra acabasse. Félicien foi só uma sombra pecaminosa, de passagem, como uma provação que Deus Nosso Senhor tivesse mandado para testá-la. "De repente, o orgulho de que não se deixara sucumbir, a virgindade preservada". O orgulho de se saber forte como o pai e o irmão esperavam que fosse, como ela mesma o queria.

Mas, ao olhar para os campos, eles se mostraram definhando, cor de cinza, sem serventia, Isabel se deu conta que o que assim via era sua própria imagem.

Um caminho que se inicia e que termina alimentado pelo olhar feminino. Ousado, submetido, alertado, ele conduz e vai retratando esse universo de verdades e de preconceitos e determina-lhe a conduta.

Mais do que um recurso de estilo criado para a construção do personagem e revelar emoções, esse olhar de Isabel expressa o seu súbito despertar para a vida e é testemunha de grilhões feitos da vontade patriarcal, das crenças, das verdades de cada um dos habitantes da casa.

E no romance há mesclas, há combinações em harmonia perfeita que, mostrando almas, paisagens, rituais é um dizer extremamente belo.

22 de fevereiro de 1994.


O HOMEM AMOROSO
Mercado Aberto 1986 - em 3ª edição

Abre-se o pano, o Maestro surge dos bastidores, coloca-se ante a platéia, curva-se aos aplausos e, voltando-se para os músicos, faz um momento de concentração e baixa a batuta.

A platéia, feliz, relaxa: daí por diante, tudo é fruição e fantasia. O público muitas vezes desconhece, porém, que uma orquestra sinfônica compõe-se de pessoas que também sofrem e têm seus conflitos, dos quais o maior talvez seja conciliar sua vocação com as circunstâncias especialíssimas em que a música sinfônica é realizada num país ainda às voltas coma a miséria e incompreensões de toda ordem. Cada concerto levado a termo é uma verdadeira façanha.

O autor pertenceu à orquestra Sinfônica de Porto Alegre no período que coincidiu com o do milagre brasileiro e do neo-ufanismo, mas também de uma extrema verticalização do poder, a qual se refletia inclusive nas relações entre a Administração da orquestra e seus músicos.

Para o autor, esta é uma obra de ficção, e como tal quer que ela seja entendida - ainda que esteja carregada de vivências, e entre estas a crise pessoal do protagonista ao atingir a emblemática idade de 40 anos.

Nota: Em 09 de junho de 2003, Luiz Antonio esteve em Paris para o lançamento de "L´Homme Amoureux", tradução francesa de O homem amoroso, cuja capa apresentamos ao lado.

TENSÃO EQUILIBRADA NA PAUTA E NA LIGUAGEM: A REBELDIA DE UM MÚSICO
Aloísio G. Branco*
O Globo.
, Rio de Janeiro.

Livro de ficção, mas insinuantemente confessional, com toques autobiográficos, O homem amoroso mostra um artista perito na construção serena do texto: cada frase, cada palavra parece estar no luar exato, insubstituível, como cada nota se mostra na pauta com precisão matemática, em obras musicais competentemente elaboradas. Aliás, a música perpassa toda esta novela. O narrador-protagonista é (como o autor) músico profissional e a história se revela, com pormenores mais ou menos requintados, o dia-a-dia e os bastidores de uma orquestra sinfônica, ressaltando-se a figura do maestro - patética, nítida, veraz. Dado à contemplação, esse músico, o violoncelista Luciano, expressa sensibilidade ampla, um tanto refratária à disciplina dos ensaios instrumentais, principalmente se ensaios coletivos. Sua rebeldia mental não se afina com certa placidez aparentemente encontradiça na classe a que pertence. Procura racionalizar seus sentimentos difusos, tanto em relação à vida quanto, de modo especial, em relação à mulher cientista e à filha, ainda muito jovem, ambas subitamente apartadas, mas logo a seguir de novo interessadas no destino do protagonista.

A ação - se se pode falar em ação - se passa numa semana, de segunda-feira a sábado, e se reporta a uma crise conjugal cheia de reticências e com desfecho que não chega a ser surpreendente.

O homem amoroso constitui tão belo achado como título que a partir dele próprio - o título - a novela pode se mostra algo frustrante. Atingida a maturidade, cabe ao homem dito amoroso revoltar-se contra essa condição ou contra essa etiqueta? O homem amoroso, ou o que se entende como tal, é sujeito passivo, suscetível de amargar injustas rejeições, joguete verbal de voluntarismos alheios?

Seja como for, não é pequeno o saldo positivo desse livrinho de 118 páginas. Mais do que as interrogações subjacentes ou a fabulação, sobressai no entanto a linguagem apresentada por Luiz Antonio de Assis Brasil. Um escritor com firme consciência, aqui não correspondente a prudência nem a falta de ousadia. Significa a contenção: uma tensão em constante equilíbrio como se estivesse atuando nas cordas retesadas de um plangente violoncelo.

Segundo Caderno, 18 de maio de 1986

* Aloísio G. Branco é crítico literário


UM MERGULHO
Sérgius Gonzaga*
, Porto Alegre

Talvez nenhuma outra obra de Assis Brasil tenha sido tão pessoal. Pela primeira vez o escritor mexe com seus fantasmas e o resultado traduz em densidade e pungência a exposição da interioridade. Novela intimista em sua dicção, mas sem jamais perder as referências do mundo objetivo, O homem amoroso acrescenta à carreira do autor um traço de modernidade temática e psicológica, que os romances anteriores - presos à reconstrução histórica - obviamente não possuíam.

Assis Brasil desce aos infernos do grande drama existencial dos tempos contemporâneos: a fugacidade amorosa que, unida à alienação de um trabalho artístico degradado pelo autoritarismo e por sua utilização burguesa, carrega o personagem para a exasperação. Porém se trata de uma exasperação contida: a linguagem neutra, lenta, quase monocórdica, intensifica o desespero aos olhos do leitor.

Luciano, o personagem-narrador, violoncelista da Orquestra Sinfônica, vaga pelo outono (ou será inverno?) de Porto Alegre. O outono chegou também a sua vida. Um casamento medíocre, a carreira medíocre, os afetos e as mais nobres inspirações abastardados na infelicidade miúda do cotidiano. Tudo isso é muito banal, mas com essa matéria prosaica construiu-se um texto a partir de agora fundamental na prosa urbana porto-alegrense. Tanto por sua escritura áspera e fria, quanto pelo registro das contradições de uma orquestra no período ditatorial e, sobremodo, por incorporar em seu eixo semântico os motivos do amor e do desamor, da solidão e da incomunicabilidade entre seres na grande cidade e, por fim, a luta para alcançar a felicidade pessoal.

Junho de 1986, p. 23

*Sérgius Gonzaga é escritor, crítico literário, editor e professor universitário.


CÃES DA PROVÍNCIA
Mercado Aberto, 1987 - em 8ª edição

Em pleno século 19, a genialidade de um dramaturgo perturba a ordem da mediocridade provinciana, com rasgos da mais delicada lucidez. Desafiando os limites entre a ficção e o documento, Luiz Antonio de Assis Brasil revive, em Cães de Província, a alma dessa personagem antológica que foi Qorpo-Santo.

Esta não é uma biografia de José Joaquim de Campos Leão, auto-denominado Qorpo-Santo (1829-1883). Como o próprio autor ressalta, trata-se do imaginário dessa personagem contraditória da literatura dramática brasileira, e que foi considerado por alguns críticos como precursor do teatro do absurdo. Vítima de um processo de interdição por loucura, foi um homem cuja superioridade intelectual não foi entendida por seus contemporâneos. Qorpo-Santo ultrapassou os limites de seu tempo, criando um universo ficcional que recém agora está sendo valorizado pelo público e pela Academia.

Ao mesmo tempo em que trata deste genial criador, Assis Brasil desvela um mundo que, sob a aparência de um burgo tranqüilo, encerrava as mais fantásticas histórias de crimes, adultérios, incestos e crueldades. existências em toda sua genuinidade?

QORPO SANTO E A PROVÍNCIA
Deonísio da Silva*
Primeira Edição
, Curitiba..

Porto Alegre, Século XIX. Um escritor genial incomoda a província gaúcha com sua genialidade, suas frases criativas, sua figura insólita e costumes destoantes no cotidiano. É dado por louco. Preso. Enfiado em um hospício. Analisado por doutores analfabetos que procuram nele as provas de sua insanidade. Laudos divergentes se contrapõem, pois um dos médicos não se arrisca a atestar que o escritor é louco. Como provar que é normal? O escritor sabe que provar que é louco é mais fácil, e que os médicos não terão dificuldade. Ele não visita os parentes, critica todo o mundo em suas peças, não tem piedade da oligarquia inepta em que reside a hipocrisia geral da sociedade rio-grandense. Tampouco se conforma aos rígidos cânones epocais. É um torto na vida.

Na Porto Alegre do século XIX um pacato e normal açougueiro convida as pessoas a visitarem os fundos de sua loja de carnes. Lá, carneia os visitantes, faz lingüiças e revende todos eles aos habitantes, em forma de carne moída e ensacada em tripas, cujo sabor é louvado. Nenhum deles é tido por louco. Nem os que comem, nem os que morrem. E muito menos o que mata. Mas Qorpo Santo é louco. Baseado na vida de Qorpo Santo, o romancista Luiz Antonio de Assis Brasil fez uma ficção de alta qualidade. Enfim, onde termina a mentira começa o sonho; e onde este acaba, começa a mentira, como diz o narrador. É um dos melhores romances deste ano, ainda que o ano não tenha acabado.

O percurso deste escritor, gaúcho de Porto Alegre, onde nasceu em 1945, revela um projeto literário sério e competente. Em meados dos anos 70, quando explodiam contistas do Oiapoque a Ijuí, Assis Brasil estreou com um romance cuja forte temática telúrica chamou a atenção pela singularidade do tema e da abordagem. Era Um quarto de légua em quadro, que trata das vicissitudes da ocupação territorial do Rio Grande do Sul pelos portugueses. Seguiu-se A prole do corvo, que deu outra versão à Guerra dos Farrapos, ocorrida no período que vai de 1835 a 1845, quando o Rio Grande do Sul estava independente do resto do Brasil (Santa Catarina também estava, mas lá ainda não surgiu um Assis Brasil para tratar do tema em ficção; a República Juliana, cuja capital era Laguna, durou pouco mais do que cem dias, mas feitos épicos presidiram sua proclamação, entre os quais está a travessia que Garibaldi fez por terra, de navio!).

O ponto alto da ficção de Luiz Antonio de Assis Brasil tinha sido, até agora, As virtudes da casa, mas Cães da Província o supera em muitos aspectos, sobretudo numa frase mais inventiva, um modo de narrar mais ousado. É saudável a busca de várias heresias narrativas, que rompem com certa ortodoxia ficcional à que ele parecera muito apegado antes, mais preocupado em preencher uma fôrma européia - certo modelo de romance - com a matéria destes trópicos. Agora já não há mais resquício daquele escritor ainda contido de A prole do corvo. Cresce um romancista dos melhores da nossa geração. PS: o romance foi apresentado como tese de doutoramento na PUC/RS.

Janeiro de 1988, p. 5

* Deonísio da Silva é escritor, crítico literário, Doutor em Letras e professor universitário.


O IONESCO DOS PAMPAS, PERIGOSAMENTE LÚCIDO
Marisa Lajolo*
Jornal da Tarde
, São Paulo

Em meados do século XIX, uma personagem incomum assombrava a pacata vida de Porto Alegre, dando pasto à boataria local. Cochichava-se que ele era louco, que ele era insano. E quase todos o temiam, julgando-o perigosíssimo. Tratava-se de José Joaquim de Campos Leão, figura insólita para a época. Tão insólita quanto a grafia do cognome que tomou para si: Qorpo Santo, onomástico exemplar para quem, entre outras excentricidades, pregava uma grafia fonética, defendia o divórcio e denunciava a hipocrisia da burguesia provinciana.

Vivendo entre 1829 e 1883, Qorpo Santo, mais do que incompreendido, foi estigmatizado pro seus contemporâneos, ficando sua obra teatral inédita ou desconhecida. Sua redescoberta e revalorização teve um marco decisivo em 1966, quando, cem anos depois de escritas, três peças suas foram encenadas em Porto Alegre: Mateus e Mateusa, Eu sou vida, não sou morte e As relações naturais. Aceleram-se, a partir daí, as baterias que revisitam Qorpo Santo, com destaque para o livro Os homens precários, com que, em 1975, Flávio Aguiar esmiúça, com amor e competência, a obra deste Ionesco dos pampas, tópico a partir de então obrigatório para os que vasculham os avessos da história da cultura brasileira.

Pois foi esta fascinante figura de Qorpo Santo que Luiz Antonio de Assis Brasil reconstituiu no romance Cães da Província, lançamento recente da Mercado Aberto.

O romance é magnífico.

Aplaina, na mestria com que é narrado, o garimpo da pesquisa que reconstrói, entrelaçando notícias de jornal e fantasias, inventando onde é preciso, fundindo Qorpo Santo na multidão de pessoas e eventos de seu tempo, numa geografia escrupulosamente retraçada e num ambiente que exala veracidade. Aliás, veracidade e verossimilhança, fruto exclusivo da competência com que o autor estrutura o resultado de sua pesquisa, é o que conta em projetos como esse.

A Porto Alegre de Qorpo Santo, que Assis Brasil reconstrói é de carne e osso. Os teatros, os armazéns, as novenas, os mexericos, o decoro, o senso público das autoridades são andaimes para contextualizar a loucura de Qorpo Santo que, imerso nesse tempo e nesse espaço tão concreto, se redimensiona. Cães da Província é um romance que não se deixa largar.

Põe em cena misteriosos desaparecimentos, levanta suspeitas sinistras quanto ao açougue da rua do Arvoredo, detém-se na ambigüidade de Lucrécia, mulher do bem posto Eusébio, e faz os leitores, meio de esguelha, acompanharem os surtos e delírios de Qorpo Santo. Tudo isso num texto coeso e rigoroso, preciso no controle do narrador que orquestra, com distanciamento solidário, o envolvimento dos leitores. Que, repito, não largam o romance e (o que é muito bom...) nem precisam saber nada de Qorpo Santo para fruírem a história.

A excelência literária do texto, em outras circunstâncias, dispensaria que se mencionasse que ele foi originalmente apresentado como tese de doutoramento à PUC do Rio Grande do Sul. Mas talvez valha a pena mencionar essa gênese, em primeiro lugar porque a aceitação de textos de criação como teses acadêmicas é um precedente auspicioso no caso de romancistas do quilate de Assis Brasil. Em segundo lugar, é preciso assinalar que a aproximação entre escritores e os centros de reflexão sobre o fazer literário é mutuamente enriquecedora. Se franqueia à Universidade os bastidores da criação literária, na convivência com pesquisadores, críticos e professores, o artista aprende que eles não mordem, nem sequer rosnam. E que, aliás, estão todos - escritores, professores, pesquisadores e críticos - no mesmo barco e que, se remarem juntos, talvez cheguem a algum porto seguro.

19 de janeiro de 1988, p. 8.

* Marisa Lajolo é escritora, crítica literária, pesquisadora e professora da UNICAMP.


VIDEIRAS DE CRISTAL (A Paixão de Jacobina)
Mercado Aberto, 1990 - em 7ª edição

Ambientado na colônia germânica de Padre Eterno, aos pés do morro do Ferrabrás e nos anos de 1872 a 1874, Videiras de cristal reconstitui um episódio fascinante da história de nosso país: liderada por uma frágil mulher, Jacobina Maurer, uma legião de colonos alemães revolta-se contra as instituições da época, enfrentando o próprio exército imperial. Personagem de lenda e verdade, Jacobina tinha sua imagem confundida com o próprio Cristo, fazendo previsões do fim do mundo e confortando os deserdados com promessas do paraíso celeste.

Os muckers (santarrões, hipócritas, em alemão) viveram lances de epopéia e paixão; seus perseguidores desde logo descobriram que teriam à frente um inimigo que não apenas conhecia muito bem o terreno, mas era imbuído de um ideal messiânico que ultrapaasava a compreensão dos estreitos limites de seu tempo. Até hoje o episódio dos muckers desperta interesse e constrangimento, pois os descendentes de seus protagonistas ainda vivem na região conflagrada, onde o assunto é tratado com a máxima reserva. Videiras de cristal foi, em 2002, objeto de adaptação cinematográfica por parte do diretor Fábio Barreto, com o título A paixão de Jacobina.

EM SINTONIA COM A HISTÓRIA
Paulo Bentancur*
Jornal do Brasil
, Rio de Janeiro

A História pede romances, parece nos dizer, o tempo todo, Luiz Antonio de Assis Brasil. No posfácio a Videiras de cristal, ele afirma não ter pretendido fazer um romance histórico e menos ainda, uma história romanceada. Mas dos oito livros que publicou até agora, só um escapa a esse selo pelo jeito incômodo do autor. Videiras de cristal, tão em sintonia com a História ao ponto de confundir-se com a reportagem, impõe-se sobretudo como peça de ficção, em favor da quel o escritor se mostra disposto a sacrificar o possível limite ou a direção dos fatos.

O pesadelo da História, de onde Joyce nos adverte ser útil tentar escapar e para onde Rubem Fonseca em Agosto, se encaminha, depois de uma obra consagrada que no entanto até então simulara evitá-lo, é o tenebroso lugar em que Assis Brasil se movimenta. Ou melhor, se agita. Neste espaço aparentemente cindido pelo tempo junta-se o passado a que o narrador se dirige e o presente de onde esse mesmo narrador inicia e conclui seu relato. Não há medo nessa reconstituição, e os séculos se movimentam na direção certa: na do homem de hoje que, vivo, precisa servir-se deles.

Gaúcho, era natural que o prolífico romancista (tanto Videiras de cristal quanto o anterior, As virtudes da casa, atestam a fecundidade dramática) se voltasse para uma espécie de revisão histórica do Rio Grande do Sul (embora em uma deles, Manhã transfigurada, a intenção se resuma a um sensualismo religioso barrocos). Ele o fez em sete livros. Trabalhando personalidades e movimentos que marcaram, ou simplesmente reconstruindo ambientes e situações muitas vezes criadas pelo ficcionista, que, sem o registro da crônica oficial, definem a trajetória e o caráter de uma terra e de um povo.

Nessas condições, é previsível que a Literatura perca para a História e vice-versa. A legitimidade documental se impondo ainda quando a narração já perde a força ou a ficção em doses mal calculadas traindo a fonte de que se nutre. Claro que o desejo do autor, expresso, é a confluência de ambas as matrizes: aventura verbal e registro factual. E este terceiro resultado, detectável em raros trabalhos, como o de Vargas Llosa de A guerra do fim do mundo, é a marca predominante em Videiras de cristal.

O livro possui um subtítulo essencial para leitores familiarizados com o tema: O romance dos muckers. Para os não-informados, mucker, em alemão, significa hipócrita, fingido, ou melhor, santarrão. Uma legião de alemães reuniu-se em torno de uma mulher, Jacobina Maurer, elegendo-a profetisa, espécie de Cristo de saias, fanatizados pela auto-proclamação da frágil e mediúnica personagem. O fato deu-se na colônia germânica do Padre Eterno, sob o morro do Ferrabrás, perto do município de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. O período que o romancista cobre é de apenas três anos, 1872 a 1894, tempo da ascensão e queda do Reich religioso da família Maurer, movimento à margem das tradicionais fés católica e luterana.

"As almas dos fiéis se assemelham a videiras de cristal: fecundas nos verões luminosos, mas frágeis e quebradiças quando cobertas pela geada do inverno". É a forma que o autor encontra para sintetizar a dupla face dos crentes, daí o título do romance, cuja síntese, além da alusão histórica ao episódio dos muckers, seria a condição e os conflitos da religiosidade. Nesse contexto encontramos uma Igreja dilacerada que busca apoio de um Império igualmente dilacerado (com a sombra da República crescendo). D. Pedro II entra em cena, mas Assis Brasil não cai na caricatura. Sua opção é bem outra: Jacobina, por exemplo, surge mais sugerida do que pintada com as fortes tintas do adultério e da devassidão com que a História ficou seu retrato.

É exatamente na contramão desse fixar que o romancista transita. Sua liberdade com protagonistas e acontecimentos não fere necessariamente a cena e os atores. Primeiro, porque é a sua versão, só que precariamente elaborada. Retocando-a e retomando-a, dá-nos o prazer estético e organiza melhor os fatos. A epopéia real ocorrida aos pés do fantasmagórico ferrabrás ressuscita inteira no livro de Assis Brasil. No princípio era só um curandeiro, o marido de Jacobina. Aos poucos a mulher, que tinha estranhos ataques, não diagnosticados pelos médicos, usurpou-lhe o papel de milagreiro. Os clientes do agora superado Wunderdocktor viraram fiéis, multiplicaram-se e cresceram em fervor, até mesmo tirando os filhos da escola dominical. Jacobina parecia não ter corpo para seus seguidores, era somente espírito, até o instante em que trocou o marido por um chefe de família que largou tudo para servi-la. Diante de evidências, muitos se decepcionaram, incapazes de viver com um santo que fosse humano. Outros, cegos, só enxergavam os discursos de sua enviada, não suas ações.

De qualquer forma, quem reage primeiro são os padres, naturalmente, preocupados com a perda alarmante de fiéis. Progressivamente, a colônia toda revolta-se, escandalizada em seus costumes com a maneira nada ortodoxa dos cultos promovidos por Jacobina. Surgem rixas, a polícia começa a ser envolvida a contragosto. Aparecem os primeiros rompimentos familiares.

Dissidência religiosa não é caso para ficar restrito à esfera policial. A questão, fatalmente, atravessa a política. Aumenta a violência. Em um ano o quadro é de uma verdadeira insurreição, o Presidente da província convoca um herói da Guerra do Paraguai para atacar os fiéis, residentes na casa da profetisa e num tempo construído ao lado.

Muita selvageria, candentes questões teológicas, disputa política acirrada, é de perguntar por que o sexo, tão presente na vida humana, resulte como grande ausente em um romance que inclusive chega a provocá-lo. Em Videiras de cristal nota-se uma certa iniciativa por parte das mulheres na questão afetiva. Aos homens, como Jacó-Mula, um dos personagens principais, cabe uma função lateral, o que historicamente não está certo. A costumeira agressividade masculina comparece, é verdade, através de um estupro, o que contribui ainda mais para essa importante ausência; homens tão apaixonados em estratégia de combate, em suas crenças, em seu trabalho, ao não se pronunciarem sobre o amor revelam uma falta - deles ou do autor? Claro, Assis Brasil pode simplesmente ter escolhido um caminho mais ameno, ou mais específico. As situações políticas, religiosas e culturais são tão marcadas que talvez o sexo tenha parecido uma dose excessiva, capaz de desandar o romance pelo gigantismo. Mas faz falta.

Os ímpios, como os fiéis de Jacobina chamavam aos que não haviam aderido à seita, tanto exigem das autoridades, que uma verdadeira guerra, até então impensada, se precipita. Enquanto no templo há pouco erguido uma avó distrai crianças em histórias, homens e mulheres combatem o cerco de um exército múltiplo: colonos vingadores e militares. Nesse momento o romancista sustenta-se basicamente das descrições. E daí? Poucas vezes em nossa literatura se viu batalha tão minuciosa e habilmente descrita. A guerra não termina aí. Haverá uma segunda batalha, menos atroz que esta a primeira, onde o realismo não poupa o leitor do que os homens são - foram - capazes de fazer. O romance, nesses últimos momentos, tem o ritmo de um livro policial, onde todo um universo que o autor armou durante quinhentas páginas vai pouco a pouco se desinflando, perdendo peças, no inexorável caminho da extinção.

Será? Hoje não se fala dos muckers senão como referência a um terrível episódio do passado. Mas, conforme o romancista, após as duas grandes batalhas, novos fatos foram surgindo, com o passar do tempo mais espaçados e manos significativos.

Data: 12 de janeiro de 1991
Idéias, p. 8-9

* Paulo Bentancur é escritor e jornalista.


JACOBINA E O IMPERADOR
Cecília Zokner
Literatura do Continente,
O Estado do Paraná
, Paraná

De pequena, era doentia nos seus desmaios que, segundo explicação do médico, ficaram sem tratamento, pois "os sintomas eram confusos, e não se sabia bem onde terminava a doença e começava a mentira e vice-versa". Menina que se deixava impressionar e não aprendia a escrever, tampouco a ler. No livro de Luiz Antonio de Assis Brasil, Videiras de cristal (Porto Alegre, Mercado Aberto, 1990), ela apenas se esboça em breves seqüências a dizer de um gesto ou de suas palavras que somente revelam o que um observador pode constatar: Jacobina, figura principal de um episódio da História do Rio Grande do Sul, ocorrido no fim do século XIX, que teve por palco um núcleo de colonização alemã a nordeste de São Leopoldo e que, ainda hoje, é quase desconhecido. Tendo aprendido com um meio-pastor vidente a ler na Bíblia e a interpretá-la, começou a pregação religiosa entre os doentes que vinham à procura de seu marido, um homem para quem as plantas não possuíam segredo e às quais ele dava razão para existir: "Uma simples erva que medrava inútil sob a sombra de uma pedra ou no oco apodrecido de uma árvore, se tornava [pela sua arte], a última esperança de um moribundo". Uma vez perguntou à mulher por que, nem sempre o uso das plantas surtiam o efeito esperado. Jacobina, cada vez mais enfronhada nas páginas da Bíblia, respondeu: "Farão efeito se você quiser me ouvir. O Espírito Natural pode te orientar. Ele fala pela minha boca". A partir de então, João Jorge Maurer prescrevia receitas que não mais eram dele, mas, como acreditava, no Espírito Natural que se manifestava por intermédio de Jacobina. Mesclando a cura de doenças, a caridade e promessas messiânicas, ela congregou a seu redor uma população carente e sofredora que, em suas palavras, encontrava lenitivo para seus males e esperança de uma vida melhor. Dizendo-se transmissora das palavras de Deus, pregou primeiro a paz e o amor. Mas, suas verdades se opunham àquelas pregadas por homens de "coração duro" cujas "palavras vêm cobertas com a lama das mentiras". E logo apareceram os que a negavam e também os que se sentiam no dever de impedir que falasse. Intolerância que irá se expressar na violência exercida sobre os seus seguidores e que fará com que Jacobina se transforme: "Até agora eles só conheciam o coração de uma pomba, vão conhecer a malícia de uma serpente." E intransigências e fanatismos, levando a confrontos, fazem que dela e dos muckers, como eram chamados seus seguidores, emanem as destruições e as mortes. Iguais às destruições e às mortes de que eram vítimas. Sentindo-se acuada, à mercê dos "ímpios" que a negavam e a queriam destruir e das autoridades, pretendendo manter uma ordem ilusória, ela, ainda que duvidando da eficácia desse pedido - "o imperador vive em seu palácio e nunca nos ouvirá" -, permitiu enviar à capital do Reino emissários para solicitar ajuda. Redigem o pedido em alemão - a única língua que ela e alguns deles falavam - para ser traduzida e entregue em português, dizendo das agruras sofridas. Inútil precaução. O Imperador, ouvindo seu ministro, diz aos três colonos, depois de lhes ter apertado a mão, que "o papel tomará seu rumo". Diante da tentativa, por parte de um deles, de insistir, o ministro se interpõe, argumentando que logo teriam notícias, que "Sua Majestade iria tomar interesse pelo caso". Inconformados, se retiraram. O Imperador, vendo-os partir, observa que usavam "paletós malcortados, sapatos de tacões comidos, bainhas esfiapadas". Já no landau que o conduzia para seu régio almoço, dizia para Gaston d'Orléans, seu augusto genro: "Os alemães são pitorescos, aqui no Brasil. Você sabia Gaston [...] que o meu maior sonho seria trazer Wagner para reger no nosso teatro? É uma idéia que não me sai da cabeça. Dizem que ele está precisando de dinheiro". Desencorajado pelo genro, ainda insistiu: "Mas você já pensou Gaston, o Lohengrin aqui pelo próprio autor? O Monarca submergia em recordações. Começou a assobiar baixinho uma ária do amante desventurado, enquanto fechava a cortina do landau, deixando lá fora a poeira, o mormaço, o Brasil".

No Sul, plantações eram devastadas, propriedades destruídas e homens perdiam a vida nas ações comandadas pelas boas consciências e pelo ódio.

Data: 16 de novembro de 2002
Literatura do Continente, O Estado do Paraná

* Cecília Zokner é professora universitária e ensaísta.


PERVERSAS FAMÍLIAS
Mercado Aberto, 1992 - em 5ª edição

Centrando sua atenção sobre um castelo medieval construído pelo Doutor Olímpio, misto de político e patriarca familiar em pleno pampa gaúcho, Assis Brasil apresenta-nos um domínio de lenda e realidade, explorando as conflituadas relações familiares e as cavilações políticas que se desenrolaram ao abrigo das grossas paredes de pedra. Neste romance são representados cenários de luxo e requinte aristocráticos, os quais fazem reviver uma condessa austríaca, uma filha daltônica, os saraus musicais da nobreza de Pelotas, a propaganda republicana, o Rio de Janeiro da belle époque, a Exposição Universal de Paris em 1889 - tudo permeado de intrigas pelo poder.

UM CASTELO NO PAMPA, OU QUEM SABE, NO INFERNO
Tabajara Ruas*
Zero Hora
, Porto Alegre

Advirto que não será fácil entrar nesse castelo, primeiro porque fala sobre nós, meridionais, e segundo porque o escritor Luiz Antonio de Assis Brasil persevera em transportar seus leitores para sítios incômodos. Ninguém diria, vendo-o tão afável. Ninguém diria vendo-o tão professor cercado por discípulos, tão intelectual cercado de suscetibilidades, tão ao alcance da mão. Mas não está ao alcance da mão. Não quando liga o computador e acaricia as teclas, olhar vago. Quando se transforma. Quando vira esse escritor estranho que olha seu redor com o propósito de entender, que é o jeito mais agudo de tudo ver, o jeito mais dolorido, o olhar de quem sabe "tudo o que flameja sobre a noite/foi do coração alimentado", ou que sabe o necessário para entender que-quer-que-seja é entender a si mesmo, e daí sabermos que somos produtos do nosso cenário, e nosso cenário é nossa cultura.

Gigantesco painel das origens da burguesia gaúcha e de seus hábitos sociais e culturais, tratado político e antropológico concebido com desafio estético, o primeiro volume da trilogia Um castelo no pampa, com o título explícito de Perversas famílias, é uma obra que não merece o desdém da interpretação nem a busca de paralelos ou explicações. Elas são tão óbvias e cansativas. Perversas famílias é a invenção de um demiurgo, a alucinação de um mágico, a dor de um artista interrogando seus fantasmas. Esse artista muniu-se de erudição rebuscada e disciplinada de monge para exercitar vários jogos simultâneos, alguns graciosos, alguns desafiadores. O gracioso é ele enganar a tantos fingindo um estilo e fazendo outro, sugerindo o passado e criando o novo, nos dando o gosto e o sabor de uma época antiga e fazendo uma literatura para o futuro. O desafiador é quando, disfarçado em ironia sussurrada, ele abre as pesadas portas do castelo e nos deixa diante das carnes pálidas de nossas vergonhas. Rasgando, às vezes com faca cega, as entranhas de nossas origens para investigar as causas dessa nossa tão baixa auto-estima, dessa ainda hoje rasteira submissão cultural a mitos distantes.

Diz Astor, o bêbado, para Páris, a respeito do ilustrado senhor do castelo: "Tudo aqui é estrangeiro, menino. Desde o lustre que está sobre sua cabeça até o tapete aos seus pés. O meu finado irmão era um portento comprador, e odiava o Brasil. Ministro, Embaixador, Presidente do Estado, mas um renegado da pátria. Por debaixo de sua casemira inglesa, suas gravatas francesas de grisperle, tinha também um corpo de estrangeiro. Uma vez ele me disse: `Sabe, Astor, do país possuo apenas a merda dos intestinos´". Quase cem anos depois a frase vale: mudou apenas a direção e o idioma dos nossos deslumbramentos.

Perversas famílias é um livro para ser discutido, aberta e francamente e, para isso foi escrito. É um livro que busca desvendar nossa identidade, e investe com dura ironia. É um livro que não se paralisa num esquema, como superficialmente pode parecer, mas organiza-se como o vôo de uma borboleta presa nas paredes de um quarto vazio. É um livro para ser contestado (se houver coragem e inteligência para tanto) desde o título até a descrença nas entrelinhas. É um livro para ser visto como uma homenagem à literatura, monumento feito de retalhos da nossa memória cultural, nossa força e nossa fraqueza.

Romance da perversidade, e narrado com um maldoso sorriso imperceptível, esparrama-se num universo viscoso de vícios, anomalias, segredos, paixões, impulsos - painel completo, assustador e transparente de nós mesmos, construído com doce persuasão. E mesmo assim terá o rechaço dos atingidos pela síndrome do ilustrado senhor do castelo e revelada por Astor. O tempo passa e continuamos submissos. Mas o livro de Luiz Antonio de Assis Brasil não é uma casa de bonecas. Não é uma fazenda em Minesotta. É um castelo no pampa. E nele somos introduzidos, não para ouvir baladas country de algum caipira letrado, mas para descobrir, como Páris, o mais assustador dos segredos: quem somos, de onde viemos.

Esse universo em meio às dores do crescimento foi concebido pelo autor como o mais inventivo de seus romances. Cada página é um susto na imaginação. As palavras sabem a coisa nova. Perversas famílias deverá suscitar as especulações mais diversas, sobre a origem dos personagens ou a propriedade dos pontos de vista, mas o prazer será usufruído por quem se deixar levar sem resistência pela mão do romancista. Luiz Antonio de Assis Brasil está soberano, senhor de seu castelo de palavras. Os pequenos episódios, as viradas da narrativa, os minúsculos enquadramentos, as vôos líricos, as citações, a dramaticidade crescente e as sempre inesperadas soluções mostram um artista dominando sua arte e mergulhando fundo na busca da originalidade. Tudo o autor consegue. Todas as armadilhas são desmanchadas. O romance flui como um rio caudaloso observado pelo autor sentado á margem, com seu cachimbo e o sorriso enigmático.

Fechamos a última página e consideramos longamente o privilégio - e a consolação - de poder esperar a continuação dessas terríveis revelações, o privilégio de convivermos com a plenitude criadora de um artista superior. Emergindo desses momentos amargos da nacionalidade como um facho de luz, o talento de Luiz Antonio de Assis Brasil é uma iluminação na nossa consciência e no nosso orgulho. Esse pensamento feliz nos leva a recordar a monumental entrega anterior de Luiz Antonio de Assis Brasil, o épico Videiras de cristal, publicado há exatamente dois anos, e misteriosamente ignorado pela crítica.

Com exceção óbvia do Rio Grande e de uma resenha publicada no Jornal do Brasil, mas feita aqui, nenhum dos pomposos cadernos de cultura dos jornalões e revistas do Centro do País deu uma linha sobre o livro. Inveja? Rancor? Provincianismo? Ou apenas a banal incompetência? Não importa. Esperamos que Perversas famílias, primeiro volume da trilogia anunciada, receba a acolhida a que tem direito, não pelo autor, cuja glória é o poder da criação, mas pela literatura brasileira e seus leitores.

Data: 19 de dezembro de 1992

Segundo Caderno, p. 5

*Tabajara Ruas é romancista, roteirista e cineasta.


MESTRE DO ROMANCE
Wilson Martins*
Jornal do Brasil
, Rio de Janeiro

Luiz Antonio de Assis Brasil é um mestre do romance histórico - mas, para s ê-lo, era preciso que fosse, antes de mais nada, um grande romancista. Ele tornou mais difícil a arte do romance entre nós - e a arte da leitura, porque, para saber lê-lo, é preciso dispor da correspondente complexidade intelectual que, em primeiro lugar, lhe permitiu escrevê-los, desde Um quarto de légua em quadro (1976), a Videiras de cristal (3ª ed. 1990), passando por duas tentativas de novelas psicológica (O homem amoroso e Manhã transfigurada - em que foi apenas um bom ficcionista - e também por essas indiscutíveis obras-primas que se chamam Cães da Província, As virtudes da casa e Bacia das almas, tudo culminando no grande painel de Um castelo no pampa (Perversas famílias, Pedra da memória e Os senhores do século. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1992/1994.

É escritor para quem a literatura existe, exigindo leitores para os quais a literatura exista, quero dizer, o vasto mundo ao mesmo tempo nebuloso e nítido criado pela tradição que se constituiu através das obras de literatura que testemunham inquietação espiritual em que a realidade só adquire sentido quando transposta, por paradoxo, para os domínios da imaginação. No caso do romance, o segredo da grande literatura está em encarar a realidade como ficção, e a ficção como realidade - acrescendo-se, no romance histórico, a necessidade de atribuir ficcionalidade às pessoas da vida real, e realidade (mais do que "realismo") aos personagens fictícios. É o que Assis Brasil sabe fazer com a mão de mestre, embora muitas vezes as mãos dos mestres apareçam na parede de seu gabinete de trabalho como sinais ominosos num festim de Baltasar literário.

Ele não resiste à "citação" literal, como a qualificar o protagonista como o "príncipe da grã-ventura", ou dar a outro o nome do Gonçalo Mendes Ramires: "não estou mentindo, este era mesmo o nome dele" - o que deveria sugerir um nome diferente. Às vezes, ele acrescenta alguma coisa: se Machado de Assis, no esplendor de sua ambigüidades narrativas escreveu "Missa do Galo", Assis Brasil dele se apropria na cena de turvas conotações entre Páris e Beatriz - mas, sendo impermeável à ambigüidade, resolve "completá-lo" muitos capítulos e um volume depois com a efetiva união amorosa entre os dois figurantes. Há numerosas alusões literárias que o leitor, digamos, comum, certamente perderá. Assim, quando Antonello Corsi chega faminto ao Castelo, fugindo da polícia, não come um tigre - o que seria apenas um acalcanhado lugar-comum - mas como um "triste tigre".

São pequenas notações exemplificativas de técnicas narrativas num romancista que resolveu com extraordinária habilidade problemas muito mais temerosos, entre outros a complexa estrutura cronológica. É nisso, antes de mais nada, qu esse reconhece o grande romancista - e em que poderá reconhecer-se o leitor privilegiado que estiver à sua altura. Se, nos livros anteriores, ele optou pela cronologia linear e sucessiva - que é a mais espontânea e também a mais banal no romance histórico -, em Um castelo no pampa impunha-se a cronologia psicológica (se essa for a palavra exata) para transmitir a idéia do turbilhão e desordem que é a vida. O Castelo, em sua imobilidade extratemporal, forma contraste, seja com os coronéis das estâncias imemoriais, primitivos da vida política e social do Rio Grande do Sul nos anos tumultuosos em que conviveram, com J.F. de Assis Brasil, Borges de Medeiros ou Getúlio Vargas, seja com a idéia de uma civilização desconhecida naquelas paragens rústicas (metaforizada nas louças finas, nas toalhas e cristais, nos vinhos aristocráticos, nas maneiras de mesa e nos tapetes, para nada dizer dos 25 mil livros de uma biblioteca que sugeria universos diferentes, diferentes idades mentais, inclusive na nota irônica dos textos fesceninos encadernados como severas obras de literatura.

Tudo bem considerado, uma biblioteca no pampa era coisa ainda mais estranha do que um castelo no pampa... Olímpio foi, ao mesmo tempo, um personagem paradigmático das coxilhas gaúchas e um corpo estranho no seu organismo político e social. Os filhos, na excentricidade de casa um (entre eles o anti-gaúcho por excelência que era o homossexual) marcaram fisicamente a passagem de um estágio de civilização para outro, enquanto o próprio Olímpio não conseguiu transpor o limiar que as separava. Faltava-lhe a "autenticidade" impenetrável a anacrônica de um Borges de Medeiros, igualmente sensível, por exemplo, em Zeca Neto e Honório Lemes na reunião do Castelo, soberba "cena de romance" em que a arte do romancista se manifesta de forma incomparável: "Logo após, os dois comandantes entram na Biblioteca: Honório Lemes veste-se à gaúcha, de bombachas, botas de fole e um grande lenço vermelho ao pescoço (...). Zeca Neto estaria de terno completo, não fossem o mesmo lenço vermelho e as botas de couro marrom (...)" Foi isso em 1923. O romance termina reconduzindo-nos à cena inicial, com a morte de Olímpio em 1938. É o momento em Câncio Barbosa, sem saber o que estava ocorrendo no castelo, entrega aos impressores a biografia em que vinha trabalhando ao longo da vida. Encerrava-se, com isso, o seu próprio destino: "Não, não escreverá mais nada até o final de sua vida. Seria uma deselegância, uma verdadeira traição à memória de Olímpio. E será seu gesto leal, com o qual ele, Câncio, buscará a eternidade."

Data: 8 de abril de 1995

Local: página 4 (Suplemento Idéias)

* Wilson Martins, é Doutor em Letras, ex-professor universitário nos Estados Unidos, ensaísta e crítico literário.


DESTINO DE MULHER
Cecília Zokner
Literatura do Continente,
O Estado do Paraná,
Paraná.

Perversas famílias, lançado em 1992, é o primeiro romance de uma anunciada trilogia - Um castelo no pampa - cujo autor, o gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil, entre o ano de 1976 e o ano passado, já publicou: A prole do corvo, Bacia das almas, Manhã transfigurada, As virtudes da casa, O homem amoroso, Cães da Província e Videiras de cristal.

Apresentado pela Editora Mercado Aberto de Porto Alegre como um romance que "resgata um outro Rio Grande e um outro Brasil", suas quatrocentas páginas tem por eixo narrativo uma abastada família do extremo sul do país. Revelando seus dramas, situando-a em exatos momentos econômicos e políticos do Rio Grande do Sul, Luiz Antonio de Assis Brasil, entrelaçando ficção e realidade, alcança a síntese sedutora que permite descobrir aspectos de um abrangente itinerário nacional através de uma sugestiva fabulação. Conduzindo uma narrativa de múltiplas vozes - como já o fizeram tantos autores do Continente - que se situam no tempo e no espaço em níveis distintos, o romancista instaura nela uma expressiva vivacidade que, no entanto, sabiamente se ameniza quando se detém em Plácida. Como Camila de Manhã transfigurada, ou como Micaela de As virtudes da casa, Plácida é a remarcável criação de um inusual universo feminino.

Em idas eras, numa cidade provinciana, mulher rica e de frágil, saúde, ela aceita esse mundo ao qual pertence, o suficiente para se casar com aquele que a pretende, para ignorar o sítio onde passa a morar, "o estabelecimento charqueador", maculado por ossadas e odores fétidos, para ceder à vontade do marido e aceitar viver numa longínqua estância.

E, refugiada na música, na leitura dos românticos franceses, nos bordados, nas lembranças da adolescência, nos seus deveres feminis, deixa-se viver. Rodeada de luxo e de atenções, ela vive, como se a vida mal a tocasse e sem entender que a moléstia que a persegue nada mais é do que a linguagem que outrora fora abafada na sua sincera espontaneidade pelas pesadas normas sociais. As mesmas que mais tarde a devem prender, intocada, nos seus trajes de viuvez e que, então, ela irá infringir para obedecer a seu corpo que as carências fazem desfalecer em crises de dispnéia. Infração, cujo ônus será em demasia: não se vê a salvo das sufocações; não é invadida pela felicidade; o que recebe das noites amorosas não anulam seus anseios. As teias em que se enredou, em que foi enredada, foram implacáveis. Num caixão de ouro Plácida desce à terra, porque, transgressora, na terra não mais havia lugar para ela. Na galeria feminina do romancista gaúcho, também é imagem poderosa. Mas infeliz e vencida.

Cecilia Zokner. Literatura do Continente. O Estado do Paraná. 17Jan1993


PEQUENAS - GRANDES VIDAS
Cecília Zokner
Literatura do Continente,
O Estado do Paraná,
Paraná.

"Morreu trinta anos depois, sem filhos e sem homem (...)". Zulmira Pacheco, a cozinheira. No romance Pedra da memória, um capítulo lhe é dedicado.

Viera para um cabaré-restaurante do porto de Rio Grande e lá exercia a mais antiga das profissões. Por não aceitar excentricidades de um comandante holandês foi, de comum acordo com o patrão, para a cozinha fritar peixe. O começo de um aperfeiçoamento que a levou, primeiro para a cozinha do melhor hotel da cidade e daí para o Castelo da Condessa. O Castelo que dá título à trilogia de Luiz Antonio de Assis Brasil, Um castelo no pampa, da qual a Mercado Aberto de Porto Alegre já publicou, em 1992, Perversas famílias e, neste ano, Pedra da memória, título originado em Vitorino Nemésio e Carlos Drummond de Andrade, cujos versos são citados em epígrafe.

Na primeira página é narrada a vinda do Doutor Olímpio a um Rio de Janeiro recém republicano. Nas demais, a sua trajetória política no Rio Grande do Sul, dividido entre republicanos e federalistas. Interrompem, muitas vezes, o narrador, as memórias de Proteu, a voz de Astor que se dirige a dois interlocutores para contar-lhes suas múltiplas aventuras e, também, a de Páris no registro de momentos de sua vida.

Entremeadas a essas narrativas, as que tratam do que o Editor chama de "pequenas-grandes vidas dos serviçais do Castelo": a da copeira, a do jardineiro, a da governanta, a da cozinheira.

Pequenas vidas somente justificadas por viverem a serviço das outras, "as grandes", assim tidas porque amparadas em imensas fortunas latifundiárias. Daí o constar nesses esboços de biografia, essencialmente, o aprendizado útil que, partindo de circunstâncias eventuais, vai se concretizando.

Atingem apreciáveis qualidades. A copeira até a dizer "Mesdames et messieurs, le diner est servi"; o jardineiro a adaptar tulipas ao clima do país; a cozinheira aprendendo por si mesma "a fazer massa folhada, essa coisa temerária e improvável, apenas acessível a quem atinge os píncaros da ciência culinária". Aptos, portanto, a repetirem os rituais europeus, introduzidos pela Condessa austríaca nesse pedaço do país onde veio parar.

No ritmo do romance, são capítulos que se constituem em pausas entre esses episódios que, sem obedecer ordens cronológicas, os narradores vão acrescentando cada um a seu modo e que, embora na aparência independentes uns dos outros, refazem, no mundo ficcional, uma interpretação da História do Rio Grande do Sul.

Pedra da memória é, assim, um interrogar-se sobre o passado rio-grandense, um questionar-se sobre a elite que o conduziu, um permitir-se notar essas vidas menores de imprescindível presença; também, uma procura estrutural na multifacetada voz que, em meandros, conduz a narrativa.

Luiz Antonio de Assis Brasil inscreve este seu romance num Rio Grande do Sul que ainda se apresenta tão instigador como já o fora há décadas passadas para um Erico Verissimo de O tempo e o vento, ou para um Cyro Martins de Porteira fechada, reconhecidos antecessores, se assim considerada for, a homenagem que, em meio à narrativa, lhes é prestada.

E, tanto na sua obra de ficcionista como na Literatura do Rio Grande do Sul Pedra da memória é o continuar de uma trajetória.

Cecilia Zokner. Literatura do Continente. O Estado do Paraná.16jan1994


O DOUTOR E O CORONEL
Cecília Zokner
Literatura do Continente,
O Estado do Paraná,
Paraná.

Talvez ou, quem sabe, certamente, outras palavras e intenções possam ser lidas nas últimas linhas de Pedra da memória: "...na cozinha, a governanta dá ordens para a próxima refeição: além das gaúchas costelas de ovelha, ela manda incluir, por determinação do Doutor, vários pratos da culinária do Brasil. De agora em diante farão parte de todas as mesas, banquetes, jantares do Castelo no Pampa".

Republicano, ao voltar da Europa para um Brasil que se tornara republica às pressas, se vê marginalizado pelo Poder: "O amigo deve voltar para o Rio Grande. Lá é o seu chão.

A Republica precisará muito de seu formidável talento...", ordena um dos recentes ministros. E, volta o Doutor Olímpio para recusar o governo do município que os novos administradores lhe oferecem sabendo, porém que seu destino é outro, maior, um destino nacional. No romance da trilogia Um castelo no pampa de Luiz Antonio de Assis Brasil (Mercado Aberto de Porto Alegre), esse destino não se concretiza.

Tampouco no Rio Grande ele encontra o seu lugar, opondo-se à política dos dirigentes e justifica-se, argumentando que ajuda o país ao introduzir práticas modernas de criação de gado nas suas terras. E, é em nome do progresso que irá deitar abaixo a velha casa da fazenda para construir o castelo, um estranho enclave que procura a civilização para abrigar uma verdadeira condessa austríaca. Charlotte von Spiegel-Herb chega ao Porto de Rio Grande e após uma viagem de trem, finalmente à fazenda onde a esperam, além das homenagens com as cores da Áustria, uma fileira de empregadas com impecáveis uniformes brancos e ramos de rosas.

Mas a sua convicta certeza, ao se sentar à mesa para jantar de que "a arte da civilização prova-se no campo", choca-se com a insolência da cozinheira que, explorando sua ignorância em coisas da terra, serve-lhe durante três dias, espinhaço duro de ovelha com pirão.

E foi, então, substituída por Zulmira Pacheco que se iniciara nas lides da cozinha num obscuro cabaré-restaurante de Rio Grande e foi se aperfeiçoando até chegar à cozinheira do melhor hotel da cidade. Hospedava estancieiros e políticos, exportadores de "charque, sebo e crina" e comandantes de navios estrangeiros. O salão de refeições tinha espelho no teto e lustres de cristal. E Zulmira, na cozinha toda branca, passou a reinar no preparo dos peixes e frutos do mar, aprendendo novas receitas ora com os fregueses, ora inventando receitas próprias, aprendendo em livros ingleses e franceses que alguém lia para ela e até, pagando a cozinheira mais velha para aprender a fazer massas.

No Castelo, onde chegou numa tarde de calor, se enterneceu ao ver a cozinha de azulejos portugueses e durante trinta anos nela pontificou "tão sábia que a lenda da Condessa por vezes confundia-se com a lenda de sua mesa".

Os ensopados de ovelha que eram servidos ao Doutor haviam ficado para trás. Na mesa do Castelo passam a se mostrar guardanapos de linho, os pratos de porcelana, os cálices, os finger bowls. E o Doutor Olimpio e sua mulher jantavam, vestidos a rigor, na grande mesa. Quando o coronel Nicácio Fagundes, com seus homens e seu estado maior solicita pouso é recebido por um Doutor Olímpio de fraque, cartola e luvas que não se amedronta com os quase dois metros de altura do outro vestido com poncho de lã e que reluta em se acomodar na biblioteca onde os tapetes e as porcelanas pertencem a outro universo. E quando o faz, suas botas embarradas "esmagam os delicados motivos persas" e suas mãos se pousam no croché branquíssimo que protege os braços das poltronas.

Na mesa de jantar, o Coronel recomenda a seus homens "cuidado com a louça" e elogia "Muito bonito isso tudo". Mas, quando chega a carne, eles dispensam os talheres e com as mãos a levam aos dentes. A condessa os imita e com a ponta dos dedos leva um fiapo de carne à boca, vencida pelos costumes da terra. "São selvagens mas pitorescos" lhe dissera o marido ao convidá-la para os conhecer. Foi o melhor que soube dizer sobre o Coronel que, pouco antes, recusando um vinho do Porto que lhe era oferecido pelo anfitrião, explicava: "Não posso beber quando meus homens estão lá fora passando frio."

O Doutor talvez não tenha compreendido a frase embora ao passear a cavalo, pelas suas propriedades, com a mulher, sempre se vestisse como os gaúchos. Embora tomasse mate e reafirmasse sempre o seu amor pelo Rio Grande.

Mas, com certeza, um Rio Grande feito a sua medida e para lhe pertencer.

Cecilia Zokner. Literatura do Continente. O Estado do Paraná.4 set 1994


MENINA NINI
Cecília Zokner
Literatura do Continente,
O Estado do Paraná,
Paraná.

Nos seis capítulos que constroem o que Luiz Antonio de Assis Brasil chama "o romance", entremeados pelo monólogo que Páris continua sua história, iniciada em Perversas famílias (1992) e Pedra da memória (1994) os dois primeiros volumes da trilogia Um castelo no pampa, o Doutor Olímpio caminha para o de